Young Blood
40 Sem parâmetros
Notas iniciais
Your love is bright as ever
Even in the shadows
Baby take me
Nico.
Se eu dissesse que estava tudo bem, estaria mentindo na mais pura cara de pau.
Não, não estava tudo bem.
Ela não podia, simplesmente, chegar aqui, não dar oi ou um abraço ou um beijo e ir embora sem falar nada. E sem falar comigo. Eu já me acostumara com o hiper egocentrismo de Thalia, mas aquilo era uma sacanagem do caralho.
Seria eu quem ia procurá-la? Pois eu iria, então!
E como ela se atrevia a me aparecer assim? Linda, de cabelo colorido e aquele piercing? Às vezes, tinha a sensação que ela fazia de tudo pra me provocar e enlouquecer. Se eu a achava maravilhosa antes, agora, nessa versão mais radical e tranquila (não me pergunte como, ela era desse jeitinho mesmo, em opostos), eu estava, literalmente, pirando. E ainda mandava olhares e sorrisos insinuativos. Ela toda era insinuativa. Se existisse uma premiação de auto-controle e paciência, eu pegaria medalha de ouro maciço.
Escancarei a porta do banheiro, já delirando com fantasias do que faria com aquela boca incrível. Caminhei decidido até onde ela estava, paralisada pelo susto de tanta agressividade, quase pedi desculpas por entrar assim, mas tinha coisa melhor pra fazer. A puxei e a beijei sem pensar muito. Eu não precisava. Era automático. Era automático amá-la tão intensamente. Meu corpo formigou.
Thalia agarrou meu cabelo, soltando a liga que o prendia. Meu peito queimava, de dor e felicidade. Nossos lábios se esmagavam um no outro, pulsantes e implorando por mais. A boca dela sempre fora minha casa. Segurei seu rosto, acariciando as bochechas, mais sardentas que nunca. Não pude nem prolongar, porque ela já estava se soltando.
— Fica mais bonito de cabelo solto— enterrou os dedos, massageando meu coro cabeludo e arranhando com as unhas compridas. Quase ronronei. Segurei a vontade de revirar os olhos de prazer. As mãos dela... As carícias dela... Aquilo não era de Deus, não!
Encostei nossos narizes, tentando realçar o seu cheiro na minha mente. Nicotina e sabonete. Sorri fraquinho, com os nossas bocas se roçando, levemente.
— Você está diferente— sussurrei, de mil coisas pra falar, saiu a mais idiota.
Ela sorriu, fraquinho.
— Um diferente bom ou ruim?— passei os dedos na sua sobrancelha. Completamente, na dela.
— Um diferente estranho...— analisei seus olhos, perdidos nas nuvens e cheio de estrelas. Seus olhos eram meu céu.
— Você gostou?— ela mordeu os lábios, toda menininha.
— Eu me apaixonei— lhe roubei um beijo.— De novo— Eu estava encantado com tudo nela.— Tá fofa e envergonhada...— cara, como eu sentia falta daquele beijo.— Sorridente...
— Quem é você e o que fez com meu namorado emo?— franziu o narizinho. Ela parecia ter treze anos de novo. Até eu me estranhei. Mas era a mulher que fazia o homem, não?
Gargalhei, jogando a cabeça para trás. Era tanta coisa que estava sentindo ao mesmo tempo, tantas coisas boas e novas que eu fiquei tonto e desnorteado.
— Eu não sou emo— entrei na defensiva, com as bochechas doendo e os cantos dos olhos enrugados.
— Só um pouquinho— segurava um sorriso, gesticulando com os dedos. Roubei outros beijos.
— Nem um pouco.
Dessa vez eu prolonguei. Trazendo pela cintura, agarrando os cabelos e esmagando seus lábios num beijo devastador. Me acompanhava rápida e bruta como sempre gostei. A língua dela explorou minha boca, chupando em seguida. Podia até parecer inocente com aquele jeito garotinha, mas com um beijo daquele... As pernas dela bambearam, mas eu a segurei. A cordinha que pendia em seu rosto roçava na minha pele, gostosamente.
— Eu te amo— ela sussurrou, na minha boca. De olhos fechados.— Muito! Pra caralho...
Depois dessa eu ganhei meu dia. Meus meses. Meus anos.
