Zargatio
6 Doce vingança
Notas iniciais
O Mestre soltou a garota do alto recolhendo sua própria língua enquanto Jason corria em direção à garota que engasgava e vomitava. Ele segurou seus cabelos castanhos e longos e a abraçou protetor. O mestre ria disfarçadamente.
– Jason o que está fazendo? – Perguntou o mestre os rodeando. A garota se encolheu completamente agarrada ao peito do soldado. Suas mãos frágeis e tremulas usavam o último resquício de energia para se manter escondida entre as dobras da farda.
– Eu não sei... Ela... Ela estava morrendo. – Tentou explicar Jason sem perceber que a pressionava contra si.
– Jason... Sentido! – O soldado tentou se desvencilhar da garota, mas não conseguiu. Acabou por levantar com ela agarrada às suas costas. – Você está me desafiando?
– N-Não senhor. – Gaguejou ele.
– Então o que está fazendo?
– Me desculpe mestre, eu estava só tentando salvá-la. – Tentou explicar Jason enquanto encarava aqueles olhos brancos. – Ela estava morrendo asfixiada.
– Você não se importou antes... Por que agora? – Jason tentou formular uma explicação plausível, mas não conseguiu e apenas ficou gaguejando. – Número 78 vá descansar, você deve estar sobrecarregado. Volte apenas amanhã e deixe-a aqui.
– Deixá-la?
– Agora. – A garota agarrou as vestes do soldado com mais força e o coração dele disparou. – E leve isso. – Disse o mestre lhe entregando um broche vermelho com um enorme “M”.
Por que Jason se importava tanto com aquela garota ninguém sabe dizer, nem ele mesmo. Aquilo não tinha nenhum sentido. Ele não iria jogar a vida e a carreia dele fora por causa de nenhuma garota idiota. Então ele deu as costas ao mestre e tentou sair. O mestre segurou a garota pelo pescoço e começou a puxá-la enquanto Jason tentava se afastar. A garota gritou e se agarrou às roupas do soldado com todas as suas forças.
Jason conseguiu se desgrudar dela e andou lentamente para a porta enquanto a garota se debatia tentando alcança-lo, quando Jason alcançou a porta porém, a garota desistiu e ficou inerte pendurada pela mão do mestre e ele a soltou, deixando-a cair no chão. Aproveitando-se da liberdade ela tentou desesperadamente se arrastar até a porta. O mestre agarrou seu tornozelo e cravou suas unhas negras. Imediatamente a garota ficou paralisada apenas encarando a porta se fechar e Jason desaparecer.
Jason entrou no bar mal iluminado e de cheiro nada agradável, cheio de militares. Aliás, dificilmente se encontrava naquele lugar algo além de militares e prostitutas. Ele se sentou o mais afastado possível do burburinho e do calor dos corpos suados e bêbados ficando em meio a penumbra. Ele pediu uma dose da bebida mais forte do bar e ficou conversando com seus botões ignorando toda a movimentação que ocorria à sua volta. Ignorando o cheiro do sexo, da arrogância e da curiosidade. Ignorando inclusive o barulho de uma música rápida demais para o movimento dos corpos débeis ao redor que pareciam em transe ou simplesmente cansados.
“Maldita garota. Luna... Como eu pude agir daquela maneira? É inadmissível. Não, eu apenas desejo ela. Sim, deve ser isso. Então por que eu questionei a autoridade do meu senhor? Maldita! Por que tinha que ter olhos tão revoltos, assustados e ao mesmo tempo sedutores? Parecia que ela estava me entrevistando, me manipulando de acordo com sua vontade e não o contrário. Enquanto eu a via ali, suspensa por aquelas garras, lembrava-me do seu cheiro naquela primeira entrevista. Do seu olhar desconfiado, tão diferente do reflexo da morte do segundo encontro. Eu havia gostado de manipula-la. Sim... É verdade. Eu havia gostado porquê de algum modo ela me lembra pessoas que me abandonaram, e engana-la era como uma doce vingança. E eu adorava esse jogo. Sempre gostei.
