Notas iniciais
Faz tempo que não escrevo nada então... Me de um desconto kkkkk

Minha cabeça doía, sentia todos os meu músculos dormentes. Oque eu fiz ontem a noite?

Estava acordada mas não abria meus olhos, me mexia lentamente, não aguentava meu corpo, sentia como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. O mundo girava rápido demais.

Abri meus olhos. A primeira coisa que conseguia ver naquele instante era a parede do meu quarto, pichada como de costume.

Ainda conseguia ouvir uma batida pesada e interna em minha cabeça.

O que foi que eu fiz ontem a noite?!

Com toda força que meu corpo no momento habitava, me sentei. A minha volta meu quarto, aparentemente bagunçado, mas tudo em seu devido lugar.

Cinco e quinze da manhã, como mostrava meu relógio. Por quê havia acordado tão cedo?

Me levantei devagar, nossa como tudo girava.

Sentia aquela sensação pesada, como se ainda estivesse em uma das festas que costumava ir... É isso!

Ontem a noite, fui escondida ao King Trash, um bar onde sempre tem várias apresentações de bandas punks, maioria são desconhecidas.

Isso... Sentia o gosto do álcool ardente na garganta, os pés doloridos, o pescoço dormente, com algumas marcas roxas. Estranho, pois não me lembrava de ter brigado com alguém, basicamente... Não me lembrava de nada.

Me esforçava mas tudo parecia devagar, alguns flashback de momentos aleatórios de ontem a noite.

Com dores de cabeça, tinha finalmente recordado. Havia conhecido um rapaz de vinte e um anos apenas cinco anos mais velho que eu.... Tivemos bons momentos, devo dizer. (Estou no segundo ano do ensino médio, tudo pra mim é novidade... Não me julgue!)

Me pego sorrindo, lembrando do rapaz que nem ao menos sabia seu nome, ou talvez esquecera. Mas não havia esquecido do beijo, ou do seu olhar penetrante.

Uma calça de couro colada, uma regata rasgada e descolorida, a roupa parecia mais velha que o dono.

Será que ele sabia que eu tinha dezesseis anos? Acho que esqueci de contar desse pequeno detalhe...

O cheiro do cigarro estava forte, preso em minha roupa, não poderia chegar perto dos meus pais, cheirando a álcool, ou pior, cigarro.

Tomo um rápido banho, tiro todo o resto de maquiagem que ainda havia sobrado em meu rosto e coloco meu terrível uniforme: Uma saia azul que chegava praticamente no joelho, uma camiseta branca com o símbolo da escola em meu peito. Deixei meu cabelo solto, para tentar esconder as marcas que ficaram no meu pescoço.

Odiava tudo daquela escola, "Padre Domingo de Nieva", sabe lá Deus por que meus pais me colocaram em uma escola tão religiosa quanto essa. Talvez pelo fato de que é a melhor escola da região, ou para tentar encontrar alguma razão lógica para o meu comportamento. Uma das teorias mais idiotas, devo dizer, se fosse qualquer outra pessoa, talvez essa "ideia" tivesse dado certo... Mas... Não me considero como "qualquer outra pessoa"

Não é que eu me ache superior a isso, mas sim mais evoluída.... Alguns me chamam de rebelde, outros de marginal. Mas meus pais me chamam de Elisabeth ou apenas Eli. Entre Eli e marginal? Eu não vejo diferença.

Desci e fui tomar meu café, meu pai obviamente já estava acordado, meu pai Jimmy era advogado, sempre era o primeiro a acordar.

Pai Jimmy era muito bonito, era alto, em média tinha um e setenta e dois de altura. Cabelo preto, um pouco grisalho, não que ele fosse coroa, mas ele achava que os fios grisalhos o deixaria mais charmoso, que funcionava muito bem. Tinha um sorriso encantador.

–Bom dia pai Jimmy. — Tentei dizer algo em um tom doce, disfarçando a minha terrível ressaca.

–Bom dia meu amor. — Disse me dando uma xícara de café. — Como foi a noite?

–Não sei, estava dormindo... — Me sentei em uma das bancadas, perto do fogão, onde Jimmy se encontrava.

–Não minta pra mim! — Ele mudou o tom, dessa vez, olhava sério no fundo dos meus olhos, como se tentasse chegar até minha alma.

–Como descobriu? — Coloquei meu café na mesa. Estava indignada, como ele sempre descobria tudo sobre a minha vida.