Ela estava diferente. Um diferente bom e estranho. Um diferente feliz. Como se toda dor tivesse ido embora. Ela tinha voltado a ser o que ela era. Minha Thalia. Aquela que eu me entreguei no meio de uns arbustos a seis anos atrás. Ela estava ela mesma. E eu nem sei o quanto senti falta. Nem sabia que sentia falta.
Meu corpo todo esquentou.
Agora eu tinha uma certeza.
Nós seríamos felizes.
Porque eu a amava sem parâmetros, regras ou limites. Não existia uma medida contável. Não existia palavra. Eu era completamente apaixonado, eu a desejava mais que tudo desse mundo. Eu a amava mais que ninguém amaria alguém. Ela sabia disso, e me amava do mesmo jeito. Era só eu e ela no mundo.
Era Maktub.
Foi escrito por mãos divinas.
Nascemos um pro outro, sempre foi muito claro.
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— Onde pensam que vão?— a voz de Zeus trovejou, calando todos e nós fazendo estancar na metade do caminho pra saída.
Thalia segurou a barra do vestido comportado, a revirando, medrosa e apertou nossas mãos entrelaçadas que começavam a gelar juntas. A olhei de esguelha, mas estava séria, fitando o pai, em desafio. Sabia que não queria isso. Nem Zeus. Percebi o quanto estava cansado e baixei a guarda.
Parecia uma trégua.
— Sair— falou, simplesmente. Não parecia estar pedindo permissão. Mas também não estava só espinhos.
— Só uma volta pra conversar— expliquei, mandando um olhar suplicante. Remexendo os pés. Eu também estava casado de ser frio. Eu a amava. Eles deviam entender isso. Nada que pudessem fazer nos impediria. Nós éramos poderosos demais. Já tinham dado um passe livre, mas não queria dizer que não havia ressentimentos.
Thalia virou o rosto pra mim, com uma careta, lhe beijei a testa, instintivamente, a fazendo relaxar e chegar mais perto. A ação fez nossos pais lançarem olhares, confusos.
— Não demorem— meu pai decretou, sério. Tudo bem... Agora, sairíamos de fininho.
E nem esperei pra mais. Puxei Thalia porta a fora, sem nem mesmo pegar os sobretudos, ou captar reações. Concentrei no barulhos dos saltos de Lia. Dois homens abriram a porta dupla.
Então a noite nós preencheu.
Iluminada, movimentada e barulhenta. A temperatura era congelante, de céu estrelado. No fim da rua corria o rio Senna, e no começo dela era a principal Champs Élysée. Nunca tinha ido a lugar mais de época como Paris, edifícios em estilo clássico detalhados, ruas bem asfaltadas, árvores e flores milimetricamente plantadas. Tudo feito perfeita e elegantemente. Estava acostumado com neon, prédios decadentes e lixo pra todo lado da minha favorita LA.
Paramos na frente do restaurante. Vendo as pessoas passarem apressadas, outras a passeio, vendo o mundo continuar aqui fora, nós esperando pra agir.
— O que que aconteceu lá de dentro?— Thalia perguntou, meio atordoada.
Eu também estava assim. Trégua com nossos pais... Se fosse isso, era quase que impossível.
— Não tenho a mínima ideia— respondi, baixinho, digerindo.
— Ok, você me pediu pra irmos embora...— Thalia continuava olhando a rua, cheia de ciclistas e carros.— Mas pra onde ir?
Respirei fundo, sentindo algo gostoso correndo em mim.
— Conhecer Paris— falei, um pouco dramático demais.
— Conhecer Paris não é um lugar, idiota. Quero algo especificado— quebrou o clima, sendo estúpida. Tava demorando. Ela me olhou, com um sorrisinho de lado.
— Tu não facilita, bicho— ri, incrédulo pela chatice. Será que era contagioso? Ela apertou minha mão.
— Eu nunca, nunca vou fazer as coisas ficarem mais fáceis para você, Cabeça de Alga. Acostume-se com isso— ela sorriu. E eu pensei da onde esse comentário podre tinha saído. Como um flashback para um universo paralelo, soube que não se encaixava. Juntei as sobrancelhas, estreitando os olhos.
— Isso é uma fala da Annabeth, não?— eu tinha certeza que era. Ela riu, e eu me juntei, extasiado.
