Yume - Diário de Sonhos
6 Os Três Corvos — Melissa
Notas iniciais
Desperto dentro de meu próprio sonho.
Neste cenário, via-me em meu quarto; uma réplica onírica idêntica ao quarto original, à propósito. Era madrugada, cerca das três da manhã. Encontrava-me insone, e, no ambiente abafado de primavera — que era a estação em que estava quando tive o sonho —, decido abrir a janela para me refrescar com a brisa noturna. Era uma noite sem luar, e, sem a vigília da Lua, aves negras como a noite grasnavam nos pinheiros nos fundos do grande jardim arborizado.
Inspiro o ar da noite e retorno ao leito, ainda com a janela aberta. O aroma inebriante da noite me entorpece até que eu adormeça, como se abraçada por Morfeu.
Tudo isso, todavia, ocorreu ainda no sonho, e este sonho se perpetua até a última palavra deste capítulo. Nenhum de meus despertares foi real; quando cochilei, agora há pouco, digo que cochilei no sonho.
Acordo com os grasnares cada vez mais próximos, e perscruto o quarto com os olhos semiabertos, vendo três sombras que não estavam ali antes.
Uma das sombras, que pertencia a um corvo, quase se mesclava à penumbra do quarto. A única luz vinha de um dos postes de ferro decorativos — mas, ainda assim, funcionais — do jardim, e entrava pela janela sorrateiramente. A silhueta lustrosa da ave "digna de antigos dias"¹ guardava a minha janela. O corvo estava prostrado no umbral da janela, o olhar estreito vigiava o ambiente externo, enquanto os outros dois corvos entravam no quarto.
Um deles trazia no bico um livro fino de capa de couro, que parecia artesanal. Em uma de suas patas, estava amarrado um pequeno saquinho marrom, mas aquele não parecia um empecilho significante para seu vôo. Já o outro, me causou espanto por carregar dois livros iguais aos do outro corvo, um no bico, e outro amarrado à pata, sem que aquilo atrapalhasse a sua aerodinâmica.
Eles pareciam sérios e sóbrios, com as penas bem ajeitadas; o corvo da janela, no entanto, tinha algumas penas arrepiadas na nuca, mas em compensação, tinha os olhos mais estreitos que já vira.
Algo que me espantou nesses três corvos foram os seus olhos. Não eram negros, como a maioria dos olhos de corvo, mas sim âmbares, com algumas manchas mais escuras e outras mais claras, como aquarela. Os dois corvos que pareciam mensageiros, a julgar pelo o que carregavam, pousaram em minha cama e seus olhares solicitavam a minha ajuda para tirar aqueles objetos amarrados à eles.
Desamarrei o saquinho e o livro de suas patas, e eles já haviam largado os outros livros sobre meu colchão. Eram três livros no geral; e, diferente do que imaginei, não eram iguais. Embora tivessem a mesma capa de couro, e as páginas costuradas e amareladas, cada um deles tinha um nome, e apenas isso.
"Ramona", li no primeiro. "Úrsula" e "Verbena" eram os nomes dos outros dois. Desfiz o nó que amarrava o saquinho para ver seu conteúdo, e encontrei uma bela pulseira com contas arredondadas de olho-de-tigre, e não pude deixar de notar a semelhança das pedras para com os olhos dos corvos.
Movi minhas mãos para abrir o livro de Verbena, e foi então que acordei.
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