Zíngara - Festival
1 Capítulo 1 - Zíngara
Notas iniciais
Primeiramente quero agradecer ao @QGDramione que me deu esse empurrãozinho pra sair da zona de conforto e quando eu resolvi pisar fora da risca por causa da songfic escolhi arriscar um pouco mais e estou escrevendo minha primeira UA, que não é meu tipo favorito de fic, mas eu acreditei muito que mesmo estando nessa linha eu consegui manter algumas características importantes do Draco e Hermione.
Segundamente kkk nessa fic eu vou retratar um povo nômade cujas características estão embasadas no povo Romani (vulgarmente conhecidos como os ciganos) eu tentei arduamente não estereotipar essa cultura ímpar, porém como eles são um grupo muito restrito com relação a compartilhar os seus costumes é meio difícil construir esse cenário então abracei fortemente a própria questão do nomadismo desse povo que tem uma origem bem menos “libertadora” do que a que descrevi na história. Para quem quiser detalhes vou destaca-los no fim das notas finais para entenderem quais características usei de base.
Um agradecimento especial para a ReidGray que fez a capa da fic como um desafio pessoal já que todas as imagens que eu pensei não ajudaram-na T.T Obrigada pela atenção.
Por fim vou esclarecer meu tema: além de ser uma songfic eu tinha a missão de trabalhar o gênero aventura/ação e escolhi trabalhar com duas músicas do conjunto musical folclórico alemão FAUN e as músicas são Federkleid e Sonnenreigen (link no youtube nas notas finais também). Sei que não músicas pops e tudo o mais, mas me inspiraram bastante e tenho as ouvido incessantemente, e aproveitei o fato que descobri esse grupo justamente um dia antes de saber que o desafio seria de songfics.
Boa leitura!
Draco olhava por aquela janela enorme que dava para a rua principal da cidade e ouvia os pássaros piando enquanto pensava nela.
A primeira vez que a vira com seus olhos perscrutadores da alma e sorriso sedutor fora em um festival de equinócio da primavera quando ainda era um adolescente.
Ele estava todo pomposo exibindo a roupa nova e elegante que seu pai (o então comerciante mais rico da cidade) comprara para a ocasião.
Lembrava-se do seu sorriso desdenhoso no rosto e de como as moças de boa família olhavam para ele com os desejos de um bom matrimônio.
A situação toda divertia-o muito à época, cortejar as moças e trocar alguns beijos às escondidas em um lugar qualquer, era tudo que ele permitia se dar, o resto de si pertencia apenas a ele mesmo.
Havia avistado seu quarteto de amigos do outro lado da praça onde, como quase todos os anos, uma apresentação de dança ocorria. Um qualquer havia trombado nele em sua animação da comemoração e o jogara para mais perto do centro da roda.
Quando estava prestes a virar e xingar o amaldiçoado que o fizera ralar a calça no chão sujo ela passou por si dançando e ele não soube se foi seu perfume ou o turbilhão de cores de sua roupa que o atraiu primeiro.
Draco sempre achara as roupas daquele grupo nômade extremamente cafonas, eram coloridas e espalhafatosas demais, mas não nela. As cores e a flores de sua roupa fizeram-no acreditar que a própria primavera havia abraçado a garota antes de a música começar. Mesmo com tecidos infinitamente mais caros ele sentiu-se extremamente mal vestido perto dela.
Quando a saia levantava no rodopio ele podia ver as belas pernas torneadas dela e quando ela batia palmas acima da cabeça no ritmo da música seus braços delgados chamavam sua atenção. O corpo esguio, o brilho das joias, o colorido das fitas que não conseguiram por completo domar os cachos selvagens de sua dona e os movimentos alegres da dança pareciam feitos para seduzi-lo, estava estático.
Mas olhar para seu rosto foi o que marcou sua sina, quando Draco viu aquele sorriso encantador ele foi arrebatado. Seus amigos chamavam-no, a multidão se retirava ao fim da apresentação e a chuva começava a cair, mas tudo que Draco conseguia ver era o arfar do busto alvo da garota.
A banda e ela não se retiraram por causa da chuva que se formava, pelo contrário ela parecia sorrir ainda mais enquanto dançava sob a água que tornava escuro e pesado seu vestido primaveril e Draco ficou até seus pés estarem afundados na lama e excrementos e ela não ter fôlego para continuar, e a recompensa que ele ganhou foi ela ter voltado seus lindos e inteligentes olhos para ele.
Os músicos recolheram o chapéu e os instrumentos e foram em direção ao acampamento que eles haviam levantado na periferia norte da cidade, ela apenas continuou olhando-o, marcando cada pedaço de sua alma com brasa até que por fim curvou-se, como uma perfeita dama e sem dizer-lhe uma palavra ergueu a barra do vestido e foi atrás de seus companheiros em meio ao barro e chuva.
Durante os outros dez dias que o grupo permaneceu na cidade Draco foi vê-la dançar e com sorte conseguiu conversar com a mesma duas noites e descobrir seu nome: Hermione.
Ela era inteligente, com uma língua afiada para respostas rápidas e não se intimidava com ele e sua fama de sedutor ou com a ideia de que o pai do mesmo era o principal negociante com quem sua caravana faria comércio, nada disso importava quando ela queria provar que ele estava errado. E como ele estava errado.
Hermione abrira seus olhos e cada primavera que chegava ele ia procura-la em meio ao festival que se instalava e quando se encontravam ela transformava uma nova parte do rapaz, lhe contava sobre o mundo, as pessoas, as diversas culturas que conheceu.
Hermione era humilde e livre, Draco era rico e enclausurado. Quando ela vinha trazia a dança, a alegria e a espontaneidade para a vida dele.
Era cética e ria das pessoas que achavam que os habitantes da caravana eram videntes ou que magia existia. E o loiro ria também, ria porque sem perceber Hermione enfeitiçava-o a cada ano que passava mesmo não acreditando em magia.
E toda vez que ela partia ele começava a contagem regressiva para sua volta, imaginava o que teria mudado no corpo e na mente daquela alma peregrina.