Um vento mais frio bateu, a fazendo parar e se encolher, soltando minha mão pra abraçar seus braços arrepiados. Seus lábios pintados de roxo tremelicaram. Tirei meu terno, por instinto, e coloquei sobre ela, recebendo um olhar feio, mas ela se encaixou nele, se aconchegando com um balançar de ombros. Suspirei, arrogante.
— Mais um gesto romântico desse e eu vomito— pegou minha mão, me arrastando pro sul da rua, onde podia ver a Torre Eiffel se erguer um luz amarelada.
— Você adora que eu sei, minha princesa— lhe beijei a bochecha, carinhosamente, e ela corou, pela primeira vez na história do nosso relacionamento.— Tá sentindo?— sussurrei no seu ouvido. Lia se encolher, com os pelinhos da nuca eriçados.
Ri da sua situação encabulada. Passei o braço pelos seus ombros, trazendo pra perto, sendo abraçado pela cintura.
— Não me chame se sua princesa, tudo, menos princesa— paramos na beira da calçada e todos os carros frearam pra nos deixar passar. Onde que isso acontecia em Los Angeles?
Apertamos o passo, atravessando as ruas. E não muito longe vi a voie allée Jean-Paulhan do outro lado do rio.
— Vamos pra lá— Thalia apontou para uma ponte. Caminhamos até uma faixa de pedestre, e esperamos o sinal fechar.
— Por que você não falou comigo quando chegou?— perguntei massageando seu pescoço, querendo matar a curiosidade.
Os carros pararam novamente no sinal vermelho, nos deixando passar. Houve uma longa pausa na conversa.
— Eu não sabia o que falar— falou, depois de pensar, assim que chegamos no início da Ponte l'Alma. E continuamos andando, em passos preguiçosos e em silêncio.
Quando sua presença ao meu lado me fazia formigar, eu a pressionava mais contra mim. Barcos e iates passavam pela água meio amarronzada debaixo dos nossos pés.
— Podia ter me beijado como eu fiz— respondi, vendo a fumacinha branca saindo da boca.
— Ah, sem essa! Estamos aqui, agora— falou, olhando meu perfil. Era tão alta quanto eu.
Abri um sorriso maior que o de antes.
— É, estamos aqui, agora— repeti, a olhando também.
...
— Ocêãoéalouomooiaiagem?— falei com a boca cheia de crepe de chocolate com morango. Ele era divino.
Ainda não tinha me decidido o que era mais bonito. A visão da torre por inteira ou de cima dela. Thalia escolheu um lugar perto da janela do café. E nem tínhamos chegado ao topo, não ainda, pois estômago roncou e tivemos que parar. A cafeteria que estávamos tinha nome de joguinho de celular, o que nós fez rir quase meia hora. Mas o Clash of Clans tinha o melhor crepe de chocolate que já comera. E era o primeiro lugar com lâmpadas penduradas por cordas que tinha ido.
Thalia olhou com uma careta, e depois sorriu.
— Eu não entendi porra nenhuma— derramou o potinho de calda no resto de massa avermelhada que ainda tinha no seu prato.
— Eu perguntei...— engoli o resto de comida na boca, limpei um cantinho que sentia sujo.— Sobre a viagem...
— Ahhhhh, tá. Segredo!— colocou o indicador nos lábios com uma cara safada.
— Fala logo!— pedi, enfiando os dedos pelos buracos da sua meia-calça. Ela mordeu um pedaço do crepe e a calda escorreu pelo seu queixo. Deu uma risadinha graciosa e se limpou.
— Foi lindo, Nico— sentou de lado, ficando de frente pra mim e cruzando as pernas na cadeira. Sonhadora e nostálgica.— Se não fosse por você, eu nunca mais voltaria. Eu descobri tantas cores novas... E, meu, nunca acreditei em magia, mas os lugares que vi...
Sorria e gesticulava, encantada com as próprias palavras, como só de falar ela voltasse por onde passou.
— Conheci tanta gente...— só pra enfatizar o seu telefone bipou, coisa que fazia direto, desde que cheguei perto dela.— Gente de verdade!
— Você convive com clones, então? Ou robôs?—zombei.
— Não, bobo. Gente incrível e louca e divertida...
— To vendo— apontei pra sua bolsa, onde estava o seu celular.— Thalia, você não...— a curiosidade me matava, mas saber me deixaria com raiva. Senti a testa enrugar.
— Não, deuses. Não!— respondeu, clara e rapidamente.— Só com a Annie, mas isso acho que você sabe— deu de ombros, mas aí ficou preocupada.— Você está chateado? Por que...