–Está brincando? Vou ao King Trash desde que era adolescente, conheço o dono. — Se gabou. — Além do mais... Tenho meus informantes...

–Tio Marcus não é?! — Ele apenas concordou com a cabeça. — Aquele imigrante!

–Eli, eu e seu pai te damos todo apoio, acreditamos em quem você é! Nosso pensamento nunca foi te reprimir... — Jimmy disse, como se de novo, iria dar outra lição de moral.

–A onde você quer chegar? — Tentei interrompe-lo.

–Não quero que mude você. — Ele ignorou o que eu havia dito. — Só quero que tome cuidado com quem você anda, cuidado com as más influências.

–E se eu fosse essa "Má influência"?

–Você me entendeu... — Jimmy se aproximou de mim, colocando sua mão em minha cabeça. — Está bem? Eu já fui adolescente, no começo tudo é maravilhoso... Mas...

–Já entendi. — Consegui fazer ele calar a boca. — Pai, não se preocupa, eu só... Queria fazer aquilo que estou afim... Entende? Daqui a dois anos vou me formar, e tudo isso vai mudar. Eu não quero sobreviver, eu quero viver! Só isso...

–Olha sobreviver é bem legal! — Jimmy brincou, deixando seu sorriso encantador melhorar meu dia. — Toma, beba isso. É bom para curar ressaca. — Pegou meu café e trocou por um copo com um líquido verde e esquisito. — Não me pergunte o que é.... Só beba.

Tentei beber tudo de uma vez, mas era horrível, sentia o gosto de tomate, açúcar, limão e mais vinte ingredientes não identificados, além de alguns pedaços de cebola que ia engolindo.

–Não usou o liquidificador? — Perguntei, sem me contentar de fazer algumas caretas.

–É.. Ele se foi... — Jimmy se calou ao ouvir passos vindo da escoda, teoricamente era meu pai Carlos que por coincidência não poderia saber que Jimmy havia quebrado o liquidificador.... Como poderia usar isso ao meu favor?

–Se não contar do King, não conto do liquidificador.

–Fechado! — Disse sem hesitar, demos as mãos e fechamos o acordo.

Pai Carlos era ainda mais bonito, talvez um tanto baixo, mas tinha um olhar atraente, com seus grandes olhos castanhos, o cabelo em um tom de loiro escuro. Era psicólogo. Não era tão legal ter um pai formado em psicologia, ele sempre tenta encontrar alguma razão pra tudo, principalmente pro meu comportamento, estilo ou até com uma possível ausência de uma mãe, pois sou adotada. Não que isso me incomodasse. Adorava o fato de ter dois pais, me fazia sentir diferente, ou até mesmo única pra eles. Até adotarem meu novo irmão mais novo, Lucas, tem apenas dez anos. Não sei se ele já acostumara com a nova casa e tudo, eu tento fazer meu melhor, pois também quero que ele se sinta único e especial.

–Bom dia — Pai Carlos disse, com sua voz agradável e gentil, e junto a ele vinha Lucas, que ainda estava muito tímido. — Então Eli como passou a noite? — Me perguntou

–Dormi como um anjo. — Escondi minha mentira com um sorriso falso.

–Eli será que você pode levar o Lucas até o ponto de ônibus? Estou muito ocupado, não estou com tempo. — Jimmy disse com pressa, pegou sua caneca térmica, deu um beijo em Carlos e saiu sem ao menos ouvir minha resposta.

–Claro...

–Você não vai perder a hora? — Carlos perguntou.

–Quem liga? Porque eu não ligo. — Disse pegando minhas coisas.

–Eli a escola não é tão ruim...

–Sou obrigada a usar isso?! Fala sério! — Apontei para o uniforme. — Não poder ser eu mesma, sem nem ao menos falar o que penso... Aquele lugar é pior que o exercito!

–Você sabe muito bem por que te colocamos lá. — Carlos aumentou o tom de voz, isso não era algo que acontecia com frequência. — Padre Domingo é uma das melhores...

–Escolas da região. — Tentei imita-lo. — Tudo bem... Eu já sei... Não quero me atrasar, vamos Lucas.

Todo o caminho Lucas se manteve quieto. Primeiro tratei de esfriar minha mente, não queria jogar minha raiva nele.

–Eu sei que você me viu chegar ontem a noite. — Tentava puxar algum assunto. — Por quê estava acordado aquela hora? — Antes de me responder, Lucas hesitou.

–Não consigo dormir. — Disse em um poucas palavras.

