You Belong With Me
12 Capítulo 11: As Cinco Flores - Parte I
Notas iniciais
O som da sineta ecoava nos ouvidos de Hermione Granger.
Ela encontrava-se sentada em seu lugar, sozinha, na sala de sua última aula do dia — Química — suas mãos estavam firmemente fechadas em punho sobre o tampão de sua mesa e ela olhava ao seu redor, procurando respostas ao seu redor já que sua mente recusara-se a opinar porque aquele era, de fato, um assunto do coração.
E a natureza desse assunto, que tirara o sono de suas noites e a atenção de seus dias, era quase que completamente desconhecida para ela. Hermione nunca se sentira daquela forma, na verdade, jamais permitira que alguém a fizesse sentir-se como agora, ninguém penetrara tão fundo em sua superfície racional a ponto de alcançar o seu interior tímido e emocional... Era assustador ter o controle tão distante de si e era ainda mais amedrontador não conseguir mudar o que sentia.
Hermione era uma garota obstinada, do tipo que tinha o que queria e que corria atrás do que achava merecer, portanto, estava acostumada a seguir os seus instintos e a sua intuição, afinal, usava deles para sobreviver naquela academia. Porém, os seus sentimentos sempre foram deixados de lado, nos momentos em que a impulsividade era necessária, Hermione a colocava abaixo de sua razão.
E, a partir disso, sempre tomava a decisão certa.
Mas, tratando-se do que acontecera entre Fleur Delacour e ela mesma, Hermione não podia negar os seus sentimentos porque eram justamente eles que doutrinaram todo o percurso que ela percorrera para chegar ali, naquela mesa, dividida entre o que deveria fazer e o que queria fazer. O seu querer refletia o seu coração e o seu dever refletia a sua mente. Faces diferentes de uma mesma situação, porções diferentes dela mesma, cuja união representava tudo que tentava entender e sentia por Fleur.
Hermione sentia-se traída ao mesmo tempo em que sentia o gosto doce de Fleur em seus lábios. Sentia que deveria deixá-la ir para nunca mais voltar na mesma proporção em que podia amargar a ausência dela tão intensa naqueles poucos dias. A morena não sabia o que fazer, não era uma pessoa que se angustiava em dúvidas, mas, até mesmo isso, Fleur conseguira arrancar dela.
A única hipótese imediata e cabível naquele momento era a de que não mais poderia ficar naquela sala. Por isso, Hermione recolheu seus materiais e, finalmente, abandonou a sua mesa. Seus passos ecoavam nos corredores da academia, assim como o peso de sua mochila deixava seus ombros ainda mais encolhidos. Ela caminhou e seus pés a levaram para fora da academia, no alto da escadaria, ela viu-se dividida entre seguir em frente, diretamente para os portões ou descer alguns degraus pela lateral e aterrissar no campo, consequentemente, nas arquibancadas.
A morena surpreendeu-se quando seu corpo não parou mais do que alguns minutos e continuou a descer os degraus em direção ao portão. O seu coração poderia até apertar-se pela derrota, mas, tampouco lutara bravamente para se fazer ouvir. Por isso, ela acelerou os passos e desesperou-se para, enfim, chegar aos portões.
Naquele momento, aquela era a única saída para as suas dúvidas. Mais um dia em que evitava Fleur e procurava-se focar apenas no que se estendia a sua frente — o fim do semestre para ela e o fim do colegial para Fleur — aqueles dois finais poderiam sentenciar um verdadeiro adeus para elas e, essa despedida, poderia ser a melhor aposta do destino para as duas.
Hermione não queria arriscar se perder, novamente, em seus sentimentos. Não queria entregar muito de si a alguém que poderia debilitá-la sem, sequer, atingi-la fisicamente. A morena não queria ser tão dependente de alguém de novo, não queria ser ingênua como fora e não queria que os sentimentos nublassem sua razão. Hermione pensou com a cabeça, mas, encontrou o seu coração aos pés da escadaria, esperando-a como a encontrara há dias atrás.
— Fico satisfeita por conhecê-la bem o bastante para prever que você jamais me encontraria nas arquibancadas depois do que aconteceu entre nós. — Fleur estava de braços cruzados na altura dos seios, a postura relaxada e, ainda assim, revelando a sua ansiedade em seu discreto bater do pé direito. Ela tentou sorrir, um sorriso que minguou em seus olhos cerúleos e suspirou quando Hermione retribuiu seu olhar, impassível em sua dor e na traição que não conseguiam ser disfarçadas pelos olhos castanhos.
