Young and Reckless
1 One and only
Notas iniciais
Nem mesmo se os Beatles voltassem com a banda e subissem em cima do palco tocando as músicas do Abbey Road, ele estaria sorrindo para Sirius Black agora. Apesar de gostar bastante, não seria Elton John que conseguiria deixar Remus animado para o grande show daquela noite.
—Você mentiu! – Ele gritou para o melhor amigo.
O vento forte que recebia no rosto o impedia de fazer sua voz soar mais alta. Ele detestava estar agora na parte da carona da motocicleta maneira de Sirius indo em direção ao festival de Knebworth. Olhou Sirius de soslaio, observando as feições risonhas do seu rosto por baixo do capacete e revirou os olhos. Black tinha conseguido ouvir a sua voz raivosa e, ainda assim, sorria como se fosse uma criança inocente.
O fato é que, incontestavelmente, Sirius tinha mentido. Ele havia chamado todos os seus amigos para irem até um festival de música trouxa no interior de Londres onde, no final da noite, a grande apresentação seria de Elton John, e esse programa incluía, surpreendentemente, até mesmo as meninas da classe. Lily, Marlene, Dorcas, Emmeline, Alice e Mary, todas tinham concordado com aquela maluquice, além dos marotos e Frank. Persuadidos pelo brilhante discurso de Sirius Black na cabine do expresso de Hogwarts, pouco antes de iniciarem as férias de 1977:
“Estou farto de ouvir falar em guerra. Eu sinto como se não tivéssemos mais permissão para termos dezesseis anos. Nós somos muito jovens e precisamos aproveitar que a guerra não está em nossos ombros e ainda não somos os responsáveis por parar todas essas merdas. Quando finalmente nos formarmos em Hogwarts não vai ser assim. Esse tempo nunca mais vai voltar. Vamos estar arruinados e atolados de afazeres para parar tudo isso. Então, por favor, vamos sair nessas férias e tentar aproveitar o resto da nossa juventude. Volde... Desculpe”, ele se corrigiu, porque ninguém dizia o nome dele e algumas garotas se assustaram. “você-sabe-quem pode querer nos matar a qualquer minuto. Se isso acontecer, que ao menos estejamos com boas memórias na cabeça”.
Remus revirou os olhos pela vigésima vez naquela viagem ridícula. Como ele tinha se deixado enganar por esse discurso fajuto e de procedência duvidosa? Na verdade, quando reforçava a sua memória bem, tinha quase certeza de que Dumbledore falou algo semelhante quando o ano letivo anterior tinha começado. Sirius sempre teve boa memória e nunca se importava de roubar a palavra dos outros.
Sua raiva estava no fato de que Sirius mentiu para ele. Quando as férias terminaram, todo o pequeno grupo de amigos se reuniu no expresso para decidir o dia em que iriam para o tal festival de Knebworth. Seria no dia 17 de agosto (hoje) e todos iriam juntos pela chave de um portal, mas quando, de fato, o dia 17 de agosto chegou e Remus foi até o local combinado, avistou apenas Sirius parado em frente à sua moto.
“O que aconteceu?”, perguntou em dúvida.
“Hum...”, Sirius coçou a nuca, sem jeito. “Algumas pessoas desistiram de ir”.
“Algumas pessoas? Algumas pessoas? Sirius, só tem a gente aqui”.
“É, pois é”.
“O que aconteceu?”, perguntou pausadamente. “Eles desistiram de ir hoje? Agora? Tipo, agora mesmo?”
“Uhum... Não, bem, não agora agora. Marlene me mandou uma carta logo na primeira semana de férias. Elas e os pais foram viajar para um local secreto, porque você sabe, o pai dela é um auror e está sendo perseguido. Dorcas tem medo de você sabe quem e não quer sair. Mary foi coagida por ela a ficar em casa. Frank e Alice vão ir em outro festival, um mais romântico na Alemanha. Lily ficou sabendo que as meninas não iriam e se recusou a ir sozinha. James só queria ver ela. Peter só queria ver James. Sobramos eu e você, Moony”.