— Não— a cortei, rindo do seu desespero momentâneo.— Mas eu vou pedir um favorzinho em troca...
— Se ela topar, to dentro— abriu, mais do que o necessário, a boca e colocou um pedaço encharcado de chocolate, não perdendo o contado visual. Rimos.
— Eu tava brincando, Percy vai me matar se souber um dia que eu pensei em fazer alguma coisa com a Annie dele— peguei a taça de água, dando um gole.
— Annie dele?— perguntou, provocativa.
Bufei, já ia começar o papo sobre o relacionamento deles. E não tava muito afim disso. Mas uma coisa leva a outra.
— Continua o que estava falando, não quero falar dos outros— disse, passando a mão nas suas coxas.— Fala do festival, das pessoas...
— Caralho, Nico! Temos que ir ano que vem, parece que vai ser no Brasil...— ela tocou meu peito, com os dedos sujos, animada.— Eram tantas nacionalidades que ficava doidinha. E descobri que bêbada falo até latim— riu consigo mesma.
O clima tranquilo de antes estava voltando de acordo com a frequência que as suas palavras saindo.
— E eu conheci um alguém, sabe? Muito especial pra mim... Eu pretendo volta lá, pra visitá-lo— contou, provocadora. Apertei sua perna, em advertência.
— E quem seria esse alguém?— aumentei o aperto. Ela pegou minha mão, acariciando, tentando segurar um sorriso e lambendo os lábios.
— Badu é um amor. Encontrei ele na Tailândia. Só de falar dele me dá um aperto no coração. Ele é tão macio e gostoso. Eu montava nele a tarde toda...— puxei sua cadeira pra perto, farto desse tal de Badu. Meu humor decaiu, drasticamente. Agarrei sua cintura cravando as unhas nela. Nossos rostos próximos, tensão alta, mas ela se divertia. Travei o maxilar, fitando seus dois olhos azuis supersaturados.
— Então, você mentiu?— minha voz saiu rouca e áspera.
Ela mantinha uma expressão alegre e sexy.
— Sobre ter transado com outro? Ah, não...
— Thalia, não brinque com a minha cara— rosnei, febril.— E esse Badu?
— Você faz um biquinho pra falar Badu... Fala de novo, fala— ela fez um biquinho. Minhas mãos foram mais fundo nela.— Ai, amor. Tudo isso por ciúmes? Quer que eu te mostre uma foto dele?— ela ia se virando pra pegar a bolsa, mas eu a puxei.
— Você ainda tem coragem? Me fala que monta num homem e vem me mostrar a foto dele?
O sorriso dela lhe rasgou o rosto.
— Em nenhum momento disse que Badu era um homem— ela passou os dedos nos meus lábios. E eu senti meu corpo inteiro relaxar. Nem sabia o tanto de força que estava fazendo até ouvir aquela frase.
— Então...
Ela me roubou um selinho.
— Quer que eu te mostre a foto?
...
— Então quer dizer que Badu é um elefante... E ainda por cima casado?— comentei, aliviado, ri um pouco.— Que você foi benzida por uma andarilha estranha que vocês hospedaram nas suas barracas montadas numa montanha? Que ao invés de curtir os putas djs que tocaram no Tomorrowland vocês ficavam mais em volta de uma fogueira fumando um? E que tomou banho no mar mais azul que você viu? Que pulou de montanhas, abriu caminho por selvas, orou pra diversas religiões, andou em campos de flores...— a abraçava por trás, no para peito do ponto mais alto da torre, olhando a imensidão iluminada a nossa volta, mas na verdade, estava concentrado no seu rosto maravilhado com a visão.— Vamos! Eu quero saber de tudo!
— Eu também pulei de bang-jump e saltei de paraquedas. Andei por um deserto de camelo. Vi pores-do-sol diferentes, amanheceres enevoados, nascentes de rios e vulcões em ativa. Eu acho que sou meio budista, sabe? Eu te falei daquele monge que me ensinou a meditar e o verdadeiro significado da religião. Eu aprendi a sorrir com as pessoas de lá. Elas eram tão radiantes. Deixa eu ver mais... Ah! Annabeth descobriu o mais novo talento dela: desenhar... Olha ela é muito boa mesmo. E essa puta quase me fez dormir com um caminhoneiro, mas acabou que conseguimos outra carona até uma LAN house— ela encostou na minha bochecha.— Bem, é isso! Eu te contei a viagem inteira.