A morena desceu os últimos degraus em silêncio, focada no trabalho de seus pés e mantendo-se o mais distante que podia dos olhos de Fleur. Por fim, seus pés tocaram o solo plano e Hermione parou a alguns passos de distância de Fleur. Não sabia o que esperava dela ou o que queria que ela fizesse, aparentemente, seu raciocínio acabara de se tornar inútil porque ela não conseguia pensar em uma palavra que quisesse dizer a Fleur. Tudo era torpor... E silêncio, como fora nos dias depois daquele final de semana e nos que sucederam a volta de Fleur com Roger.
Fleur tomou coragem e saiu de sua paralisação, ela caminhou mais alguns passos em direção a Hermione e estava próxima o bastante para segurar a sua mão, mas, não o necessário para beijar a morena. Hermione observou a distância entre os corpos, o abismo entre elas aumentava emocionalmente enquanto o calor de seus corpos fazia-se presente e próximos um ao outro. Fleur parou ao lado de Hermione e, olhando para o perfil moreno que evitava encará-la, sussurrou:
— Eu sei que você não quer falar comigo, mas, eu preciso falar, pelo menos, dessa vez... Eu não quero deixar você com palavras que não são minhas, você merece mais do que isso.
— Não falar por si mesma parece ser a sua especialidade, Delacour. — Hermione alfinetou com crueldade enquanto seu pescoço virava e seus olhos, finalmente, encontravam os de Fleur. O azul e o castanho lutaram por breves segundos, apenas porque o azul não pode sustentar a intensidade castanha. Não existiam vestígios de lágrimas nos olhos de Hermione, ainda que os remanescentes da dor se fizessem presentes nos olhos que atacavam e não, compreendiam. — Quem foi que falou por você, dessa vez? Não foram os poetas, ou os autores, muito menos a literatura, por mais que você tenha entregado-a a mim... Foram os seus pais? Roger? A sua popularidade? A impossibilidade de nós duas, talvez?
— O que nós tivemos não tem nada a ver com o que estava além da gente! — Os sentimentos de Fleur falavam por ela, mais que isso, o que ela sentia estava refletido nos tremores de seu corpo, nas lágrimas que seus olhos sufocavam e em seus lábios que se secavam. Ela sabia que merecia cada questionamento e cada explosão que Hermione pudesse destinar a ela, entretanto, também sabia que não era forte como ela... Fleur envergonhava-se por ser tão fraca agora como fora antes. Hermione poderia, facilmente, reduzi-la aos pedaços. — Não houve uma pessoa ou algo que pudesse alterar o que eu sinto por você... Mas, foi eu quem falei pelo meu medo, pela minha fraqueza e, até mesmo, pela minha vergonha. Eu não te mereço, Hermione. Mas, isso não quer dizer que eu não vá lutar por você.
Hermione se viu escutando as palavras que ela desejara que Fleur tivesse dito antes de deixá-la. Diferentemente do tempo em que as desejara, aquelas palavras pareciam não ser tão fortes agora. Era como se toda a importância delas tivesse sido reduzida ao abandono e a descrença. Em outra ocasião, Hermione acreditaria naquelas palavras e as tomaria como verdade para continuar a batalhar pelo que possuíam... Entretanto, depois de ficar sem respostas e ser abandonada sem despedidas, a desconfiança nublava qualquer sentimento porque ela era traduzida pela razão.
E a razão da morena dizia que ela não poderia mais confiar em Fleur Delacour.
A mais velha não sabia e, talvez, não viesse a saber que Hermione entregara o que possuía de mais puro a ela. A morena era extremamente competitiva, obstinada e até mesmo arrogante, entretanto, o seu coração era livre disso quanto se tratava do sentimento que nutria por Fleur. Um ano não bastou para que Hermione entendesse o que sentia e alguns meses se passaram até que ela finalmente admitisse a derrota para o seu coração e esse sentimento, cultivado com tanto carinho e tanto apreço encontrava-se destroçado para se recuperar.