Fiquei estático:
“Sirius, mas que merda! Eu te mandei uma carta não tem dois dias perguntando se estava tudo certo. Por que não me disse que todo mundo desistiu de ir nessa porcaria?”
“Fiquei com medo de você desistir também”.
Remus ignorou o arrepio que aquela resposta o fez sentir.
“É claro que eu teria desistido. Acho que ainda tenho tempo de fazer isso”.
“Ah, qual é, Moony? Fala sério. Já estamos aqui. Nós vamos de moto, vamos sair juntos e nos divertir como dois bons amigos. O que tem de errado nisso? Você quer ir. Eu quero. Qual é o problema? Qual é o problema de irmos juntos? Como dois bons amigos...?”.
Ignorando as lembranças de quando descobriu que iriam sozinhos para o festival, Remus abraçou os braços sentindo um pouco de frio. Mesmo no verão, ele usava uma pequena jaqueta jeans que cobria seu tronco. A moto fazia com que o vento ficasse frio sobre sua pele e, apesar disso, não era ele o culpado por seus arrepios.
Olhou Sirius mais uma vez e se arrependeu de não ter desistido daquela ideia absurda assim que o amigo devolveu o olhar em um milésimo de segundo, para depois se voltar em direção a estrada.
Ele prendeu a respiração e sentiu o coração bater mais forte em um ritmo descompassado. Estava sentindo ansiedade, medo e todas as coisas idiotas que sentia todas as vezes que chegava a conclusão do que realmente estava em seu coração. Não eram garotas e nem sonhos, era Sirius e a coisa estranha que acontecia toda bendita vez que estavam sozinhos.
Remus sentia que amava os seus amigos do mesmo jeito possível. Ele podia ficar horas (e ficava) na companhia de James, Sirius e Peter fazendo besteiras. Podia fazer a mesma coisa apenas com James. Podia apenas com Peter, mas não conseguia com Sirius. Ele se sentia estranho, ficava acuado, nervoso, sentia o rosto esquentar, o coração palpitar mais forte e uma timidez que ia além da que ele já possuía na sua personalidade.
Era difícil. Ele estava começando a duvidar que Sirius ainda não tinha percebido aquela reação.
Claro que Sirius tinha notado. Black era a pessoa mais inteligente que ele já conhecera e era uma inteligência que envolvia as matérias da escola e também a leitura de pessoas. Prendeu a respiração ao imaginar os pensamentos de Sirius divagando sobre a estranheza do que acontecia toda vez que ficavam sozinhos e afastou a ideia da cabeça. Não queria ficar pensando naquilo e a moto parecia estar diminuindo a velocidade consideravelmente.
—O que está fazendo? – Remus perguntou em dúvida.
—Vou abastecer. Isso é um daqueles postos não é? – Perguntou guiando a cabeça em direção a um pequeno local da estrada.
O festival acontecia em uma fazenda distante, no interior da Inglaterra e um longo caminho deserto, onde apenas a estrada era companhia, se sucedia. Foi uma sorte terem encontrado um posto de abastecimento, levando em conta que ainda não podiam usar magia fora da escola para fazerem a moto funcionar.
—É. – Remus assinalou positivamente. Quando a moto parou, Sirius e Remus se encararam esperando até que um frentista os ajudasse. Com o clima tenso, Remus soltou um pigarro. – Bem, enquanto você faz isso, vou ao banheiro.
—Não demora.
Ignorou o pedido e se pôs a andar. Quando chegou ao local percebeu que não tinha vontade nenhuma de usá-lo, só não queria ficar sozinho com o amigo.
Isso é uma loucura, pensou, precisa ter coragem. Vocês vão passar um show inteiro juntos. Precisa ignorar esse sentimento antinatural.