E nos calamos.
Por um momento. Apenas nos sentindo. Ouvindo os barulhos longínquos. As construções e as ruas pareciam de brinquedo. Daqui pude ver o Louvre e o Arco do Triunfo. Deviam ser umas 3h da manhã, e aqui em cima só tinha nós dois e alguns binóculos espalhados, os elevadores já tinha parado de funcionar e o guardinha dormia do lado oposto de nós, na entrada da escada. Nós tínhamos dado uma grana pra ele nos deixar ficar até mais tarde.
O ventinho frio batia nos meus antebraços e Thalia se aconchegava mais em mim. Meus ouvidos estavam um pouco entupidos por causa da altitude, meus olhos pesavam por tanta paz que sentia.
Passaram-se minutos incontáveis até um de nós se pronunciar.
— Nicolas?
Estranhei me chamar pelo nome todo.
— Hm?
— Sabe a andarilha que contei?— perguntou, suave.
Eu assenti.
— Eu falei para ela...— hesitou, trêmula.— De quando eu perdi o bebê— suas voz estava embargada.
Ajeitei a postura, alerta.
— Thalia, você não precisa falar sobre isso...— sabia de quanto aquele era um tema problema pra ela. Sempre evitávamos. Tocar no assunto era masoquismo.
— Mas eu quero, Nicolas— se virou pra mim. Com lágrimas negras escorrendo pelas bochechas.— Eu quero falar sobre tudo. Agora eu consigo. Você pode fazer isso por mim?
Não, eu não podia. De garganta fechada e coração afundado. Me esforcei por ela.
— Posso. Só não me chama de Nicolas. Parece que você vai dizer adeus e se jogar daqui de cima— passei os dedos nas gotinhas que caiam do seu queixo.
— Nunca mais eu tento me matar, eu juro— falou, séria.— A vida é uma coisa muito valiosa pra essas coisas.
Assenti, a encorajando. Então, ela explodiu em palavras. Palavras doloridas.
— Foi tudo culpa minha. Se eu tivesse me esforçado pra ele ficar...— ela abraçou sua barriga, soluçando forte.— Ela me disse que o bebê sentia meu medo e minha aversão e que eu não tinha que...
— Thalia, você tem uma doença. Não devia ter escutado essas baboseiras, não é verdade— falei, machucado. Meu corpo todo doía só de pensar. Falar já era um peso a mais. Meu coração parecia estar sendo arrancado do meu peito. Ela negou. Seus olhos me atingiram como navalhas.
— Queria que não fosse— falou, seca.— Hermes te contou, né? Além de ser infértil, eu tinha utilizado de heroína, Nico. Foi culpa minha, eu sei disso. Você sabe disso— limpou o próprio rosto, soluçando ainda mais e escondendo os olhos.— Ela me abriu a verdades que eu não aceitava. Sobre você, sobre Joe e o bebê.
— Ei, chega, vai...— tirei suas mãos do rosto, as segurando forte.
— Não! Mas não é a esse ponto que quis levar— ela respirou fundo.— E que...— sua voz falhou— me desculpe por ser tão egoísta durante todo esse tempo, juro que não foi minha intenção. Essa merda de personalidade escrota. Sou inconsequente. Mas, Nico.... Eu sonhava demais com você. Eu via coisas horríveis, e não aguentava— ela tocou a falha na minha sobrancelha. Os olhos vazios...— Agora, ela é um chame pra mim— sorriu, tristonha, quebrando meu coração. Senti os olhos marejarem.— Nunca mais corte seu cabelo, ouviu?— pegou uma mecha, a olhando, e enrolando com o indicador cheio de anéis.
— Não vou— garanti.
— Eu absorvi muito mais que você— confessou.— Muito mais— fechou os olhos.— Eu tenho tanto medo de me perder, de novo. Ou pior, te perder.
— Você não vai me perder.
— Não pode me garantir isso.
— É claro que posso.
Suspirou, melancolica.
— Me desculpe. Eu não faço ideia de como se sente sobre o assunto. Eu não perguntei. Eu nunca perguntei— ela parecia um poço de sombras sofridas.— Então, eu te pergunto se você está bem agora?
Ri fraquinho, altamente surpreendido com o surto de humildade. Entrelacei nossos dedos.
