You Got A Hold Of Me
23 Capítulo 023 - Grande dia. (Parte 2)
Notas iniciais
Só uma coisinha mais: A vingança contra a Megan, o plano do Finn e FaBerry. Essa é a ordem para o desastre.
Rachel? Finalmente me ligou. Está bem? Saindo da terapia? — perguntou Quinn tirando sua atenção do livro que lia segundo atrás.
Sim e sim. — a voz da morena tinha um sentimento imperceptível. Algo entre nervosismo e angústia.
Aconteceu algo? — Quinn perguntou preocupada.
Digamos que agora a terapia começou de verdade. — Rachel disse de forma simples e suspirou após um segundo — Mas e então, te liguei porque pediu e estou no estacionamento do prédio aqui do consultório.
Quinn notou que o "digamos que agora a terapia começou de verdade" foi um pensamento involuntário
Tudo bem. Vai indo ver a Santana? — perguntou a loira levantando de sua cama. Se Rachel queria direcionar o assunto para outro lado, ela respeitaria.
Sim, vamos na casa dela agora, ou da família dela. Porém ela não sabe disso. — uma pontada de alegria e nervosismo foi notada, o que fez a loira sorrir.
Espero que se saia bem, tipo, que Santana não te mate. — brincou a loira.
Boba. — resmungou a morena rindo, Quinn ouviu uma batida e acreditou ser a porta e a trava — Querida, agora vou dirigir e não posso falar.
Certo, nem ouse fazer, é arriscado. — concordou a loira — Nos vemos a noite, beijo.
Te espero em casa com minha nada desorganizada família. — brincou a morena — Até mais tarde, querida.
Quinn lançou o celular contra a cama após desligarem e foi em direção ao espelho do quarto. A loira respirou fundo.
Quais suas intenções com minha filha? — Quinn perguntou fazendo uma carranca e engrossando a voz para em seguida relaxar os músculos do rosto e respirar fundo novamente — As melhores possíveis. — disse com a voz normalizada.
A loira gemeu e abaixou a cabeça. Aquilo estva definitivamente uma grande porcaria.
Santana e Rachel se encaravam dentro do carro da animadora já há algum tempo. A morena tinha um sorriso culpado no rosto, já a latina estava de braços cruzados e não esboçava nada como fúria ou tristeza. Era uma pedra de gelo. O carro estava estacionado na calçada em frente a casa dos Lopez há mais de dez minutos
A latina ainda lembrava-se da última vez que esteve naquele lugar. As garotas se encaravam.
É a sua família. — disse Rachel.
Que me expulsou de casa sem nem me ouvir. — rebateu a latina.
Ainda é a sua família. — insistiu Rachel.
Me odeiam. — Santana disse simples.
Quer fazer o favor de descer do meu carro e ir comigo até lá? — a morena resmungou impaciente.
Santana virou o rosto e encarou a entrada da casa, o jardim de entrada. As lembranças daquele dia caótico ainda lhe perturbavam, mesmo tendo se passado mais de um ano. Ainda era horrível lembrar como sua abuela lhe tratou, era a mulher que mais admirava e amava na vida, não que isso tivesse mudado, mas não admirava mais aquela mulher da mesma forma que antes.
Lembre-me de fuder com a sua vida. — murmurou a latina pegando a maçaneta da porta para sair do carro. Rachel sorriu radiante, mas conteve seu sorriso. Não queria apanhar de Santana.
Atravessar o caminho de pedras pelo pequeno jardim foi asfixiante. Rachel podia sentir o nervosismo da latina, pois agora ela sentia o mesmo nervosismo. Em uma tentativa de espiar Santana, a morena notou a garota focada no chão. Ela sabia bem o que a outra pensava.
Quando menores elas corriam por aquele jardim, elas entravam na casa completamente sujas de terra ou lama, dependia do tempo, e traçavam todo um caminho com a sujeira da borracha dos sapatos. Gritos em espanhol as perseguiam, mas tudo acabava com altas gargalhadas das garotas e uma senhora, a famosa abuela. Tudo sempre terminava em biscoitos de nozes e chocolate com um copo de leite antes do almoço.
