Your Only Exception

1 Apenas eu posso te chamar de "meu".


Notas iniciais
Hoy pessoas, como vão? Finalmente a continuação de The Only Exception (http://fanfiction.com.br/historia/511912/The_Only_Exception/) Já tinha essa fic pronta há algum tempo, mas andava sem tempo de postar. Realmente gostei muito de ter feito essa continuação, acho que era algo necessário. Ah, essa parte se passa na versão do Levi :3 Até lá embaixo, e boa leitura.

Quando eu conheci aquele garoto, ele era uma simples criança irritante e eu estava procurando algo que preenchesse o maldito buraco vazio que eu sentia quando pensava no sentido da minha vida.

Sinceramente nunca esperei que as coisas fossem chegar nesse ponto, de acordar me sentindo sozinho quando aquela peste barulhenta não vinha bater na minha porta no domingo de manhã para perguntar alguma coisa sobre novos planetas a serem descobertos ou algum buraco negro na nossa galáxia, de sentir que alguma coisa faltava quando o moleque passava o fim de semana fora...

Céus, eu só poderia ser algum doente por estar sentindo esse tipo de coisa por um pirralhinho de catorze anos, mas não é como se eu pudesse simplesmente apagar tal sentimento como um arquivo de computador, então, optei por controlar a mim mesmo, e foi isso que continuou acontecendo até aquele bendito dia em que ele foi me ajudar na faxina...

Sempre gostei de estudar sobre o mundo lá fora, era um assunto que me fascinava já que estudar apenas as coisas que estão na terra sempre me pareceu uma ideia muito limitada do universo em si, mas como dizem que a mente humana por si só é limitada, nunca me surpreendi pelo fato da maioria das pessoas simplesmente ignorar o que não está diante dos seus olhos e seguir normalmente com sua vidinha medíocre.

A possibilidade de estudar o que, por enquanto, estava muito além do meu alcance me fascinou a ponto de eu acabar me envolvendo em vários projetos de pesquisa dentro da universidade e me tornar professor enquanto isso. Era algo que me agradava, compartilhar meus conhecimentos com outras pessoas que também se interessavam pelo vasto universo a ser estudado... Porém, com o passar do tempo, eu via esse interesse diminuindo aos poucos, enquanto outras coisas como "tentar inutilmente flertar com o professor" se tornavam prioridade para aqueles que frequentavam a minha sala de aula.

Sem pensar duas vezes, larguei as disciplinas que lecionava. Nunca tive receio de deixar nada para trás, já que raramente me apego a alguma coisa, mas tenho que admitir que o ambiente de sala de aula, as aulas de campo á estações de lançamento de foguetes, os documentários, atirar o apagador nos dorminhocos, as perguntas estúpidas e as surpreendentes... Tudo aquilo acabou me fazendo um pouco de falta.

Foi então que eu decidi aceitar um convite de uma universidade com a qual eu já mantinha contato há alguns anos, eles estavam interessados no meu trabalho e tinham um ótimo centro de pesquisas, logo concluí que aquilo era tudo o que eu precisava.

Na mesma cidade — e depois descobri que no mesmo bairro — da universidade, morava um velho amigo meu, Grisha Jaeger. Havíamos aprontado algumas juntos na adolescência e entramos na mesma faculdade, porém ele decidiu cursar medicina, e sinceramente por um tempo eu temi que ele concluísse o curso, principalmente quando se juntou com uma outra amiga nossa, a Hanji, e começaram a bolar teorias sobre melhoramento genético, sobre criar seres humanos em laboratório e até mesmo sobre melhorar o poder de regeneração da nossa espécie ao nível do de uma lagartixa.

Desnecessário dizer que eu fiquei a um passo de mandar internar os dois.

Porém, para a minha sorte — e para a do resto da humanidade — apareceram Erwin e Carla para colocar uma pouco sensatez naquelas cabecinhas insanas. Nunca me importei com quem as pessoas a minha volta ficavam ou deixavam de ficar, mas um instinto de proteção com relação as futuras gerações que iriam sofrer nas mãos daqueles dois me fez trabalhar para juntar aqueles dois casais, e como tudo o que eu me empenho em fazer, naturalmente deu certo.

Depois que nos formamos, Hanji foi passar uma temporada na África ao lado do marido e Grisha se mudou para a cidade em que Carla vivia, segundo ele, aquele lugar era tão belo que parecia mágico (na verdade, qualquer coisa que envolvesse Carla, era mágica para ele). Fui visitá-lo no dia do nascimento de Eren e realmente não pude negar que era um lugar surpreendentemente agradável de se viver.

Por isso, quando aceitei a proposta da universidade local eu não fui apenas para uma visita de trabalho, nem simplesmente para contribuir com o programa de pesquisas, eu decidi lecionar lá.

Já fazia muito tempo desde que eu havia pisado naquele lugar e pouquíssima coisa mudou nesses catorze anos, era realmente uma cidade muito pacata. Acabei comprando uma casa que Grisha me indicou, confiava nele o suficiente para isso, até por que ele era uma das poucas criaturas que conhecia meus gostos, e quando apareci no imóvel no dia da mudança, apenas tive a confirmação disso.

A propósito, a casa era também ao lado da residência da família Jaeger, o que só me deixou ainda mais satisfeito por não ter que me preocupar com a vizinhança, embora eu estivesse com o pé atrás por conviver com crianças — ou pior, pré-adolescentes- por perto.

Vou ser sincero, nunca me dei bem com essas coisinhas barulhentas, birrentas e insuportáveis, e as pestes nunca gostavam muito de mim também (talvez por eu ignorá-las completamente) então, qualquer contato acabava no exato momento em que começava.

E quando eu vi um pirralho de joelhos ralados, um skate debaixo do braço e um sorriso quase ofuscante vindo na minha direção, só pensei que isso não ia terminar bem.

E pela primeira vez na vida, eu estava enganado.

E essa foi só a primeira surpresa que Eren me trouxe.

