Young Blood
24 Encarceradas
Notas iniciais
Annie.
BAAAAANNG!
A grade de ferro foi trancada num baque muito alto.
Presas.
Nos confins de Wilshire. Sortudos são aqueles que fugiram antes da polícia chegar acabando com a festa por denuncias de consumo de drogas, e que nos deixaram apodrecer naquela cela cinza riscada cheia de mofo tóxico. Nem banco tinha!
Patético.
Nós estávamos chapadas demais pra sair correndo, tudo culpa da mágoa. Só nós duas, as mais fudidas de todos. Já deve saber quem é. Óbvio.
Connor foi encontrado morto na sua própria casa. Overdose. Pelo menos foi o que ouvi dos policiais na viatura. Seu irmão, eu não fazia a mínima ideia onde se meteu e, provavelmente, nem tinha noção dos danos que sua festa causou.
Era um dos motivos para estarmos ali. Nem era grande coisa esse negócio todo de drogas. Já vi pessoas fazendo o pior e a nem chegaram a ouvir o barulho da sirene da polícia.
E eu... Eu sentia vontade de chorar, mas não conseguia, queria rir, mas o riso engatou na minha garganta, fazendo um bolo doloroso. Abraçava e acariciava os cabelos de Thalia, tremendo por causa do choro, ela tinha levado aquilo da pior forma, porém acho que a falta de lucidez a afetou ainda mais.
Não sabia como reagir a Connor. Eu me senti como um pedra, dura e fria por dentro. Estava ficando cada vez mais enjoada ao pensar nessa noite.
Não me incomodou morte de Connor, sinceramente, não me afetou em nada. Talvez eu nem ligasse. Duro, não? Mal? Com certeza. Eu sentia pena do pobre coitado, levado por drogas. Por mais que eu achasse que não era o fim daquele filho da puta... Eu não esperava a minha hora.
De ser levada pelas drogas.
Eu cansei de ser enganada, usada e chutada. Sem um pingo de remorso. Acreditei, e me deixei levar, mais uma vez pelos encantos de Percy Jackson. E pra quê? Eu não sei.
Honestamente? Eu não sei.
A história se repete de novo. Com os mesmos sentimentos e os mesmos personagens. Tudo se resume a ele, mesmo? Toda a dor, todo o sangue e lágrimas derramadas? Eu era tão patética assim? Cagar a minha vida inteira por causa de uma paixão?
Ódio subiu a garganta, e meu coração foi abraçado por trevas.
O efeito alucinógeno começava a passar, mas a cabeça ainda latejava, os olhos ardiam e eu ainda sentia vontade de sair correndo gritando pro mundo, assim como eu queria deitar e esperar pela morte. Começava a amanhecer, e ninguém havia chegado pra nos tirar dali. Tudo que eu precisava era de café, Frank e Hazel.
Mas o que eu queria mesmo era vegetar na minha cama, desaparecendo lentamente até que ninguém mais lembrasse quem eu era.
— Você está me dando medo, Annabeth— Lia fungou, e me olhou numa careta, minha cara devia estar sombria, eu me sentia velha e sem forças. Ela parecia um panda, os olhos pretos manchados, os cabelos, uma juba e a pele branca como papel, salpicada por sardas pálidas. Nós estávamos no chão, junto com nossa dignidade. Sem sapatos, e as roupas parecendo um arco-íris.
Prometera cuidar de mim. E beija outra garota. Não o culpo, não somos nada mesmo, só bons... Bons amigos.
Tentei trazer minha sanidade de volta, eu sabia que essa não era eu.
Ou era?
A parte mais oculta do meu ser. Tive medo de eu estar correta. Arrumei meus pensamentos embaralhados e escuros, tentando formular uma frase. Thalia parecia bem melhor agora, a garota era bipolar.
— A mim também— não olhei em seus olhos. Continuava olhando o nada, vendo coisas horríveis.