Antinatural.
Era assim que ele se sentia.
Porque esse sentimento não devia ser comum. Não quando todos os seus amigos, inclusive Sirius, estavam envolvidos com as garotas da escola e das férias e ele estava pensando no melhor amigo o tempo todo.
Isso não é nada normal. Ninguém mais se sente assim.
Molhou o rosto com a água da pia e resolveu sair do banheiro para encarar a realidade. Iria imaginar que Sirius era James ou Peter e passar por esse festival como se não fosse um anormal.
Enquanto andava de volta a moto, pensou que talvez essa estranheza toda tivesse a ver com o fato da lua cheia estar se aproximando. Seria dentro de algumas noites e Merlin, Dumbledore e todos os outros bruxos históricos sabiam que seu humor mudava e se tornava irreconhecível quando isso acontecia.
—Anda logo! – Sirius gritou para ele. Já estava em cima da moto, parecendo nervoso e prestes a dar partida. – Vem logo, desgraçado.
Pelo tom sério do amigo, Remus correu até a moto e logo entrou no compartimento menor ao lado dela.
—Que foi?
—Vamos vazar daqui logo. – Ele respondeu e já deu partida sem esperar mais nenhum segundo. Os olhos claros mirando algum ponto atrás deles, que Remus ainda não conseguia distinguir.
—Tá, mas que merda aconteceu?
—Eu só tinha dinheiro trouxa pra abastecer a moto. – Deu de ombros.
—Tá, mas porque a pressa, então? Só por causa disso? – Entrando novamente no asfalto, os dois tinham que gritar para conseguir escutar suas próprias vozes.
Sem responder com palavras, Sirius jogou alguns doces que estavam no bolso direito da sua jaqueta de couro.
—SIRIUS! – Remus gritou. – Você roubou!
—Ah, não seja chato.
—Você é louco ou o quê?
—Eu posso até ser um pouco anormal, mas pelo menos não sou chato. Ninguém viu. Além do mais são só alguns doces. O mundo não vai acabar.
—Eu podia ter comprado e pagado com dinheiro. Trouxe dinheiro pra isso.
—Ora, cale a boca!
Se entupiu com os doces furtados sem deixar nada para o piloto até que viagem, finalmente, chegasse ao fim.
A fazenda e o local onde aconteceria o festival já estavam prontos e lotados de pessoas que nenhum deles vira antes na vida.
—Uau! – Sirius exclamou, olhando ao redor. – Sinto como se eu não estivesse vestido apropriadamente.
Mesmo silenciosamente, Remus concordou por apenas um segundo. Ao seu redor todas as pessoas pareciam saídas de um feitiço da sua varinha. Roupas coloridas, cheias de flores, explosão de cores e formas. Amarelo, azul, laranja e roxo muito forte. No cabelo, a maioria longos (tanto de homens, quanto mulheres) flores de verdade e lindas, e cheirosas. Ninguém ali parecia triste.
A área era grande e Remus desconfiou que tudo ali fizesse parte de uma única fazenda. Era impossível abrigar tantas pessoas incríveis e coloridas em um espaço que fosse pequeno, mas, por sorte e ao ar livre, aquele lugar se parecia com o mais próximo da perfeição para um evento como aquele. Uma longa grama verde e alguns pedaços de terra desprotegidos se estendiam sob seus pés e Remus os seguiu com os olhos até que avistou um palco grande, cheio de equipamentos trouxas com cinco homens tocando uma música que ele não conhecia.
—Acho que estamos vestidos apropriados sim. – Remus constatou, andando lado a lado com Sirius. Em silencio eles concordaram que deveriam chegar o mais próximo do palco que conseguiam. Nenhuma pessoa recolheu ingresso algum que Sirius havia comprado, porque tudo ali parecia muito livre.
—Acha que sim? Todo mundo tá tão colorido e a gente de preto. – Sirius riu.
