Young Blood
6 Six Flags
Notas iniciais
Annie.
Que merda! Foi a primeira coisa que eu pensei.
Percy devia ter me visto em uma das minhas crises, por que eu tive que engolir aquelas... Agh!
Que confortável! Foi a segunda coisa que eu pensei.
Dormimos de conchinha, nossas pernas entrelaçadas, a sua respiração no meu pescoço e seu braço apertavam forte minha cintura contra a dele. Fazia tempo que não tinha um sono assim.
A luz entrava sorrateiramente pelo o quarto. Lembrei que tínhamos perdido o jogo e a surpresa da Lia. Merda de novo! Me virei para Percy, que se mexeu um pouco, mas seu braço ainda segurava minha cintura.
O observei pela luz fraca. Lindo, como sempre; sua expressão era serena, a barba rala e eu não pude conter o impulso de acariciar sua bochecha. Passei para os cabelos negros rebeldes e ele gemeu baixinho. Arranhei de leve seu coro cabeludo.
— Isso é bom— sua voz estava rouca, me assustei e tirei a mão do seu rosto. Abriu um olho.— Continua, por favor. Saudades disso.
Sorri e continuei o carinho.
— Você tá muito bonito—saiu sem querer, e sorriu de olhos fechados.
— Tá me cantando?
Puxei seu cabelo e ouvi um sonoro "Ai".
— É claro que não, estou expondo os fatos.
— Então você não me cantaria?— ele abriu os olhos, e seu sorriso fez meu coração acelerar.
— Não. Primeiro: você tem uma namorada. E segundo: isso é motivo o suficiente. E terceiro, pra completar: prefiro mulheres—levantei um dedo, lembrando de algo.— E quarto: eu te considero um irmão.
— Eu senti seu coração acelerar. Você gosta de homens—sussurrou no meu ouvido e me arrepiei.— Isso é uma prova do que eu disse— Passou as mãos pelo meu braço.
— É, só que são canalhas. Não que mulheres não sejam... AH, cara chato— tinha arqueado a sobrancelha. Me levantei tirando a coberta dos nossos corpos e bufando, ele me abraçou pela cintura.
— To brincando loira, vem cá!— me deu um beijo na têmpora. Eu sorri.
Sentei na sua barriga. E olhei pra janela, desviando do verde.
— Desculpa por ontem. Eu...— puxou meu queixo.
— Não se preocupe, só quero que você tente não quebrar a promessa.
A promessa.
— Ninguém nunca tinha presenciado minhas crises. O que eu falei esquece, tá?
— Você vai não vai me falar mesmo?
— Eu gosto demais de você pra contar meus podres.
— Isso é paradoxal.
— Não! Não é! Olha não quero ver ninguém sofrendo por mim.
Ele esticou a mão e acariciou minha bochecha. Fechei os olhos sentindo suas mãos macias.
— O que passou foi tão ruim assim?
Assenti, e segurei sua mão.
— Sou complicada e imprevisível. Não gosto de que as pessoas se apeguem demais, elas podem se machucar com o que eu possa vir a fazer comigo e com elas.
— Falou tarde, eu sou apegado a você. Qual seria a graça de viver se as coisas fossem fáceis? Ei, não chora—limpou as lágrimas bobas.— Eu não vou te pressionar, conte quando quiser. Mas agora já era, você escancarou as portas da minha vida novamente, e eu vou fazer você ficar. Nem tente fugir.
Ri, e um fio de catarro escorreu. E ele assou meu nariz.
— Isso é nojento.
— Todo mundo tem catarro. Além do que, já até dormimos no xixi um do outro.
Ri, lembrando do episódio, e a nostalgia me envadiu, por que crescemos? Era tudo tão bom! Levantei da cama. Tentando parar de reviver o passado.
— Geralmente meus amigos me ajudam a fazer vídeos— caminhei até a caixa que tinha as câmeras.
— Só pode ser brincadeira!
Me virei, parecia muito feliz.
— Isso vai ser incrível!—murmurou.
Olhei as horas no meu celular e desanimei.
— É cedo ainda! São 5:30, de uma segunda-feira.