Ela se ajeitou no chão, ficando de frente pra mim. Já não chorava mais. De alguma forma, Connor devia ter sido apagado da sua mente.
— Por que está assim?— sua voz era mais rouca e acabada que o normal.
— Eu não devia ter injetado aquele merda— descansei a cabeça na parede cinza riscada.
Thalia riu tão naturalmente, sabia que aquilo era uma mentira, acabei rindo com ela. Tinha sido a melhor parte da noite.
— Como você sabe?— olhei em seus olhos, reluzentes e frios. Não que eles mudassem em algum momento. Eram olhos de quem já viu muita coisa. E que tinha vivido tantas vidas.
— Somos merda da mesma bunda, Annabeth— passou as mãos no meu rosto.
Fechei os olhos, apreciando seu gesto.
— Só que eu cheiro pior que você— ri, com ela se aproximando do meu rosto.
— É, talvez. Ou não. Você não sabe quem eu sou. Não sabe o que eu vivi.
Me beijou. Os lábios quentes e úmidos, minha língua invadiu sua boca. A sensação foi a de mais pura prazer, Thalia sabia o que fazia. Nossas línguas dançavam juntas. Ela puxou meu cabelo e aprofundei mais o beijo, passei as mãos pelo seu braço arrepiado, não diferente do meu. Mil coisas passaram na minha cabeça, e a mais intensa foi: o quanto o beijo dela me fazia bem.
E o quebramos por falta de ar, e ela mordeu meu lábio, ofegante. Sorri involuntariamente e abri meus olhos, esperando ver os seus. Mas tudo que eu vi foi um vampiro loiro apertando sua ereção e nos engolindo com o olhar.
E eu tinha certeza que não era uma alucinação. Eu acho.
— Tem um policial olhando pra gente— sussurrei na sua boca.
Thalia virou discretamente, o olhando, e virou com um semblante despreocupado.
— É só o Dakota. Um policial corrupto do caralho. Eu o chupava em troca de cocaína quando era mais nova— ela se encostou na parede e eu deitei em seu colo.
Eu realmente não a conhecia. E eu iria desvendar seus mistérios.
Começou a desfazer meu rabo de cavalo e enterrar as mãos no meu cabelo, um leve arrepio correu no meu corpo. Eu adorava suas carícias.
— Então, você está me dizendo que o cara que estamos encarando que também nos encara e, provavelmente nos controla aqui dentro, é um devasso ilícito?
— Er, o que quer que isso signifique...—cerrou os olhos raciocinando minha frase.
Eu ri.
— Eu não te conheço mesmo.
Entrelacei nossas mãos acima da minha cabeça. E perdi meu olhar nas tatuagens da sua mão. Um tigre e o nome de Nico escrito nos nós dos dedos.
— Sabe a qual é a nossa diferença?— neguei e continuou a falar.— Eu sou uma puta drogada que transa com qualquer um, inclusive policiais e seus próprios primos, porque quero. E você é uma lésbica boca-suja que pega qualquer menininha indefesa, porque aquele merda do Luke fez isso contigo. Ele tirou o que restava de pureza em ti. E eu não, eu não sou pura. Eu nunca fui— batia de leve nossas mãos na minha barriga enquanto falava.— Você é boa garota que se perdeu no caminho da igreja.
Ri da sua analogia filosófica.
— Eu não vou a igreja.
— O que eu estou querendo dizer é: somos iguais; nossas éticas, nossos valores morais, os princípios. Mas eu sou assim, porque sou assim. Você é assim porque os outros te transformaram. E eu vou te dizer uma coisa. É um caminho sem volta. Uma vez nessa escura estrada, é pro resto da vida.
— Eu não sei se voltaria um dia...
— Aconteceu de novo, não foi?
— Fico me perguntando como você me arranca tudo.
Ela soltou minha mão e abriu os braços com ar de superioridade.
