A fumaça quente dos velhos cadillac's rivalizando com a noite úmida provocava a névoa que impedia qualquer um de reconhecer outros a distâncias maiores que meio metro. Ainda assim os cavalheiros cumprimentavam-se uns os outros na rua tocando a aba frontal de seus chapéus e abaixando levemente a cabeça. Cordialidade quase involuntária, eu diria.

A recepcionista do Hotel Montreal recebe o homem com o habitual semi-sorriso no rosto, evidenciando que lhe reconhecerá.

Receio que dessa vez não poderemos conduzi-lo a suíte de Miss Frank, senhor.

Ele compreende a mensagem, ela não estava mais a sós na suíte 301 e sua entrada agora naquele quarto já não era mais bem vinda.

Ela aperta os lábios e o olha com o pesar de quem leu um livro triste que nunca foi escrito, mas que de alguma forma estava publicado no seu pesado caderno de reservas, nesta mesma data, pelos três últimos anos.

Ele vira-se em silêncio, arfa o peito muito discretamente e antes de partir escuta.

— Senhor, espere... Talvez... Talvez o senhor queira ficar no 302 hoje, apenas por precaução.

Ele recebe as chaves e se pega contando quantos anos se passaram até que o proprietário da suíte 301 finalmente a reclamasse para si. Enquanto relembra sente que lhe percorre pelo corpo uma sensação conhecida... A sensação de estar em um lugar que não lhe pertence. Que nunca lhe pertenceu.

Terceiro andar enfim.

Fim.