Yume no Kakera (2.0)

2 Nada mais importava


Notas iniciais
ATENÇÃO: Capítulo reescrito, como eu tinha comentado antes. Espero que gostem das mudanças.

Os primeiros raios de sol já entravam pela fresta da delicada porta da cabana de madeira, quando eu tomei coragem para levantar. Poderia ficar a manhã inteira ali deitada, observando o hanyou que dormia tranquilamente ao meu lado. O fios de seu cabelo prateado brilhavam sob a luz suave, e as orelhas caninas tomavam lugar das orelhas humanas de horas atrás. Sempre ficava encantada com as transformações de Inuyasha, mas até então nunca havia visto tão de perto. Sorri ao lembrar o quanto ele detestava ser um hanyou: metade humano, metade yokai. Mas era exatamente essa mistura, que o faziam ser o que era.
Como o amava, pensava enquanto delicadamente brincava com uma das mechas do seu longo cabelo. O homem e o yokai, amava ambas as fases igualmente. Não conseguiria viver se não encontrasse aqueles olhos, ora teimosos olhos dourados, ora doces olhos castanhos, presos nos meus.

“É, Kagome. Que roubada você se meteu, hein...” ri baixinho, enquanto vestia meu uniforme escolar.

Estava entregue, amarrada, totalmente derrotada sem direito a defesa.
Não adiatava lutar, meu coração pertencia definitivamente ao garoto mais teimoso, grosseiro e irritante que eu conheci em toda minha vida.

Saí da cabana, na pontas dos pés, como uma fugitiva. Inuyasha nem se mexeu para minha surpresa, e estando ele dormindo mesmo ou não achei melhor dessa forma. Precisava de tempo para colocar meu coração e cabeça no lugar, porque naquele momento parecia que um furacão tinha passado por mim, bagunçando tudo. Respirei fundo, enquanto caminhava pelo vilarejo abandonado. Minha vida tinha mudado tanto desde que eu cheguei aqui. Eu não era mais a mesma estudante de 15 anos, assustada e confusa numa era tão distante da sua. Aprendi muito, e apesar de sentir falta da conveniência de ter um banheiro com água quente do lado de quarto, ou uma geladeira cheia quando a fome aperta, aprendi a amar a simplicidade e a beleza rústica da era feudal. Fiz amizades verdadeiras, afinal, “nada junta melhor um grupo de pessoas do que destruir meia dúzia de yokais por dia”.

“Já estou pensando que nem o Inuyasha” -Ri sozinha.

Inuyasha... Perguntava-me se tudo tinha sido um sonho, e em breve o despertador iria tocar para me avisar que estava atrasada para o colégio. Apesar de todo mundo saber que eu era apaixonada por ele, nunca trocamos mais do que alguns abraços e andamos de mão dadas uma vez... Apesar da crises de ciúme que ele tinha do Kouga, Inuyasha nunca demonstrou gostar de mim de uma forma mais... física. Tentava me lembrar o que havia acontecido na noite anterior e mudado tudo.

“-Eu já te disse um milhão de vezes, que você NÃO vai sair dessa cabana! -Enfatizei já bem alterada.

“Por Deus, que garoto teimoso!”- pensei desanimada enquanto os resmungos dele gradativamente se transformavam em silêncio.
Com um graveto, ajeitei os últimos pedaços de lenha na pequena fogueira. Seria uma longa noite, pensava desanimada. Miroku estava certo, e ele sabia disso. Sair da cabana estando em sua fase humana seria um risco desnecessário.Tínhamos muita sorte de até então o Naraku não ter descoberto que Inuyasha se transformava na primeira noite de lua nova, aquela criatura já era poderosa o suficiente para nos matar mesmo sem essa informação. Mas parecia que Inuyasha se fazia de surdo e cego para tudo quando havia a possibilidade de encontrar o monstro que acabou com a vida de tantas pessoas, incluindo a dele há cinquenta anos.

–Kouga-kun não conhece o Naraku como nós, Inuyasha. -Comentei quebrando o silêncio. -O cheiro que ele sentiu pode ser da Kagura, ou qualquer outra cria dele.

–Mas e se for?! -Ele socou o chão de repente, me assustando -Estamos aqui perdendo tempo!

–Perdendo tempo? -Levantei irritada. Como ele podia ser tão burro? -Ter o mínimo de juízo é perder tempo para você? Naraku está esperando pacientemente uma oportunidade para conseguir a Shikon no Tama Inteira, e acabar com todos nós! Ele não tem coração, não tem misericórdia de nada nem ninguém! Se nos esconder por uma única noite é tão ruim assim, tente se lembrar do que aconteceu mês passado, quando tivemos que lutar com um Oni que tinha apenas dois fragmentos. Imagina o que teria acontecido se fosse Naraku, com a Jóia quase completa?!