— 'Cause i am the boss, bitches—rimos por alguns minutos, não nos julgue. Estava mais doidona do que o Bob Marley 4:20 da tarde. Minha barriga doía e a cara da Thalia parecia um tomate.
Respiramos fundo, nos recuperando.
— Você tá sem 'seu P'...
— Eu me apaixonei de novo, Thalia. Acho que eu nunca superei aquele babaca— ela olhou além da grade e suspirou fundo.
— Você tem certeza disso?
— Eu não sei.
Ficamos em silêncio um bom tempo. Era gostoso ficar ali, só sentindo uma a outra. Lia era minha irmã de muito tempo, minha alma gêmea.
— Eu terminei com o Nico.
Fiquei de pé assustada, num movimento só.
— Qual é o teu problema?— falei um pouco alterada. Eles se amam! Por que isso? Não consegui achar explicações plausíveis pra ela terminar o recém aceito namoro com seu primo. Minha cabeça iria explodir a qualquer momento, senti meu cérebro inflar contra o crânio.
— Calada, delinquente!— uma policial morena de trança gritou.
— Fala baixo, retardada!— ela me puxou e cai sentada em seu colo.
— Por quê?— coloquei uma sua mecha atrás da orelha, mais calma. Tentando não matá-la na porrada. Percebi o jeito longínquo e deprimido.
— O motivo que eu dei pra ele ou a verdade?
— Os dois.
— Ele me arrancou um saquinho que cocaína— deu de ombros e eu ri.
— Motivo ridículo! Agora o de verdade.
Abraçou minha cintura e descansou sua cabeça dos meus peitos.
— O que você acha?
— Quer falar sobre isso?
— Não— suplicou. Não a obrigaria, devia saber o quanto é difícil se abrir, ainda mais quando o assunto era tão sério quanto as coisas que havíamos passado. Mas a curiosidade berrou dentro de mim, avassaladora, eu não consegui respeitar seu pedido.
— Porra, eu te falo tud...
— Eu não superei— desencostou de mim e sorriu seca. Encostou sua cabeça na parede evitando meus olhos.— Nunca quis filhos. E... Engravidar do cara que eu amo, me fez feliz. Foi inexplicável, por um momento eu me senti completa. E me vi, em uma casa com filhos e um cachorro. Eu pensei em ser normal, e como isso ia ser legal. Principalmente do lado de Nico. Depois de tudo que passamos. Não foi só NY, passamos por tanto sofrimento juntos, Annie. É tudo tão intenso entre nós, eu não aguento às vezes— ela engasgou e olhou nos meus olhos. Podia sentir suas vibrações, sentimentos ocultos, amor e mais do que tudo... Confiança. Nós tínhamos a relação que eu mais prezava, éramos confidentes, Thalia começava a ocupar um lugar insubstituível na minha vida.
— Annie, eu o amo tanto, tanto—sua voz falhou, começamos a chorar juntas. E nos abraçamos forte, sendo a bóia salva-vidas uma da outra. Vê-la assim, abalava meu mundo. Fraca e frágil, coisa rara, mais que tinha que acontecer algum dia— Se Connor e Travis não tivessem chegado... Eu não ia sangrar até a morte, e sinceramente, não estava nem aí— a apertei com mais força. Era duro, eu sabia, não podia dizer que ia passar, não podia falar superasse. A coisa era bem mais complicada. E eu nunca a abandonaria, por nada.— Eu quero ir embora, Annabeth, eu não vou aguentar por muito tempo. As coisas com Percy, a viagem ao Canadá, o motivo que fomos expulsos da Goode, NY, a clínica... Tudo está me assolando.
Queria perguntar as coisas que não me faziam sentido. Coisas com Percy? Porém, estávamos fracas demais pra soluços, as lágrimas corriam pesadas. Vi o sol, já no alto, indicando o início da manhã. Será que era tão difícil vir nos tirar daqui e da vista do vampiro tarado?