Quando o pirralho abriu o portão de casa eu o reconheci de imediato, afinal, era impossível não reconhecer, a criatura era um clone ambulante da mãe ( o que me fez pensar se Grisha não fez nenhuma experiência insana durante da gravidez da esposa para ter duas Carlas em casa) com exceção dos olhos, que pareciam uma mistura de cor dos olhos dos dois pais, resultando num verde incomum e luminoso.

– LEVI-SAAAAANNN! — Gritou, isso mesmo, a peste mal estava a quatro metros de mim e ainda veio gritando. — Ah, você é o Levi-san não é? — Parou na minha frente, empolgado.

Santa paciência.

– É. — Respondi seco. — E pelo visto a rua inteira já sabe agora. -Suspirei pesadamente.

– Tão incrível! — Exasperou com os olhinhos brilhando. — Espero que quando eu terminar a faculdade a gente possa trabalhar juntos. — Fez uma reverência educada de repente e eu apenas franzi o cenho. Garoto estranho.

– Então... Você gosta de astronomia. — Admito que ele me deixou curioso.

– SIM! Adoro física, mas astronomia é simplesmente fascinante! Eu e o Armin estamos trabalhando duro pra conseguir entrar no centro de pesquisas local, você sabia que é o maior não só do estado, como da região inteira do país? — Putamerda, como ele fala tanto num fôlego só? — Eu li todos os seus trabalhos e são simplesmente incríveis! Eu não entendo algumas coisas ainda, mas o modo como você olha sempre mais longe e sempre aponta aqueles detalhes que outros deixariam passar é...

– Você leu todos? — Interrompi seu falatório erguendo uma sobrancelha questionadora. Sério não tinha como um pirralho de catorze anos ter...

– Sim! Eu comecei pelos artigos que você publicou quando ainda estava na faculdade e depois fui para... — Não fiquei boquiaberto nem nada, mas admito que me chocou um bocado ver aquele pirralho citar todos, de fato todos, os meus trabalhos publicados até agora, até mesmo umas matérias que eu havia feito para algumas revistas científicas.

No fim acabei convidando-o para entrar e passei a tarde esclarecendo suas dúvidas e comentando sobre algumas teorias de outros estudiosos. Nossa conversa só foi interrompida quando Carla apareceu para me chamar para o jantar de boas vindas que ela tinha feito pra mim, parecendo genuinamente surpresa ao perceber que Eren tinha se mantido sentado no mesmo lugar durante um longo período de tempo.

Ela sempre me dizia que se ele estivesse incomodando, eu poderia ligar que ela iria arrastá-lo lá de casa aos puxões de orelha, mas eu nunca nem sequer pensei nisso. Com o passar dos meses, eu ia percebendo como Eren não me incomodava, ao contrário da esmagadora maioria das pessoas. Era uma criaturinha agradável, era tagarela, porém uma boa companhia, e se fizesse barulho demais era só dar um soco ou dois que ele ficava quieto (mas não sem miar um bocado no meu ouvido).

Eu nem percebi quando sua presença começou a ficar tão familiar em minha casa que eu chegava a achar o lugar maior e vazio quando ele não estava, ou quando comecei a organizar meus horários de forma que eu tivesse mais tempo para passar com ele. Só me dei conta de que estava fazendo isso depois de alguns meses e foi um verdadeiro choque perceber que...

Era a primeira vez que eu queria passar mais tempo com alguém.

Eu até gostaria de dizer que tive alguma espécie de crise existencial dramática, que parei para pensar na situação... Mas o que eu realmente fiz foi dar de ombros e terminar o meu café enquanto resolvia alguns cálculos. Frio? Talvez... Não me importo realmente.

Não sou mais nenhum adolescente dramático tentando controlar o que sente já sabendo que não vai conseguir. Apenas aceitei o que estava acontecendo e me certifiquei de sempre medir as minhas atitudes.

Não acredito em "ah, não pude controlar..." Na minha opinião, isso é conversa de gente fraca tentando justificar a merda que fez.

Não parei de organizar meus horários daquela forma e nem de passar o tempo que eu podia ao lado de Eren, era algo que eu gostava, ou melhor, precisava, para minha saúde mental e emocional. Além do mais só um cego não veria o quanto o garoto tinha se apegado a mim, então continuei com a relação próxima que sempre tivemos.

Sempre gostei de ensinar, nunca tive muita paciência com ninguém, mas mesmo assim era algo que me divertia, e fazer isso com Eren era uma experiência completamente diferente, até por que eu nunca tinha visto ninguém tão empolgado em aprender algo que só usaria em seus estudos daqui a alguns anos. O brilho ofuscante daqueles globos verdes fixos em mim provocavam coisas que nunca senti antes, mas como normalmente faço, engoli e escondi no fundo da minha mente.

Sempre fui uma pessoa racional e tenho orgulho de continuar sendo.

Durante quase um ano, seguíamos a mesma rotina: Pela manhã, nós dois tínhamos aulas, a tarde ele vinha a minha casa e comentávamos sobre infinitos assuntos (ou sobre o universo ser infinto, ou sobre o próprio conceito de infinito), e a noite eu me dedicava as minhas pesquisas, geralmente ele ficava me observando, fazendo café pra mim quando eu parecia cansado e as vezes até dormia no meu colo a peste.

Até que no final do seu último ano no ginásio, aquela tranquilidade que regia nossas vidas foi quebrada.

Depois de sair da minha casa ele voltou para a escola, estava participando do grupo de natação naquele horário, e mesmo quando passou da hora do pirralho voltar eu imaginei que, cabeça de vento do jeito que é, ele acabou indo comer em alguma lanchonete e esqueceu de avisar. Bem, isso até Grisha aparecer na minha porta com um olhar aterrorizado perguntando se eu não sabia por onde ele podia estar.

Haviam encontrado um colega do garoto seriamente ferido no vestiário próximo a piscina, havia sido surrado sem dó nem piedade, e Eren ainda não tinha chegado em casa e nem estava com Armin ou Mikasa.

Acho que nem da vez em que por conta de uma queda de energia eu perdi dois anos de trabalho eu senti meu coração parar daquela maneira.

