Aquele momento tinha tudo para ser o mais perfeito para os dois. E era. Gary não podia nem medir o quão feliz estava por finalmente poder demonstrar seus sentimentos àquela garota que tanto o encantara nesses últimos dias. Gary tinha certeza. Ele a amava. A amava de verdade. Não era mais uma dessas paixões qualquer que ele encontrava em qualquer canto de qualquer cidade. Não era apenas uma amiga com “direitos” a mais. Ela era uma mulher. Ela era a mulher por quem ele sentia o sentimento mais puro que havia no mundo. Um sentimento que há pouco tempo ele nem mesmo sabia que existia.

Aos poucos aquele beijo foi cessando e enfim os dois se afastaram um pouco. Quando ele abriu os olhos nem mesmo teve a chance de olhar nos olhos delas e sorrir, dizer mais algumas palavras de amor que gostaria de dizer. Quando a fitou ela estava de cabeça baixa, e desviava claramente o olhar dele, e ele sabia que era proposital. Teve receio de quebrar aquele silêncio e por isso ficou um tempo calado, apenas a fitando, porém quando notou uma lágrima escorrendo pelo rosto da morena ele não se conteve. Levou a mão ao queixo dela e ergueu-o para cima fazendo com que seus olhares se encontrassem novamente.

- ... Porque está chorando, Mel..? — Aquela pergunta não teve resposta. Ela manteve-se calada, e desviou novamente o olhar. As lagrimas teimavam em cair. – Me perdoe. Eu não sabia que ficaria chateada... Só fiz isso porque realmente gosto de você...- Ela continuava calada, chorando. Aquilo fazia o coração de Gary contorcer-se em seu peito de maneira angustiante. – Por favor. Só não chora. Não quero te ver triste. Prometo que.. – Gary já entrava em pânico quando ela o interrompeu.

- Desculpe Gary. Eu não posso...

- O que quer dizer, Melissa?

Ela respirou fundo procurando forças para continuar aquela conversa. Levantou o olhar e fitou os olhos do pesquisador pokémon.

- Eu devia ter te contado antes... Mais fui tola e preferi esconder. Espero que um dia me desculpe.

- Eu não estou entendendo Mel...

- Lembra quando eu te disse que minha mãe casou cedo e que nessa cidade ainda era costume casamentos armados?

- ... Sim. – Gary temia pelo que viria a ouvir.

- Antes de morrer, minha mãe me prometeu a alguém. – Aquilo soou como uma facada para Gary. Ele arregalou os olhos, assustado. Melissa era prometida a alguém?Aquele tipo de coisa já não se fazia a anos! Era um absurdo. Um turbilhão de emoções invadia o coração de Gary, e acredite, eram as piores emoções que ele já havia sentido!Ela continuou. – Minha mãe tinha dividas com uma tradicional família dessa cidade e por essa razão acabou me usando como perdão para as dividas. Naquela época era a única alternativa e saída que a minha mãe tinha. – Cada palavra que ela falava, Gary sentia seu coração remoer. Agora entendia o que era a dor de amar alguém.- Ela sabia que a família era de boa índole e que nunca me faltaria nada se eu casasse com um deles. Com o tempo meu avô até conseguiu pagar a divida mais a palavra e a promessa que a minha mãe fez ainda continuaram de pé, para que a honra da família não fosse suja. Era bom para mim, alegava o meu avô no começo. Porém, eu e meu noivo, Johan, nunca fomos muito ligados. Somos amigos mais não de verdade... Eu nunca senti nada por ele, nada mais do que um carinho de amigo.

- Então porque não termina com ele? Se não gosta dele, porque vai continuar com esse compromisso ? – Murmurou Gary tentando ser natural.

- Não posso. Ele está doente.

- Doente? – Gary agora sentia raiva. Raiva de si mesmo e do tal Johan.

- Sim... – Ela abaixou o olhar. Gary podia notar a tristeza da garota e conseguia compreender que o que ela mais desejava era, realmente, poder colocar um fim naquela história. – Ele tem uma doença de coração. Sempre que tem emoções fortes ele passa mal. E ele gosta muito de mim... Se eu terminasse com ele... – Ela hesitou em falar. Gary entendeu o medo dela.