Quase me bati. Droga, um amigo havia morrido e eu estava sendo tão egoísta e mesquinha? Como pude ser tão sulvina? Imagens da minha infância com Connor voaram direto pra minha cabeça. Meu coração apertou, e eu senti a razão se esvair do mundo. Eu era suja e má. Comecei a chorar por isso também e nutri um auto-nojo. E tudo me veio de supetão; as noites na rua, drogas, muitas drogas, beijos quentes, a boate, Luke, lâminas, as figuras escuras que me vendiam heroina, o hospital e a morte da minha mãe. Ouvi o barulho de um tiro e o som do meu próprio choro.
Alucinações ruins, minha mente gritava. Esfreguei minha cabeça em Thalia, tentando apagar essas lembranças.
...
Consegui enjaular minha parte sentimental, assim como Thalia. Tremíamos e suávamos frio, os olhos fundos e a visão turva. O efeito pós-droga começara. E isso não era bom. Ríamos como retardadas, andando com algemas até o local onde iam nos soltar, a entrada da delegacia. Me virei para a policial, ela era gostosa. A mesma que me chamara de delinquente. Não parecia mais velha que eu. Salivei nos aproximando o máximos possível, e ela olhou desconfiada.
— Qualquer dia que quiser desestressar. Estou a disposição de te chupar todinha— sequei seu corpo e tentei ler seu crachá, mas ele parecia rodar.
Sorriu maliciosa, jogando meu jogo.
— Policial Ramirez— adorei sua voz, grossa e mandona.
— Ramirez— me deliciei do seu nome, me aproximando dos seus lábios.
— Annie, Thalia...—ouvi a voz do meu pai em algum lugar.
— Você bem que podia ser tão boazinha como ela, Grace— vi Dakota apertar sua bunda enquanto tirava suas algemas, e voltei para as orbes castanhas claras.
— Eu adoro latinas...— levantei as sobrancelhas com um sorriso de lado, tentado parecer sexy.
Ainda bem próximas, ela começou a destrancar as minhas algemas.
— Eu não sou lésbica— tinha seus olhos cravados em mim.
— Eu posso te tornar— sussurrei contra sua boca. Me soltou, e por dentro do meu vestido, ela apertou minha bunda.
— Gostosa— sussurrou com força.
— Annie?— a voz dele tirou meu momento.
Era agora, Annie. Hora de se tornar uma verdadeira pedra e enterrar a sete palmos todos os meus sentimentos. Era hora de crescer e esquece-lo. Ele havia feito sua escolha, e nas duas me dispensou. E, por amor próprio, eu não ia permitir uma terceira. Eu prometi pra mim mesma nunca mais cair nos seus encantos.
Me virei, roçando minha bunda na Ramirez, e encarei seus olhos. Verdes garrafa, e só existia nós dois. O mundo ao redor era segundo plano. Meu ouvidos entupiram e meu coração saltava na garganta. E foi como um estralo. Minha visão embaçou e eu soube que era ele.
Ele era tudo.
Promessas são feitas para serem quebradas.
Uma onda de calor correu meu corpo. Era isso mesmo? Apaixonada? Eu tinha que ser tão vunerável? Eu ia quebrar minha promessa? Controlei minha vontade de correr e abraçar seu corpo pálido.
Estava visivelmente abatido, o brilho bronzeado de sua pele estava fosco, e ainda usava as roupas de ontem. A camisa azul amarrotada quase explodindo por tantos músculos, e o cabelo seboso apontando para todas as direções. O maxilar quadrado e as sobrancelhas pretas e grossas. Tinha bolsas roxas abaixo dos olhos, mas continuava lindo.
Definitivamente, ele era e minha queda de um penhasco. Definitivamente, ele era a mão que me sustentava no ar, e me dava uma nova chance, uma fagulha de esperança.