A suspeita de Carla era de assalto, e que talvez o garoto, esquentado como era, tivesse reagido... Já Grisha quase enlouquecia pensando em sequestro e tráfico de órgãos... Eles contataram a polícia e eu não esperei nem um segundo antes de ir atrás do garoto.

Pequei apenas meu sobretudo — onde eu sempre deixava o celular e a carteira — e quando já estava a caminho da saída, a campainha toca. Abri já preparado para mandar que quer que fosse ao inferno quando um Eren trêmulo e machucado pulou em cima de mim.

Céus! O que eu tinha dito antes mesmo sobre paradas cardíacas?

– Levi... Eu... Eu... — Murmurava com o rosto escondido no meu pescoço, soluçando de uma forma que dava agonia de ouvir. Eren sempre foi muito emotivo e exagerado, então vê-lo chorando não era uma coisa rara, mas daquela vez realmente me assustou.

– Cala a boca, só.... Apenas chore até cansar. — Abracei-o o mais forte que pude, fechando a porta com um chute e andando com ele agarrado em mim até o sofá.

Eu não sabia consolar ninguém de jeito nenhum, então só fiquei calado, mordendo meu lábio e mantendo minha expressão firme, mas não posso negar que vê-lo naquele estado acabava comigo.

Fiquei mexendo nos seus fios macios como fazia quando ele dormia com a cabeça no meu colo enquanto eu trabalhava. Mantive meu abraço forte, como se eu pudesse impedi-lo de se partir em pedacinhos. Não queria soltá-lo por nada no mundo.

Era minha primeira vez sentindo a mesma agonia por tanto tempo. Sempre consegui me manter calmo, mas dessa vez o meu desespero durou todo o choro do garoto. Eu sabia que ele precisava extravasar primeiro, então nem tentei perguntar nada, só permaneci ali como um ponto fixo para que ele não se perdesse.

Mesmo depois dele se acalmar, meus braços se recusavam a soltá-lo. Deixei-o encolhido no meu colo, comigo fazendo carinho no seus cabelos e seus braços a minha volta como se sua vida dependesse disso. Não sei explicar, era como se eu estivesse tão mal quanto ele e, ao mesmo tempo em que ele não me soltava, eu era incapaz de soltá-lo.

Foram necessárias quase duas horas e meia para que eu finalmente conseguisse me levantar, preparar uma caneca de leite quente e pegar o kit de primeiros socorros que tinha em casa. Enquanto eu cuidava dos machucados em suas mãos ele me contou tudo o que aconteceu. Tive que me controlar — e muito — para não rastrear o maldito que tinha feito aquilo ao me... Ao pirralho.

Admito que me impressionei em conhecer aquele lado do garoto. Eren era tão dócil comigo que imaginá-lo sendo violento era quase bizarro, mas fiquei tranquilo em saber que ele era capaz de defender sozinho, mesmo que, contraditoriamente, eu também tenha ficado feliz de ele ter vindo correndo até mim.

Naquela noite dormimos na minha cama com ele quase se enterrando no meu peito como um filhotinho de cachorro e meus pensamentos rondando locais perigosos como a temperatura cálida da sua pele ou como eu nunca deixaria ninguém tocá-lo se pudesse. Quase me esqueci de avisar a Carla (por que Grisha tinha saído andando sem rumo, sem carteira e sem celular pela rua, levando apenas uma calibre 38 consigo) que o tinha encontrado. Inventei uma história sobre ele ter brigado na rua e fugido, afinal, eu conhecia aquele garoto o suficiente para saber que, se pudesse, ele esconderia aquele incidente até da própria sombra.

No dia seguinte ele se recusou a ir para a escola e eu não vi problema em levá-lo comigo. Parecia um bicho acuado, andando quase colado em mim nos corredores, mas quando chegamos a minha sala foi um sufoco fazê-lo calar a matraca depois de ver uma parte do projeto que eu estava desenvolvendo.

Durante aquele tempo eu até pensei em dizer alguma coisa, talvez sobre como ele foi realmente burrinho de ter acreditado em alguém que colocava seus desejos acima da vontade e do bem-estar dos outros daquela forma, mas seus olhos me diziam que ele já tinha aprendido a lição.

E aprendeu bem até demais.

Ás vezes eu me pergunto se as pessoas são muito cegas, ou sou eu que conheço o Eren até demais, por que pra mim aquele pirralho sempre foi transparente como lente de óculos e aquelas "idas a casa do Armin" sempre nas sextas que tinham festa nunca me enganaram. Ele estava ficando bem mais tempo na escola para estudar, mas suas notas estavam caindo.

Isso sem contar as olheiras, os arranhões nas costas, as mensagens constantes no celular e os sorrisos maliciosos que ele soltava sem querer quando as lia... Eram tantos sinais. Ele podia disfarçar o quanto quisesse, mas eu sempre soube o que se passava naquela cabecinha de pirralho idiota.

Você deve estar se perguntando se não senti ciúmes... Vou ser franco, nunca pensei no Eren como algo que eu poderia ter um dia. Não sou tapado, eu sempre tive consciência do afeto que nem ele percebia que tinha por mim, mas nunca levei realmente a sério.

Não vou negar que eu o queria, e muito. Porém, eu me recuso a forçar qualquer coisa a ele, acho ridículo jogar meus sentimentos em cima de alguém sem me preocupar se a pessoa estaria preparada para recebê-los. Eren tinha seu tempo para perceber as coisas, ele era lentinho, mas não retardado. E se esse sentimento dele fosse algo de fato relevante e persistisse, eu finalmente daria a atenção desejada.

Claro que eu não gostava da ideia de ninguém tocando-o daquela maneira, mas o que eu sentia quanto ao que ele fazia foi, na verdade, raiva pelo que o pirralho estava causando a si mesmo.

No começo eu pensei que era vingança. Depois, já no meio do ensino médio eu até julguei que fosse o excesso de hormônios somado a uma atividade sexual iniciada relativamente cedo, mas era claro que aquilo já tinha se tornado uma espécie de compulsão. E como se não bastasse, com o nível das festas descendo cada vez mais, não demorou para que ele começasse a beber e de forma completamente irresponsável.

