Your window pane

2 By grace of God


Notas iniciais
Gostaria muito que escutassem a música e lessem o capítulo simultaneamente para a melhor compreensão das sensações das personagens. Aqui está o link: https://m.youtube.com/watch?v=l-ibxJrnwEc

Eu não tive escolha. Eu só podia ler,dançar,ver e escrever muito mal,me considero péssima mediante a tais ilustres livros e/ou que se apresentam em minha frente. As freiras viviam me abarrotando de livros e mais livros, para ver se eu conseguia evoluir mas eu só ficava mais culta,assim me considero,mas quando ia por no papel sempre tive dificuldades, aliás com tudo que dizia respeito a expressão,por outro lado Jade,seus textos só faltavam criar tentáculos para te absorver e te fazer entrar em tudo que escrevia,ela passava a maior parte do tempo,compondo canções,enfiada dentro daquela sala de música que além do nosso quarto era o único lugar que ela se sentia confortável.

Meu lugar preferido era enorme e com paredes brancas,com uma parede toda espelhada,eu tinha vergonha da minha aparência refletida não tinha corpo o suficiente,ficava o tempo todo com toucas. Mas sem dúvidas, aquele era o lugar.

Ravannah se olha no espelho, vestia um collant com uma espécie de saia de cetim e meia calça,tudo na mesma cor,branco.

Sentou-se no chão para calçar e amarrar a sapatilha de ponta,havia evoluído ao menos nisso,mas ainda sim não tinha inspiração o suficiente para criar uma coreografia autoral.

Até porque quem se inspiraria em muros, freiras,padres,catequese...?

Não sou Gregório de Mattos nem nada...-Ravannah pensava alto.

Os ensaios deveriam acontecer com as portas fechadas,pois não poderiam incitar a lascívia, hedonismo então era proibido.

Jade entrou na sala sorridente. Enquanto Ravannah fazia uma sequência de alongamentos segurando uma barra que servia de suporte na parede espelhada. Aquele espelho enorme a fazia viajar...

Tentava esboçar alguns passos com a ponta dos pés,com a trilha sonora de Katy Perry,aquela música sempre a fazia refletir em si mesma.

Preciso desabafar,Sun...-Disse.

Okay,vamos para o quarto. -Jade abriu a porta para que eu passasse.

Andamos pelos corredores sorrimos forçadamente as freiras que assentiram a nós,subimos duas escadas e alcançamos a porta do nosso quarto que era a primeira do corredor.

Assim que ficamos sozinhas em nosso mínimo sigilo,comecei a despejar as palavras:

Não estou aguentando mais,Jade. A minha vida nunca fez sentido, estou me sentindo como um bando de passarinhos presos em uma gaiola de ouro. Eu nunca conheci o mundo do jeito que ele é e as coisas maravilhosas que ele tem para oferecer. Você sabe porque?

–Jade a olha com um olhar triste.

Faz anos que estamos neste lugar,eu desde dos meus sete anos de idade!!!!

Eu ao menos tive uma festa de quinze anos,ou uma fotos de formatura,com a minha cara suada e sorriso amarelo. Nós vivemos nesse submundo,nessa droga de colégio interno no meio de um país que nem sequer tem uma língua fácil! Nós não estamos aqui para vestir sobretudos e comer chocolate suíço...E tudo isso por causa de que eu tenho que ser diferente,eu nasci assim,não pedi para nascer,não pedi para que as coisas fossem assim...Eu me odeio e nem isso meus pais deixam! Eu nunca me apaixonei por alguém que não fosse personagens de livros,eu nunca senti a vida em sua plenitude,em relação a diversão,a liberdade. Tudo isso porque....?

Por causa desse maldito cabelo -Ravannah diz tirando a touca.

Por que eu tenho que ser diferente de todos? Eu já tentei pintá-lo mas ele tingia e logo absorvia toda a tinta. E ficava mais desse jeito.