Por trás de toda a postura forte e corajosa, Hermione Granger era frágil porque aquele, de fato, era o seu primeiro e único amor.
A morena deu um passo para trás quando a fragrância de lavanda começou a tomar seu olfato, trazendo-lhe lembranças daquele beijo que tornou tudo possível e daquele final de semana em que eram somente elas no mundo. Hermione recuou mais por fraqueza do que por covardia, contudo, as palavras que ela tinha em mente eram feitas para atacar e, principalmente, para machucar. Por isso, quando a morena abriu a boca para dizê-las, o seu coração já resfolegou em seu peito... Elas não eram o que queria dizer, mas, eram o que precisava dizer:
— Eu jamais pedi para que você lutasse por nós e, provavelmente, esse foi o meu maior erro. A hora de lutar passou quando você abdicou de mim. Contudo, eu pedi e acreditei, silenciosamente, em sua sinceridade. E você não me entregou. Ainda assim, eu lhe dou a minha, Fleur e não há mais batalhas a serem lutadas quando você foge da guerra.
Exatamente como antes, Hermione esvaiu-se pelos dedos de Fleur e correu o curso para longe da loira. Conforme observava a figura de Hermione atravessando os portões da Academia, Fleur pensava em desistir, entretanto, seu coração a impedia de levar essa ideia adiante.
A guerra não havia acabado porque sabia que o sentimento ainda estava ali, manchado pelos erros e as interpretações erradas, maltratado pela incompreensão e a falta de comunicação. Mas, ele ainda estava ali, impossivelmente forte e disparando o seu coração, mantendo-a inteira quando tudo estava despedaçando.
Fleur era tão teimosa quanto Hermione e destemida o bastante para quebrar o seu coração de novo se existisse a ínfima chance de ter a morena de volta a sua vida.
# # # # #
A vida na Academia de Hogwarts permanecia a mesma no dia seguinte, o mundo continuava a girar rotineiramente como se não houvesse desequilíbrio algum em sua estrutura. Porém, tanto Hermione como Fleur sentiam-se diferentes naquela manhã. O confronto no dia anterior parecia ter retirado uma parte imensa da morena que, por sua vez, lutava para recuperá-la.
Não gostava de pensar que Fleur tirara a melhor parte de si, mas, talvez, uma parte do essencial se perdera quando tivera que dar adeus a ela.
Hermione caminhava de cabeça baixa, solitária, pelos corredores. Os seus amigos souberam, sabiamente, deixá-la sozinha depois do que acontecera e ela preferia trancafiar-se com seus pensamentos ao compartilhá-los e, logicamente, relembrá-los com outras pessoas. Antes de ter amigos, Hermione aprendera a lidar sozinha com suas dores e não seria agora, depois de tanto tempo, que ela deixaria aquele hábito morrer.
Por isso, amargava sozinha à solidão e agarrava-se às certezas, dos seus estudos, da sua vida acadêmica e de suas novas para manter-se em pé. Os seus passos distraíam-se com os conteúdos que ela repassava em sua mente até que seu corpo foi jogado para o lado do corredor e muitas pessoas passavam por ela a caminho de uma confusão no fim do corredor, próxima aos laboratórios de Biologia.
Hermione franziu a testa para quem esbarrara com ela e até mesmo um xingamento baixinho saiu de seus lábios. Mais pessoas passaram por ela e a morena revirou os olhos antes de ajeitar a alça de sua bolsa e acompanhar a massa para a confusão. A cada passo que dava, mais o seu interesse se perdia... Entretanto, o seu coração acelerou quando os seus olhos castanhos discerniram a figura alta e loira parada no centro da confusão.
Fleur Delacour estava parada a alguns passos de Roger Davies, o casal badalado de namorados da Academia Hogwarts não parecia estar no melhor de seus dias. Fleur tinha as bochechas rosadas e os olhos azuis estavam elétricos enquanto Roger tinha a face direita avermelhada e os lábios crispados, furioso. Cho também estava por perto, parada um pouco atrás de Fleur e tentando, inutilmente, afastar a amiga da cena.