Fiz questão de explicitar me desprezo. Nem percebi quando meu pai puxou meu pulso. Percebi a presença de Nico. Perdido, assim como todos nós ali. Os outros deviam estar com Hermes, no hospital. Eu ainda tinha a suspeita que Connor não estava morto. Mas não tive coragem de tocar no assunto. Meu pai me abraçou forte, sussurrando coisas incompreensíveis pra mim. Ouvi o som de algo caindo, e ouvi Thalia xingar. "Me solta, não preciso de sua ajuda".
— Frank e Hazel estão te esperando em casa— falou sério. Não consegui olhar seu rosto. Saímos caminhando em direção a recepção.— Sabia que eles voltavam hoje à tarde? Por que faz isso consigo mesma?— meu pai agarrou Thalia, e a segurou debaixo do braço. Tremia mais que eu, e começava a ficar pálida demais.— Vocês quatro!
Sentamos nos sofá cinza no canto da sala enorme, esperando por não-sei-o-quê. Estávamos apenas com uma recepcionista em um grande balcão em nossa diagonal direita. As portas de vidro, revelavam uma multidão de paparazzi. Não reparei muita coisa, mas o lugar era elegante, estava preocupada de com passaríamos por tantas pessoas.
— Olhem vocês!— continuou a bronca. E ouvíamos calados. Percy e Nico não estavam diferentes, o chão lhes eram bem interessante.— A juventude é uma dádiva, e vocês abusam dela... Cadeia?— a calmaria do meu pai me deixava leve. O cara era foda. Sem outras palavras que poderiam descreve-lo. E eu o amava. Seu cabelo estava preso numa liga na parte de trás da cabeça, e as linhas de expressão no canto dos olhos estavam mais fundas. Havia uma barba por fazer em quase toda a metade da bochecha.
Encarou Percy e Nico, sentados a nossa frente ainda de cabeça baixa.
— Connor...— falou, como se aquilo bastasse. E realmente funcionou.— Drogas, sexo, cadeia, sei lá, orgias...
Soltamos um risinho estrangulado. E continuou, cansado.
— Fazem parte, eu vivi isso! Nunca irei negar, era ótimo...— nos o encaramos fascinados. Tinha dom com as palavras, colocava emoção nelas.— Se sentir vivo... Jovem, poderoso. Poder fazer o que quiser, na hora que quiser...
Aconcheguei-me mais nele, não havia um fio de cabelo do meu pai que não gostasse, encarei sua perna. Alimentando-me das suas experientes palavras. Nunca lhe faltava uma história, um ensinamento. Ainda tremendo, Thalia fez o mesmo e meu pai lhe beijou a cabeça.
— Mas um dia... Estarão no meu lugar— ele me olhou, significativo.— Dizendo aos seus filhos como usar uma camisinha...
Os meninos riram, fazendo da conversa uma diversão. Não existia dor, fama ou preocupações ali. Só me concentrei nas palavras.
— Ou um absorvente interno...
— Pai!— exclamei com a mão no seu peito.
Vi a careta de Thalia.
Acredite, é horrível.
— Dando-lhes a primeira cerveja e o primeiro cigarro. E eu sempre irei apoiar essa louca adrenalina sem limites. Viajem, comam, escrevam, leiam, bebam, conheça pessoas novas e façam delas suas. Encontrem o amor verdadeiro...— nos olhou acusador.— Se já não o encontraram.
Houve reclamações brincalhonas de nós quatro.
— Transem muito, participem de orgias, em lugares públicos. Eu sei que fazem— riu consigo mesmo.— Façam do nosso sacrifício, pais, valerem a pena. Vivam. Mas tomem cuidado. Assim como essa época vale. Segurar seus próprios filhos pela primeira vez... Ou quando trocarem aliança... Isso é... Tão vívido quanto!
— Eu não posso ter filhos— Lia falou, num sussurro.