—Preto é uma cor também, no final das contas.
Os dois riram sem jeito daquela piada sem graça. Remus tirou a jaqueta que usava, sendo acompanhado por Sirius, e, a guardando em seu antebraço, colocou as duas mãos nos bolsos da frente de sua calça.
—Então, onde a gente vai ficar? – Remus perguntou.
—Vamos lá na frente. Quero ver esse cantor de perto.
—Tudo bem, mas será que podemos comprar algumas coisas para comer, antes disso? – Remus deu a ideia. Ao seu redor existiam diversas barraquinhas e como um mestiço, criado no mundo trouxa, ele reconhecia que em algumas delas as comidas eram deliciosas. –Veja só, vou te comprar um cachorro quente. Sei que vai gostar.
—Cachorro quente?
—É. Vamos lá.
Não se importou de bancar o amigo financeiramente naquela tarde. Comprou cachorro-quente para Sirius, refresco e também um algodão doce de cor azul muito forte e vívida.
Não era a primeira vez que Sirius tinha contato com o mundo bruxo. Desde que entrou em Hogwarts e foi escolhido para a Grifinória, conhecendo nascidos trouxas e mestiços familiarizados com aquele mundo, ele fez questão de conhecer tudo o que estava ao seu alcance. Não hesitou em ouvir bandas, comprar revistas e ter experiências no cinema e em parques de diversão, toda vez que as férias chegavam.
No próprio festival em que estavam, ele queria provar tudo que não conhecia. Remus teve que intervir quando Sirius viu uma plaquinha escrito “Acid $1,00” e tentou comprar:
—Não, não. Isso não. – Remus o empurrou.
—Por que não? Parece bom e barato.
—Esquece isso, Sirius.
—Ok, mas o que é?
—É tipo um... suco.
—De abobora?
—Só se suco de abobora te deixar bem louco.
—Quê?
Por ser de uma família tão nobre e tradicional no mundo bruxo, ser daquela forma, tão curioso pelos trouxas, não facilitava em nada a sua vida. Os pais o odiavam mais do que qualquer coisa e o tratavam como um estranho. Sirius podia nem sempre falar, pelo menos não para Remus e Peter, mas sentia falta de ter uma família de sangue vez ou outra. Com James, seu mais novo irmão, ele era diferente. Realmente agiam como se fossem filhos do mesmo pai e sempre conseguiam desabafar.
Talvez fosse esse o motivo de Remus se sentir tão estranho ao lado dele. Ainda estavam andando em direção à frente do palco, quando olhou o amigo por um misero segundo. Merlin sabe que esse não é o motivo da estranheza, mas ninguém poderia o julgar por querer encontrar uma razão mais fácil de explicar aquele sentimento. Era mais fácil culpar a relação obvia e mais próxima de Sirius com James do que com ele, do que admitir que seu estomago revirava todas as vezes que pensava no Black.
Se tocaram enquanto andavam e Remus se afastou institivamente. Sirius pareceu notar.
—Aqui tá bom. – Sirius se aproximou da orelha de Lupin para dizer aquilo. – O que acha?
—O quê? – Ele não conseguiu o ouvir.
—Acha que aqui está bom, Moony? – Para falar aquilo, com uma voz mais rouca do que o normal, Sirius praticamente colou a sua boca no ouvido de Lupin.
—Si-Sim. Tanto faz. – Respondeu em voz alta, tentando manter distancia.
Aquela proximidade fez seu coração saltar no peito.
Sirius pareceu notar que a proximidade o deixou daquele jeito e ficou um pouco acuado.
—É essa a banda americana que você falou que tocaria antes do Elton? – Remus gritou a pergunta. Não queria que Sirius se sentisse incomodado ou com nenhum tipo de vergonha.