O ano que a caravana não viera para a cidade fechar negócios fora o pior que Draco tinha memória, arranjava briga com todos e largara completamente os aprendizados comerciais com seu pai que gritava para quem quisesse ouvir que se era uma mulher para lhe aquecer a cama que ele queria, facilmente o arranjaria em qualquer casa da cidade.
Já faz um ano
Desde que vi você na dança
Muitas vezes em longas noites
Eu tenho pensado em você
As brigas eram constantes e o rapaz até mesmo ficara aliviado de ser dispensado de suas lições quando o pai adoeceu, alívio esse que não durou muito quando a doença agravou-se e seu pai morreu em seu leito de morte pedindo que Draco não arruinasse a família, que desse continuidade aos negócios e casasse-se com uma moça de bom partido. “A filha dos Parkinson ou dos Greengrass quem sabe?” foi a última sugestão que ele dera na vida do filho antes de falecer na madrugada fria de início de inverno.
Aos dezessete anos Draco assumira tudo, era o novo chefe da família, uma família pequena composta apenas por ele e sua mãe.
O mundo era cinza novamente e Draco enterrou-se no trabalho: taxas, portos, carga e descarga, lucro e a vida social consumiram-no.
Talvez seu pai estivesse certo e ele não devesse procurá-la mais, os sentimentos que Draco nutria por Hermione não poderiam concretizar-se, isso não daria certo, ele precisava ser adulto e paixõezinhas não o ajudariam com isso.
E mais alguns meses se passaram até a primavera chegar e a cidade viu despontar no horizonte as carroças da caravana e Draco fingiu para si mesmo que aquilo não era importante para si. Dois dias a caravana esteve na cidade sem que ele a visse, no terceiro dia porém ele foi encurralado em seu próprio escritório. O líder da caravana viera negociar como sempre: tecidos, metais preciosos e dessa vez até trouxera artesanatos do país vizinho que visitaram no ano anterior, e ela estava acompanhando-o como sua aprendiz e o loiro estranhou o fato dela vestir roupas de cores sóbrias, mas nada comentou obviamente.
Homem esperto, ter uma mente afiada como a de Hermione nos negócios seria bom para ele. Porém não era a mente de Hermione que o interessava naquele momento, mas os olhos cheios de mágoa contra si. Ele sabia que ela não o procuraria à luz do dia em sua casa e refugiara-se ali de propósito e agora ela gritava com os olhos o quanto ele estava sendo covarde com ela, embora a boca da mesma só se abrisse para alertar sobre alguns termos da negociação que ela achava vantajoso demais para o loiro.
Quando os acordos acabaram e as duas figuras andarilhas foram embora Draco sentia-se arrasado. Ver Hermione ali na sua frente depois de dois anos sem poder abraçá-la, sem vê-la sorrir uma vez sequer para si fora pior até mesmo que o luto por seu pai alguns meses atrás.
Decidiu buscá-la aquela noite, pelo menos para explicar o que estava havendo, o motivo pelo qual não poderiam mais viver naquela tensão e atração que os envolvia toda vez que estavam juntos.
Ele arrumou-se para ver a apresentação e depois bagunçou-se inteiro lembrando que isso jamais impressionaria Hermione. Por fim escolheu a roupa mais simples que tinha e pegou a bela presilha com pedrarias que estava guardada na última gaveta da estante de seu quarto há quase dois anos como um pedido de desculpas diplomático pela sua falta de tato, de qualquer forma fora para ela que ele comprara a mesma.
Sentia-se nervoso e exaltado, quase corria pela rua para chegar à praça que fora construída desde a última vez que houve um festival. Era quase como se pudesse voar.
Quando viu Hermione tão linda quanto a própria primavera dançando com seu belo vestido ele conseguia sentir nos ouvidos o próprio pulsar de seu coração desgovernado e se não fosse a música ele desconfiava que todos ouviriam.
A apresentação havia sido linda como sempre, mas diferente da primeira vez em que se viram a multidão não se dispersou após a apresentação e como Hermione resolvera ignorá-lo, ele precisou atravessar um mar humano para poder chegar ao ponto da praça onde a tenda do grupo se encontrava.
E ao levantar a aba da tenda foi quando tudo mudou, quando viu aquele rapaz cortejá-la de forma tão aberta como ele nunca havia feito naqueles anos.
Sentiu o sangue ferver e subir corando a face pálida enquanto a cara formava um esgar e o punho cerrava-se em torno da embalagem delicada do acessório que trazia. Quem aquele pobretão achava que era?
Sentiu os passos duros baterem contra o paralelepípedo do chão da praça espantando as rolinhas que buscavam faíscas e grãos entre as frestas próximas à abertura e elevando a voz chamou a atenção de ambos (embora desconfiasse que a morena tinha plena consciência que ele estava ali).
— Hermione. – ele falou e lançou um olhar gélido para o rapaz moreno que o encarava como um idiota. – Agora que terminou sua apresentação podemos voltar a tratar dos negócios?
— Claro, mas gostaria de lembra-lo Senhor Malfoy que sou apenas uma aprendiz, seus assuntos são com nosso líder e não comigo. – ela respondeu voltando sua atenção para o rapaz que sorriu encantado para Hermione. – Podemos continuar nossa conversa depois?
— Desculpe rapaz, mas a Senhorita Hermione estará ocupada todos os outros dias tratando de assuntos comerciais comigo, esqueça essa conversa. – Draco cortou sentindo o ciúme inflar em si cada vez mais.
Como fora idiota e impulsivo aquele dia, não sabia até hoje como ela não o agredira. Mas o olhar que ela lançou lhe em seguida advertiu-o que estava muito perto disso.
— O que você quer afinal? – ela falou cruzando os braços e jogando os bons modos para o ar.
— Quero falar com você, mas não aqui. – ele respondeu.
— Claro, esqueci que estou falando com o novo dono da cidade, devo abaixar a cabeça para falar com você também? – ela rebateu arrebitando ainda mais seu delicado nariz e erguendo o queixo para não parecer tão menor que ele.
Aquilo feriu-o e ele viu que a pose dela vacilou um pouco, mas ela não recuou ou retirou sua fala. Ele lembra-se de se perguntar o que havia feito para feri-la tanto que ela não se importasse de machuca-lo daquela forma.