Aquele garoto só podia estar fora das suas faculdades mentais quando pensou que eu iria aceitar uma coisa daquelas calado.

Ele enrolava os pais perfeitamente com Armin e seu namorado, Jean, seus colegas de turma, e as vezes até mesmo Mikasa (que eu pensava que tinha algum juízo), o cobrindo e passando a mão na cabeça depois de todas as besteiras que cometia. Mas comigo não funcionava.

Primeiramente eu tentei conversar, só que o pirralho escorregava mais do que peixe na gosma, mudando rapidamente de assunto, respondendo evasivamente e ainda tendo a audácia de agir como se eu fosse o paranoico quando insistia nesse tema.

Depois de uma semana naquilo eu percebi que precisava realmente de uma abordagem direta e sem escapatória. O que não demorou muito.

Ainda era de madrugada quando liguei para o loirinho amigo do pirralho (foi assim que eu descobri que ele namorava o Kirschtein... Eren dizia que ia a casa de Armin para sair para aprontar, e o Arlert dizia que ia para a casa do pirralho para sair com o outro de feições equinas) e o encurralei, fazendo-o me dizer onde o Eren estava. Ainda de madrugada, sai de carro até a casa onde a festa estava ocorrendo e entrei procurando por ele, prestando uma atenção especial no cantos escuros onde adolescentes se agarravam a ponto de quase transarem ali mesmo.

Depois comecei a abrir os quartos discretamente, não entrei ali para fazer algum barraco ou chamar atenção. Odeio esse tipo de coisa. Cada um cuida da sua vida, e do Eren cuido eu.

Quando eu já estava no final do corredor, abro um quarto e... Eu não sei se foi uma boa ideia fazer aquilo. Na hora era tudo o que eu podia fazer, mas aquela cena demorou a sair da minha cabeça.

O quarto estava uma zona, havia garrafas e latinhas de bebida alcoólica e camisinhas usadas espalhadas pelo chão, resquícios de cocaína em cima de uma mesa, e o ar estava impregnado com o cheiro de cigarro e sexo. Minha vontade era explodir aquele lugar imundo, e só não o fiz por que o que estava em cima da cama de casal me deixou sem palavras.

Havia um garoto no tapete, tão marcado na região do quadril e das coxas que se eu não soubesse quem era o pirralho que descontava as frustrações da vida transando, eu ligaria para polícia para informar sobre uma vítima de estupro. Em um puff estava uma garota que me parecia nova demais para estar ali, usando apenas o sutiã e nada mais, parecia ter desmaiado ali depois de um grande esforço. E na cama, estava Eren fumando (céus, eu vou afogar esse maldito na água sanitária quando chegar em casa), sim, o maldito fumava despreocupadamente enquanto uma garota de longos cabelos castanhos dormia completamente nua com a cabeça em seu peito e um garoto, também sem uma única roupa, parecia exausto e sonolento e roçava o rosto carinhosamente no abdômen do meu pirralho.

Pirralho que também estava completamente nu, suado, coberto de arranhões — que eu julgava serem da garota — com um sorriso malicioso no rosto e acariciando as costas arrepiadas e cobertas de chupões do outro garoto.

– Você foi uma puta deliciosa hoje, Seishi-senpai. — Riu sarcasticamente, prendendo a mão na cintura do moreno e o puxando para mais perto.

– Nmm... Eu não aguento mais Eren-kun... — Gemeu arrastado enquanto a mão do pirralho apertava sua nádega com força, já escorregando um dedo pelo espaço entre elas.

– Eren...

– Aguenta sim, aguenta o quanto eu disser que é pra você aguentar. — Respondeu parecendo se deliciar com a expressão exausta e excitada do outro garoto.

Por que eu tinha desistido de explodir aquele quarto mesmo?

Tch, eu tinha vontade de matar alguém e sabia exatamente quem seria.

– Eren. — Chamei em um tom sério e duro. Nem precisei levantar um o tom, apenas pelo gelo na minha voz ele percebeu o quanto podia se considerar ferrado.

Sua reação foi até engraçada, mas na hora eu só pensava em esfolar aquela carinha cínica no asfalto e ao mesmo tempo tentava não olhar demais... Não dava para negar que aquele maldito nu era a encarnação do pecado.

Quando me ouviu, seus olhos arregalaram subitamente, seu rosto empalideceu e um arrepio pareceu percorrer a sua pele com tal intensidade que o fez largar o cigarro que tinha em mãos (que caiu no meio dos cabelos da vadia, mas isso não é importante).

– L-Levi?! — Exclamou me olhando entre pasmo e apavorado.

– Estou te esperando no carro, você tem exatos cinco minutos para se vestir e descer. — Falei sem lhe dirigir o olhar, saindo dali logo em seguida.

Em quatro minutos e trinta segundos ele estava no carro.

Apenas lhe lancei um olhar fulminante e dirigi até em casa em um silêncio esmagador. Dava para ver o quanto ele estava nervoso, mas que se foda, era pra esse pirralho estar apavorado mesmo.

Chegamos na minha casa e eu fiz questão de puxá-lo para dentro pelo cabelo, só para extravasar um milésimo da raiva que eu estava sentindo. Fechei a porta e lhe acertei um soco forte o suficiente para derrubá-lo no chão, e teria acertado outro se aquela carinha submissa e aqueles grandes olhos verdes lacrimejando não tivessem me segurado.

– Eren... Se eu souber que você andou fumando, ou utilizando qualquer outra substância semelhante outra vez, eu juro que vai ser preciso seu pai chamar as forças armadas desse país para me fazer parar de socar essa sua cara, me entendeu? — Falei baixo, afinal não havia necessidade de levantar a voz e sempre detestei escândalos, mas fui sério o suficiente para que ele compreendesse o peso de cada palavra.

– Sim... — Respondeu abaixando a cabeça e colocando a mão onde eu o tinha acertado. Eu sempre lhe acertava um soco ou dois, mas nunca com força como daquela vez. — Eu... Me desculpe Levi, isso não vai se repetir.