— Então vai logo. O Six Flags abre 10:30.
Ele já me ajudava a montar a câmera e as luzes.
— O que é isso?
— Eu falei que ia te levar em uma montanha-russa.
Senti "borboletas no estômago"?
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— Posto quando voltar— Tinha acabado de editar o vídeo.
Me desculpei por passar tanto tempo em off, mas falei que precisava desse tempo e que ia recompensar todos os meu cafonas em breve, e que estava na Califórnia de "intercâmbio" com a minha família e comentei sobre a morte da minha mãe. Eu apresentei Percy como Capitão Sardinha e falei pros cafonas que foi por causa dele que voltei a fazer os vídeos. E dei o seu endereço, dizendo que podiam invadir a casa dele pra agradecer.
Héstia levou donuts e sanduíche pro nosso café. Também levou umas roupas pro Percy.
— Eu vou tomar banho— falei, jogando o prato de comida no seu colo.
Sai do banheiro e fui me vestir.
— Caralho, eu tenho 508k seguidores no Insta e 576k no Twitter— Percy gritou do quarto.
— Vida de famoso é assim, bebê— coloquei uma lingerie azul. Sai do closet e o vi esparramado na cama.
— Desculpa então. Superstar— levantou a cabeça e me olhou.— Annabeth, porra, eu sou homem.
— Ah é?—fiz uma cara de surpresa, e cruzei os braços.
— Sim, e eu to de pau duro!
— Isso é bom, significa que funciona!— arregalei os olhos num falso entusiasmo.
Voltei pro closet e ele me seguiu encostando no batente da porta. Coloquei uma calça surrada com a barra alta.
— Pode bater uma no banho. Eu não me importo— ele riu.
— Desde quando ficou tão pervertida?—lambeu os lábios.— Me diz uma coisa.
Murmurei um "Fala" enquanto vesti o cropped listrado preto e branco.
— É estranho falar dessas coisas com você mas, ainda é virgem?
Ri com a sua pergunta. Lembro de ter um vídeo falando sobre minha virgindade. Agora, infelizmente...
— Não. Por quê? Você é?
Ele riu, e peguei um All Star preto.
— Ninguém nunca recusou uma indireta pra transar comigo. E não, definitivamente não.
Sentei no chão pra calçar o sapato.
— Pra tudo tem sua primeira vez. Então por quê tá de pau duro só por me ver semi nua?
— Qual é! Você é extremamente excitante.
O olhei, ninguém falava coisas assim pra mim tão naturalmente.
— Você não pode me achar excitante! Você me acha excitante?— perguntei na maior inocência.
Arregalou os olhos e pegou uma toalha.
— PORAH!— passou por mim e entrou no banheiro.
Sorri abobalhada. Ele me achava excitante.
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No rádio do Mustang 93 de Percy tocava Hit the Lights. Eu não gostava de pop, mas aquela música fazia parte da trilha sonora da minha vida. Fazia aquilo tudo parecer só mais um filme clichê hollywoodiano. Eu gostava disso, seria hipocrisia dizer que clichês eram completamente entediantes, às vezes sair da rotina é o que nós mais precisamos, mas o bom e velho clichê sempre me foi reconfortante.
O sol escaldante de julho queimava minha cabeça, mas era compensado pela ventania de quando Percy acelerava o carro. Quase não via as palmeiras das ruas. Paramos no sinal, meu cabelo estava uma verdadeira farofa. Olhei pra Percy, com o cabelo não muito melhor que o meu, mas o deixava charmoso. O óculos retrô... Quando ficara tão lindo? O refrão chegara e eu não me aguentei. Gesticulei como uma minhoca locona e cantei.
— "Hit the lights, let the music move you, lose yourself tonight"— me olhou como se eu fosse um ET. O encarei sobre os óculos aviador.
— Vamos Percy canta comigo, como fazíamos, eu sei que não é Beatles, mas dá pro gasto!
O refrão se aproximara outra vez e dessa ele me acompanhou com a voz rouca e afinada.