–Jade olhava a amiga abismada, queria abraçá-la mas estava pasma demais para isso,ela apenas observava a amiga que não tinha a mínima culpa de estar ali. Todos esses anos,as pessoas (inclusive Jade) pensavam que ela tinha leucemia por causa de sempre estar de touca.

Ela caiu no chão devido a tanto desespero e angústia que carregava dentro de si. Amargura,talvez.

De repente ela começou a se contorcer no chão,estava sentindo uma dor tão grande.

Jade atônita se abaixa no chão, perto da amiga,com os olhos lacrimejando.

Tá ardendo. -Ravannah diz.

Aonde,amiga? Fala para mim. -Jade quase implora.

A qualquer momento deve chegar alguém. -Jade diz,colocando a touca novamente na amiga,cobrindo qualquer vestígio de fios por ali,suas madeixas eram lindas,brilhavam.

Ravannah coloca a mão na cintura e começa a descê-la por seu corpo. Atrás. -A única palavra que consegue balbuciar antes de desmaiar.

Jade reúne todas as suas forças para colocá-la em cima da cama.

Até que consegue e vira o corpo da sua amiga,sobe um pouco a blusa para ver o que havia ali.

E lá tinha uma gaiola (como se estivesse enclausurando a sua marca de nascença que tinha forma de coração um pouco disforme) que se formava gradativamente,era algo sobrenatural,como se fosse uma tatuagem,de forma que a cor era dourada,vendo a jovem ali,se perguntando como ela não sentia dor? Parecia estar anestesiada.E tinha muitos detalhes,logo uma cor vermelha como escarlate começou a decorá-la,como se estivesse cravejado aquela imagem com rubis e botões de rosas brancas começaram a se formar ao entorno deixando a imagem mais delicada e logo como toda rosa que se preza tem espinhos e essa aí tinha muitos.

Ela precisa sair daqui o mais rápido possível,se as freiras descobrem isso,ela vai ser jogada daqui. -Jade apenas olhava para amiga,que agora parecia tranquila. Pega o lençol dobrado no armário e cobre a amiga.

Quando Jade chegou ali tinha quinze anos,sabia a causa de estar ali,era fogosa demais e sua família completamente arcaica. Aí a mandaram para esse colégio interno. Era tipo aquelas fortificações medievais.

Mas ao olhar para a doce menina, franzina,pequena e tão timidamente inocente. Ela se perguntava o motivo de estar ali.

Eram companheiras e por mais que seus jeitos fossem como água e óleo,acabaram achando em suas diferenças uma incrível amizade.

Dormiam no mesmo quarto e rotineiramente acabaram "pegando" alguns traços de ambas personalidades.

Existiam implicâncias naquele mundo no interior daquela muralha mas eram sempre uma pela outra.

O lembrar disso,Jade se encolhia sobre a sua cama,se compadecendo da sua amiga e logo as lágrimas eram inevitáveis. Sentia o seu coração apertado de certa forma por não fazer nada,até porque o que faria?

Sentou-se no banco perto do seu teclado branco e começou a tocar,suas lágrimas começaram a descer como súplicas intermitentes a Deus pela amiga e por si,sabia que a situação já estava insustentável.

"I thank my sister For keeping my head above the water When the truth was like swallowing sand Now, every morning, oh there is no more mourning Oh, I can finally see myself again I know I am enough, possible to be loved It was not about me Now I have to rise above Let the Universe call the bluff Yeah, the truth will set you free "

( Agradeço à minha irmã Por manter minha cabeça acima da água Quando a verdade era como areia movediça Agora, toda manhã, não há mais luto Oh, eu finalmente consigo me ver novamente Eu sei que sou o suficiente, capaz de ser amada Não se tratava de mim Agora preciso estar acima disso Deixe o universo confrontar isso Sim, a verdade vai te libertar)

Notas finais
Gostaram? Mereço comentários? Alguma sugestão? Até o próximo...♥