— Nunca mais ouse se aproximar de mim, Davies! — Fleur praticamente rosnava, a sua voz adquirira um tom rouco amedrontador completamente diferente do tom suave que ela usara frequentemente naqueles corredores. Tanto a voz quanto a sua postura agressiva também eram diferentes da última vez que ela enfrentara Roger naqueles corredores. Ela parecia muito mais violentar, como se pudesse perder o mundo se não colocasse aquele garoto em seu lugar. — Eu deveria ter mantido o nosso término da primeira vez! Eu não quero e nem vou tolerar você se forçando para cima de mim por causa de uma coisa tão nojenta quanto à popularidade que você é incapaz de ter!
— Você sabe muito bem que não pode fazer isso, Delacour! Você sabe o que vai acontecer com você se você insistir... — Roger ameaçou com um sorriso maléfico, aproximando-se e circundando o corpo de Fleur como um predador observava a sua presa. Hermione engoliu em seco, seu coração chegou a sua boca e ela teve que controlar a sua fúria para não avançar, naquele momento, contra Roger.
Era completamente incompreensível ter essa necessidade de proteger Fleur quando decidiria tirá-la de sua vida... Não havia explicação para aquele sentimento de proteção que a inundava e nublava a sua visão.
Os olhos castanhos de Hermione encontraram os olhos azuis sonhadores de Luna e, enfim, os olhos também escuros de Gina. O casal a observava preocupado e ela acenou efusivamente com a cabeça, tanto para que elas não fizessem nada como para tentar passar a impressão de que estava bem. Hermione percebeu que falhara miseravelmente quando Gina revirou os olhos para ela e bufou, impaciente.
A morena desviou os olhos das amigas e voltou-os para a cena tensa. Roger conseguira aproximar-se de Fleur o bastante para tocar a cintura dela com a mão direita, Fleur o mantinha distante, mas, ainda assim, ele abrira um sorriso vitorioso. Então, a expressão de Fleur transfigurou-se em um sorriso brilhante que embelezou as suas feições. Os olhos azuis elétricos desviaram-se brevemente de Roger e, por magnetismo ou por destino, encontraram os olhos de Hermione no meio da multidão.
A fúria avassaladora que ocupava as ações e a eletricidade do olhar de Fleur se acalmou assim como Hermione sentia-se entregue à tranqüilidade que não existia naquele momento e que ainda encontrava quando dividia algo com Fleur. Naquele momento, Fleur pareceu receber algo mais de Hermione porque ela cruzou os braços e inclinou o rosto em direção a Roger, o rapaz sorriu ainda mais e a própria Fleur sorriu, o sorriso de uma predadora bela e mortal, ela arqueou a sobrancelha loira e perguntou sedutora e ameaçadora:
— E o que você pretende fazer, Davies? Você vai jogar sujo, como sempre jogou? Vai me ameaçar da mesma forma deprimente que implorou ao seu pai para pagar por sua permanência e capitania no time por ser incompetente demais para conseguir isso por conta própria?
As risadas altas e escandalosas dos espectadores da discussão calaram qualquer reação sonora que Roger pudesse ter. Na realidade, o rapaz encontrava-se vermelho de raiva e vergonha e enquanto Fleur o observava de forma satisfeita. Cho estava praticamente aos pulos, olhando orgulhosa para a amiga e Harry e Rony, atrasados como sempre, chegavam à cena naquele momento, colocando-se próximos a Gina e Luna, olhando confusos para Hermione.
A própria morena estava confusa, ela não sabia o que Fleur estava fazendo até porque nunca a vira daquela forma. Fleur estava, estranhamente, agressiva e malévola. Parecia que estava deixando um lado dela vir à tona, uma porção de sua personalidade que não se encolhia de medo e sim, se erguia gigantesca diante da ameaça. Era inconseqüente, ainda mais para alguém que tinha muito a perder como ela tinha, era a sua reputação que estava em jogo e o histórico de Fleur era tão limpo quanto o da própria Hermione.
Roger deu um passo para trás, afastando-se de Fleur como se tivesse sido atingido por um soco. Porém, ele recuperou-se do choque rápido porque logo estava arregaçando as mangas da camisa social do uniforme da Academia enquanto ameaçava:
— Você não sabe onde está pisando, Delacour... Eu posso muito bem deixar escapar um ou dois boatos de você com aquel...!
