You Can Not Redo

1 Entre o místico e o humano


As leis para se viver entre o mundo místico e humano são simples, deve-se abdicar do maior uso dos poderes, para poder co-existir de maneira pacífica e sem levantar suspeitas. É exatamente isso que cada família de magos, bruxos, fadas, extraterrestres, fazem, pelo menos aqueles que querem ter uma vida normal nesse mundo chamado de Terra.

Os humanos sabem da nossa existência, uma vez ou outra ocorre algum incidente que sai do nosso controle, e a maioria não tem nada contra, contanto que possam continuar com suas vidas, mas também tem aquele grupo meio radical que não aceita a convivência entre as espécies, e prefere exterminar ou discriminar aquilo que não entende totalmente, também entendemos esses.

O místico poderia dominar o mundo, fazer guerras civis entre todos os tipos de raças e até mesmo ganhar, mas cabe aos viajantes do tempo corrigir o erro alheio e preservar a raça que nos deu um lar. Corrigir o tempo não é uma tarefa fácil, cada mínimo detalhe alterado deve ser tomado em consideração, para que se evite uma catástrofe maior no futuro, também não podemos mudar o tempo ao nosso favor e começar uma escravidão mundial, nos carece de maldade e estamos em pouco número para se fazer isso.

Nunca iremos identificar um viajante do tempo no meio da multidão, não temos uma característica física que nos diferencie, e muitos da nossa própria espécie ao menos sabem que tem esse tipo de poder ou não o consegue exercer. Vivemos normalmente, temos empregos, famílias, crises existenciais, alegrias e tristezas como qualquer outro ser, até que o problema apareça, e começaremos a te dar aquela sensação de deja vu ou a sensação de que tudo não é mais como era antes, e de fato, não é.

Vivi até agora, ignorando o poder que tenho, porque já que não posso usá-lo para benefício próprio, também não existiram razões maiores para corrigir algo, até que em uma noite não tão bela, essa história mudou. Nas ruas de Petrolina, Pernambuco, Brasil, reside a minha casa, nada de especial nela ou naquilo que tem dentro. Vivo com minha mãe e meu irmão, então não existe necessidade de ser uma casa grande ou com jardim para animais de estimação.

Apesar de calma, tinha muita gente na minha rua, das mais variadas espécies e dos mais variados tipos de costume. Tinha aqueles que eram colecionadores de cacarecos, os que adoravam animais, os viciados em trabalho, os velhos, as crianças e assim por diante. As casas eram um tanto quanto ligadas, então o acesso ao seu vizinho ocorria mais fácil do que se imagina, sempre existia uma janela ou uma porta entre uma casa e outra, podemos dizer que éramos todo mundo muito unido ou então que se precisava de um cuidado especial para evitar uma invasão domiciliar.

Do lado esquerdo da minha casa, existe uma janela que dá para o muro do casal de humanos que mora ao lado, e essa janela fica ligada ao quarto de meu irmão, então já havia virado costume ele se sentar no computador e conseguir ver quem entrava e saia, ou ver o Pastor Alemão deles descansando dentro da casinha. A mulher se chamava Jéssica e era professora, aparentava ter uns 40 anos, morena dos cabelos pretos e olhos castanhos, sempre chegava em casa com um doce diferente, comia bastante e além de baixa, era meio cheinha. O homem se chamava Aldenor e eu não sei ao certo o que ele fazia depois de ter se aposentado, sabia que passava muitas horas do dia fora, apenas voltando para almoço e chegando tarde para a janta. Ele era um senhor um tanto quanto simpático, branquinho, baixinho, com um sorriso no rosto e que usava óculos, as poucas vezes que falei com ele foi para dar um rápido cumprimento e receber o dinheiro da Sky que nossas famílias dividiam.

Uma certa noite, enquanto eu ia beber água, percebi que a porta do quarto de meu irmão estava fechada, e aqui em casa, isso não era costume, tudo ficava aberto, logo, algo estava errado. Bati na porta e ele não se moveu para abri-la, então tive que falar.

- Álvaro, abra essa porta. Mainha não gosta que ela fique fechada, você sabe disso.

Nenhuma resposta. Insisti com mais força, e falando mais alto.

- Álvaro, abra essa porta. Você tem 3 segundos para fazer isso, antes que eu vá ali na sala e tente pular a janela para te dar uns tapas.