No geral, Remus era quem conhecia mais de música entre os marotos. Ele cresceu ouvindo The Beatles, The Who, Led Zeppelin, Pink Floyd e o próprio Elton John. Mas todos esses artistas eram ingleses e viviam fazendo sucesso onde ele morava. De bandas americanas ele só conhecia Beach Boys e o próprio Elvis Presley. Sirius, em busca de irritar os pais e pelo interesse, acabou conhecendo mais coisas. Quando chamou os amigos para festa, disse que antes do show principal da noite, uma banda americana que ele gostava bastante iria se apresentar.
—Sim. – Sirius explicou. Ficou mais aliviado de ver que o amigo estava voltando a ficar mais relaxado. – Lynyrd Skynyrd. Essa música é Simple Man. Acho que ela é bem a sua cara.
—Entendo. – Remus soltou um gemido baixo. Prestou atenção na letra da música e suspirou de alívio (ou decepção) quando notou que a letra não era muito romântica.
—Hum. – Por sorte ela já estava chegando ao fim.
Um momento de silêncio da música que a banda fazia parou. Aparentemente o show deles estava chegando ao fim, assim como a noite começava a cair no céu, fazendo com que o mesmo adquirisse uma cor mais escura do que o normal. O tempo parecia bastante fechado, apesar de não ter dado indícios de chuva.
Tudo que ouviram foi o som dos aplausos e gritos da plateia homenageando a banda que acabava de sair do palco. Remus e Sirius sorriram um para o outro e bateram suas palmas igualmente. Remus se demorou um pouco mais, até mais que todas as outras pessoas ali presentes, porque sentiu que em breve um silencio chegaria e obrigaria ele a interagir com Sirius.
Quando o silêncio aconteceu, Sirius foi bastante direto:
—Remus, — Sirius raramente chamava ele assim. Remus prendeu a respiração e olhou para os próprios pés. – Aconteceu alguma coisa?
—Não. – Ele deu de ombros. O mentiroso do dia agora era ele próprio, depois de tanto ter reclamado do amigo.
—Sério, você parece um pouco distante e tá muito estranho.
—Eu to ótimo, Pads. Você... Você que parece um pouco estranho.
—Talvez eu realmente esteja. – Remus parou de sentir os olhos de Sirius queimando sua pele quando o amigo disse isso, porque Black começou a encarar o palco, sendo mudado para receber outra banda. Agora, entrariam em cena os americanos.
—Admite que está estranho, então?
—Sim, mas a culpa é sua.
—Minha?
—É, Moony. Você fica estranho do nada e já tem um tempo esse seu comportamento. Então, eu fico estranho também.
Remus decidiu que não iria responder isso.
—Hum, como está sendo morar com James e os Potter?
Sirius o encarou como se dissesse “é sério isso? Vai fugir do assunto?”, mas Remus deu de ombros e insistiu em saber da resposta.
—É bom. Eles me tratam como se eu fosse gente. – Riu da própria resposta.
—James está te perturbando muito?
Então, Sirius sorriu. O coração de Remus ficou um pouco enciumado quando notou que aquela era a primeira vez que Sirius dera um sorriso verdadeiro e parecia relaxado. Quando ele perguntou de James. A constatação de que os dois eram mais próximos do que quaisquer outros dos marotos, fez seu coração doer. Era algo que ele e qualquer um poderiam ver e, ainda assim, machucava um pouco.
—Você não vai acreditar, Moony. James, em casa, é um filho perfeito. Ele faz tudo que a mãe manda e é carinhoso.
—Inacreditável. Achei que ele fosse uma peste.
—Continua sendo uma peste, mas só quando os pais dão as costas.
Luzes fortes se expandiram pelo espaço. A noite ainda não tinha caído totalmente, mas o céu estava tão escuro que quase ninguém conseguia se ver, por isso, quando luzes saídas do palco iluminaram a plateia, Remus se virou para Sirius e viu que o amigo tinha os olhos presos nele.