Santana... — murmurou Rachel com a voz falha.
Já estamos aqui. — disse latina de forma indeferente e apertou a campainha.
Rachel enfim entendeu. Ela, Santana, não estava apenas enfrentando a família Lopez, que expulsaram a de casa sem ouvi-lá. Ela estava enfrentando tudo o que perdeu, porque por algum motivo a latina não se esforçou para se explicar e muito menos voltou a procurar a família. E tudo era inicialmente sua culpa, porque foi uma grande filha da mãe com a ex-melhor amiga. Se é que isso existe.
Só me perdoe. — sussurrou a morena engolindo saliva. Seu coração estava sendo esmagado e o olhar quebrado e frágil que Santana lhe deu fez sentir-se ainda pior.
Santana... — a voz doce e surpresa chamou a latina.
Não havia mais volta. As duas garotas se encaravam intensamente. Rachel moveu a cabeça para baixo e para cima de modo lento, Santana então soltou o ar e se virou lentamente para a mulher latina na porta.
Mamãe. — murmurou Santana ao ver a mulher com sua expressão espantada — Podemos entrar?
O que faz aqui? — perguntou Quinn ao abrir a porta e se deparar com Blaine encostado no arco da porta.
Também me alegro em te ver. — disse Blaine com diversão.
Hilário. — a loira rolou os olhos e sorriu — Entra. — convidou abrindo espaço.
Vim para te ajudar. — disse Blaine já se dirigindo a sala, Quinn fechou a porta e seguiu o garoto.
Me ajudar? — perguntou a loira fazendo uma careta.
Tem um jantar hoje, certo? — Blaine se virou ficando frente a frente com a loira, seu sorriso charmoso no rosto. O garoto olhou para Quinn da cabeça aos pés, fazendo a garota fazer o mesmo — Querida, calça jeans e uma camiseta qualquer não vão impressionar seus sogros.
Quinn bufou frustrada. Ela tinha mesmo pensado em usar uma calça jeans aquela noite.
Mais café? — perguntou Anita, a mãe de Santana, Rachel acenou com a cabeça estendendo a xícara.
Pode, por favor, apressar abuela agora? — perguntou Santana impaciente.
Ela já chega Sanny, ela prometeu que desceria. — murmurou Anita encarando a filha por um breve segundo após servir Rachel, a mulher estava sentada no sofá em frente ao das garotas — É bom te ver, querida.
O mesmo. — a latina mais nova respondeu com indiferença e abaixou o olhar.
Você também Rachel. — Anita virou-se para a morena que sorriu.
Digo o mesmo, Anita. — Rachel sorriu, ela ainda pensava enquanto tempo não ouvia chamarem Santana de "Sanny" — Como estão Ramon e Rosa? — perguntou a morena e Santana a encarou com um olhar fulminante.
Ramon foi passar o dia fora e Rosa está na aula de línguas agora. — Anita contou orgulhosa e Santana bufou sem encarar a mãe — Problemas, querida?
Pare de me chamar de querida e não existirá mais problema. — a latina mais nova disse e encarou a mãe, Rachel gemeu contidamente.
Santana, filha... — a mulher tentou falar, mas Santana a parou.
Não me chame de filha! — vociferou a latina se levantando, Rachel imitou o movimento da amiga disposta a segura-lá.
A pressão estava sufocando a garota. Não conseguia ficar ali sentada, ouvindo sobre seu irmão mais velho e a mais nova, pareciam anos que não os via e não sabia de nada. Aquilo era horrível de se viver. Sentia-se uma estranha em um lugar que um dia chamou de minha casa. Seria incompreensível da parte de Rachel se não esperasse aquela explosão.
Sem gritarias na minha casa, Santana! — vociferou uma latina na entrada da sala, Anita e Rachel encararam abuela de imediato. Santana apenas sentiu a tensão de seus ombros se dissipar e a secura em sua garganta não a fazia rebater.