Crueldade? Talvez, mas em um mundo lascado como esse, isso é simplesmente comum. Eu cresci assim. Desde pequeno, a morte, a raiva, a vingança e o abandono me acompanharam. Eu não podia fugir, por mais que tentasse. Então resolvi parar de tentar afasta-los e abraçar meus medos de vez. Então não seria tão estranho ter virado quem sou. Convivendo com o que convivo, quem não se tornaria? O que eu não conseguia entender era porque eu havia me importado com sua morte. Já havia visto incontáveis outras mortes. Talvez seu sofrimento tivesse me lembrando de um tempo sem esperança. Um tempo de escuridão e raiva. Um tempo em que eu não era frio como agora. Não importa. Eu não gosto dela e acabou. Está decidido. Não vou estragar minha carreira por causa de uma qualquer. Não, uma qualquer não. Isso ela não é. Queria que fosse real. Se ao menos fosse real. Mas ela não gosta de mim. Não... São apenas memorias implantadas. Droga de memorias idiotas. Será que agiria do mesmo modo se não estivesse tão drogada de memorias roubadas?”
– Ceifador? – Perguntou uma voz nada estranha à Jason.
– Marechal Demíti! Há quanto tempo. – Falou falsamente animado. Afinal o marechal sempre o humilhou. Foram incontáveis as vezes em que Jason foi treinado e obrigado pelo marechal à lavar toda a sujeira que seus colegas haviam feito. E sempre que queria alguma coisa ele pedia a Jason como se ele fosse seu escravo, responsável pelo trabalho sujo e pesado. Mas como ele mesmo pensara, Jason adorava a vingança. E essa particularmente estava deliciosa. Por um segundo a fumaça do local não o irritou, a música se tornou convidativa e a dose de sua bebida não pareceu tão amarga. Mas foram só por alguns instantes.
– Ainda matando vermes?
– Não, não...
– Está de folga hoje? Pensei que haviam mandado mais uma carrada de mortes pro esquadrão mais embaixo. Você sabe... O seu.
– É mesmo? Porque que eu saiba eu fui promovido.
– Verdade? Agora você mata o que? Animais pequenos? – O marechal riu e Jason meneou a cabeça sorrindo. – Criança você sabe tanto quanto eu que você não serve para nada além de seguir ordens.
– Na verdade agora eu sou o braço direito do mestre. – O marechal engasgou.
– Como disse?
– Isso mesmo. Você escutou. – Falou ele tomando mais um longo gole, de forma a esconder o sorriso metido que ele sentia cinicamente puxar seus lábios. – O marechal acertou-lhe um tapa que fez a cabeça de Jason virar.
– Você não tem vergonha de mentir assim? Cadê então sua medalha? – Jason sorriu sarcasticamente.
– Ah é verdade, esqueci de colocar. Ele me deu pessoalmente hoje. – Falou Jason pegando um broche vermelho do bolso e colocando na farda. – Os olhos do marechal se arregalaram. Ele nunca havia nem ao menos visto um broche como aquele, apenas ouvira rumores.
– Deve haver algum engano. Onde conseguiu isso? De quem você roubou? – Jason lhe esbofeteou a cara.
– Você sabe que eu posso te matar agora não sabe? – O marechal engasgou novamente. – Claro que sabe...
– Mentiroso! Vou te denunciar aos meus superiores. Ou melhor, eu mesmo vou te punir! – Jason gargalhou tão alto que atraiu olhares das mesas ao lado.
– Você vai me punir? Não me faça rir Demíti. Eu sugiro que você pare agora enquanto eu estou bonzinho e tolerante e ainda não te mandei para a sala branca. Você fica me devendo essa ok?
– Isso não pode estar acontecendo.
– Isso nunca passou pela sua cabeça de merda certo? Por isso eu já imaginava... – Jason se levantou e chegou bem próximo do ouvido do marechal. – Escuta, mesmo te odiando quando você foi superior a mim, eu te respeitei. E sugiro que você faça o mesmo agora. E se estiver insatisfeito fala com seus superiores, eu sei como é depender de ordens. Ah, espera... Eu não preciso seguir ordens de vocês meros humanos. – Ele se levantou da mesa e caminhou calmamente até a porta saboreando o doce gostinho da vingança que distraiu-lhe por algum tempo de Luna. Algumas prostitutas se aproximaram insinuantes, esfregando seus corpos cansados e doentes em seu corpo enquanto o convidavam para irem à um lugar mais reservado. Por algum tempo não respondeu a seus apelos, mas a carne é fraca e Jason gostaria de alguém esquentando sua cama aquela noite, mesmo que esse alguém não fosse Luna.
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