O silencio reinou. O que Gary podia fazer? Nada. Aquele tal de Johan já estava na vida de Melissa a muito mais tempo do que ele. Ele era apenas um aventureiro. Um clandestino naquela terra. Não tinha direito a nada, muito menos a estragar a vida de Melissa. Além disso, mesmo que tivesse aquele direito, a morena tinha motivos suficientes para não querer nada com ele e para finalizar o “noivozinho doente” dela era uma pedra no caminho dele. Gary sabia, pelo pouco tempo em que conhecia Melissa, de que ela seria incapaz de fazer qualquer coisa que arriscasse a vida ou a felicidade de alguém. Principalmente alguém que devia depender tanto dela para ser feliz. Ele abaixou o olhar. Não tinha nada para discutir. Não tinha nada para comentar. Não tinha nada para fazer.

- Não quero que se sinta mal...

- Eu não me sinto. – Mentiu Gary. – Eu entendo muito bem seus motivos. Você está certa.

- Me perdoe?

- Você não tem porque pedir perdão...

Ela se calou. Apenas abaixou a cabeça. Eles ficaram o resto do tempo em silencio absoluto. Gary pensava e tentava encontrar em algum lugar de sua cabeça uma escapatória para aquela dor que sentia. Melissa tentava se controlar para não chorar de desespero, para não quebrar a promessa de sua mãe, e para não estragar a vida de Johan. Alguns minutos depois a chuva cessou e os dois puderam enfim sair daquela caverna e ir para o laboratório. E foram o que fizeram. Em silêncio. Em um silêncio mórbido e doloroso para os dois.

Em alguns minutos os dois já alcançavam a entrada do laboratório. Na varanda da casa estava Darrow a espera de Melissa e junto a ele estava Ash e pikachu que haviam acabado de chegar na cidade. Melissa correu na frente para alcançar o avô e o antigo amigo mais rápido. Gary continuou no mesmo passo, caminhando com as mãos no bolso mergulhado em seus pensamentos.

- Melissa! Que bom que voltou. Já estava ficando preocupado! – o Velho homem abraçou a neta que sorriu levemente.

- Me desculpe vovô. Acabamos ficando presos na chuva.- Ela desviou o olhar para Ash e sorriu para o mesmo. – Ash, que bom vê-lo!

- Oi Melissa! – Ele abriu um largo sorriso e abraçou a amiga que correspondeu ao abraço.

- Que saudades de você. Faz tempo que não vem me visitar!

- É verdade. Me desculpe pela ausência. – Ele afastou-se. – Nossa você ta encharcada! – Comentou.

- É ... Eu e Gary pegamos uma baita chuva!

- Eu e Pikachu demos sorte. Conseguimos chegar aqui antes da chuva!

Foi só falar o nome do pokémon que pikachu começou a chamar a atenção de melissa pulando no chão e emitindo sons próprios de sua raça. Melissa abraçou o pokémon forte e beijou-lhe a testa. Gary adentrou naquele momento na varanda e sorriu levemente para o professor, logo depois desviou o olhar para Ash e pikachu. Ash abriu um largo sorriso e Gary tentou retribuir mais não conseguiu muita coisa.

- Quanto tempo, heim?

- É verdade, Gary! Como está?

- Bem!

- Com licença, vou me trocar. – Disse Melissa.

Ela entrou na casa deixando Darrow, o pokémon, e os jovens garotos na varanda. O silencio reinou e Darrow logo pediu licença e se retirou do local. Gary se sentou em uma cadeira que havia ali e olhou para o gramado verde que rodava a casa. Ash sentou-se ao seu lado com Pikachu pendurado em suas costas.

- O que aconteceu? – Ash quebrou o silencio após algum tempo em silencio.

- As coisas não estão muito boas para mim... – Murmurou. Pausou por um momento. – Fui muito precipitado. Não devia ter me envolvido com ela.

- Fala de Melissa?

- Sim. – Talvez Ash fosse o único com quem Gary sabia que poderia desabafar de verdade.