– Acho bom. — Respondi suspirando suavemente. — Agora vai tomar um banho, você está nojento. — Falei me dirigindo a cozinha.

– Levi... — Ouvi sua voz trêmula me seguindo. Diabos, eu não tinha mandado ele tomar um banho e tirar aquele perfume de vagabunda do corpo?

– O que é? — Me virei de má vontade e senti algo estranho no peito quando vi aqueles olhinhos cheios de lágrimas que já escorriam pelas suas bochechas.

– V-Você me odeia? — Indagou fungando e desviando o olhar para o chão.

Eu até diria que ele ainda deveria estar bêbado, mas conhecia aquele pirralho o suficiente para saber o quanto ele conseguia ser idiota e exagerado sóbrio.

– Não Eren, e nem tem como isso acontecer. — Respondi levando uma das minhas mãos aos cabelos castanhos, afagando-os por alguns segundos. — É só a sua idiotice que me irrita, mas depois conversamos melhor sobre isso. Agora vai, que eu vou preparar o café.

– Desculpe, eu...

– Não se desculpe, apenas cresça e pare de fazer besteiras, é o suficiente pra mim. — Interrompi-o voltando para a cozinha. — Agora dá pra parar de chorar como se o mundo tivesse acabado? Eu ainda não terminei de brigar com você imbecil. Agora vai tomar banho. — Ralhei pegando uma chaleira e enchendo de água.

– Mas... Eu sinto como se o mundo realmente acabasse quando você fica com raiva de mim, Levi. — Respondeu antes de subir as escadas.

Fiquei um tempo imóvel depois de ouvir aquilo, despertando quando a chaleira começou a transbordar.

Como uma simples frase podia me atingir daquela forma?

– Tch. — Resmunguei derramando o excesso de água e a pondo para ferver.

Quando o garoto desceu a mesa do café já estava pronta. Eu havia feito um café bem forte para apagar qualquer vestígio de embriaguez do pirralho, torradas, ovo frito, cereal, algumas frutas... Bem, o que fosse necessário para fazer o seu corpo se recuperar devidamente. Eu mesmo já tinha tido minhas ressacas quando mais novo e sabia o quanto isso era importante.

Senti uma certa satisfação e vê-lo agora com o meu cheiro, e com uma cara cansada de quem daria tudo para dormir naquele momento, mas tinha medo de acordar no hospital. Usava apenas uma bermuda — ele sempre esquecia algumas roupas aqui em casa — e eu podia ver que devido a sua pele amorenada, os arranhões não haviam deixado marcas.

Obriguei-o a comer um pouco de tudo e tomar bastante água depois do café, e quando seu estado já estava um pouco mais apresentável, resolvi começar com aquele assunto.

– Eren, eu compreendo que esteja magoado com seus colegas de turma por causa do que aconteceu no passado... — Falei me sentando ao seu lado no sofá. — Mas não acha que já passou da hora de parar com essa vingancinha ridícula?

– Como você... — Começou surpreso, mas logo se calou. Acho que ele pensa que eu devo ler mentes. Tch, como se precisasse com o pirralho transparente como era. — Não, não acho. E não é uma "vingancinha ridícula". — Retrucou fazendo bico.

– Será que você não vê o que anda fazendo? — Indaguei e ele continuou emburrado. — Você poderia estar passando seu tempo ao lado de alguém que você goste, se divertindo com o Armin ou com a Japa Maníaca... — Ouvi-o rir com o novo apelido para a Ackerman — Mas não, você dedica seu tempo a pessoas que simplesmente despreza.

– Eu só quero foder a vida deles...

– Então vai foder a sua junto? É um gênio mesmo... — Suspirei cansadamente.

Juventude, por que você é desperdiçada com os jovens?

– E daí? Melhor do que ser um idiota que só é pisado pelos outros. — Deu de ombros mal humorado.

– Então agora vai para o lado dos que pisam? Daqueles que você odeia pelo que fizeram com você? — Falei em um tom incisivo e vi seu olhar vacilar. — Eu te conheço pirralho, você não é disso.

– Sou sim. — Afirmou. — Eu posso desprezar todos eles, mas poucos prazeres se comparam a ter o temido Seishi-senpai, presidente do conselho estudantil, com toda aquela pinta de machão na escola, gemer pra mim que nem uma puta ontem a noite...

Não sei explicar, acho que meu braço se moveu mais rápido do que as minhas cordas vocais, e antes que eu dissesse qualquer coisa, Eren já estava no chão outra vez por outro soco muito bem dado, e merecido.

Esse pirralho...

– Converso outra vez com você sobre isso quando começar a agir como homem. — Falei em um tom gélido. — Só vou te alertar de uma coisa: Muito cuidado para não se tornar uma vítima de você mesmo futuramente.

Depois daquela manhã, nunca mais tocamos nesse assunto de forma séria. Por mais que me incomodasse, a verdade era que a autoridade que eu tinha era a que o garoto me dava, eu não tinha nenhum direito real e concreto sobre ele, portanto, não era como se pudesse impedi-lo de sair com quem quisesse. E isso me perturbava mais do que seria aceitável.

O tempo passou e aquele pirralho só cresceu em tamanho — o que eu julgava plenamente desnecessário, já ele sempre foi um poste — continuava fazendo merda, mas pelo menos cumpria com o que me prometeu e não tinha voltado a se envolver com nenhuma substância nociva, embora continuasse bebendo, mas de forma bem mais moderada.

Fiquei impressionado quando vi sua colocação, havia passado em segundo lugar para o curso de física — que era relativamente concorrido na região por causa do centro de pesquisas, o que trazia pessoas de outros estados e até mesmo já formadas em outros cursos — ficando atrás apenas de Armin, de quem tinha um certo orgulho (ás vezes acho que Eren e a Japa Maníaca adotaram o loirinho como filho, mesmo a verdadeira criança dali sendo o pirralho). Mas por outro lado eu não podia dizer que não era esperado, afinal, Eren vinha se esforçando desde sempre. E se tinha uma coisa que movia montanhas, era a determinação daquele garoto.