— Triste por se preocupar com isso. Não importa. Eu superei muito bem— sorri, vacilante. Era quase uma verdade. Uma meia verdade.
— Importa pra mim. Como você se sente?— repetiu, insistindo.
Finalmente, uma lágrima molhou minha camisa social.
— Como um prédio de janelas quebradas. Abalado, mas em pé— soltei, meio hesitante. Eu não era o Sr.Emoções.
— Sempre foi tão forte...— inclinou a cabeça pro lado, deixando a frase no ar. Esperei por mais, calado. Nossos olhos não desviavam um do outro e nossas mãos se apertaram mais. E por um minuto de coragem, ela soltou:— Vou fazer o tratamento de fertilidade, Nico.
Minha boca de escancarou.
Eu fiquei tão paralisado quanto quando Katie beijou Travis.
Ela ia fazer o tal tratamento.
Ela ia fazer...
A mesma alegria daquela noite chuvosa que ela contou sobre a gravidez de me invadiu.
— Eu quero viver no último volume, Nico. Eu quero tudo. Tudo com você. Eu quero experimentar todos os pratos do bufê, e você é minha colher, Nico— mordeu o lábio, nervosa. Eu ainda estava sem reação.— Temos que ter mais cuidado... Eu vou falar com Hermes sobre...
A calei com um beijo. Vários beijos, vários. Infinitos. Ela começara a rir e eu a sorrir e a beijar, louca e repetidamente. Sentindo seus lábios doces nos meus. Macios como os bolos da mamãe. Mas muito mais convidativos e gostosos.
— Que cuidado o quê!
...
O céu não estava mais tão estrelado. Parecia que ia cair rios. Dava pra perceber as nuvens pesadas. As ruas estavam mais vazias e menos iluminadas.
Íamos para a direção oposta ao apartamento de Annie. Não querendo ir pra casa. A noite era uma criança. Tínhamos passado do Louvre e da Ponte Des Arts que tinha caído a alguns meses atrás. Agora quase não tinham cadeados. Thalia me abraçava por trás e andávamos cambaleantes, bêbados de felicidade.
Eu sabia. Eu sabia que conseguíramos ser felizes.
Sentia leve como a brisa. Infinito como o ar. Intenso como a noite. Nós éramos poderosos. Nós éramos indestrutíveis.
— To com muita vontade de você— soltou, de repente, e mordeu minhas costas.
— Como cê me fala um negócio desse longe de casa?— virei pra ela, agarrando sua cintura e pegando seus lábios com os dentes.
— Quem disse que a gente precisa de casa pra se amar? Tem um beco bem ali— ela apontou, pra algum lugar atrás de mim, sedutora. Sorri, debochado.
— Thalia Olimpyus Grace, da alta sociedade da California, quem dirá dos Estados Unidos, quer fazer sexo num beco sujo de Paris?
— Não tenho cerimônia pra isso não, amor. Quero transar e vai ser agora. Com ou sem tigo— ela se desvencilhou dos meus braços, caminhando pro beco, sabendo que eu a seguiria.
Suspeitei da sua bipolaridade. Mesmo com os olhos borrados de choro, os lábios inchados de beijos e o rabo de cavalo com dreads desgrenhados, ela estava mais sensual que jamais outra mulher seria pra mim. Me lançou um olhar pelo ombro, se insinuando sempre, empinou a bunda, sendo engolida pela escuridão do beco.
Era bem apertado, entre dois prédios altos. Quente e fedia um pouco. Cacei um cigarro no bolso, achei junto com um isqueiro. E acendi com maestria, vi Thalia encostada na parede de tijolos pichada, apenas me esperando.
Me aproximei, vagarosamente, jogando o jogo e tragando. Profundo. Expirei a fumaça mal cheirosa. Me impregnado. Estávamos frente à frente. Apoiei a mão com cigarro na parede áspera, encostando nossos corpos pulsantes. Ela alisou minha gravata, meu peito e me lançou aquele olhar, dos muitos que fazia. Aquele de mulher crescida e irresistível. Eu me senti acordar por inteiro. Estava pegando fogo, sem ao menos a tocar.
Beijei e lambi seu pescoço, colocando a outra mão no seu peito, massageando, carinhosamente. Enorme, mas camuflado pelo vestido comportado. Descansou a cabeça na parede, gemendo baixinho.