–Ontem... Foi uma noite ruim, mas pode ir ao meu quarto, se tiver problemas para dormir.

–Posso mesmo?

–Claro, insônia é um clássico! E também, você pode confiar em mim...

–As vezes você me assusta. — Lucas finalmente havia deixado um sorriso escapar daquele rosto fechado e tímido.

–É, meu ultimo namorado também dizia isso. — E naquele momento havia conseguido tirar também uma gargalhada.

–Por que não gosta da sua escola?

–Você teria medo de mim se eu me vestisse assim? — Lucas discordou com a cabeça. — Então, isso não é quem eu sou, essa escola, não serve pra mim, Jimmy e Carlos só pensam no melhor para mim.

–Deixa eu adivinhar... Você não quer o melhor pra você?

–Nossa... Você é bem esperto! — Baguncei o cabelo dele, deixando um pouco irritado. — Bom... Digamos que é isso.. Por enquanto é só isso que posso lhe contar, mas eu vou me livrar dessa.

–Como?

–Não vou lhe contar, não posso ser uma má influência para meu irmãozinho!

O ônibus chegou em seguida, esperei Lucas entrar, para acender meu cigarro. Fiz questão que ficasse impregnado em meu uniforme ridículo.

A primeira tragada é sempre a pior, mas é sempre a mais relaxante. Deixei a fumaça subir em meu rosto, sentindo o cheiro forte da nicotina.

Continuei seguindo meu trajeto, a caminho da escola, e tudo que pensava era em ir para casa, tirar um cochilo, mas eu ser expulsa por faltas não é lá muito digno.

A intenção não é apenas ser expulsa, mas sim, marcar a escola, obriga-los a nunca me esquecer. Confesso que as freiras da escola são realmente guerreiras, faço daquela escola um inferno, e ainda não me expulsaram. Usei todas as armas que poderia usar, estou ficando sem opções. Certamente minhas notas não são as piores, faço meus deveres, mas esse lugar não é pra mim, quer dizer.... A escola é ótima... É, foda-se eu odeio aquele lugar. Tentam fechar nossos olhos com aquela fé, tudo é sempre medido em certo ou errado, céu ou inferno... Nem comento do machismo extremo! E a homofobia? Talvez não suportava aquela escola, por acharem que o amor dos meus pais não é o suficiente para o paraíso, como se eles não fossem o suficiente. Que devemos sempre amar o próximo, mas julgar aqueles que realmente amam... Meus pais são loucos de me colocar em um lugar onde é clamado tanto o amor, mas onde só é produzido o ódio.

–Bom dia Elisabeth — Disse um dos coordenadores, que sempre fica no portão de "vigia".

–Bom dia Luiz, como está o dia no "Paraíso"? — Perguntei.

–Cuidado Elisabeth, você está brincando com o fogo. E dos grandes! — Luiz apontou para a grande cruz que ficava em uma torre no ultimo andar da escola. — Nunca ouviu falar que quem brinca com o fogo se queima?

–Relaxa, eu adoro brincar com o fogo, e não vou me queimar, já sou expert nessa! — Demonstrei falsa confiança. Luiz era o um dos únicos coordenadores dessa escola, talvez o mais legal, aquele que estava do meu lado.

Magro, como um graveto e alto, muito alto, tinha um olhar despreocupado. Moreno dos olhos castanhos.

Luiz era quase meu traficante, ele arranjava tudo para mim: Tinta, spray, cigarro, café da sala dos professores. As vezes tenho uma impressão que ele me quer longe daqui mais do que eu quero!

–Conseguiu aquilo que eu te pedi? — Pressionei com o olhar, erguia o pescoço o máximo que pudesse.

–Sim, mas beba aqui! — Luiz me entregou um copo branco, tampado com um buraco para ingerir. — Essa é a última vez que te arranjo café. Posso perder meu emprego.

–Ah você tem sorte, que eu não pedi vodca. — Brinquei. — Estou de ressaca, preciso disso.

–Quando você vai fazer algo certo? Algo bom para si mesma? — Ele sorria mas ainda sim parecia preocupado.

–O que é certo Luiz? Quem define o que é certo ou errado? Isso não existe Luiz, sabe o que existe? A vida, e eu estou vivendo, e indico que você faça o mesmo! De longe é o melhor remédio. Agora se você não se importa, eu e meu café teremos um longo dia.

–Estou de olho em você!

–Se você não estivesse, quem estaria?! — Dei as costas e entrei.