Nenhuma resposta. Insisti com mais força ainda.

- Álvaro! 3... 2...

- Vai embora!

Ele finalmente respondeu, mas sua voz não era a de um garoto de 13 anos frustrado com um jogo que perdeu, ou raiva do mundo a ponto de se trancar no quarto, tinha algo como medo no seu tom de voz, e medo não era uma de suas características marcantes.

- O que houve? Abra para a gente conversar...

- Não posso conversar, vai embora!

Algo definitivamente não estava normal, o cheiro de sangue finalmente havia chegado ao meu nariz. Corri na sala e constatei que a janela de vidro canelado que se conectava ao quarto dele, estava também estava trancada, e o que eu conseguia ver através das distorções das imagens, era que ele estava sentado no chão embaixo da janela que ligava ao vizinho, cuja qual também estava fechada e com manchas de sangue, sua roupa e pescoço estavam sujas do vermelho de suas artérias.

Não fazia ideia do que poderia estar acontecendo, eu estava com os fones de ouvido antes de sair do meu quarto, não tinha ouvido barulho algum, será que o cachorro havia atacado ele? E se foi isso, porque ele não saiu para pedir ajuda? Não importa, era meu irmão que estava sangrando ali, e precisava de ajuda. Liguei para minha mãe.

- Alô? Clara?

- Mãe? Volta para casa rápido, Álvaro está trancado no quarto sangrando e não quer sair, não sei o que houve, então volte logo.

Desliguei tão rápido quanto disse a mensagem.

Minha mãe havia saído para visitar minha tia, ela com certeza estaria de volta em poucos minutos, para poder descobrir o que havia acontecido com seu filho. Quanto a mim, se ele não abria a porta, o jeito era entrar à força. Não era momento para sensatez, vidro a mais ou vidro a menos, não faria diferença alguma. Peguei uma cadeira, quebrei o vidro que conectava os aposentos e entrei.

Agora eu podia ver claramente o que tinha ocorrido com seu corpo. Realmente, ele havia sido atacado, mas não por um cachorro, aquilo não podia ter sido um cachorro.

- Não se aproxime.

Ele tentou esconder o rosto no seu braço direito, enquanto estendia o esquerdo com um sinal de pare. O lado esquerdo do seu pescoço tinha uma ferida grotesca, e encharcava de sangue a sua pele alva. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas não podia deixar de me aproximar, era meu irmão que estava ali, qualquer um se aproximaria mesmo que sem saber das conseqüências.

- Calma... Eu estou me aproximando lentamente, estou aqui para te ajudar e mainha vai chegar logo, a gente pode Refazer essa situação em pouco tempo, vai tudo dar certo...

Peguei o pano em sua cama, e fui me aproximando lentamente.

- Pare!

Ele começou a chorar, ainda com seu rosto coberto, os soluços ecoaram no ambiente.

- Calma...

E continuei, lentamente, ele não precisava ter medo de mim, Refaríamos as últimas horas e ele não precisaria se preocupar com mais nada. Foi ai que ele levantou o rosto, e eu pude ver seus olhos, estavam brancos. O castanho que um dia coloria sua íris estava branco.

- As criaturas que ignoramos em Salvador, chegaram em Petrolina, não dá para refazer as últimas horas, esse algo já se alastrou, Clara...

- Você está querendo que eu acredite que você foi atacado por algum tipo de zumbi, é isso?

- Mas foi exatamente isso que ocorreu, olhe a cor dos meus olhos, em breve eu vou perder o controle dos meus movimentos também, e é bom que você esteja longe quando isso acontecer.

Não era possível que aquilo estivesse acontecendo. Racionalmente, o evento que ocorreu 1 ano atrás em Salvador, foi independente, falhamos ao fugir sem lidar com os zumbis da época, eu pensei que alguém refaria aquele passado por nós, e evitaria que mais humanos fossem atacados. Eu não sabia quando os zumbis apareceram pela primeira vez, então não sabia para que época voltar e corrigir.

- Calma, mainha vai pensar em algo, vamos voltar o tempo necessário e evitar isso.

- Eu já refiz minhas tentativas...

O sangue agora começava a me nausear, ele já havia refeito as últimas horas e o resultado fora o mesmo? Como isso é possível? Se ele sabia o caminho que tomou da primeira vez, porque não tomou outra alternativa?