— Se for para você me ouvir vou até mesmo prendê-la e leva-la à força. E quanto à esse... onde se meteu aquele inepto?
Hermione bufou. O rapaz havia sumido durante a discussão, na verdade estavam sozinhos, os companheiros de Hermione também haviam saído da tenda para dar privacidade para ambos.
— Você espantou todos com sua grosseria, vá embora preciso encontrar aquele rapaz. – ela falou passando por ele.
Draco agarrou o braço dela impedindo-a de sair, mas sem olhá-la nos olhos.
— Você não vai procura-lo.
— E porque eu faria algo que você quer? Dois anos Draco e você não veio sequer me procurar para dizer o porquê me trataria como se eu não existisse, se eu não sou companhia para alguém do seu nível social agora que assumiu todos os negócios da família tudo bem, mas não venha me dizer o que devo fazer ou não da minha vida.
Ele olhou para o rosto dela e lá estava aquela mágoa sufocante nos olhos de Hermione. Ele guardou o embrulho no bolso e soltou o pulso dela para segurar ambos os lados do rosto da mesma com uma delicadeza indizível.
— Porque tem algo que me pertence com você e se você der a outro eu não conseguiria suportar isso. – ele falou aproximando-se dela enquanto as respirações se chocavam.
— E o que seria?
— Seu amor, se você amar outro vai assinar minha sentença de morte.
— E se eu já amar outra pessoa? – ela desafiou-o.
— Você não me deixaria fazer isso. – ele respondeu e beijou-a.
Não foi um beijo calmo, era um beijo desejoso, exploratório, arrebatador e o que os olhos não haviam tido tempo para perceber de mudanças nos corpos um do outro os dedos logo se ocuparam de descobrir.
E amaram-se aquela noite e todas as outras naquele ano até a partida de Hermione. E embora nenhum deles comentasse eles sabiam os riscos que corriam com a escolha que fizeram. Mas Draco sentia-se egoísta após o êxito de estar com Hermione, pois tinha plena consciência do peso de seus atos, se descobrissem que ela não era mais virgem... ele não queria nem ao menos imaginar o que poderia acontecer com ela.
Queria tanto poder levantar de manhã, acordar Hermione com beijos dos pés à cabeça e enfim chama-la de sua todos os dias até seu fim, mas sabia que isso não era possível.
Se ele a pedisse em casamento Hermione não recusaria e ela aprenderia e seria a mais perfeita dama que ele ou sua mãe pudesse desejar e ela desdenharia, toda noite espreguiçando-se no sofá suntuoso da sala, o quanto o meio em que viviam era fútil e supérfluo. Mas essa aparente vida pacata não duraria muito tempo, ela era livre e assim que Draco a prendesse à uma casa cheia de regras, à uma rotina monótona estaria matando Hermione aos poucos até ela deixar de ser o que é.
E ela também sabia, já que levantava todas as noites antes do amanhecer para que não notassem sua ausência no acampamento, beijava a testa de Draco com louvor e escapava da casa do mesmo em meio às sombras como se fizesse parte das mesmas e ao chegar a sua tenda preparava uma infusão de ervas para evitar a gravidez.
E todos os anos trezentos e cinquenta dias tinham que ser gastos para que eles pudessem viver apenas quinze. Era o acordo nunca dito de ambos.
Eu o segui no círculo florescente
E assim nosso vicioso círculo se fecha
Para a conhecida melodia
Essas lembranças inundavam Draco enquanto ele observava o aumento do movimento de pessoas rumo à praça. Eles haviam chegado então. Ela havia voltado. Olhou para o anel em seu dedo. Uma fina serpente de prata com duas minúsculas gemas de esmeralda fazendo a vez dos olhos do animal que mordia a própria cauda. Ouroboros ela contara, o símbolo do eterno retorno, do ciclo anual que eles passavam para poderem estar juntos novamente.
O rapaz vestiu uma capa e encaminhou-se com a multidão para o ponto de encontro do evento. Tantos anos e a expectativa por ver Hermione dançar era sempre enorme, todos podiam ver seus movimentos durante a dança, mas ele sabia que ela dançava para si.
Mas o sorriso no rosto do loiro murchou quando percebeu que outra jovem fazia a vez de Hermione no espetáculo de primavera e seu peito apertou-se ainda mais quando não a viu entre os diversos moradores da caravana que acompanhavam a apresentação.
Saiu empurrando todos que estavam no seu caminho, abrindo caminho à força para sair da praça lotada sob um sol que castigava o corpo e amortecia a mente.
Pegou uma carruagem de aluguel e pediu ao cocheiro que o levasse ao acampamento, cada minuto a menos do tempo normal dez moedas a mais no pagamento. Não foi surpresa quando chegou em um piscar de olhos ao local que queria.
Entrar no acampamento em si era um grande problema e houve um grande debate de vários minutos até que ficasse decidido que ele poderia entrar desde que acompanhado de um homem do povo deles para observar a interação de ambos para que não houvesse boatos sobre a garota depois.
Draco sentiu-se como em um desfile enquanto mulheres e crianças colocavam as cabeças para fora de suas tendas para vê-lo. Raramente uma pessoa de fora podia entrar no acampamento, o fato de Draco ser o principal comprador de todas as mercadorias na cidade conseguiu lhe fornecer essa entrada, mas não a discrição quanto à sua passagem.
— Belo anel esse em seu dedo. – o rapaz falou. – Onde o comprou? Pretende vende-lo?
— É um presente, ganhei da pessoa mais importante da minha vida. Não está à venda. – Draco rebateu rabugento fechando a cara.
— Bom saber que se importa com Hermione. – o outro respondeu.
— Eu não disse que foi ela quem me deu.
— Eu sou o ferreiro e o ourives da nossa tribo, fui eu que forjei o anel a pedido dela, sempre me perguntei o que havia sido feito dele. – o outro devolveu antes de mudar de assunto. – Chegamos.
Draco nunca vira a tenda de Hermione em todos esses anos e mesmo que isso parecesse bobagem no momento era algo que lhe atiçava a curiosidade.
O tecido da mesma era de um azul profundo e gasto pelas ações do tempo, o cheiro de Hermione emanava do tecido que a confortava todas as noites em que ele não estava com ela. Acima da abertura da tenda a figura dos olhos de uma coruja o observava. A palma de sua mão começava a suar.