O ex-capitão do time de futebol não conseguiu terminar a frase porque, no instante seguinte, ele estava sendo empurrado por Fleur em direção a um dos armários de metal juntos às paredes do corredor. A líder do torcida tinha força física o bastante para empurrá-lo e não dar a ele chance de defesa, portanto, as costas de Roger atingiram o metal violentamente e ele até mesmo grunhiu de dor. Fleur manteve-se próxima a ele, sufocando-o com o braço junto a sua garganta enquanto vociferava:
— O que você vai fazer? Adiar o meu trabalho e dizer a todos que eu sou gay? Porque eu planejava uma saída épica do armário e, agora, você arruinou isso como arruinou a sua própria vida!
Diferente da primeira vez que Fleur confrontara Roger, o choque impediu as gargalhadas. Os espectadores da cena dividiam-se entre os boquiabertos, os de olhos arregalados e os pensativos. Hermione era uma das que destoavam dos outros e estava calada, encolhendo-se na multidão como se qualquer um pudesse, imediatamente, estabelecer uma relação entre ela e Fleur.
A morena saiu de seu torpor amedrontado e olhou novamente para a loira que não estava amedrontada e sim, aliviada. Ela afastara-se de Roger, mas, ainda o segurava rudemente pela gola da camisa. O ex-casal se olhava, dividindo sentimentos como o desprezo e o nojo. Roger segurou a mão de Fleur e afastou-a rudemente de si, ele abriu a boca para falar, mas, Fleur o impediu ao tapar a sua boca e voltou a falar:
— Você já teve o que queria e pode ter certeza que se ousar continuar com essa chantagem, eu destruirei a sua vida de uma forma que você não será mais capaz de recuperá-la. Eu fiquei contigo por dois anos e sei de podres o bastante para acabar com a sua reputação e de sua família!
— Você não vai sair ilesa disso, muito menos, a sua namoradinha medíocre! — Roger ainda arrumou forças para retrucar e essa foi a sua pior decisão, Fleur voltou a avançar em sua direção e acertou-lhe um tapa na face esquerda, deixando-a tão avermelhada quanto à direita. Hermione levou ambas as mãos à boca quando viu Roger desvencilhar-se dos arranhões de Fleur e avançar em direção a ela.
Contudo, Harry e Rony foram mais rápidos e seguraram o ex-capitão, puxando-o para longe enquanto algumas companheiras de pelotão também puxavam Fleur para longe de seu ex-namorado. O até então casal famoso e badalado da Academia de Hogwarts trocaram olhares furiosos e passos foram escutados no corredor, a Profa. McGonagall atravessava a multidão com a expressão severa. Ela chegou no exato momento em que Fleur ameaçava baixinho:
— Ouse falar dela mais uma vez e eu lhe arranco os dentes, Davies!
— Que tipo de comportamento é esse, Miss Delacour?! — A professora perguntou exaltada, olhando de um para o outro naquela confusão. Os espectadores rapidamente se dispersaram com medo das punições, porém, Hermione permaneceu por perto, seu coração continuava acelerado e a sua garganta estava apertada. A Profa. McGonagall franziu as sobrancelhas para as faces de Roger e para a expressão colérica de Fleur. — Os dois na minha sala, agora.
Hermione observou enquanto Roger e Fleur caminhavam pelo corredor, na direção oposta, com a professora entre eles. A loira voltara a sua postura elegante e centrada, não olhando para ela em momento algum. A morena continuava incrédula, paralisada em seu esconderijo até que Harry e Rony a ladearam. O ruivo, sem tato algum, lhe deu um tranco no ombro e disse brincalhão:
— Fisgou de vez, hein, Granger?
Em meio às risadas dos dois, Hermione não sorriu. Sua testa franziu, preocupada.
O que Fleur estava fazendo?
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Fleur Delacour não chegou à aula de Álgebra Avançada que dividia com Hermione. Conforme os minutos se passavam e a aula da Profa. Vector se aproximava do fim, a morena lutava contra o seu orgulho porque o mesmo a impedia de admitir que estava preocupada, por mais que o seu coração estivesse apertado dentro do seu peito, desde o momento em que viu Fleur pela última vez naquele corredor antes da aula.
Hermione era uma garota orgulhosa e gostava de pensar que não tinha nada a ver com as atitudes que Fleur, agora sozinha, tomava. Porém, seu peito enchia-se de calor quando ela imaginava que, talvez, pudesse ser o motivo daquela loucura explosiva no corredor. A morena não conseguira se concentrar na aula, uma particularidade alarmante, mas, conseguiu terminar grande parte dos exercícios que a professora passara antes do fim da aula.
