Yume - Diário de Sonhos
12 Contrabando no Deserto (Isabel)
Notas iniciais
A cidade era simples. O chão da rua e as pedras das paredes eram exatamente do mesmo amarelo claro que a areia que flutuava próxima aos meus pés, levada pelo vento. As construções modestas de um a dois andares eram formadas por blocos simples de paredes quase lisas, com exceções somente para janelas e portas. A despeito da aparência discreta, porém, várias pessoas andavam por ali, ao ponto de as ruas ficarem coloridas com as roupas em tons de marrom e vermelho, além de várias outras cores de tecido.
Eu precisava comprar comida para um bichinho de estimação. Não sei se era meu ou de alguém que eu conhecia. Eu já sabia as direções, e andava com objetividade, mas sem me apressar muito.
Chegando lá, falei com o moço atrás da bancada e disse o que precisava, ao que ele pediu que eu esperasse ali. A pet shop era mais simples ainda; ao invés de paredes, havia lonas iguais às de uma barraca. Não havia porta e o chão era o mesmo da rua. Apesar disso, eu sabia que o lugar era confiável, por ter ouvido falar dele. Enquanto esperava, resolvi dar uma olhada ali.
E então, tomei meu primeiro susto.
As “paredes” às minhas costas, ao lado da porta, eram cobertas do chão ao teto por jaulas empilhadas umas nas outras. A maior delas dificilmente alcançaria minha coxa, e eu nem era uma das pessoas mais altas que eu conhecia. Mas não foi isso o que mais me chocou.
Sentindo o sangue pulsar em meu corpo e meu coração acelerar, me virei para o outro lado, apenas para me deparar com o olhar do lojista focado em mim.
— Você pode vê-los — afirmou ele, percebendo.
Eu sabia o que devia ver ali. Cachorros, gatos, coelhos. No máximo, uma arara ou calopsita.
Mas ao invés disso, tudo o que eu via eram pessoas. Pessoas de várias cores, tamanhos, idades, gêneros. Todas vestidas com roupas velhas e gastas, pedindo socorro e tentando enfiar os braços finos através das gaiolas. Elas olhavam para mim, desesperadas, apertadas em seus espaços minúsculos como possível.
Pelo tom do homem, eu soube de imediato que estava em perigo. Minhas pernas correram antes mesmo que eu me lembrasse delas, e a última coisa que ouvi foi ele gritando alguma coisa para alguém.
Eu corri, corri, corri. Corri o máximo possível, mas àquela hora, a quantidade de pessoas na rua era absurda. Eu tentava criar passagem, me aproveitando de meu pouco tamanho e minha agilidade para me esgueirar por todas as frestas possíveis.
Finalmente, cheguei a uma esquina tripla.
Porém, nesse momento, eu vi pessoas estranhas à minha frente. Um grupo de homens tentando passar pela multidão, olhando fixamente em minha direção. Recuei e tentei ir pela outra rua, à minha direita, mas logo pude ver pessoas parecidas, também correndo até mim. Tentei voltar, mas não demorei a localizar o homem da loja, também acompanhado.
Eu estava cercada.
Nesse momento, ouvi uma voz.
— Ei! Suba aqui!
Olhei para os lados. Entre a rua atrás de mim e a à minha direita, havia uma pequena construção de dois andares, seguindo o modelo simples e liso das outras. Enquanto eu olhava, uma corda de um tecido branco, cheia de nós, foi jogada pela janela do segundo andar e desceu até quase a altura do chão.
Talvez fosse um risco, mas de qualquer forma, eu já estava ferrada. Além disso, eu pude sentir certa confiança por sua voz. Talvez pelo jeito como falava, ou por ele parecer mais jovem do que os outros, ou então por algum outro motivo. De qualquer forma, corri até a corda e comecei a subir.
Assim que cheguei à janela, pulei para dentro. Minhas mãos doíam, meu coração batia forte e eu ofegava desesperadamente, ao ponto de mal perceber a figura passando por mim para recolher a corda.
Depois de respirar por longos instantes, me virei para a pessoa que me salvara.
O rapaz devia ser quase adulto, ou pouco mais velho que um. Sua pele era de um dourado moreno meio claro para os padrões dos moradores dali, talvez por ficar muito tempo dentro de casa. Seus cabelos eram castanho-claros e suas mãos, fortes.
Ele olhava pela janela, agitado.
— Acho que conseguimos despistá-los. — falou.
— O… obrigada — agradeci, ainda sem conseguir respirar muito bem.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas antes que pudesse fazê-lo, fomos interrompidos pelo som alto de uma porta batendo atrás de mim.
Quando me virei, fiquei paralisada.
Era o homem da loja.
— Há! Eu sabia que a encontraria aqui — disse o homem, com um tom que misturava sarcasmo e alguma coisa que eu não soube definir. — O que acha que está fazendo, filho?
Filho. Não consegui me mexer, nem mesmo para olhar para trás, onde agora estava o rapaz. Só o que conseguia era olhar para o homem à minha frente, imóvel, como um animal selvagem que tenta desesperadamente passar despercebido por seu predador.
Mas infelizmente para mim, eu já tinha sido descoberta.
— Mas, pai, vocês sempre ficam com todas! — ouvi o mais novo dizer. Porém, percebi algo no jeito como falava; um esboço de insegurança, talvez sutil demais para eu ter certeza. — Eu gostei dessa e quis pegá-la para mim. Tem algum problema com isso? Não posso?
O homem pareceu desconfiar um pouco. Mas acima disso, eu vi um sorriso cruel se desenhar em seu rosto. Ele estava se divertindo.