Não soube dizer o que aconteceu naqueles poucos segundos que ficaram se encarando. Achou que a banda de Elton John estava subindo no palco, porque as pessoas começaram a gritar enlouquecidamente e alguns até mesmo estavam pulando muito ao seu lado, entretanto, não viu aquele momento inicial do show, porque Sirius Black ainda estava olhando para ele com um sorriso que Remus não conseguia entender o significado.
A voz do cantor soou no microfone, deixando as pessoas ainda mais loucas quando começou cantando Rocket Man e essa simples música fez Remus abrir um sorriso gigantesco e satisfeito.
—Eu adoro essa! – Disse a Sirius, como se aquilo fosse um milagre.
Sirius não parou de sorrir ao ouvir aquilo e se aproximou mais do Lupin:
—Eu também.
Foi impossível não se divertir durante a primeira metade do show. De alguma forma estranha, Remus estava mais animado do que o normal. Ele não era nada animado normalmente. Recobrando um pouco da consciência entre uma música e outra, imaginou dois cenários para a explicação disso: Primeiro, Elton John realmente fazia suas músicas entrarem pelos poros do corpo e levantava a plateia. Usava fantasias estranhas, óculos enormes para o seu rosto e parecia estar ligado em uma tomada de tão animado e isso contagiava. Ou, na segunda hipótese, o refresco que ele e Sirius tomaram quando chegaram não era apenas um refresco inocente.
Também tinha a terceira opção...
—Caralho!!!! – Sirius passou um dos braços por cima de seu ombro. – Porra, eu não to acreditando que to vivendo isso mesmo, Moony.
—Pads, a melhor decisão da minha vida foi vir nesse show. – Brincou.
—Nem brinca. Está sendo um dos melhores dias da minha vida.
O modo como Sirius falava perto de seu ouvido o fazia ficar acesso. Durante toda a primeira metade do show ele se deixou levar pelo momento. Estavam tão livres que ele parou de sentir vergonha quando o melhor amigo se aproximava, quando eles brincavam de dançar as músicas mais animadas.
—Moony! – Sirius chamou, enquanto Elton fazia um breve discurso sobre aquela noite.
—Oi? – Remus respondeu.
—Me desculpe por não ter dito que os outros desistiram. – Deu de ombros. Sirius havia recolocado a jaqueta de couro que usara antes e estava com as mãos no bolso dela agora. Subitamente, Remus teve a ideia de colocar a sua também. O clima havia esfriado, principalmente agora que Elton não estava fazendo todos dançarem. – Eu só... Fiquei com medo de você desistir de vir também.
—Tudo bem. Esquece isso. Deu tudo certo e estamos aqui.
—Mas... – Sirius começou a falar. Remus fez sinal de que não estava ouvindo. Aparentemente, Elton tinha feito uma piada e todos da plateia riram. Para conseguir ouvir, Sirius praticamente colou seu corpo ao do amigo. – Mas você teria desistido de vir?
—Não... Eu viria sim. – Remus respondeu.
—Por favor, seja sincero.
—Acho que teria desistido de vir.
—Por que está tão diferente comigo, Moony? Você e eu costumávamos ser mais próximos.
—Ahn, eu não sei. Não acho que eu esteja diferente.
—Você está.
Remus respirou fundo. Se aproveitou do exato momento em que uma nova música começou para se afastar. Ele usaria esse tempo para pensar em uma resposta para Sirius, quando um casal se meteu no meio dos dois.
A princípio, Remus pensou que fossem um casal de amigos, pois eram dois homens. Um loiro e um moreno. Estavam dançando tão juntos que pareceria estranho se segundos depois eles não tivessem se beijado. Estavam no meio de Sirius e Remus, mas isso não impediu os dois de se encararem.