— Hermione. – o rapaz que o acompanhava chamou.
Logo os cachos castanhos e sua dona apareceram pela fenda do tecido. Ela olhou para ambos parados ali e parecia surpresa.
— Como conseguiu entrar aqui? Harry você o trouxe escondido? – ela perguntava empurrando os dois para dentro.
— Claro que não, olhe para ele chama a atenção demais. Permitiram a entrada dele por causa de tudo que está para acontecer, o chefe quer conversar com ele hoje mesmo depois que a conversa de vocês terminar.
Hermione suspirou e Draco finalmente percebeu o quanto ela estava abatida, isso em nada serviu para diminuir seu nervosismo, o que o chefe deles queria com ele afinal?
— Harry pode nos deixar sozinhos? – ela pediu para ele.
— Você sabe que não Hermione, se souberem que ficaram somente os dois na sua casa...
— E se você ficar na porta? Eu preciso conversar com Draco sozinha, por favor.
Dessa vez foi Harry quem suspirou e ele parecia ter uma pena enorme em seu olhar.
— Certo, não demorem. – ele falou saindo pela aba e prostrando-se na abertura de costas para o interior da tenda.
Antes mesmo que ele pudesse abrir a boca Hermione estava pendurada no pescoço do mesmo e tentava sufocar os soluços que lutavam para sair de seu peito.
Atônito, Draco passou uma das mãos pelos cabelos da mulher e com o outro braço rodeou sua cintura.
— O que houve Hermione? – ele perguntou temendo a resposta.
— Iremos partir amanhã. – ela respondeu com a voz embargada e o rosto afundado no peito do rapaz.
Draco não conseguiu impedir o engasgo que saiu de sua garganta.
— Como assim? Por quê? – ele perguntou apertando-a ainda mais contra si.
— Hogwarts é o único país ao sul do continente que ainda é permissivo com relação ao nosso povo, fomos atacados há três semanas antes de atravessarmos a fronteira, vários ainda estão feridos e doze dos nossos foram mortos tentando salvar pertences ou familiares. Vamos rumar para o norte, passar pelo Cinturão das Minas e cruzar o deserto. Não vamos voltar Draco.
Desespero definiria Draco naquele momento e ele apertou ainda mais Hermione contra si. Ela poderia ter morrido nesse ataque, podia ser só mais um corpo vazio que viraria pó com o tempo, mas ela sobreviveu, apenas para partir e destruir Draco nesse processo.
Ele afastou Hermione de si e a olhou. O cabelo bagunçado, olhos e lábios vermelhos e inchados, a face estava quase tão pálida quanto a própria e ela parecia esperar.
Esperar que ele pedisse que ela ficasse.
E ele lutava contra as palavras que pareciam querer se atropelar para sair e pedir que ela abandonasse seu povo, sua vida, sua liberdade para ficar com ele.
Mas ele jamais faria isso com ela. Preferia se destruir a destruir Hermione dessa forma.
E embora tivesse forças para impedir sua fala ela não foi suficiente para evitar seu choro ou para que apertasse Hermione contra o próprio corpo como se pudesse fundi-la em si e evitar que a dor atingisse a ambos.
Foi quando Harry voltou para dentro da cabana.
— O chefe está vindo, faça cara de surpresa para tudo que ele disser. – o rapaz disse guiando Draco para uma almofada enorme sobre um tapete e Hermione para outra.
E Draco fez o que lhe pediram, fingiu extrema surpresa quando lhe contaram do ocorrido e se ofereceu para comprar toda a carga dos nômades por um preço bem acima do de mercado. Faria qualquer coisa para ajudar Hermione e seu povo nessa travessia que fariam.
Foi embora sem conseguir se despedir direito da mesma e sabia que ela não conseguiria escapar aquela noite de sua tenda, sabia que a vigilância seria dobrada depois de sua visita “inadequada” aos “recatos” da mulher.
E ele quebrou tudo que estava ao seu alcance quando chegou em casa, vasos, caixas, cristais, quadros e enxugou boas garrafas de bebida da adega do escritório. Mesmo bêbado e arrasado Draco tinha consciência que ninguém viria consolá-lo em sua dor, sua mãe fora criada para ignorar o que deveria ser ignorado e um filho crescido, embriagado e chorando por uma mulher que ela considerava mais reles que qualquer pessoa de seu convívio era algo a ser ignorado.
A caravana partiu sem que Draco pusesse seus olhos nela novamente e a cada dia que passava seus rompantes eram mais violentos e a certeza que Hermione não voltaria o devastava de tal forma que ao quarto dia não quis levantar nem mesmo para reiniciar seu ciclo de bebedeira.
Cada vez mais; onde devo encontrar o desejo que anseio?
O que faria de sua vida sem Hermione? Era a pergunta que rondava a cabeça com ressaca do rapaz.
E nada lhe vinha, passar tanto tempo sem Hermione, imaginar que ela poderia casar-se com outro, que poderia esquecê-lo ou que se ficasse ela poderia morrer por puro preconceito com sua cultura, qualquer uma dessas alternativas acabaria consigo.
E foi no meio do desespero profundo que uma antiga e alucinada ideia pareceu ressurgir dos recônditos de sua mente letárgica. Largar tudo e unir-se à caravana.
Quantas vezes não sonhara com isso em sua adolescência? Mas sua covardia o impedira sempre, afinal se a caravana o rejeitasse o que faria da própria vida? Teria que voltar humilhado para seu pai dizendo que foi exilado do bando.
Mas agora era dono de si próprio.
Tantos anos passaram-se desde aquela ideia, o que o impedia agora? Nada.
Mesmo que o bando não o aceitasse, Draco poderia levar consigo dinheiro suficiente para passarem a vida toda viajando se fosse isso que o coração de Hermione desejasse.
Não permitiria que Hermione saísse de sua vida assim, nunca mais deixaria Hermione partir.
Eu fecho meus olhos e cresce em mim uma plumagem
Eu já sinto o vento e abro minhas asas para voar
Levantou-se de um salto e arrumou-se com pressa para ganhar as ruas.
