Yu-gi-oh! GX Duel Academy - Chapéu Vermelho
6 Capítulo 6 - As circunstâncias Dele e Dela.
Notas iniciais
Mais uma vez estávamos na praça de alimentação da academia, mas não vi sinal de Alexis ou de qualquer um dos Obeliscos que haviam me atormentado antes, e tantas vezes mais. Olhares ainda me seguiam para onde eu fosse, uma vez que me reconhecessem, parando apenas para se entreolhar e cochichar em segredo. “Quando vão achar um assunto mais interessante?”, eu me perguntava.
Jaden Yuki seguia à frente, conversando avidamente com Syrus. Blair andava com as mãos atrás das costas, um maneirismo feminino demais para seu disfarce. Mais e mais eu passava a admirar como, mesmo com todos esses trejeitos de menina em sua linguagem corporal, Blair ainda conseguira manter todos nós do Slifer no escuro sobre sua identidade.
–“... Não é, Blair?” – Jaden Yuki virou-se para falar. Ela assetiu com a cabeça uma vez. Parecia estar prestando mais atenção no fala-fala dos dois do que eu. – “Vocês estão muito calados aí atrás!” – Afirmou inocentemente o Slifer.
Sentamos numa mesa no primeiro andar da praça. Vários estudantes se aglomeravam em mesas e em pé ao nosso redor. Alguns jogavam monstros de duelos sem a ajuda de seus discos, nas mesas, do modo convencional. Alguns outros estavam trocando cartas, com malas cheias de cartas catalogadas como num álbum de figurinhas abertas e disponíveis aos potenciais interessados. Minha maleta era vazia demais e muito cheia de cartas comuns para esse tipo de atividade, pensei.
Jaden ofereceu-se—ou melhor, insistiu—em anotar os pedidos de cada um de nós no grupo e cuidar do caixa, e por isso deixou a mesa apenas para mim, para Syrus e para Blair. Blair e Syrus conversavam entre si, mas eu não realmente consegui acompanhar a conversa. Súbitamente, à distância, escutamos um “Eeeeei!”, e a figura robusta de Chumley veio veloz em nossa direção.
–“Vocês não vão acreditar!” – Falou Chumley, exasperado e ofegando. Ele puxou uma das cadeiras mais próximas e sentou-se, arfando. – “S-só um... Momento... O fôlego...” – Ele afirmou. Syrus abanou o rosto dele com as mãos, embora provavelmente não fosse necessário; nem suando ele estava. Eu dei tapinhas nas costas dele, amigavelmente. – “Obrigado... Obrigado. Já me sinto... Melhor.” – E antes de ser incitado a isso, continuou com seu anúncio: — “Vocês não vão acreditar! Robert, aquele estudante do Ra que eu falei pra vocês, escutou de Michael que escutou de Danica que escutou de James, que alguns estudantes do Obelisco estão...” – E então ele abaixou a voz para um sussurro. – “Estão vendendo cartas raríssimas. Eles têm de tudo, cara!” – Um grupo de estudantes do Ra pareceu tomar interesse na conversa do Chumley. Eu ainda não estava convencido. – “Disseram ver um Slifer sair do covil secreto deles com uma carta do Dragão Branco de Olhos Azuis!”
O Dragão Branco de Olhos Azuis era uma carta lendária. Seto Kaiba, o fundador da academia, na sua juventude, foi a única pessoa a ter as três cópias jamais imprimidas dessa carta no mundo. A quarta e última cópia tinha sido destruída por razões misteriosas. Seto Kaiba usou essas três cartas, e a carta de fusão delas, o Dragão Final de Olhos Azuis, tanto no lendário torneio da Ilha de Duelo organizado por Maximilian Pegasus, criador do jogo, quanto na luta contra Yugi Moto, o primeiro Rei dos Jogos, assim como no torneio da Cidade da Batalha. Com três mil pontos de ataque, o Dragão Branco era certamente uma das cartas mais poderosas do jogo àquela época, e permanece extremamente forte hoje em dia.