Admito que não me surpreendi quando o vi na minha sala de aula. A minha disciplina só estava prevista para o terceiro período de seu curso, mas já imaginava que ele fosse tentar algo assim, então tratei de expulsá-lo. A surpresa veio depois da primeira prova: O maldito tinha tirado a maior nota. Vou confessar que corrigi outra vez para ter certeza, mas realmente o garoto vinha conseguindo acompanhar a minha disciplina — até melhor que seus veteranos diga-se de passagem — então, o deixei prosseguir. Logo em seguida Armin se juntou a turma, e os dois juntos trouxeram uma nova atmosfera àquele lugar, movendo os veteranos a se esforçarem para superar os calouros... Era algo até cômico de se ver.

Foi durante esse período também que o péssimo e irritante hábito de Eren quase me tirou do sério. Agora eu não via apenas o lado do garoto, via também os rostos melancólicos dos garotos que esperavam algo mais do que uma relação de duas noites no máximo, via o choro das garotas ao serem dispensadas, e os desentendimentos quando o pirralho acabava saindo com o irmão ou amigo de alguém com que já tinha saído recentemente.

Eu estava pensando seriamente em contratar um psicólogo... Ou simplesmente bater naquele idiota até ele recuperar a razão, quando, em uma conversa aleatória com o Armin, uma ideia me veio a mente.

E foi isso que me levou ao motivo daquela fatídica faxina que acabou de forma deliciosa e desastrosa ao mesmo tempo.

Minha ideia era usar o sótão e construir um pequeno planetário particular. Eu me lembro de ter levado o pirralho a um pela primeira vez, e o modo como seus olhos brilhavam acompanhando os pontinhos luminosos... Eu queria vê-lo outra vez com aquele olhar. Quem sabe... Ele não voltasse a ser um pouco como antes?

Quando terminamos de tirar tudo de lá, limpar todos os objetos, guardar o que ainda continuaria na minha casa no porão e colocar o que eu pretendia mandar para doação na garagem, e depois dar uma geral rápida na casa, eu tinha que reconhecer que o garoto finalmente tinha aprendido a limpar algo devidamente, sem que eu precisasse mandá-lo repetir inúmeras vezes, e aquilo, definitivamente, era motivo de comemoração.

Eren já tinha bebido algumas vezes na minha frente, mas eu nunca tinha me permitido tomar nada perto dele. A cada dia que passava, sentia meu auto-controle cada vez mais frágil diante daqueles olhos cor de esmeralda, e isso era preocupante. Sem contar que o garoto não ajudava em nada mantendo o máximo de contato físico comigo sempre que podia, o que chegava a ser irritante por que eu simplesmente me via incapaz de me soltar em várias ocasiões.

Sempre acreditei que coisas como amor, vida a dois, namoro, e outras baboseiras do tipo eram perda de tempo e energia para alguém como eu. O que eu amava do fundo do coração estava a bilhões de anos-luz da terra, se afastando lentamente devido ao movimento de constante expansão do universo. Eu dedicava minha vida a estudar o que estava além do alcance humano, era algo que tomava noventa por cento do meu tempo, logo, eu não poderia desperdiçá-lo com coisas assim. Não foi a toa que eu decidi sufocar qualquer sentimento que saísse da linha amizade/amor fraternal pelo garoto desde o começo.

Pena que não avisaram a Eren sobre essa distância que eu sempre deixava implícita em minhas atitudes.

Eu não tinha tempo, vontade e muito menos paciência para sentimentos como aquele, mas pelo visto, quanto mais tempo passava, mais intensos eles se tornavam. Até o ponto em que não havia determinação ou racionalidade que fosse capaz de manter aquilo preso dentro de mim.

Por isso que naquela noite estava fora de questão resistir quando senti seus lábios nos meus.

Pela primeira vez, não me segurei.

Toquei cada canto da sua pele quente, provei cada arrepio, saboreei cada gemido que escapava da sua garganta como uma preciosa melodia. Não me importei em me viciar no sabor de seus lábios, no toque habilidoso e apaixonado das suas mãos... Sem contar na entrega que eu via naqueles olhos.

Podia senti-lo derretendo em meu braços, se rendendo por completo, me permitindo enxergar sua alma por trás de todo aquele verde.

Suas mãos me puxavam incansavelmente para mais perto, seus lábios suplicavam por mais e eu não me importava de tornar aquele quarto ainda mais quente. Por toda a madrugada.

Era a primeira vez que eu tinha aquele nível de envolvimento com alguém. Tinha uma lista extensa de parceiros de cama, de pessoas com quem realmente me relacionei, mas nunca nada que chegasse perto da intensidade que nos tomou naquela noite. Éramos prisioneiros dos desejos que carregávamos no fundo da alma.

Quando acordei no dia seguinte estava com uma dor de cabeça mortal por causa do vinho, mas não me arrependia minimamente de nada.

Quando abri os olhos e vi aquela peste agarrada a mim como um filhote de Koala, decidi que queria acordar todos os dias com aquela visão.

Eren era a unica coisa que me encantava que estava ao alcance do meu toque.

Refleti por um tempo sobre como tudo seria a partir do momento em que ele acordasse e acabei chegando a uma conclusão desesperadora: Havia feito tudo da pior maneira possível.

Eren encarava o sexo como uma simples diversão irresponsável (isso quando não tinha a intenção de ferir alguém), logo, se havia uma única maneira no cosmo de não começar um relacionamento amoroso com ele, era por ai.

Então tratei de traçar um plano para explicar as minhas intenções, mas devido a ressaca e ao meu estado de confusão mental acabei esquecendo de contabilizar as minhas péssimas habilidades sociais.

Apenas suspirei pesadamente quando ele saiu com um ar arrasado.

Eu sou apenas um humano no fim das contas, e como todo humano, eu faço imbecilidades dignas de óscar ás vezes.

E ser um humano sentindo algo por outro implica diretamente em fazer merda.

Mas isso não quer dizer que eu não possa consertar meus erros.

Ok, reformulando, isso não quer dizer que eu não possa consertar meus erros a não ser que a outra parte seja idiota, exagerada e teimosa como uma mula.