Antes do fim do dia havia acertado os documentos no escritório de advocacia da cidade e sacado a mais gorda quantia de dinheiro que o banco já vira sair de seus cofres.
Comprou uma grande capanga e acomodou o dinheiro na mesma.
Chegou em casa e subiu diretamente para o quarto. Era uma terça-feira, dia em que a mãe ia à Igreja fingir que sua alma era benevolente.
Abriu a mala no quarto e conferiu o relógio de ouro na parede. Dez horas. A passagem que comprara na barca indicava o horário de saída como onze e quinze.
Colocou algumas peças de roupas variadas na maleta, junto a alguns objetos que achava que seria útil no futuro.
Fechou tudo e desceu a escadaria de madeira nobre até a sala da casa. Tirou de dentro do casaco os papéis que davam à sua mãe o pleno direito de dirigir tudo que dissesse respeito aos negócios da família e que ele abnegava-se de qualquer posse em seu nome.
Não pôde negar que a mão chegou a tremer quando depositou os papeis sobre a mesa, estava deixando tudo que conhecia para trás, mas lembrar-se que se não se apressasse não conseguiria alcançar a caravana de Hermione o fez sair correndo de casa.
Chegou onze horas ao porto e esperar a partida da barca fora uma tortura.
Com o tamanho que a caravana possuía eles não tinham condições de embarcar todos via mar para contornar o Cinturão das Minas que seguia de uma costa à outra do continente então teriam que ir por terra, das rotas comerciais que Draco conhecia naquela região com certeza o bando seguiria pela rota do coiote, era única com espaços grandes suficientes para as paradas do grupo à noite.
Considerando uma campanha regular eles cruzariam o desfiladeiro quinze dias depois de partirem de Sonserina. Dali seguiriam para Corvinal a última e única cidade ao norte das montanhas onde poderiam comprar grãos suficientes para a travessia com segurança de alimentos para todos.
Restava pouco tempo para Draco, era isso que o atormentava o tempo todo, pois depois que a caravana entrasse naquele deserto poderia nunca mais achar Hermione.
Quando o capitão quis aportar numa cidadezinha pequena da costa porque o tempo não parecia bom, Draco pagou-lhe um gordo adicional para seguirem em frente.
E como se arrependeria dessa decisão. O terceiro dia de navegação seguira bem, mas ao final da tarde do quarto dia uma tempestade pegara a barcaça em cheio.
Logo a roda irá virar
Tempestades turbulentas irão vir
Draco, que estava em uma das poucas cabines de estadia da embarcação foi pego de surpresa quando a água que entrava no corredor aos jorros pela abertura que levava à proa do veleiro começou a invadir seu cômodo.
Subindo ao primeiro nível ouviu os marinheiros gritarem que o patilhão havia se partido e que o barco estava perdendo estabilidade, se não aportassem logo o barco viraria e todos seriam arrastados com ele para o fundo.
As velas foram folgadas e Draco ouviu o capitão gritar a plenos pulmões enquanto virava a roda de leme que todo peso sobressalente do porão devia ser empilhado do lado esquerdo do casco para tentar estabilizar a curva que fariam.
Draco desceu correndo com os homens para o porão arregaçando as mangas enquanto o coração rugia como nunca antes. Tinha que sobreviver, não podia afundar naquela banheira sem ver Hermione novamente.
O porão do navio estava tão cheio de água que quando Draco desceu o último degrau a água estava acima de sua canela. Juntos, os ocupantes da embarcação empilharam barris e caixotes e apesar do sacolejar da embarcação conseguiram até mesmo estender uma rede de pesca sobre a carga para evitar que a mesma deslizasse para fora de seu lugar.
Ouviram então um novo bradar do capitão e todos correram corredor acima para tentar entender qual outra medida emergencial deveria ser tomada, foi quando chegou ao nível dos quartos que Draco ainda correndo sentiu o solavanco lateral da embarcação e bateu com a cabeça em uma viga e caiu no chão.
A visão ficara turva devido à forte batida e o sangue empapando a sobrancelha direita em nada melhorava mesmo depois de esfregar o ferimento com o tecido da camisa.
Engatinhando, já que não conseguia levantar por causa da desorientação, Draco arrastou-se aos tropeços até o primeiro andar da embarcação apenas para sentir-se mais desolado com a paisagem que veria lá fora.
Se Hermione fosse descrever aquela cena, ela diria que os olhos de Draco estavam tentando engolir aquele pequeno barquinho.
A tormenta que assolava o navio certamente os mataria. Mas Draco nem mesmo chegou a essa ciência já que tudo enegrecera rápido demais e ele apagara ali mesmo no deque enquanto ondas varriam o local e entravam por suas narinas e boca.
E por dois dias a inconsciência fora uma benção para ele, mas conforme seus sentidos iam flutuando até a superfície do seu pensamento ele tinha a certeza que estava engasgando em sangue enquanto respirava, pelo menos era essa a impressão causada por sua traqueia que engolira e regurgitara água salgada demais depois que Draco fora resgatado por um marinheiro que o vira afogar-se a um canto do convés enroscado em um amontoado de cordas de vela apagado.
Depois disso ele foi levado a terra e acolhido em uma minúscula pensão local que excedera sua lotação para abrigar a tripulação do barco danificado. Quando abriu os olhos tudo que Draco conseguia pensar era que a decoração do inferno precisava de melhorias, mas conforme a dor se instalava em seu tronco de forma persistente, mas humanamente aceitável, ele percebeu que talvez não tivesse morrido, apenas sufocado e afogado até quase a morte.
Ao tentar se levantar deparou-se com a estalajadeira sentada em uma cadeira enquanto vigiava seu sono. A Senhora McGonagall possuía um olhar severo e não escondeu seu desagrado ao saber que a situação dos pobres marinheiros devia-se a irresponsabilidade e teimosia de Draco.
Demorou mais um dia e quatro pratos de canja pelando para que o loiro sentisse-se forte o suficiente para seguir viagem.