–“Chumley... Você não está meio entusiasmado com isso?” – Syrus foi o primeiro a falar. – “Quer dizer, um Dragão Branco”? Todo mundo sabe que essas cartas são raríssimas! Se eu tivesse uma delas não venderia por nada nesse mundo!”– Ele fazia um ótimo ponto. Quais eram as chances de uma dessas cartas lendárias estar bem aqui, na ilha? – “Essa vai ser como a vez que você disse que tinha um espírito que distribuía cartas atrás da cachoeira nas florestas?”
–“... Não, Syrus! Parece que é real dessa vez. Nunca vi o Robert mentir na minha vida, e não foi só ele que me falou que ouviu essa história! Dizem que pessoas já saíram de lá com todo o tipo de cartas: cópias do Mago Negro, Dragão do Julgamento, o Grande Maju Garzett, Venominaga... Até mesmo cartas ultra-raras como o Soldado do Lustro Negro!” – Ele enumerava-as nos dedos.
–“Soldado do Lustro Negro?!” – O nome pareceu ter elicitado bastante surpresa pelo lado de Blair, não sem motivo: -“Não é uma carta banida pelas regras de duelo da ilha?”
–“Sim, é! Não é o máximo?!” – Chumley afirmou. – “E também escutei falarem de cartas que são muito do nosso interesse! Syrus, ouvi dizer que alguém viu um Expressroid à venda. Não era aquela carta que você estava tentando procurar nos boosters?”
–“Sério?” – Syrus falou, seus olhos se arregalando com esperança.
–“E Jaden!” – Chumley se enderessava a um Jaden que chegara no meio da conversa com a comida de todos em uma bandeja de plástico. –“Até você vai se interessar, saca só: Ouvi dizer que tinham uns Heróis Elementares raros, tão raros quanto seu Herói Elementar Edgeman!”
–“Sai dessa!” – Jaden falou, incrédulo. – “Mesmo?” – Chumley apenas assetiu com a cabeça.
–“Baaah.” – Menosprezou Blair. – “Olhe só vocês se deixando levar por rumores de quinta categoria. Tá na cara que é bom demais pra ser verdade. Quem acreditaria numa coisa dessas?”
Todos nós consentimos com um aceno de cabeça sobre a razão daquele argumento.
–“... Mas ainda devíamos vasculhar um pouco só pra ter certeza.” – E a turma inteira concordou em uníssono, cada um com palavras diferentes.
—
Os três dias que se sucederam foram relativamente calmos. Não houve mais encontros com valentões tentando se sentir empoderados me insultando, me colocando para baixo. Sem lutas ou conflitos, só o mais que normal tédio das aulas, o cheiro do mar e meu relativo isolamento. Vez ou outra cumprimentei Jaden, Syrus e Chumley, que apareciam aleatoriamente em meus caminhos, mas nada mais do que duas palavras. Vi curiosamente pouco de Blair, ou talvez não tão curiosamente haja vista sua situação peculiar.
A calmaria, porém, foi presságio do vendaval. No quarto dia desde que falei com o grupo do Jaden pela última vez, eu pude notar enquanto fazia meus exercícios habituais um burburinho bastante alto, vindo de um dos cômodos do andar debaixo. O burburinho se tornava cada vez mais incômodo, e por isso eu apressadamente enxuguei o suor do meu corpo e me vesti de forma mais apresentável, seguindo o som das vozes. Quando abri a porta de correr que dava acesso ao refeitório comunal, vi um Syrus bastante animado, acompanhado da trupe usual, erguendo uma carta de Monstros de Duelo vitoriosamente acima da cabeça, e contando algum tipo de história para uma dezena de excitados colegas. A confusão era palpável. Cada um dos três da trupe falava ao mesmo tempo que o outro—cada um em um momento diferente da história— e portanto dificultava para mim, que tinha chegado recentemente, colocar tudo em sequência de forma a fazer sentido.