Aquela maldita líder de torcida realmente a tirava do sério.
Por isso, quando a aula acabou, Hermione já tinha os seus materiais guardados e, praticamente, saiu correndo. A sala estava sufocando-a e ela pode sentir os olhos curiosos que a atingiram pelas costas. Mas, ela já estava longe o bastante, nos corredores, caminhando de cabeça baixa em direção a sua próxima aula.
A sua aula de Biologia Vegetal com a Profa. Sprout era praticamente na extremidade oposta da onde se encontrava, o que significava que ela teria que, praticamente, atravessar toda a academia para chegar ao seu destino. Hermione apressou os passos, abaixou a cabeça e abraçou os livros junto ao seu corpo — uma tradicional postura que evidenciava a sua defesa e o seu temor em relação aos demais alunos da academia — nos corredores, Hermione concentrava-se apenas em atravessá-los ilesa.
Hermione chegou ao departamento de física e o atravessava a passos largos até que recebeu um forte esbarro em seu ombro esquerdo. Não precisou erguer os olhos para descobrir quem era porque aquele tipo de atitude somado às risadas escandalosas só poderiam pertencer a Pansy Parkinson e seu grupo de seguidoras. Normalmente, Hermione olharia feio para elas... Mas, aquele não era um dia normal, aquele era um dia em que Hermione somente queria passar despercebida por todos e, principalmente, por Fleur.
A morena continuou a caminhar e, quando finalmente chegou ao departamento de Biologia, seu olfato não apreendeu o tradicional cheiro de formol ou de terra molhada ou de compostos vegetais desconhecidos... Ela sentiu o puro e natural aroma de lavanda. Sua cabeça ergueu-se tão rápido que os ossos de seu pescoço se estalaram, enviando uma quentura desconfortável a partir de sua nuca para o resto do corpo.
Lavanda era a essência mais proeminente no perfume de Fleur.
E, como tudo em sua cabeça parecia, inconscientemente, levá-la para a loira, os olhos escuros de Hermione encontraram buquês lilases de flores de lavanda presos às janelas das salas, às maçanetas das portas dos laboratórios e posicionados em cada espaço que ladeava o percurso até o laboratório de Biologia Vegetal.
Hermione engoliu em seco, sua razão sabia de quem tudo aquilo era obra, mas, era a vez do seu coração negar o que estava acontecendo.
A morena atravessou o corredor, entregando-se à fragrância natural da lavanda, embriagando-se nela e lembrando-se imensamente de Fleur. As memórias da loira invadiram-na e a entorpeceram, fazendo seu coração bater acelerado e os seus lábios se secarem. Os passos se aceleraram e, quando Hermione chegou à porta do laboratório, praticamente jogou-se dentro dele.
Entretanto, não se livrou do cheiro, muito menos, da flor. Sobre a sua bancada encontrava-se uma solitária flor de lavanda e essa era muito mais lilás do que as outras. Uma discreta fita azul cerúlea estava amarrada ao seu caule e, presa a ela, estava um cartão.
Hermione olhou de um lado para o outro, em busca de alguém que pudesse lhe explicar o que ela recusava-se a compreender. Contudo, estava sozinha naquela sala e suas únicas companhias físicas eram o aroma de lavanda e o silêncio. Sensitivamente, Fleur estava mais presente ali do que gostaria.
A morena apanhou a flor de lavanda pelo caule e seus olhos escuros imediatamente foram de encontro às palavras caprichosamente desenhadas no cartão de pergaminho amarelado:
“Se eu tivesse uma flor para cada vez que pensasse em você, eu caminharia num jardim infinito.” *
Hermione sentiu seu coração bombear a sua racionalidade para longe, não teve muito tempo para pensar na flor e, muito menos, na mensagem. A balbúrdia de seus colegas de turma a fizeram colocar a flor entre as páginas de seu livro de Biologia Vegetal, o aroma de lavanda não saiu de seus sentidos. E, conforme as pessoas entravam e as perguntas a respeito de quem era a dona dos buquês do lado de fora e de quem os enviara chegavam aos seus ouvidos, Hermione observava suas mãos tremerem.