Todas as quatro mulheres estavam caladas, Rachel e Anita ficando tensas a cada segundo que passava, Santana encarava a mesinha de centro de modo frio, quase congelando o objeto com o olhar. Já abuela estava com a postura correta, a tranquilidade inundava os olhos escuros, as mãos estendidas em frente ao corpo.
O que gostaria em minha casa Santana? — a voz fria e cortante de abuela foi um golpe em cheio sobre a latina mais nova.
Santana não conseguia falar. Sua mente se enchia de imagens surreias e traumatizantes.
Um barulho estrondoso de algo sendo "derrubado" fez Santana levantar-se da cama em um pulo, percorreu o quarto com a vista ainda embaçada devido o sono enquanto sentava-se. O sono ainda a deixava desnorteada, mas então alguns chiados invadiram seus ouvidos.
Eram barulhos que iam ficando mais audíveis a cada segundo. Choro, gritaria, discussão e palavras em espanhol agora eram terrivelmente altas. A latina esfregou os olhos e toda a cena se fez clara a sua frente.
Sua mãe gritava e chorava, apesar do esforço Santana não conseguia compreender, abuela estava com o guarda-roupas de Santana aberto e retirava todas as roupas brutalmente e socava dentro de bolsas de viagem. A garota esfregou os olhos novamente e voltou a encarar a cena, era real, havia acordado.
Mamãe? — murmurou Santana, mas preferiu ficar quieta ao ver que não lhe davam atenção. Sua avó gritava com sua mãe coisas desconexas, ou o sono ainda não lhe deixava entender o que se passava.
"Santana é uma perdida. Está jogando nosso nome na lama. Agora vou andar na rua de cabeça baixa por causa da filha que você não soube criar."
A latina sacudiu a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. Então havia acontecido, alguém foi esfregar na cara de sua família o ocorrido durante a educação física na escola. Santana levantou-se da cama e tentou aproximar-se das mulheres.
Abuela me escute! — pediu a latina mais nova atraindo o olhar furioso da latina mais velha.
Não me chame de abuela, eu não tenho mais uma neta chamada Santana. Apenas Ramon e Rosalinda. Você é minha maior desgraça. — vociferou abuela contra Santana que se encolheu ferida, Anita tentava segurar a mãe que avançava para cima de Santana.
A garota não se moveu. Tudo foi tão rápido. Seu rosto queimava como o inferno. Anita não conseguiu segurar a mãe, então abuela acertou em cheio o rosto de Santana que se entregava ao choro desesperadamente naquele momento.
Em seguida tudo eram flashes de um péssimo momento. Santana era arrastada quarto a fora, de alguma forma abuela conseguia empurra-lá e chutar suas bolsas para fora da casa. Tudo sendo seguido pelo incrédulo olhar de seu irmão mais velho que estava paralisado e o choro da pequena Rosalinda.
Não chore, Rosa. Está tudo bem, vou me explicar com abuela. Não chore. — pedia Santana abraçando a irmã mais nova, Rosa afundava o rosto na altura da cintura da irmã mais velha. Apesar de não ter certeza, Santana não queria sua irmã chorando.
Abuela praticamente arrancou Rosa dos brancos de Santana. E então ela foi jogada para fora de casa e viu o que foi feito. A casa totalmente vandalizada. Tudo voltava a ser flashes, as ofensas gravadas com tinta, o gramado arruínado, o choro da irmã mais nova agarrada ao irmão mais velho, os tapas que sua abuela lhe dava na rua e os olhares aterrorizados das pessoas na rua.
Lágrimas escaparam dos olhos de Santana.
Santana não era gay, abuela. — Rachel cortou o silêncio e engoliu saliva ao atrair os olhares surpresos de Anita e abuela — Foi minha culpa. Eu menti sobre Santana tentar me beijar, eu ordenei que fizessem aquilo na casa de vocês há mais de um ano e meio atrás, na verdade, eu só não evitei aquele ato. Mas Santana não era gay e é isso que ela veio explicar. Comenteram uma injustiça. Ela não é... — a morena foi cortada surpreendentemente.