A história ia mais ou menos assim: aparentemente havia sim um clã ou gangue secreta de estudantes do Obelisco que estava trocando cartas raras por aí. Havia um complexo sistema de negociação e de aproximação, com uma espécie de cumprimento secreto e todo o tipo de código feitos para acobertar todo o processo. Jaden, Chumley e Syrus, de alguma forma descobriram a “porta de entrada” para toda a operação e saíram vitoriosos com sua descoberta. Porém, havia um problema: eles foram ordenados a não divulgar nada do que haviam feito a partir de certo ponto, pois se não o grupo que realiza as trocas teria que adicionar mais e mais complexidade ao sistema, visto que mais tráfego de alunos e de informação atrairia muita atenção e eles não queriam se fazer “vulneráveis” a “potenciais ataques e roubos”. Portanto maior parte das etapas deveria ser mantida em segredo.
Mas todo bom segredo é revelado eventualmente, já que aqueles a quem foi segredado não conseguem manter a matraca fechada. Nos próximos dias, o rumor já tinha se alastrado como um incêndio florestal. A academia estava em polvorosa com alunos entusiasmados para duelar com suas novas cartas. Em todo lugar onde se olhava, agora, havia estudantes com seus discos de duelo à frente do corpo, projetando imagens de monstros que se digladiavam. Monstros raros. Inúmeras cópias de monstros como o Dragão Branco e o Rei Caveira, Gilford A Lenda e Maju Garzett. Todo mundo possuía pelo menos uma cópia do Pote da Ganância e uma Força Espelho.
Era o puro caos: bastava um sair da sala de aula para ser importunado a cada dez minutos por um duelo. Era o suficiente para fazer alguém que tinha atraído a atenção e o ódio do público, alguém como eu, desejar sair da ilha. Até mesmo o corpo discente estava preocupado com a situação; as arenas de duelos dentro da academia nunca haviam visto tanto uso, e a quantidade de cartas raras era fonte de imensa suspeita. Vários pronunciamentos haviam sido feitos, inclusive sobre a possibilidade de suspender duelos por tempo indeterminado dentro da ilha, em virtude do sistema de rankings estar a beira de ser sobrecarregado. Proibiu-se duelos fora do solo da academia, mas só isso não conseguiu parar a horda de duelistas que oportunisticamente aproveitavam este período para crescer além do que era normal.
Eu estava tão cansado de ter que lidar com esse tipo de duelista junkie. Imagino que muitos mais também. Alguns eram inofensivos; chatos, irritantes, persistentes, mas lhe deixavam em paz uma hora ou outra. Outros eram verdadeiramente perigosos. Alguns dos duelistas mais nocivos da academia haviam se juntado em bandos que ameaçavam fisicamente aqueles que não aceitassem o duelo.
Normalmente, coagir um aluno a duelar contra a própria vontade pelo uso de força física era terminantemente proibido e poderiam incorrer em suspensão ou até mesmo expulsão a depender da gravidade da ofensa. Mas desde que o grupo de apoio fora ocupado coisas demais nas mãos, esse tipo de crime havia sido facilitado. Já um duelo “falsificado”, em que uma das partes perde de propósito, é quase impossível de passar normalmente pelos checks automáticos do sistema e eram imediatamente qualificados como tal, mas não quer dizer que não tentaram fazer uso da prática.
Um dia eu decidi que tinha tido o suficiente. Consegui escapar da aula mais cedo alegando uma dor de estômago, e da enfermaria consegui fazer meu caminho de forma furtiva até a o lado de fora da academia. Tive que desviar de dois ou três dessas “gangues” de duelistas no caminho, e quase fui pego por uma a passos da saída. Meu coração disparou; eu era forte, mas não era dez ou quinze, e não podia ir contra esses degenerados sozinho. Consegui sair, porém, e despistá-los por entre as árvores, com o sol caindo na linha do horizonte e o céu tingido de laranja. Eventualmente eles desistiram, mas eu estava exausto, e caí sob a sombra de uma árvore, arfando moderadamente pelo exercício.
Tudo parecia pacífico e tranquilo ali, naquela pequena ilha de solidão figurativa dentro da literal ilha acadêmica. Permiti-me escorar na árvore, braços atrás da nuca, observando o mundo tingido de dourado.