— Bom, se isso é tudo o que te motiva, acho que não vai ter problemas em ensiná-la algumas lições, certo? — disse ele. — Afinal, ela tentou fugir.
Dizendo isso, ele jogou para o filho um objeto que trazia em sua cintura. A ponta de corda de couro se desenrolou de sua punhadura enquanto passava por cima de mim.
Eu não soube quanto tempo se passou até eu sentir o impacto do couro contra minhas costas.
Soltei um grito enquanto me encolhia, quase desabando com a surpresa. A dor aguda ficou desenhada em meu corpo, mesmo depois que a superfície já não estava mais tocando minha pele.
Mais uma vez, senti o golpe me queimar, enquanto gritava outra vez.
A dor se repetiu mais várias vezes. Toda vez eu me encolhia, tentando escapar, mas não adiantava.
Porém, depois de algum tempo, eu percebi que os golpes estavam começando a doer menos.
É claro, ainda era horrível. Minha pele já devia estar desgastada por baixo do tecido, e ardia terrivelmente. Porém, o impacto do couro parecia diminuir a cada golpe, como se ele me acertasse com menos força. Ao notar que o som que retumbava em meus ouvidos a cada vez não diminuía em conjunto, eu soube o que ele estava tentando fazer.
Depois do que considerou “o suficiente”, o homem da loja sorriu e elogiou o filho por sua performance. E então, se retirou, fechando a porta às costas.
Por alguns momentos que pareceram se prolongar por minutos, nenhum de nós dois ousou mexer um músculo ou falar uma palavra. Finalmente, senti minhas pernas cederem sob meu peso e caí no chão.
— Me desculpe — pediu o rapaz, ao se precipitar em minha direção. Sua voz irradiava culpa. — Era o único jeito de meu pai não te levar de volta…
— Está tudo bem. — respondi, a voz tremulando um pouco. — Eu entendi.
Não consegui me forçar a falar “obrigada” pelo que ele tinha feito, mas tentei transmitir minha intenção em minha voz.
Depois desse dia, decidimos que não seria seguro para mim andar sozinha. Se me visse sem o filho, o homem com certeza não ia ser tão “gentil” quanto da última vez (ainda mais porque ele corria o risco de eu denunciar seu negócio; dificilmente me deixaria viva se achasse que eu podia fugir). Por isso, começamos a ir juntos para todos os lugares, mas tentávamos sempre evitar o pai dele, para que não tivéssemos que atuar de novo.
O garoto me contou que sempre soubera dos negócios do pai, e sempre fora contra. Porém, como um único garoto cercado de pessoas que trabalhavam para o pai, nunca conseguira fazer nada a respeito.
Um dia, fomos a um “cinema” que havia por ali. Em teoria, era exatamente como um cinema — cadeiras em fileiras uma atrás da outra, enquanto um filme era projetado numa tela grande à frente da sala. Porém, o lugar era minúsculo (dificilmente cabiam lá mais do que vinte pessoas), assim como a tela, e o lugar estava sempre relativamente claro, por não ter uma porta que fechasse a sala. Ao invés disso, a abertura dava diretamente para o lado de fora, então os reflexos do sol no chão iluminavam um pouco cada centímetro do lugar.
Vários dias deviam ter se passado desde o incidente. Eu não estava mais insegura para fazer qualquer coisa que fosse e eu já quase não sentia minhas costas, e até estava me divertindo um pouco com o filme. Como a cadeira era meio desconfortável, apesar do acolchoamento, eu disse para meu acompanhante que ia esticar um pouco as pernas e andei até a porta para o lado de fora.
Alonguei os braços e as pernas, e já estava me preparando para voltar quando o homem apareceu à minha frente.
— Silêncio. — disse ele, com uma voz que pareceu penetrar fundo em meus ossos. — Não queremos que meu filho escute.
Pensei no garoto, sentado na cadeira da primeira fileira há poucos metros de mim. Ele estava tão perto, mas eu não podia pedir ajuda.
Dessa vez, o homem tinha uma arma de fogo, que ele apontava diretamente para mim.
Seguindo suas ordens, nós dois nos afastamos ainda mais da porta, mas nunca muito longe da parede do lugar onde estava o cinema. A cada instante eu sentia a arma mortal, apontada diretamente para meu peito.
— Meu filho tolo acha que não sei o que ele anda fazendo. — disse o homem, em um tom teatral de desapontamento. — Oras, eu sou o pai dele! É óbvio que conheço o menino que criei.
Nesse momento, ele olhou para mim. Senti meu sangue gelar.
— Sabe, você pode não perceber isso agora, mas está sendo uma má influência para ele. Ele pensa que toda essa história de salvar donzelas em perigo faz dele uma espécie de herói ou algo do tipo, mas a única coisa que ele está conseguindo é se distanciar do negócio da família. Desse jeito, ele vai acabar com seu futuro.
Ele ergueu novamente a arma. Dessa vez, ele a apontava para a minha cabeça.
— Não é nada pessoal. Espero que entenda. — disse. — Por favor, se vire para a parede, sim?
Meu coração parou de bater por um momento. Minhas mãos gelaram. Todos os meus instintos gritavam “não!”, mas eu não podia dizer “não” para ele — não com o cano apontado para mim.
Impotente, me virei como ele dissera. A proximidade com a parede clara era claustrofóbica; minha testa e minhas mãos roçavam sua superfície, me deixando ainda mais ciente do fato de que não havia uma saída para mim.
Ouvi o clique da arma às minhas costas.
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