Ele me olhou chocado por um instante. Mas voltou a cruzar os braços, e bufar como o de costume. Deixei o corpo escorregar pela parede da cabana. Era sempre assim. Durante todo esse tempo andando juntos, ele continuava um cabeça-dura, imaturo, não via um palmo a frente dele. E por causa disso que no mês anterior, tivemos uma luta seríssima em que escapamos por sorte. Um Oni nos atacou pouco tempo antes do sol se pôr, e era a primeira noite sem lua do mês. Inuyasha perdeu os poderes, e o monstro era muito poderoso. E por mais que lutássemos, não conseguimos nenhum resultado. O Oni queria meus fragmentos, e nos mataria para conseguir isso. Felizmente, Kouga apareceu e começou a lutar com Oni para que pudéssemos fugir. Inuyasha quis continuar lutando, mesmo muito machucado. O orgulho falava mais alto que qualquer dor física. Derrotamos o Oni ao amanhecer, mas pagamos um preço: Sango se machucou gravemente e mesmo com os remédios da minha Era e se passando quase um mês do ocorrido ela ainda sentia dores. Miroku quebrou um dos braços, ficando impossibilitado de usar a Kazaana de forma segura. Eu e Shippou fomos os menos prejudicados, tive apenas algumas escoriações pelo corpo, e um corte feio na cabeça. Instintivamente, passei os dedos pela fina linha quase cicatrizada na lateral da minha testa. Tivemos sorte uma vez, não deveríamos abusar.

–Está doendo? -Seus olhos castanhos me olharam preocupados.

–Não... -Sorri para confirmar, mas ele não pareceu convencido.

Ele levantou e caminhou na minha direção, ajoelhando-se na minha frente. Fiquei um pouco atordoada com a súbita aproximação. Seu rosto a centímetros de distancia dos meus, e tão perto que mesmo com a fraca iluminação da fogueira, conseguia ver pequenos traços dourados perdidos em sua íris quase negras, que nunca tinha reparado antes. Pareciam estrelas brilhando distantes e solitárias numa noite sem lua. Deveria me sentir envergonhada por encara-lo tão descaradamente, mas era tão mágico que eu não conseguia desviar o olhar mesmo se quisesse. Ele esticou a mão e tocou suavemente na minha testa, sua pele humana era ligeiramente mais quente de quando ele era hanyou, e mais macia. Ele desenhou com o dedo indicador a linha da cicatriz, pressionando ao fim dela.

–Ai!

–Eu sabia. -Ele cruzou os braços. -Ainda está doendo, sim.

– É só um cortezinho, não seja exagerado. -Na verdade, tinha gritado mais pelo susto do que por dor. Sim, machucado ainda estava um pouco dolorido, mas se deixasse ele quietinho nem lembraria que ele existia.

–Isso tudo por minha culpa. -Inuyasha murmurou tão baixo que eu fiquei na dúvida se falava comigo ou consigo mesmo. -Se fosse um yokai completo, isso não teria acontecido...

–Tem razão, Inuyasha. –Ele me olhou supreso. A tristeza e culpa estampados nos seus olhos. –Se você fosse um yokai completo nada disso teria acontecido. Sango não teria se mantido viva por Naraku para se vingar de você, provavelmente teria sido morta apenas pelo prazer dele de matar. Miroku andaria por ai, amaldiçoado, sem a menor chance de se salvar, sendo um dia sugado pela kazaana. Shippou provavelmente teria sido morto pelos irmãos trovão quando tentasse vingar a morte do pai. Naraku teria conseguido a Shikon no Tama há cinquenta anos, e eu jamais teria vindo para essa era. Você não entende?! Se você não fosse parte humano, NADA teria acontecido porque nós nunca teríamos nos encontrado!

–Kagome...

Ele me olhou chocado. Estava muito irritada, como ele podia pensar que ser um pouco humano era ruim? Conhecemos pouquíssimos yokais bondosos em nossa jornada, grande maioria cruel, sedentos de sangue e poder. Sim, encontramos humanos ruins e perversos, mas eram minoria, muita das vezes usados como marionetes para yokais mais fortes. Inuyasha já havia se transformado em yokai completo quando sua vida esteve em perigo, como ele podia preferir ser um monstro sem coração, a ser quem ele era? Leal, amável e caridoso?