Milagrosamente o barco não afundara e ninguém morrera, assim Draco pôde recuperar seus pertences e pedir desculpas ao capitão e tripulação por todo o dano causado cobrindo o valor do reparo dos estragos e da estadia de todos na pensão. O valor que levava em sua capanga sofrera uma considerável redução, porém ainda era suficiente para os planos que tinha, apesar de considerar que ambos teriam que esbanjar menos do que previra.
Pediu para que chamassem uma carruagem de aluguel apenas para descobrir que a única que existia no minúsculo vilarejo de Grifinória estava fora à trabalho.
Ele tinha apenas seis dias, nenhum meio de transporte e mais de duzentos e cinquenta quilômetros para percorrer, estava quase arrancando os cabelos para descobrir o que faria quando bateram na porta de seu quarto.
Era a velha rabugenta dona da pensão. Se a Senhora McGonagall adivinhasse que era isso que se passou na mente de Draco quando a viu talvez não o tivesse ajudado.
De acordo com a mesma ela ouviu a conversa dos marinheiros bêbados no andar de baixo comemorando a estadia sem trabalho bancada pelo louco apaixonado que quase os matara.
Ela pediu para que Draco explicasse melhor sua situação e assim o rapaz o fez apenas para poder desabafar o desespero que estava remoendo-o.
Ao final do relato a mulher saiu do quarto do mesmo sem dizer uma palavra. Draco já estava amaldiçoando-a mentalmente pela indiferença com sua história até a mulher voltar com um tecido encardido em mãos.
Ela explicou que era viúva de um proprietário de uma das centenas de minas que compunham o Cinturão e que quando seu marido morreu em um desabamento, ela pegou a quantia que restara da mineração e construíra aquela pensão à beira mar, longe do túnel lúgubre e rico que matara seu esposo. Detestava a escuridão foi o que ela disse, mas se Draco estivesse disposto à “dar mais uma cuspida na cara da morte” ele poderia descer aos recônditos da terra encontrar um dos estreitos túneis conectores que interligava um total de cinco minas. Esse atalho o faria transpor mais de cem quilômetros em linha reta em apenas dois dias e o faria desembocar perto da charmosa cidadezinha de Lufa-Lufa onde poderia por fim arranjar a dita carruagem de aluguel e chegar à Corvinal antes que Hermione partisse.
Dois dias sem ver a luz do sol com toneladas de minérios sobre sua cabeça. Draco engoliu em seco, mas esticou a mão para pegar o mapa cheio de pó e lembranças amargas da senhora.
Na manhã seguinte bem cedo ele partiu sem despedir-se de ninguém carregando sua mala e sua capanga, seguiu caminhando de acordo com as orientações da estalajadeira e encontrou a abertura secundária da mina do falecido que não havia desmoronado como a principal, respirou fundo o ar morno de meio dia e entrou no breu.
Fazendo uso da luz do lampião e do mapa foi aprofundando-se cada vez mais nas entranhas daquele monstro de rocha que era a montanha. O ar era espesso e pegajoso e a ânsia que causava em Draco era tanta que ele ficou boas horas sem sentir a menor vontade de colocar alguma comida para dentro mesmo que isso mantivesse suas pernas trabalhando.
Apenas quando a exaustão se apossou dele e estava acostumado com o fedor pútrido de decomposição que o rodeava e começava a penetrar até mesmo seus poros foi que Draco jogou-se ao chão e se permitiu comer um pedaço de pão que trouxera e um gole de cerveja do cantil. A senhora podia ser rabugenta, mas sabia sovar bem uma massa, o pão estava delicioso.
Aproveitou a luminosidade alaranjada da lamparina para verificar o mapa e conferir o relógio de bolso. Percorrera um terço do caminho em questão de dez horas, seguindo esse ritmo conseguiria chegar à Lufa-Lufa antes do que previra.
Depois de ter certeza de onde estavam as pederneiras apagou a luz e encarou a escuridão que o engolia e um desespero se abateu sobre ele. Qualquer deslize e nunca mais veria o sol ou Hermione, na verdade não veria mais nada.
Claro que isso havia sido suficiente para que não conseguisse dormir, resolveu então seguir seu caminho pelos túneis em um ritmo mais lento que o anterior, estava cansado, mas preferia ganhar algumas horas agora e poder descansar depois com sua cabeça sobre um travesseiro macio e com um teto estável de telhas acima de si.
Enquanto percorria agachado os estreitamentos do túnel tentava reavivar a memória da cabana de Hermione para se distrair.
A tenda era azul, claro que era azul afinal parecia ser a cor favorita da mulher, sempre havia lago de azul com ela fosse o sapato ou um lenço.
Os móveis... bem não havia móveis, foi o que Draco lembrou enquanto se espremia mais pelo caminho tentando não pensar no quão apertada aquela passagem era.
Mas havia ao menos dois baús, um estava no fundo da cabana e era grande e de aparência pesada, provavelmente ela deveria guardar utensílios, candeias, rolos de linha, panelas e etc.
Já o baú aos pés do colchão deveria ser onde estavam seus vestidos, sapatos, perfumes e ervas. Será que guardara nele os dois livros que lhe dera? Os nômades não possuíam livros, tudo era passado através de suas histórias e Hermione era analfabeta em qualquer idioma quando se conheceram, apesar de ser uma poliglota nata na fala.
A faca que ela carregava consigo deveria ficar sob o travesseiro e Draco esperava que ela nunca tivesse tido a necessidade de usá-la de verdade, apesar que Hermione devia tê-la apertado com todas as suas forças quando a caravana fora atacada.
O túnel começou subir e Draco começou a impulsionar seu corpo com as pontas dos pés sentindo os músculos das panturrilhas aquecerem com o esforço enquanto o suor do corpo unia-se à umidade pegajosa que colava em seu corpo.
Quando estava chegando a uma bifurcação ele conseguia sentir o ar ficando mais fresco, já deveria estar chegando perto da superfície, lembrava-se que no mapa no meio da rota havia uma saída de emergência que levava à superfície e depois o túnel principal tornava à descer nas entranhas da terra, não podia se dar ao luxo de errar o caminho.
Parou na bifurcação que formava um perfeito “y”. Apenas com a luz da lamparina não conseguia distinguir qual caminho subia e qual não. Depositou a candeia no chão para procurar o mapa no bolso.