— Thals...— Nico como se ele tivesse enfiado uma estaca no seu coração. Meu pai puxou seu rosto pra si, com um sorriso paterno.
— Escute, não há nada, absolutamente nada, do que você não possa fazer. Não faça disso uma barreira. Se há tratamentos, se trate. Adote!
— Com licença, senhor— a recepcionista se manifestou, viramos pra ela em busca de algum aviso.— Seu táxi chegou.
Nos olhamos uma última vez.
— Amo vocês. Eu só me preocupo, ok?— assentimos e levantamos juntos.— Eu vou voltar o hospital, Frank e Hazel iram cuidar de vocês até a hora de voltar. E cuidado com os paparazzi.
Fomos em direção da saída, minha mente começava a ficar mais obscura e tudo parecia apenas uma sonho distante.
Olhei pra cima confiante, podia estar acabada e saindo da cadeia, mas sairia com estilo. Afinal, eu sou eu! Levantei meus dedos do meio e sai andando até o taxi.
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Frank passava as mãos pelo meu corpo. Lavava cada parte com a delicadeza de sempre. Thalia estava do meu lado, sendo lavada por Hazel. Eu não me sentia nem um pouco constrangida com eles, afinal, foi assim que ganhei o apelido de pintada. Por causa de uma grande mancha clara no interior da minha coxa. E também já estava acostumada.
A água quente e cheia de espuma me deixava mais sonolenta. Minhas pernas se roçavam com as de Thalia na banheira. Era uma atrito gostoso, as mãos de Frank massageavam suavemente meus cabelos, enquanto Hay passava sabonete nas costa de Lia.
Tudo estava longe, ouvia uma música tranquila vindo do stereo do banheiro. Vi as expressões decepcionadas dos meus amigos e me encolhi. Quieta, sem falar nada com ninguém, apenas o barulho da água e da música. Encarei os ladrilhos beje do banheiro da Lia. Minha cabeça latejava e cada local do meu corpo parecia ter sido pisada por uma manada de elefantes.
Frank pegou o ducha e enxaguou meu cabelo, passando a mão delicadamente. Deixou um beijinho no meu ombro e continuou o trabalho de me deixar limpa.
Thalia se levantou e Hay a enxugou. Não muito tempo depois, foi feito o mesmo comigo. A toalha macia roçava lentamente no meu corpo. Pensei que ia desmaiar de tanto sono. Me tiraram da banheira e me levaram até o closet. Senti uma camiseta sendo colocada em mim, logo depois um calça e um casaco de moletom. Frank sabia que meu sono ia ser perturbado, ele pensara em tudo. Saímos dali e vi Thalia na cama, bebendo algo. Sem forças pra perguntar. Passei meus olhos mortos e vazios pelo quarto.
Preto com rachaduras e respingos propositais. Posters de filmes e bandas enchiam as paredes. Havia a cama baixa em cima do tapete azul elétrico, estantes do lado esquerdo e na parede ao meu lado, preenchidas com livros e CDs antigos bagunçados, vi Joe Mary (um dos instrumentos favoritos de Thalia) em um canto, tinha também um piano. Em um outro lado apenas a cortina azul da tonalidade do tapete.
Me sentei ao seu lado, Hay entregou uma caneca grande. Café com menta, o aroma maravilhoso da bebida encheu minha cabeça. Sabia que tinham colocado calmante ali dentro, o que era bom. Eu precisava dormir. A levei a boca, sem vontade nenhuma, mas tomei. O café ajudava a eliminar os efeitos posteriores, como também a menta. O alivio me invadiu, terminei toda a bebida em goles desanimados, entreguei o copo para Hay. Thalia já estava aconchegada ao meu lado, em um sono profundo.
— Posso falar com você, antes de ir— a porta abriu e ouvi a voz de Nico, mas não consegui o ver. A fadiga já estava me levando.
Senti beijos no rosto e sussurram um "amo você".
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