— Gostosa— mordi o lóbulo da orelha. Puxei seu quadril pra mim, roçando no meu.
— Grandinho?— rebolou em mim, com um sorrisinho arrogante e as costas grudadas na parede.— Já excitado, Nicolas? Tá sensível?— lambeu os lábios, desafivelando meu cinto e abrindo minha calça. Enfiou a mão lá dentro, agarrando meu membro com as mãos aquecidas.
Levantou o queixo, olhando nos meus olhos, intimidadora, e me iniciou o vai e vem, pesado. Me virou na parede, colando, violentamente, minhas costas nela. Levei o cigarro aos lábios, divertido e relaxado, a deixando frustrada por só deixá-la me masturbar e não fazer mais nada. Por fazê-la parecer a subordinada enquanto queria ser a coordenadora.
A pressão lá em baixo era colossal. E ela continuava, testando meus limites, vendo quando eu ia tomar uma providência, quando eu ia me cansar e revidar para ela agir, mas eu estava me deliciando. Nossos rostos estavam grudados. Exalei a fumaça pelo nariz, evitando pegar nela. Soltei seu cabelo e penetrei minha mão nos anéis azuis.
— Se você quiser se ajoelhar e me chupar gostoso... Você pode— sussurrei, com a voz rouca, nos seus lábios. Seus olhos escureceram mais ainda, excitados e raivosos. Ficava mais excitante àquela luz.
Parou de me masturbar. Apertando meu pênis forte, mas eu só traguei novamente, dando um beijinho nela boca. Ela era egoísta, e queria ser aliviada no momento dela e controlar a situação. Além odiar preliminares. Odiar mesmo.
Ela levantou o vestido. Exibindo a minúscula calcinha coberta pela meia-calça preta. Sabia como me tirar do sério. Minha respiração se acelerou quando ela se afastava, mesmo que um pouco, e começava a tirá-las, sensualmente.
— Merda, Thalia— levei minhas mãos ao meio de suas pernas, rasgando a meia-calça e calcinha, abaixei bruto, a trouxe em minha direção, tirando meus pênis da calça e a fazendo sentar em mim.
O barulho do atrito das nossas peles ecoou, estralado e melado, me animando mais. Thalia soltou uma risadinha, provocadora.
— Pensei que não ia tomar atitude— cavalgou devagar em mim, jogando a cabeça pra trás. Cravou as unhas no meu peito, voltando e olhando para nossas intimidades, uma dentro da outra, pulando mais em mim. Deixei o cigarro cair.
Bati sua bunda e apertei com toda a força que tinha, a fazendo ir mais rápido. E eu a ajudava com os impulsionando o meu e o seu quadril. Nossos gemidos saiam alto, Thalia gritava, às vezes, não aguentando tanto prazer e saudade do nosso sexo. Nós poderíamos botar fogo nesse continente inteiro.
— AH! ISSO— gritou, como a voz grossa, e mirou meus olhos, faminta. Contraiu as sua paredes, me fazendo socar mais forte.
Grunhi, desesperado por mais. E ela ia. Beijei sua boca, meio torto, com a respiração pesada, enfiando a língua nela. Seu joelho direito devia estar todo ralado por estar batendo na parede. Estoquei mais fundo, sentido todos os seus músculos tensionaram e ela se desvencilhou do beijo. Seu corpo todo subiu, travado e eu coloquei a palma da minha mão pro seu joelho ficar.
Thalia ainda estava ofegante, com o rosto mais acima do meu, sua mão puxou meu cabelo, quase arrancando os fios. E desceu, ao meu encontro, como sempre fazia. Como a caçadora. Comecei a sentir os primeiros espasmos de prazer vindo.
Pesados pingos d'água caíram das nuvens. Mas ela não iria parar, não agora, que as coisas estavam saindo do nosso controle. Não quando o tesão eram maior que nós mesmos. Quando eu estocava com tanta força que minha visão ficava distorcida. Eu me sentia dolorido com ela quicando em mim, eu me sentia louco.
Ela grudou nossas bocas num beijo calmo, por mais que nossos corpos não correspondiam dessa forma. Os líquidos escorriam por nossas pernas, mas não parávamos, não dava.
E a chuva caiu pesada. Cobrindo nossos barulhos. Nem mesmo ela poderia nos apagar.
Porque mesmo nas sombras... Nosso amor brilhava como sempre.
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