Foi quando ouviu um estrondo profundo e longe ecoar da abertura da esquerda. O som do leito rochoso deslizando sobre si mesmo, um atrito infernal e infinito escalando as frias paredes ainda em pé.
Sem nem mesmo pensar em recolher sua única fonte de luz Draco correu com todo o vigor que lhe sobrara pelo caminho da direita torcendo para que o desgraçado teto daquele lugar não desabasse sobre si e Hermione não virasse uma viúva dona de uma estalagem com um monte de marinheiros bêbados atormentando-a.
Quando o caminho inclinou para cima Draco não sabia se agradecia ou amaldiçoava, afinal era a rota certa, mas não tinha mais fôlego para manter o ritmo acelerado naquela inclinação, mesmo usando as mãos para ajudar na impulsão, tanto que na pressa de correr porque o som ficava cada vez mais alto e próximo, tropeçou caiu e sentiu instalar no tornozelo uma sensação de queimação latente.
Não dando atenção a isso continuou mancando até finalmente sentir uma corrente de ar e ver literalmente a luz no fim do túnel.
Quando se jogou para fora daquele buraco dos infernos Draco só pensou se realmente havia saído inteiro do lugar. Olhou para os braços e pernas e estavam inteiros apesar dos cortes e inchaços. Sorriu. Pelo menos até perceber que estava leve demais, então os lábios murcharam. Sua mala e sua capanga não estavam consigo.
A mala havia ficado junto à lamparina e já deveria estar soterrada, mas a capanga com certeza havia arrebentado, pois estava colada ao seu corpo. Levantou de um salto e virou-se em direção a bocarra que se abria ao pé da montanha apenas para vê-la dar seu último bocejo: poucos instantes depois a abertura cedeu.
Em um primeiro momento Draco ficou estático, no segundo foi até a abertura e tentou puxar alguns pedregulhos para ver se a obstrução era completa e profunda. Não era possível que aquela geringonça de mina tivesse durado tanto tempo e justamente agora resolvera suicidar-se levando todo o dinheiro que Draco trouxera. Mas tanto era possível que assim foi, a cada pedra que Draco tirava outra aparecia e cada vez maior que a anterior, o rapaz só parou quando escorpiões e opiliões começaram a surgir das frestas que ele revelava.
Caiu sentado frente aquele monte de rocha não acreditando em seu azar e começou a amaldiçoar tudo e todos. Amaldiçoou os países vizinhos, os marinheiros, a estalajadeira e o marido falecido que fizera túneis toscos e mal-acabados, e por fim se amaldiçoou, pois se tivesse tido a coragem de seguir com Hermione antes não estaria naquela enrascada naquele momento.
Olhou para trás e viu ao longe na linha do horizonte a cidade próspera de Lufa-Lufa com suas casas, jardins, comércios, boticas e torrezinhas. Suspirou e apertou os olhos para enfim abri-los, pôr-se em pé e seguiu para a cidade.
O único bem que lhe restara, além da roupa suja que usava e o cantil de água, era seu relógio de bolso, vendê-lo-ia na cidade e com o dinheiro alugaria uma carruagem para chegar à Corvinal. Olhando para seu último pertence percebeu que já estava no meio da tarde e precisava se apressar para achar uma loja de penhor aberta ainda naquele dia.
Depois de várias voltas andando pelas ruas parecendo uma assombração, ele finalmente conseguiu achar uma loja de penhores, porém o preço que a dona, uma tal de Senhora Sprout, ofereceu era simplesmente miserável. De acordo com a mulher na cidade havia uma relojoeiro magnífico. O Senhor Digory fazia relógios tão fantásticos que mesmo que ela comprasse o relógio de Draco era pouco provável que conseguisse vende-lo a algum cidadão local.
Morto de fome e cansaço Draco vendeu a peça no preço sugerido pela mulher que ainda tentou convencê-lo a vender o belo anel de prata e esmeraldas ao que o loiro deu uma resposta tão mal educada que fez a mulher corar pelo desaforo.
Com o mirrado saco de moedas em mãos Draco foi até a pensão mais humilde da cidade e pediu o quarto e a refeição mais simples que haviam. Faltavam apenas cento e cinquenta quilômetros e quatro dias para chegar onde queria, se administrasse bem seu dinheiro teria abrigo e comida suficiente para chegar lá, mas teria que ir andando.
Tamanho era o cansaço que Draco nem sequer lembrou-se de ter dormido até acordar sendo despejado do quarto na manhã seguinte.
Então o rapaz fez sua peregrinação até seu destino, comendo pouco, bebendo muita água todas as noites quando achava uma pensão para descansar e tentando não piorar a situação do pé machucado que já estava inchado ao ponto de quase não caber na bota. Na última noite antes de chegar ao seu destino nem dinheiro para a estadia tinha mais, optou por dormir no banco da praça pelo menos até o canto dos pássaros despertá-lo antes do amanhecer acompanhado de um guarda da cidade que tocou-o de lá e ele seguiu seu caminho.
Sobre os urzes, a luz do amanhecer brilha
Aves voam, onde elas vão estar amanhã?
Eu sigo o crepitar das asas nos campos sombrios
Músicas antigas ressoam na neblina
Na madrugada da manhã do dia de chegada da caravana à Corvinal, Draco já estava avistando a cidade no horizonte. Como previra, ao falar com um homem na rua descobriu que havia realmente uma caravana gigantesca na cidade. O acampamento estava parado na periferia oeste, mas os representantes haviam ido para a zona sul onde ficavam aglomeradas as maiores fazendas de grãos e o armazém da cidade, ao que parecia a compra seria enorme e daria um bom aquecimento ao comércio da cidade.
Draco seguiu mancando até a direção que o homem indicara, não antes de parar em frente à vitrine de uma loja e tentar arrumar-se o máximo que conseguia, mesmo assim parecia péssimo, pelo menos tomara um banho há dois dias, não estava fedendo... tanto.
Foi primeiro ao armazém e não encontrou ninguém lá. Os nômades ainda não tinham passado no local. Espertos, comprar direto com as fazendas fornecedoras diminuía o preço que teriam que pagar de atravessador e poderiam comprar mais alimentos com isso. Perguntou na venda qual a menor fazenda de grãos e a balconista respondeu prontamente ao rapaz lançando lhe um sorriso sedutor que foi também prontamente ignorado.