Lupin sentiu o rosto inteiro esquentar e agradeceu aos céus por estarem em um local tão escuro. Ninguém precisaria ver o ataque de pânico que se submeteu em uma frente quando, finalmente, entendeu o que o deixava tão estranho ao lado de Sirius. Lágrimas quiseram sair de seus olhos. Ele esteve guardando aquilo por tanto tempo que se emocionou.
Era isso. Era simplesmente isso.
Olhou Sirius e depois o casal se beijando.
Merlin, ele beijar o Sirius?
xxx
Ele sabia.
Sabia que Remus estava agindo estranho por estar sem entender as suas vontades masculinas.
Quando o casal de homens começou a se beijar em frente aos dois, exercendo o direito do amor livre que era tão pregado por jovens trouxas, Sirius compreendeu que o amigo finalmente iria acordar para assumir o que verdadeiramente era. Ele viu a compreensão passeando pelos olhos de Lupin. Remus estava agindo estranho porque ainda não tinha entendido uma coisa bastante óbvia: estava interessado em beijar Sirius. Agora, ele parecia ter percebido.
Padfoot riu com o pensamento.
Mesmo no escuro ele conseguia perceber que Moony estava corado e nervoso. Baixou seus olhos e viu que os pulsos dele estavam fechados, em sinal de nervosismo e que o aluado o encarava intercalando os olhos entre o seu rosto por inteiro e a sua boca. Quando Remus olhava diretamente sua boca por mais de três segundos, Sirius deu um sorriso de lado convencido.
Ao longe, mesmo tão perto, a música parecia ter diminuído de volume. Ele também não deu importância quando sentiu algo molhado tocando em seu cabelo e em sua pele.
Deu a volta pelo casal beijoqueiro e se postou atrás de Remus. Este, ainda muito nervoso, já tinha se virado para frente.
Sirius o cutucou, querendo chamar sua atenção.
Remus virou-se para ele.
A música ficava cada vez mais baixa, os pingos mais molhados e grossos.
—Moony.
—Qu-que foi?
—Viu aqueles dois se beijando?
—Si-sim. – Respondeu sem precisar gritar. A música não estava mais tomando conta de todo o ambiente. – Estranho, né?
—Eu não acho. – Sirius foi sincero. – E você?
Não queria pressionar Moony daquela forma, mas precisava. Aquele era, literalmente, o único dia de suas vidas em que poderiam fazer aquilo.
—E-Eu, eu não sei, Sirius.
Enquanto James só falava de Lily Evans e se esforçava para conseguir ficar apenas com as meninas ruivas de Hogwarts, Remus achava aquilo ridículo. Quando Sirius quebrou o coração de Marlene Mckinnon porque lhe disse que preferia ficar com outras pessoas e não só com elas, Remus disse que era desnecessário ficar com tantas pessoas. Quando Peter falava de garotas o tempo inteiro, Remus tentava sempre fugir do assunto como um louco.
Primeiro, pensou que ele fosse só tímido e, bem, ele era. Remus era quieto e muito contido. Sirius sabia que ele jamais iria arrumar uma namorada e culpava a licantropia por isso, mas agora ele tinha certeza de que Remus não gostava de garotas ou, ao menos, era como ele.
Sirius gostava de garotas e gostava de garotos também. Nos últimos tempos, gostava do garoto, mas não tinha com quem discutir aquilo. Quando contou a James, o Potter ficou enchendo o saco para saber se na visão masculina ele também era tão desejado quando era pelas meninas. Sirius disse que não sentia nenhuma atração por ele e era verdade. Peter uma vez disse que achava nojento e que homens deveriam ficar só com mulheres e mulheres só com homens.
Mas Remus nunca disse nada e ele também não sabia que Sirius já tinha ficado com garotos.
Agora, Sirius queria admitir que estava sentindo uma atração por Remus. Era o único amigo pelo qual sentia-se atraído. James era seu irmão. Peter era um imbecil tão feio que chegava a lhe dar pena. Frank tinha uma namorada. Remus era... único. Sirius sempre gostou muito dele e demorou um tempo a perceber que não era no sentido amigo.