Aquele maldito pirralho sumiu por uma semana inteira.

Se fosse só sumir, era aceitável, mas aquele fedelho desgraçado sumiu, tomou um porre a ponto de parar no hospital, e depois se meteu em uma viagem maluca para uma rave na praia onde o uso de entorpecentes rolava solto e ele ainda fez questão de se meter no meio disso.

Eu não queria mais me resolver com aquela peste... Eu queria matá-lo.

Dessa vez eu não precisei pressionar muito o loirinho para saber onde ele havia se metido. Na verdade, eu ia abrir a boca quando ele murmurou um " No bosque atrás do campus, boa sorte que ele tá puto contigo" e saiu apressado para a próxima aula.

Naquela tarde acabamos nos entendendo finalmente e... Putamerda, que pirralho complicado. Por que esse maldito sempre tira as piores conclusões possíveis?

Aproveitando que não tinha mais aulas naquele dia, o levei para casa, acho que... Era o momento perfeito para aquilo.

Não havia ficado um planetário perfeito, já que ainda tinha uma janela no cômodo e o formato do teto também não ajudava, mas seus olhos... Eles não brilhavam como daquela vez. Brilhavam mil vezes mais, como uma supernova logo depois da sua explosão.

Se virou pra mim com um sorriso que conseguia ser ainda mais belo do que aquele que eu me recordava da viagem ao planetário, dizendo tudo o que precisava com o olhar, utilizando sua boca para algo mais importante do que proferir palavras que eu simplesmente podia enxergar naquele mar esverdeado.

Dessa vez estávamos perfeitamente sóbrios, e agora eu podia perceber como tocar sua pele poderia ser uma sensação ainda melhor do que o que eu me recordava.

Descobri naquela tarde que não havia imagem mais agradável aos olhos do que um Eren ofegante sobre o chão de madeira polida, gemendo meu nome debaixo da luz pálida das estrelas artificiais, com aqueles olhos esverdeados refletindo tudo o que a nossa limitada linguagem verbal não podia transmitir.

Desci minha boca por toda a extensão do seu corpo, sentindo suas mãos se perderem no meu cabelo ou descerem pelas minhas costas enquanto sua respiração se descompassava, debaixo dos meus lábios em seu peito eu podia sentir seu coração acelerado, seus arrepios, a sua temperatura sempre acima da minha que me excitava.

Não havia nada que se comparasse a sensação das suas coxas macias em volta da minha cintura, do sabor dos seus lábios luxuriosos e da sua textura no meu pescoço, quando gemia e suspirava o meu nome, esquecendo de qualquer coisa que o prendia a esse mundo e se entregando completamente de corpo e alma.

Não havia nada que se comparasse a sensação de ter a única coisa que eu desejo, que não está a milhares de anos-luz do sistema solar, finalmente nos meus braços.

– — — — Quatro anos depois — Eren — — — -

Estávamos finalmente na festa de formatura da nossa turma. A cerimônia oficial com o Reitor da universidade já havia passado, mas todos ainda continuavam ali no anfiteatro.

Não que o curso fosse impossível, mas era bem puxado, e por isso, apenas dezenove alunos estavam se formando naquela ocasião. Muitos que tinham começado conosco haviam desistido, mudado de curso ou repetido disciplinas, tendo que passar mais alguns anos para concluir.

Todos os pais, amigos e familiares ainda estavam ali por que, pela pouca quantidade de alunos, cada um poderia fazer o seu próprio discurso de agradecimento naquele momento. O reitor e os professores foram para a platéia, deixando o palco para os recém formados e se divertindo com alguns discursos, se emocionando com outros...

Quando chegou a minha vez quase tive um troço. Eram muitas coisas para falar, e eu não sabia por onde começar.

– Er... Vou tentar não demorar muito, mas se eu começar a ficar sentimental, por favor me chutem daqui antes que eu termine chorando com o microfone. — Brinquei vendo boa parte do auditório rir, e até mesmo a Annie dar um risinho de canto. Ela sabia que eu faria aquilo mesmo.

Armin já tinha discursado, e agora se sentava junto com o avô e se seu namorado com cara de equino do lado dos meus pais e de Mikasa. Minha mãe sorria tanto que eu tenho certeza que as bochechas dela iriam estar dormentes amanhã, meu pai chorava como uma adolescente e minha mãe e Levi mandavam ele se comportar, mas aí minha tia Hanji dizia alguma coisa e voltava a choradeira.

Mikasa sorria também, não tão abertamente, mas era um sorriso lindo de se ver. Annie também, e as duas olhavam pra mim como se fosse o filho delas, o que era meio estranho.

Sim, eu havia apresentado as duas depois de alguns comentários da loira sobre como minha amiga era gostosa nas tardes em que ficávamos em algum fast-food qualquer com ela falando sobre Freud e eu sobre Einstein, e acabou dando tão certo que as duas já estavam juntas a um ano.

Mas havia um par de olhos cinzentos que concentravam toda a minha atenção em um único ponto.

– Eu quero agradecer aos meus pais, por que eu sei como dei trabalho, então obrigado por sempre estarem do meu lado. Eu sei que fui imbecil e que eu escondi coisas algumas vezes, mas eu só não queria decepcionar vocês.

Minha mãe agora chorava um pouco também e meu pai a abraçava com carinho. Há alguns anos eu me abri com eles, contei o que aconteceu comigo no passado, o que eu fiz, as besteiras que aprontei... Enfim, tudo.

Eu pensei que eles ficariam realmente bravos comigo, que minha mãe ia me acertar uma panela e meu pai ia me passar o maior sermão da minha vida, mas ao invés de tudo isso, ficaram tristes por eu não ter confiado neles desde o começo e me fizeram prometer que contaria a verdade de agora em diante.

– Também tenho que agradecer ao Armin, que sempre esteve junto comigo nos meus sonhos e me ajudou a conquistá-los, a Mikasa por ser sempre o nosso apoio quando o final do semestre chegava e pensávamos que íamos morrer — Deu pra ouvir Armin rindo daqui com essa. — E a Annie por nunca ter cobrado por sessão para me ouvir sempre que eu precisei. — Ela balançou a cabeça negativamente, rindo internamente do que ela chamava de minhas "crises dramáticas", aposto.