Quando estava entrando na alameda principal da fazenda que levava ao casarão ele estagnou vendo a pequena figura atravessando os campos de trigo olhando para o incandescente sol que elevava-se no horizonte.
Quando os campos virarem ouro
Nós nos veremos novamente
Saiu da rota e pulou descaradamente a cerca seguindo a trilha formada pelo trigo e outras ervas pisadas pela mulher. Ela estava com um longo e leve vestido branco que ondulava com o dourado do campo e os cachos soltos quando o vento passava. Ela estava triste, Draco aprendera ao longo dos anos que quando os nômades usavam cores muito sóbrias era mau sinal.
Seguiu-a mancando com passos lentos, pois queria apenas observá-la naquele momento enquanto seus delicados e habilidosos dedos passeavam sobre as hastes cujas pontas estavam cheias de ricos grãos macios.
Quando seu coração começou a bater tão forte que parecia que chamaria a atenção da garota por ele se o rapaz não se apressasse foi que ele resolveu chama-la.
— Hermione.
Ela paralisou no mesmo instante e se não estivesse de costas para o rapaz ele teria percebido o suspirar aliviado que saíra de seus lábios antes mesmo dela usar seus olhos para confirmar que ele estava realmente ali.
Tamanha era surpresa de Hermione que ela nem mesmo reparara no estado dos trajes do loiro, ela só via o quanto ele era lindo com o sol batendo em seus fios loiros quase brancos como o alvorecer e o quanto seus olhos fitavam-na como se fosse a coisa mais incrível que já haviam visto na terra.
— Draco. – só conseguia pronunciar aquelas duas sílabas, pois parecia que se falasse algo mais ele sumiria com o vento que soprava lateralmente a ambos.
— Eu finalmente percebi.
— O quê? – ela perguntou com a pulsação nos ouvidos já.
— Que nada vale mais a pena do que estar com você, e se você não pode ficar comigo em uma casa requintada na Sonserina porque isso não é o que você é tudo bem, você é zíngara Hermione, de povo e de espírito, e se me aceitar eu quero seguir uma eterna jornada ao seu lado.
Lágrimas saltavam dos olhos de Hermione, mas ela ainda não abrira o sorriso que cativara Draco e o levara até aquele lugar e momento.
— Você tem certeza disso? Porque esse é o meu sonho mais profundo se realizando e se você disser que quer ir comigo eu nunca mais vou te deixar, você não vai ter mais os luxos e os privilégios que tinha, a vida em uma caravana nem sempre é segura e fácil, tem certeza que quer isso?
— Você esqueceu algo importante comerciante nômade: ressalte as qualidades do seu produto. – ele brincou e sorriu timidamente para ela. – Vou acordar todos os dias com seu cheiro, seu corpo será minha alegria nos dias bons, sua alma meu conforto nos dias ruins. Vou poder conhecer cada mania e expressão facial sua e a cada dia que passar você me dará um pedaço de si e eu te darei um pedaço de mim até que não será possível não ser livre como você. Diga que ainda me quer mesmo eu tendo demorado anos para perceber que tudo que me basta é você. Dê-me a liberdade Hermione.
E lá estava a razão do viver de Draco: o sorriso de Hermione que despontava na face molhada da garota.
Ela aproximou-se lentamente dele e levou as mãos ao rosto do rapaz afastando as mechas teimosas que o vento rebelara. Beijou-lhe a testa como carinho, como fizera todos aqueles anos que teve que sumir na noite depois de se entregarem um ao outro e encarou os olhos cinzentos. Quanto amor e quantas tempestades poderiam caber em apenas um único olhar? Ela não sabia, mas teria uma vida inteira pela frente para descobrir.
E pela primeira vez, Hermione que era tão eloquente não possuía palavras, porque o que sentia era indescritível em qualquer idioma que conhecesse. Então entregou a única resposta que serviria.
Beijou-o profundamente.
Notas finais
Federkleid ??“ https://www.youtube.com/watch?v=zOvsyamoEDg
Sonnenreigen ??“ https://www.youtube.com/watch?v=JcP2kV6tGj4
Bom e aí o que acharam? Eu quis fazer essa Hermione bem amante da liberdade que há em si e no mundo e o Draco passando por um processo de encantamento e libertação através dela, por isso que ele perde até mesmo sua bolsa de dinheiro escolhida tão sabiamente. Eu queria que em algumas das minhas ones o Draco pudesse ter esse desprendimento e calhou que consegui inserir isso com os infortúnios dele.
Falando em infortúnio acharam que ia rolar mais uma reviravolta mirabolante na caminhada final não é? Eu até pensei em algo, mas deixei esses últimos dias dele mais amenos criando uma reflexão do próprio personagem.
Principais detalhes culturais da história:
??” Os Romanis migraram da Índia porque acredita-se que foram expulsos de lá vários militares de um exército e seus familiares e desde então durante séculos vêem praticando o nomadismo;
??” Eles são realmente muito tradicionais com relação à virgindade das jovens e alguns casamentos hoje ainda exigem dotes para se obter a mão da noiva;
??” Eles são muito ligados à figura do ouro por ser uma espécie de “moeda universal” que não perde valor, o que é importante quando migra-se de país o tempo todo;
??” Por essa razão também são um povo habilidoso com trabalhos manuais inclusive para a forja e joalheria;
??” No hinduísmo o uso da cor branca indica viuvez, por isso Hermione utiliza essa cor desde que parte acreditando que nunca mais veria Draco;
??” A tradição das leituras da mão surgiram realmente como algo para gringo ver, por isso Hermione é tão cética à esse fato, mas alguns poucos relatos dizem que incorporou-se tanto à algumas culturas Romanis que eles adotaram as práticas entre si;
??” Quanto a questão da dispersão da cultura e aceitação de estrangeiros encontrei dados muito ambíguos, alguns dizem que eles aceitam sim estrangeiros que queiram seguir sua cultura e outros dizem para pertencer aos grupos ciganos apenas nascendo um, então é ponto que não quis trabalhar no texto para não pecar nesse aspecto.
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