Não era! — corrigiu Santana erguendo a cabeça e virando-se completamente para abuela — Eu não era gay. Mas a minha amada família preferiu me jogar pra fora de casa! — gritou Santana expondo toda sua dor e as lágrimas caiam ainda mais.
A postura fria e dura de abuela voltou a se mostrar, Anita já chorava silenciosamente em seu lugar.
Eu pensei, por um único segundo que conseguiria estar aqui, agora, mantendo uma conversa equilibrada. — a latina mais nova soluçou — Mas eu não posso. Você me privou do direito de ter uma família! — Santana voltou a gritar enquanto apontava para abuela — Me afastou completamente dos meus irmãos, dos meus pais e da senhora.
O choro da latina explodiu em seu peito. Não era o que ela esperava que seria. Ela só queria sua família de volta e se o plano era ir até ali e mentir quem era, então ela não queria. Santana tinha orgulho de sua nova eu, não renegaria aquilo por seus irmãos, pais e muito menos por abuela.
Quero que se retire da minha casa, caso contrário te jogo para fora como na última vez. — a voz fria de abuela era um novo golpe em Santana que soluçou.
Eu amava a senhora, caramba. — Santana tentava limpar as lágrimas inútilmente.
Lhe disse naquele dia, eu não tenho mais uma neta chamada Santana. — as respostas eram automáticas. E aquilo causava uma dor ainda maior na latina mais nova.
A senhora não pode acreditar no que fala. — murmurou Santana.
Você se tornou uma perdida quando se interessou por pessoas do mesmo sexo. Nos humilhou diante os outros. — abuela seguia tranquila.
Então é isso que importa? O pensamento das outras pessoas? — a latina mais nova perguntou com a voz fraca.
Rachel abria e fechava a boca diversas vezes, ela sabia que Santana só precisava falar, mas via que abuela não ouvia, apenas cortava a garota de todas as formas possíveis.
Eu não era gay, mas naquele mesmo dia eu conheci uma garota incrível. — Santana disse calmamente quebrando o silêncio — Ela me deu apoio, ela cuidou de mim e me protegeu dos meus medos. Ela me ensinou o que é ser...
Não ouse terminar essa frase. — vociferou abuela demonstrando sua raiva, que era um indício do seu desequilíbrio emocional. Santana sorriu tristemente para isso.
Ela me ensinou o que é ser amada de verdade e ela é uma mulher. — disse a latina mais nova e sorriu contente.
Abuela marchou ferozmente para cima da neta e ergueu a mão no ar. Novamente, para Santana, tudo parecia rápido demais. Mas a mão de abuela nunca tocou seu rosto e ela estava orgulhosa por não ter sido a única a tentar agarrar a mão de sua avó dessa vez.
Você não vai tocar na minha filha novamente, mamãe! — vociferou Anita ao estilo Lopez, Santana queria sorrir, mas se conteve.
Rachel finalmente conseguiu piscar. A sua frente as três mulheres Lopez estavam se encarando com um olhar penetrante, oscilavam o olhar de uma para outra. O braço de Santana havia se levantado para proteger o rosto, mas o braço de Anita atravessava em frente ao braço da garota e agarrava a palma da mão de abuela.
Você foi a minha maior decepção em toda vida, Santana. — disse abuela puxando sua mão de volta — Saia da minha casa o mais rápido possível. — abuela suspirou e deixou a sala sem direcionar mais um olhar as pessoas ali.
A latina mais nova sentia as lágrimas voltarem aos seus olhos. Ela só pedia que aquele não fosse um adeus, que ela ainda pudesse ter um dia sua abuela com ela novamente. Mesmo que fosse difícil, não era impossível e isso foi aquela mulher quem lhe ensinou.
Anita e Santana soltaram o ar ao mesmo tempo após longos segundos, ambas sorriram e sem aviso prévio se abraçaram.
Rachel suspirou e se deixou cair no sofá. Nossa, era definitivamente um grande dia pra ela. E a melhor parte ainda não havia nem começado.
Notas finais
@msluanamont
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