– Será que você não consegue ver o quão... especial você é para mim sendo exatamente como é?- Deixei as palavras escaparem de mim. Era tão doloroso pensar na possibilidade de não o ter conhecido, que todas as minhas defesas ruíram. As lembranças da difícil batalha que tivemos, ainda assombrava meus pensamentos. Seu corpo ensanguentado, usando as poucas forças que lhe restavam para me proteger... O medo que eu senti naquele momento de não poder mais ver seu sorriso sarcástico quando implicava com Shippou, ouvir seus resmungos quando eu falava “Osuwari”, nunca mais sentir a segurança que só ele conseguia me passar quando me carregava em suas costas... Olhei fundo naqueles olhos preciosos.- Será que você não consegue entender o quanto eu te amo, Inuyasha?

Senti meu rosto queimar com a declaração, mas não recuei. Era verdade, eu o amava, e não deveria me envergonhar por dizer isso. Apesar de nunca ter verbalizado isso antes, isso sempre esteve estampado na minha cara, para todo mundo ver. Respirei fundo, já estava feito.
E por mais que eu o conhece como a palma da minha mão, por mais que eu me esforçasse jamais conseguiria imaginar a reação que ele teve.
Ele esticou uma das mãos, a mesma que havia tocado na minha testa antes, e acariciou meu rosto com as costas dos dedos, começando pelas minhas têmporas e parando no meu queixo.
Seu olhar parecia queimar os meus, com uma ternura que eu nunca havia visto.

– Não, eu realmente não entendo o porque de você me amar. -Seus dedos mantinham meu queixo erguido e eu poderia jurar que vi seu rosto corar. – Mas, eu... Eu queria que você soubesse que...

–Shhhhhhh- silenciei seus lábios com o dedo indicador quanto ele lutava com as palavras. -Não precisa falar mais nada.

E com o coração batendo descontroladamente no peito, eu o beijei.
Ele me amava, eu o amava, e depois de tanto tempo sonhando com esse momento, eu estava em seus braços. Sango e Miroku podiam entrar na cabana naquele instante, Naraku podia aparecer querendo vingança, o mundo podia tremer e se partir em dois. Nada mais me importava, enquanto aquelas mãos firmes dançavam pelo meu corpo. Explorando, saboreando, entorpecendo numa mistura de sons, pele e alma. Um caminho até então desconhecido que trilhávamos juntos, sem pressa, e sem destino. Exatamente como deveria ser.”

Um calor que nada tinha haver com o sol que já brilhava alto no céu, subiu pela minha espinha e queimava meu rosto. Não que eu estivesse arrependida, muito pelo contrário, mas me perguntava que eu falaria para Sango e os outros. Afinal, eu tinha entrado na cabana para ver como estava o humor do Inuyasha após a discussão em grupo que tivemos sobre ele ter que se esconder durante a forma humana, e disse que voltaria para avisa-los quando tudo estivesse sobre controle. E eu não apareci, obviamente. Graças a Deus, que meus amigos apesar de fofoqueiros sabiam respeitar nosso espaço. Quase dei meia volta e fui conversar com Inuyasha sobre isso, pois se fôssemos inventar uma desculpa, ela teria que ser no mínimo a mesma. Mas eu estava envergonhada demais para isso. Como se ali, na luz do dia, estando ao ar livre a minha ficha tivesse caído. Não sabia o que falar com ele. Aliás, nem sabia o que falar nesse tipo de situação, já que nunca tinha estado tão próxima de um garoto antes. Na verdade nunca tinha estado com um garoto e ponto, corrigi me mentalmente. E por mais que viesse da era moderna, não conseguia me ver comentando casualmente sobre a noite passada, como muitas mulheres faziam em filmes de hollywood. Mas não podia agir como se nada tivesse acontecido, também. Me sentei em cima de um barril de vinho, apoiando a cabeça nas mãos.

“O que eu faço?”- suspirei pensando como seria bom se existisse um livro sobre relacionamentos com hanyous.

Mas meus pensamentos hipotéticos foram interrompidos por um forte tremor de terra.
Tão forte que o barril virou e eu caí de costas no chão. Tentei me segurar em alguma coisa, para me levantar, mas o tremor aumentava cada vez mais.
Um shikon no kakera se aproximava vindo diretamente na minha direção, e eu me xinguei mentalmente por não estar com meu arco e flecha.
Como eu temia, um grande Oni abriu saiu de baixo da terra, parecendo uma toupeira gigante, com olhos e pele de lagarto, farejando na minha direção.
Agarrei meus fragmentos da joia no peito, com dificuldade me levantei aproveitando que os tremores pararam e comecei a correr.
O monstro voltou a andar em minha direção, a cada passada a terra balançava tanto que minhas pernas vacilavam, mas eu não parei. Ele não podia pegar meus fragmentos, ou ficaria mais forte do que já era. Antes que eu pudesse gritar, sua mão gosmenta e gigante me ergueu no ar pela cintura. Fechei os olhos tentando me soltar do aperto de aço do monstro, já sentindo o ar fugir dos meus pulmões.