Eu ria, de verdade, coisa rara. Dois dias, e eu conseguir me apaixonar pelo clima praiano daquele lugar. As poucas pessoas que reencontrei, pela música no radio. O sol de rachar. Dois dias, e eu me senti que fosse explodir de tanta felicidade. Eu me sentia liberta. Eu me sentia infinita.
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— Você vai! Não saí segunda-feira de manhã pra vir em um parque de diversões e você amarelar— Percy me arrastava na fila de uma das mil montanhas-russas que tinha ali. Eu tremia. — Os risco são: o cinto não prender direito e você cair e morrer esmagada pelo impacto ao chão.
— ÓTIMO, PERSEU!—gritei e atrai olhares pra mim. Suspirei.— Eu vou nessa porra.
— Vai. Tá na nossa vez. Vamos ser os primeiros—sorriu diabolicamente.
— Coisa linda!— murmurei, sarcástica.
Deixei minha mochila florida nuns nichos, peguei meu celular e pedi pra maquinista tirar uma selfie nossa. Sentamos no carrinho, fizemos umas caretas e ela guardou meu celular. Respirei fundo...
— PUTA QUE PARIU...— ouvi a risada de Percy quando o carrinho arrancou.
E sinceramente foi a melhor sensação, melhor que orgasmo. Meu estômago doía de tanto rir. A adrenalina corria nas veias e eu gritava, ria com as mãos pro alto igual uma criança retardada. O carrinho parou e ainda sentada gritei:
— ESSA PORRA É MUITO LOUCA! DE NOVO!—pulando e batendo no carrinho.
Percy ria igual uma hiena, pegou minha bolsa ainda rindo e descemos pra ver as fotos.
E foi a minha vez de rir igual uma hiena. Eu sai aceitável pra uma foto tirada alta velocidade, mas o Percy... Cai no chão de tanto rir. Minha visão estava embaçada pelas lágrimas, minha barriga doía e minhas bochechas ardiam.
Levantei do chão e parei de rir, quase.
— Eu vou comprar essa foto!— arranquei minha bolsa dele e peguei minha carteira.
— Não vai não!— emburrado, tentou pegar a minha carteira, eu tentava empurrar seus braços de mim e colocando a carteira o mais longe do seu alcance.
— Moço, —gemi, o cara da banquinha de fotos sorria com a cena, constrangedora, se não fosse minha determinação por ter aquela foto— quero a foto do Tatsu 1/1, por favor. Eu só... Para, Percy, eu VOU comprar a foto.
O cara imprimiu a foto e a colocou em um envelope.
— Não precisa pagar, Annabeth. Grande fã.
Deixei-me relaxar, Percy parecia derrotado.
— Muito obrigada— ele me entregou o envelope.
— Será que você podia... Tirar...— parecia envergonhado.
— É claro! — peguei seu celular e tirei uma foto, fazendo careta, é óbvio.—Tá aqui, obrigado pela foto!— sorri e saltitei em direção do Percy numa barraquinha de sorvete.
— Como sabia que gostava de morango?— peguei o sorvete da sua mão.
— Grande fã— fez uma careta debochado.— Eu lembro, krida.
Quando fui lamber, ele empurrou o sorvete na minha cara e ouvi um click.
— Sovetin... E postar— o olhei incrédula.
Meu nariz tinha sorvete, MINHA CARA TODA TINHA SORVETE!
— Você não fez isso— Mandei meu olhar "vou enfiar tua rola no teu cú".
— Vingança—desligou o celular e saiu correndo.
Corri até senti meu joelhos fraquejaram. Veado, corria rápido e desviava das pessoas. É claro, diferente de mim. Parei, e me apoiei numa pilastra, tinha perdido o sorvete no meio do caminho, mas continuava com a foto.
— Cansou, Chase?— veio na minha direção. — Deixa eu limpar pra você.
Ele lambeu minha bochecha. Eu tentei me livrar mas foi impossível. Eu o xingava enquanto apertava minha cintura contra a dele, eu também ria, fazia cócegas, cerrava meus olhos e franzia o nariz.
— Pronto, limpinha— deu um beijo estralado da minha bochecha grudenta, passou o braço por mim e caminhamos rindo até o banheiro mais próximo.
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