- Da primeira vez, Aldenor me atacou no portão de casa. Da segunda, você foi atacada aqui no quarto. Da terceira, eu evitei que nossa mãe saísse, e ele me atacou no portão de novo. Essa já é a quarta...

- Então vamos fazer uma quinta, sexta e sétima vez, até que essa merda não ocorra de novo!

- Já cansei de ser atacado. As linhas do tempo estão convergindo para que alguém seja atacado hoje à noite, ou eu, ou você ou até mesmo nossa mãe.

Álvaro era mais sensitivo do que eu quando o assunto era entender as linhas do tempo, mesmo sendo 6 anos mais jovem, ele já tinha um dom que eu não tinha quando menor. Viajar no tempo, também é viajar por mundos paralelos, e cada ação resulta em algo diferente, mas muitas vezes, não voltar tempo o suficiente significa obter os mesmos resultados.

As criaturas que chamamos de zumbis, são humanos que perderam o controle e atacam outros humanos, eles são criados esporadicamente por alguma bruxa má que está inconformada com algo. Dos problemas que eu conheço, esse é o mais chatinho de se resolver, porque muitas vezes não sabemos a origem do primeiro zumbi ou a data de sua criação, então a nossa raça acaba tendo que sacrificar muitas vidas em prol do bem maior.

São poucas as vezes que obtemos ajuda de outras espécies para poder se livrar dessa erva daninha, e isso dificulta o trabalho de trazer paz para todos. Voltar muitas vezes seguidas ao passado, também acarreta a dúvida sobre qual é a realidade certa, em qual mundo estamos ou o que devemos fazer agora, causa danos mentais mais do que irreparáveis, causa o desaparecimento do nosso corpo pelo fato de nossa mente não acreditar estar ali. Então, é meio que limitado o número de vezes que dá para refazer uma determinada ação.

No meio desse problema, nossa mãe chegou e veio correndo ao nosso encontro, se Álvaro era sensitivo e inteligente, ela era muito mais do que ele. Ela veio ao quarto dele, e imediatamente percebeu do que se tratava, ela já havia contado experiências como aquela antes.

- Zumbis?

Mesmo percebendo o que aconteceu ainda se tem problemas para lidar com a realidade.

- Isso mãe, já é a quarta viagem que eu faço, não tenho mais forças para voltar...

- Eu entendo, o centro estava uma confusão, então não precisa se preocupar, vamos dar um jeito nisso. Clara, abra a porta, e ajude ele a se limpar. Eu vou tirar essa roupa e já volto aqui.

- Certo.

Abri a porta, e peguei uma toalha molhada para limpar o máximo de sangue que podia, enquanto ela fazia o que tinha que fazer. Particularmente, eu fui meio que uma inútil até agora, só coleciono histórias de outros passados, mas sempre tentei evitar voltar a ele por conta própria, talvez seja o medo de estragar tudo outra vez, não sei ao certo.

Depois de limpa-lo, meus olhos finalmente encheram-se de lágrimas, e dei um forte abraço nele.

- Tudo vai dar certo...

Eu disse da melhor maneira que pude. Nossa mãe voltou com seu diário de anotações na mão.

- Vocês se lembram daquele morador de rua que foi atacado na frente de nossa casa, certo?

- Sim...

- Vamos voltar para 1 semana antes dele, segunda-feira, dia 16 de junho de 2014.

Eu me alarmei com a quantidade de tempo, era mais de 1 ano e 6 meses, aquilo consumiria muita magia. Tentei contestar.

- Mãe, é muito tempo, a gente precisa mesmo voltar esse tempo todo? Voltar para aquela época? Algumas semanas não são o suficiente? Eu vou voltar a ter 17 anos! Isso é tempo demais!

- O objetivo é que seja tempo demais, você está mais madura agora e vai saber como lidar com as coisas da época, vai achar uma saída para o problema, é o seu trabalho mocinha!

- Meu trabalho é estudar e corrigir o possível, isso ai já é loucura demais.

- Olhe o estado de seu irmão, se essa já é a quarta vez que isso ocorre, voltar pouco tempo não vai adiantar, vamos ter que voltar para aquela época e refazer.

Não tinha mais muito o que se contestar, já estava decidido. E então ela disse as palavras mágicas.

- Entre o místico e o humano, ao passado voltamos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.