–KAGOME!!

Mal escutei a voz conhecida gritar meu nome, o aperto parou e eu me vi caindo em queda livre ainda presa na mão –agora decepada- do monstro. E poucos metros antes que eu batesse mortalmente no chão, braços firmes me seguraram, pousando suavemente.
Abri os olhos e encontrei um par de íris âmbar me encarando preocupadas.

–Estou bem- Respondi a sua pergunta silenciosa- Obrigada por me salvar.

Com cuidado, Inuyasha me colocou no chão e se virou para encarar o monstro que urrava de dor. A Tessaiga ainda pingava com o sangue da criatura quando o hanyou atacou novamente.
Mas o Oni não cairia no mesmo golpe, se esquivou facilmente de Inuyasha, arremessando-o para longe com sua calda cheia de espinhos.
Gritei desesperada quando o corpo dele bateu no chão. Inuyasha estava sem o Kimono de rato-de-fogo, e seu peito desnudo sangrava muito. E quando ele se virava para tentar me capturar novamente, um objeto voador cortou seu outro braço fora.

“Hiraikostu”- pensei ao ver o gigante bumerangue da Sango retornar para as fortes mãos da guerreira.

– Kagome-chan você está bem?- a garota gritou de cima da Kirara.

– Sim!-gritei de volta- Mas tenham cuidado, ele tem um shikon no kakera dentro da boca!

– É isso que ele está se achando tanto!- Inuyasha riu, levantando a Tessaiga acima da cabeça.- Mas a brincadeira acabou.

Conhecia esse movimento e sem que ele precisasse falar nada, corri para atrás dele. Kirara se afastou, voando alto, ficando numa distancia segura.
Kaze no kizu, Inuyasha conseguia enxergar e atacar com a espada o centro da ferida do vento, um poder capaz de matar centenas de yokais de uma só vez. Com esse golpe, o monstro não teve chance de defesa, e foi transformado em milhares de pedacinhos.
Respirei aliviada, tinha acabado.
Sango pousou com Kirara, e só então eu reparei que Miroku e Shippou também estavam montados nela.

– Está todo mundo bem...?- O monge perguntou mais para confirmar descendo da yokai gato.

Inuyasha guardou a Tessaiga na bainha, e eu pude ir para frente dele analisar seus ferimentos. Eram fundos, no entanto não sangravam mais. Por ser parte yokai, Inuyasha se curava incrivelmente rápido, mas mesmo sabendo disso uma parte de mim precisava ver com os próprios olhos as feridas se fechando para se acalmar.

Miroku olhava atentamente os pedaços do Oni espalhados pela grama.

–Inuyasha, você também está achando muito estranho?- o monge comentou mexendo com seu bastão em um dos pedaços.

Olhei para o hanyou, que ainda estava com o rosto tenso.

–Sim. -Ele comentou por fim.- Foi fácil demais.

–Parem de reclamar da sorte- Shippou comentou- O cara virou picadinho e é isso ai.

– Shippou tem razão, acho que esse Oni só tinha tamanho. – Sango comentou pegando Kirara agora em sua forma portátil no colo.

– Mas esse vilarejo está deserto.-Miroku insistiu- Não há homem, mulher criança ou velho por aqui. Nem mesmo animais.

Ele tinha razão. A aldeia estava absolutamente deserta, era quase como uma vila fantasma. Ficamos o dia anterior inteiro procurando pistas do que poderia ter acontecido sem sucesso.

–E se os aldeões se esconderam?- Todos me olharam confusos.- Pensem bem, não encontramos nenhum cadáver ou ossos. E esse carinha ai não parecia ser capaz de devorar a vila inteira sem deixar rastros.

Era uma ideia maluca, mas fazia sentido. Mesmo que não encontrássemos alguém, passar mais algumas horinhas ali procurando não nos custaria muito. Comecei a procurar entre os pedaços o shikon no kakera, encontrando-o no maior pedaço do monstrengo. Estiquei a mão para pegá-lo, me arrependendo em seguida. Quando me aproximei pra pega-lo, milhares de espinhos foram acionados cravando na minha palma. Gritei de dor soltando o fragmento, sangue escorria da minha mão formando uma poça no chão.
O fogo que começava a queimar pelas minhas veias, não me deixavam dúvidas: tinha sido envenenada.