Zeno e Seu Mundo de Parafusos
1 A Vila de Papópolus
Zeno é assim: magrinho, olhos castanho escuro, cabelos mais negros que o fundo do mar. Tem a altura média dos garotos da sua idade — 8 anos — e a pele branca, quase transparente.
Passaria despercebido no meio de uma multidão, se não fosse por um detalhe. Zeno não tem coração. Não porque ele seja mau, mas porque Zeno é um garoto Robô.
A vila em que Zeno mora chama Papópolus e é uma homenagem a seu fundador que veio da Birmânia para se aventurar nessas terras. A vila é pequena. Tem uma escola, que todas as crianças freqüentam. Um coreto, onde são realizadas todas as festas da cidade. Uma igreja, que é o centro da cidade, e uma prefeitura.
O prefeito de Papópolus, Doutor Habúm é também o médico que cuida de todos. Seu grande sonho é que a vila se torne uma cidade e fique mais conhecida. Mas como um lugar com apenas 50 habitantes pode querer virar uma cidade importante?
Na igreja vive o Senhor León. Ele cuida das festas que são realizadas no coreto e para que todos vivam em paz uns com os outros.
Já na escola quem manda é o o Prof. Pitagórico. Ele é linha dura e não suporta falta de disciplina, chegando até a usar de uma régua para bater na cabeça de quem desobedece.
Ah, existe na vila também uma lojinha onde são vendidas várias coisas trazidas da cidade grande. Quem cuida dela é Hadésio, o único que tem carro e vai até a cidade todos os meses para buscar novidades. Muitas crianças não chegam perto dele, pois morrem de medo. Dizem que certo dia ele estava indo até o rio para chamar sua filha Macária, quando um garoto estava correndo e brincando e não o viu, dando uma trombada com ele. Daquele dia em diante o garoto nunca mais saiu de casa, mas isso é o que dizem...
Mas a história principal aqui é a de Zeno. Seu pai, Colódi, era o maior inventor da vila. Fazia desde uma máquina de tirar leite automática para as vaquinhas da Dona Joséfa até um varal rotativo para os vestidos de Mélane, sua vizinha.
Apesar de se distrair com suas invenções, Colódi era muito solitário e imensamente apaixonado por Mélane. Um dia, resolveu que criaria coragem e se declararia para ela. Então vestiu sua melhor roupa, seu melhor par de sapatos e foi para a festa de dezembro que celebrava a chegada do verão.
No meio das pessoas, Colódi ia procurando sua amada, mas não a encontrava em lugar nenhum. Todos que iam passando iam lhe cumprimentando:
- Boa noite Colódi. Adorei o modo como fez meus cavalos se acalmarem com aquela escovadeira que fez para mim. — dizia Diomédos.
- Ah, grande Colódi! Ficaram ótimos os aparadores de chifres que você fez para meus bois. — jubilava Aúgio.
Mas Colódi não estava interessado em agradecimentos, ele queria era encontrar logo sua amada enquanto ainda tinha coragem.
Foi então que a viu. Linda, num vestido branco com uma fita vermelha no cabelo. Seus cabelos longos tocavam o chão enquanto ela abaixava para dar de comer a um cisne próxima ao rio.
Colódi se aproximou devagar. Suas mãos tremendo e a vergonha deixando seu rosto avermelhado.
- Olá Mélane!
A moça deu um pulo e o cisne se foi nas águas.
- Desculpe, não queria assustá-la.
- Oh não. Eu que estava muito distraída.
- São... são pra você.
Colódi estendeu um buquê de flores que tinha apanhado de seu mirrado jardim regado por um sistema que ele inventou.
O rosto de Mélane ficou vermelho.
- São lindas. Nem sei como agradecer.
- Não precisa. Com toda sua beleza, elas tinham de ser suas.
A moça ficou com ainda mais vergonha e resolveu desconversar.
- Estou com sede. Gostaria de um suco de graviola?
- Cla... claro!
Mélane foi então para a barraca onde estavam vendendo os sucos, enquanto Colódi ficava só admirando o luar e a leve neblina que começava a se acumular sobre o rio.
- Boa noite Colódi.
Ele se virou assustado com a voz inesperada.
- Boa noite Macária. Não sabia já tinha chegado à festa.
- Sim. Fui uma das primeiras. Este ano meu pai trouxe alguns fogos de artifício da cidade para iluminarmos todo o céu da nossa vila.
- Aposto que vai ser lindo.
- Vai sim. Montamos tudo lá.
Macária foi para a beirada do rio e apontou além do Monte Cerínia. Foi quando se desequilibrou e começou a cair. Colódi não pensou duas vezes e correu a apanhá-la, mas também se desequilibrou e os dois caíram na beirada rasa do rio.
Rindo bastante da situação, Colódi nem percebeu quando Mélane chegava com as bebidas.
- O... o que está acontecendo?
- Nada de mais querida Mélane. Colódi e eu estamos apenas tomando um banho a luz da lua.
Mélane então olhou com os olhos cheios de lágrima. Foi então que Colódi percebeu que Macária estava praticamente em seu colo dentro d\'água.
A moça então largou os copos e saiu correndo em direção a sua casa.
Colódi pediu desculpas à Macária e correu atrás de Mélane, mas ao chegar em sua casa, só encontrou a porta fechada. Não teve coragem de bater, apesar de não ter culpa, sabia que seria melhor se acalmar e conversar com Mélane no dia seguinte.
Então foi voltando para sua própria casa, enquanto lá além do Monte Cerínia os fogos de Hadésio acendiam o céu para a chegada do verão...
***
Notas finais
Namasté.
Fale com o autor