Era muito mais fácil quando seu crush não lhe correspondia e quando tudo não passava de um sonho. Aquela realidade a assustava porque ela não sabia o que fazer e a sua mente não ajudava quando o seu coração insistia em se fazer presente da mesma forma intensa que Fleur recusava-se a sair de sua vida.
Quando a última aula do dia acabou, essa foi de Química com o maquiavélico Prof. Snape, Hermione estava cansada o bastante para não perceber os olhares que foram destinados a ela.
A morena caminhava rapidamente em direção ao seu armário, tudo que queria era guardar seus materiais e ir para casa. Fora um dia difícil em que ela se sentiu entorpecida pelo aroma de lavandas e perdida na saudade silenciosa e delicada que colocava suas garras à mostra e apreendia o seu coração.
Estava sentindo falta de Fleur, mais do que o seu orgulho admitiria em voz alta. Hermione estava ressentida, fragilizada e debilitada, mas, não podia negar que não sentia. Sentia tudo, intensamente e, sobretudo, a saudade.
Hermione percebeu que as atenções dos alunos estavam sobre ela somente quando tomou o corredor que levava aos seus armários. A morena revirou os olhos para os cochinhos e a sua insatisfação traduziu-se na aceleração de seus passos. Ela chegou ao seu armário em questão de segundos.
E, pela segunda vez naquele dia, ela encontrou as flores.
Dessa vez, seu armário estava com a porta entreaberta e por ele escorria uma fina linha em que estavam presas begônias róseas. O perfume dessas não era tão intenso quanto às flores de lavanda, porém, o aspecto visual delas era muito mais forte.
Qualquer um ficaria preocupado com um armário arrombado, entretanto, Hermione sentia Fleur perto dela como se sentira quando encontrou aquela única flor de lavanda no laboratório de Biologia Vegetal. E não era o cheiro que lembrava Fleur e sim, a cor das begônias que era semelhante ao tom róseo encontrado nos lábios da mais velha.
Hermione aproximou-se de seu armário, sentindo suas costas serem fuziladas por olhares interessados e curiosos. A morena sacudiu os ombros, tentando dispersar àquelas sensações e, delicadamente, puxou a delicada corrente de begônias para fora de seu armário. A corrente persistia por mais alguns centímetros e, em sua extremidade final, tinha um longo pergaminho amarelado.
Os olhos de Hermione reconheceram a caligrafia antes mesmo de ela ler o que estava escrito.
“Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas!” **
Hermione encontrou-se sorrindo para o pergaminho, sem que quisesse e sem pensar além de seu orgulho. Fleur errara, mas, o seu coração estava quente o bastante para aplacar parte da frieza destinada a ela. Tão imersa na delicadeza do poema e do ato, a morena só foi retirada de seu torpor pela voz estridente de Pansy Parkinson:
— Quem diria... Hermione “estranha” Granger tem um admirador secreto. Eu recompensarei quem descobrir quem é louco o bastante para querer algo com a “dentes de esquilo”!
A morena virou-se bruscamente para a voz e seu rosto entregou a frustração, mesmo que seus olhos brilhassem com a beleza das rosas e suas mãos pequenas agarravam o pergaminho com força e deleite. Pansy sorria e Hermione afastou-se dela, trancando seu armário e desaparecendo no corredor em direção às escadarias da Academia.
Cho Chang ficou para trás, rindo para a foto na tela de seu celular. Ela anexou-a a uma mensagem e escreveu:
Você quebrou a menina, de novo.
A asiática enviou a mensagem e, depois, riu enquanto guardava os seus materiais. Do outro lado da cidade, fechada em seu quarto escuro na Mansão Delacour, Fleur sorria boba para o que recebera.
Na tela, a foto de Hermione sorrindo para flores da forma como, um dia, sorrira para ela. Fleur encontrou-se presa naquele sorriso e envolvida nos olhos que, mesmo na reprodução virtual, brilhavam.
Naquelas duas flores, Fleur voltava a entregar a sua alma. E nas outras três que viriam, ela entregaria seu coração, novamente, a Hermione.
E esperava que, quando tudo acabasse, aquele sorriso e aqueles olhos fossem destinados somente a ela.
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* Alfred Lord Tennyson
** E. E. Cummings
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