– Eu também queria pedir perdão aos meus colegas de turma por ter sido um imbecil com vocês no começo. Não tenho o direito de usar e machucar as pessoas, e acho que ninguém nesse mundo tem. Eu consegui pedir desculpas a maioria pessoalmente, mas acho necessário pedir quantas vezes forem. Eu sei como dói ser machucado, e foi nojento descontar essa dor em quem não tinha nada a ver com isso.

Pude ver alguns olhares pasmos no meio da multidão, alguns sorrisos satisfeitos e orgulhosos e alguns gritos divertidos como " Na minha cama ainda tem vaga, viu!", que fizeram alguns risos se espalharem pelo auditório e uma aura maligna se destacar de um certo moreno.

– E finalmente, agora que eu não sou mais aluno, eu posso finalmeeente, falar na frente do reitor e da turma inteira e de mais quem quiser ouvir de uma pessoa extremamente especial pra mim. — Pude ver algumas meninas comemorarem, o reitor dar um sorriso de canto e vários "hhhmmm" soarem pelo anfiteatro. Muita gente já desconfiava ali. — Essa pessoa, me fez ser quem eu sou hoje, foi graças a ela que eu descobri o que queria da minha vida, a minha paixão pela astronomia, e se essa pessoa não fosse tão incrivelmente fantástica, eu não estaria aqui hoje. Simplesmente por que se não fosse por ele, eu não teria inspiração para chegar onde cheguei, e nem ir além. Sim, por que se eu quero alcançá-lo um dia, eu tenho um longo caminho pela frente.

Respirei fundo sentindo meu rosto queimar, e acabei rindo um pouco quando meu pai deu um abraço sufocante em Levi que quase foi enforcado.

No dia seguinte à aquela tarde no planetário, Levi resolveu contar aos meus pais que estávamos juntos.

Sim, ele resolveu. Dane-se minha opinião, né?

Acho que ele sabia que eu ficariam enrolando e não iria contar diretamente...

Minha mãe apenas disse que já esperava algo do tipo vindo de mim, mas não de Levi, e ficou realmente surpresa, mas estava feliz em saber que estávamos juntos, afinal, ela sabia como o moreno era sério, sem contar que ele praticamente cuidava de mim desde que eu era pirralho.

Meu pai desmaiou. Sim, ele estava chegando em casa, ouviu a conversa de Levi e da minha mãe e caiu durinho no chão.

E quando eu cheguei em casa, foi aquele momento em que minha mãe queria conversar comigo e meu pai acordava falando sofre "o que aconteceu com a pureza do meu menininhooo?????".

Foi extremamente vergonhoso, eu prefiro ser atropelado do que passar por aquilo de novo, mas eu fiquei feliz que meus pais nos aceitaram (embora Levi tenha me segredado depois que já tinha arranjado as passagens para o caso de precisarmos fugir). Nesse dia eu também resolvi contar sobre tudo o que aconteceu no passado, e foi uma longa lavação de roupa suja onde eu terminei prometendo que teria juízo tantas e tantas vezes que até hoje eu me pergunto que tipo de pessoa eles pensam que eu sou... Sério, eu tenho algum juízo.

Lembrar daquele dia me fez sorrir que nem retardado na frente do microfone, mas nem liguei. Eu jamais poderia expressar o quando ele me ajudou estando ao meu lado e segurando a minha mão enquanto eu desabafava com meus pais daquela vez.

– Além de minha inspiração como estudioso e profissional, ele também é um ser humano incrível pra mim. Me sinto verdadeiramente honrado só de estar ao seu lado todos os dias, me ensinou tanta coisa sobre o mundo, a vida, e sobre mim mesmo que... — Ai merda, MERDA, meu olho tá lacrimejando, meeerdaa. — Que... Um obrigado jamais seria o suficiente, e um eu te amo jamais poderia resumir tudo que você é pra mim além da pessoa que amo, mas... Como não existem palavras em nenhum idioma que traduzam o que eu estou sentindo, vou ter que me contentar com... Eu te amo de todo o coração Levi, e obrigado por tudo.

Uma leva de palmas balançou o anfiteatro e muita gente se levantou para aplaudir, mas para mim, era como se o mundo estivesse ligado no mudo e eu só ouvisse os passos dele vindo na minha direção.

Seus olhos cinzentos tinham um brilho meio suspeito e seus lábios um meio sorriso que ele não conseguia disfarçar de jeito nenhum, assim como o rubor nas suas bochechas.

Sendo obrigado a ficar dois degraus acima de mim no palanque onde estavam acontecendo os discursos para ficar mais alto que eu, ele levou a mão até o meu cabelos, bagunçando-os carinhosamente como fazia desde que eu era pequeno.

– Você finalmente cresceu, pirralho. — Falou no seu tom autoritário habitual, e meu coração deu um salto em finalmente ouvir aquelas palavras. Droga, agora eu já estava chorando de vez...

Descendo a mão do meu cabelo até o meu queixo, ele ergueu meu rosto, limpando algumas lágrimas com os dedos.

– E você é a coisa da qual eu tenho mais orgulho. — Concluiu e eu o abracei forte, fechando meus braços em volta da sua cintura e levantando-o do chão, levando alguns socos em protesto mas nem liguei.

Acho que nunca fiquei tão insanamente feliz na minha vida.

Notas finais
Só eu queria estudar nessa faculdade? *w* *(embora eu adore o yaoi que rola na minha) Eu me esforcei um bocado para retratar o Levi nessa história, eu queria fazer ele parecer bem maduro e até mesmo frio (deixo esse gelo para nosso Eren derreter...rsrs), mas sem ficar chato... Espero ter conseguido. A história não está betada, então qualquer erro me avisem, ok? Muito obrigada terem lido, eu realmente espero que tenham gostado e por favor me digam o que acharam *w* Até mais o/ Kissus
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