—Isso é normal, Remus. – Explicou. – Alguns garotos gostam de garotos.
—Eu sei disso. Eu entendo.
A chuva agora tinha aumentado de vez e um relâmpago iluminou todo o local, apagando de vez com a energia que restava dali, assim que Remus terminou de dizer aquilo. Tudo ficou escuro, o show parou de funcionar e gritos de lamentos foram ouvidos.
Algumas pessoas corriam para se proteger da chuva, mas Remus e Sirius continuaram parados.
—Remus, eu gosto de garotos também. – Sirius deu de ombros.
xxx
Remus perdeu todos os sentidos.
—Sir...
—Casal! – Uma pessoa desconhecida surgiu entre eles. – Tomem, protejam-se da chuva. – E entregou um cobertor para os dois. – Estava sobrando do meu grupo.
Sirius sorriu e Remus acabou sorrindo do mesmo jeito.
—Casal. – Ele riu.
Sirius deu de ombros.
—Não somos um casal. – Falou, mas a pessoa já nem estava mais lá.
—Vem cá. – Sirius chamou Remus com a cabeça.
Os dois seguiram as ações das pessoas que permaneceram no show e não correram para se proteger da chuva. Eles sentaram na grama que tinha embaixo de seus pés, tão próximos um do outro que seus corpos estavam colados e Sirius passou o cobertor por volta de seus ombros.
Não disseram mais nada no minuto seguinte, apenas observaram o que estava prestes a acontecer.
Magia.
O número de pessoas quase diminuiu, mas a chuva parou de cair muito forte e acabou tomando um ritmo perfeito. Não fazia tanto barulho e um silêncio geral tomou conta daquele local onde, mais de trinta mil pessoas, observaram Elton John voltar ao palco.
Sirius e Remus podiam ouvir a respiração um do outro tamanho silencio.
Elton sentou-se ao piano e tocou uma nota.
O silêncio ainda se fez presente.
—Blue-jean, baby. L.A lady... – O homem começou a cantar Tiny Dancer e trinta mil pessoas souberam que teriam de continuar em silêncio por alguns momentos da música, ou devido a falta de eletricidade nem todos iriam ouvir.
Remus tinha lágrimas nos olhos. Aquele, talvez, fosse o melhor dia da sua vida. Olhou para a lua e percebeu que, devido ao tempo nublado, não conseguia vê-la. Aquele era o jeito favorito de Remus ver o céu.
Ao seu lado, Sirius tocou-lhe na ponta dos dedos. Black estava prendendo a respiração, mas parou de se importar com o que iria acontecer no momento seguinte.
Ele apenas seguiu o coração.
Alguma coisa naquele momento era mais mágico do que tudo que já havia aprendido em Hogwarts: Remus o correspondeu.
Os dedos dele também faziam carinho nos seus.
Quando suas mãos finalmente se juntaram em uma única, os dois se olharam e sorriram.
—Esse dia é perfeito, Sirius.
Sirius concordou.
Moony e Padfoot sabiam que aquilo não voltaria a acontecer. O mundo ao seu redor estava ruindo. Uma guerra era implodida em cada canto do mundo bruxo, entrariam no último ano em Hogwarts e, quando saíssem, nada jamais seria igual. Além do mais, tinham outros dois melhores amigos, tinham outras milhares de responsabilidades com eles. Não ficariam assim novamente, tão próximos e de mãos dadas.
Quando a música atingiu o seu ápice e todas as trinta mil pessoas cantaram “Hold me closer, Tiny Dancer”, Sirius se aproximou o suficiente do amigo para colar suas testas.
Remus não se afastou e, surpreendentemente, tomou a iniciativa. Beijou Sirius docemente.
E, aquele dia, foi o único em sua vida que se sentiu livre, jovem e inconsequente. Pela primeira vez tinha feito o que queria sem medo.
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