Minha tranquilidade foi quebrada quando ouvi o estalar de um galho. Imediatamente me coloquei em posição de defesa, mas antes de poder rastejar pela grama e encontrar um arbusto no qual me esconder, ouvi uma voz familiar.
–“Ora, mas veja só quem é! Solomon Bane. O intruso.” – A voz de Blair veio trazida pelo vento vespertino. Ela não mais trajava seu disfarce, seus cabelos azulados dançando assim como as copas das árvores e a grama alta sob nossos pés. Com um movimento delicado, ela ajeitou o cabelo atrás de uma das orelhas e inclinou o torso, para poder me olhar nos olhos. – “Que feio, faltando as aulas.”
Um momento de silêncio passou entre mim e ela. Seus grandes olhos castanhos esperando alguma resposta minha.
–“... Eu só estava cansado deles.” – Falei por final.
–“Sim... Essa situação... É o suficiente para deixar uma pobre garota em disfarce bastante nervosa. Se importa se eu sentar aqui?” – Ela deslizou com o corpo para se sentar na grama, para compartilhar a sombra da árvore comigo. Encostou seu ombro no meu, e juntou as mãos embaixo de seus joelhos, abraçando as coxas com os braços. — “Você tem feito um trabalho admirável, viu?” – Ela sorriu para mim. – “Ficando na sua e não contando meu segredo, quero dizer. Coisa rara de se ver, gente que sabe guardar segredo.”
–“Você viu o que acontece quando muita gente tem o bucho furado.” – Eu respondi, comentando também acerca da confusão da academia. – “Caos e gente irritante te impedindo de viver a sua vida.” – Adcionei. Ela riu, e concordou com a cabeça.
–“Você acertou em cheio.”
–“Por que resolveu deixar o disfarce de lado?” – Eu perguntei, olhando-a da cabeça aos pés. A jaqueta do uniforme dos Slifer estava aberta, mostrando uma camisa com gola laranja por baixo, ao invés do negro habitual, mas ainda parecia que estava escondendo sua silhueta.
–“Ah, não se preocupe. Eu uso essa rota todos os dias.” – Ela suspirou e fechou os olhos. – “Eu sei várias rotas mais quietas para me locomover pela ilha toda. A necessidade de manter o disfarce faz isso com a pessoa, eu acho.” – E um momento de silêncio se passou, ela perdida em pensamento. – “Mas isso não é resposta pra sua pergunta, né?” – Ela deu uma risadinha e continuou: -“Não sei. Eu só gosto de fazer isso. De ser eu mesma de vez em quando. Depois de um tempo usando um disfarce, mentindo sobre sua identidade, é bastante... Libertador... Andar por ai sendo só você, por um tempo. Debaixo do nariz de todo mundo.” – Ela sorriu consigo mesma, um sorriso que continha certa maldade, um sorriso arteiro.
–“Hmm...” – Eu já sentia como se eu a entendesse melhor, mas não consegui pergunta-la o principal: Por quê? Por que todo esse estratagema? Embora isso me incomodasse, eu não quis pressioná-la. Achei que se ela quisesse me dizer, já teria me dito, e que com certeza tinha bons motivos para fazer o que faz.
–“Você é uma pessoa legal.” – Ela me segredou. – “Não conta meus segredos, não me faz perguntas idiotas, não acha que precisa ficar falando o tempo todo... Eu espero que ele seja meio como você.”
–“Ele?” – Mas ela não me respondeu.
Eu senti algo no meu peito que não soube dizer o que era.
Um longo silêncio se sucedeu. Apenas nós dois embaixo daquela árvore, o sol lentamente se pondo no horizonte. Eu extendi minhas pernas na grama e relaxei meu corpo. Ela pareceu fazer o mesmo: sua cabeça pendeu para o lado, e eu deixei que descansasse sobre meu ombro. Quando o céu novamente se tingiu de azul, decidimos retornar para o dormitório dos Slifer antes que os estudantes o fizessem.
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