- Você se apaixonou por ela?

- Pior. Eu a amo.

Ash ficou visivelmente assustado com a revelação. Fez uma cara esquisita e depois riu para si mesmo. Segurou-se para não ironizar aquela situação.

- Ela é noiva.

- É. Fiquei sabendo hoje...

- Me desculpa, mais se quer que eu seja sincero... Você se meteu em um grande problema. Conheço bem a história dela.

- O que eu faço, Ash? – Gary virou o olhar para Ash. Estava literalmente perdido. Sem saber como agir.

- Acho que não sou a pessoa certa para te aconselhar. Tanto que até hoje nunca consegui me abrir com a Misty sobre o que eu sinto... Só posso te dar um conselho. O arrependimento é o pior castigo que pode ter, então não deixe uma oportunidade escapar, Gary.

- É... Eu sei....Eu me arrependo de ter vindo para cá...

Ao mesmo momento em que Gary falou, Melissa abriu a porta saindo para a varanda e escutando aquela frase dolorosa e mal pensada. Gary e Ash a olharam e a morena direcionou o olhar para Gary, como se ainda tentasse entender o porque daquela frase. Ela abaixou o olhar visivelmente triste e se aproximou deles. Fingiu não ter ouvido aquela frase terrível e esticou a mão para Gary entregando-lhe uma camisa seca.

- Vista-se. Não quero que pegue um resfriado por minha causa.

Gary demorou para pegar a blusa e quando o fez ficou em silencio, nem sequer agradeceu. Sabia que havia a ofendido com aquela frase estúpida e o pior era que ao invés de vê-la irritada com aquilo teria que a vê-la triste.

- Vou preparar o jantar. Com licença.- E saiu.

Foi a pior sensação que havia sentido. Alias... Havia perdido a conta de quantas vezes naquele único dia sentira aquela “pior sensação que já sentira”.

Uma hora depois o jantar foi servido. Todos jantaram tranqüilos. Ash e Darrow conversavam bastante, porém Gary e Melissa evitavam falar muito e quando falavam não demonstravam muita empolgação nem felicidade. Ao termino do jantar, Gary se sentia cansado e sonolento. Melissa notou que o rosto de Gary estava meio ruborizado e estranhou aquele fato, sem dar qualquer satisfação aproximou-se dele para medir sua temperatura . Foi quando constatou. Gary estava ardendo em febre. Melissa pediu para que ele subisse e tomasse um banho gelado para descansar enquanto ela prepararia um chá. Ele obedeceu sem reclamar. Mesmo chateada, ela ainda se importava com ele. Gary tomou o banho e se preparou para Dormir. Ash foi para o quarto de Gary e ficaram conversando por um tempo até que Melissa fizesse o chá que prometera a Gary. Algum tempo depois ela adentrou no quarto com uma xícara.

- Ash, poderia me deixar a sós com o Gary um minuto?

- Lógico. Bem, vou indo. Boa noite Gary. Boa noite Mel.

Ele se despediu de Melissa com um beijo na testa da mesma e saiu do quarto. Melissa entregou a Gary o chá e o jovem pesquisador tomou o liquido calmamente.

- Obrigado.

- De nada... descanse bem esta noite.

Ela se levantou e já ia saindo do quarto quando Gary a chamou.

- Mel...

- Oi.. – Respondeu sem se virar para ele.

- Por favor... – Ele se levantou e caminhou até ela.

- Não.. Fique deitado...!

Ela tentou puxa-lo para a cama e faze-lo deitar novamente porém ele não quis. Abaixou-se ali mesmo se ajoelhando a frente dela e abraçou-a pela cintura, encostando sua cabeça sobre a barriga dela.

- Eu não me arrependo de ter vindo para cá. – Ele murmurou em suplica. — Nunca vou me arrepender. Tudo o que eu te disse na caverna era verdade e não vai mudar. Eu só não quero te fazer sofrer ou qualquer coisa do tipo, por isso disse aquilo. Eu quero que me perdoe. Por favor...

Ela se assustou com aquela atitude repentina do jovem pesquisador. Era a ultima coisa que pretendia ver naquela noite. Ela sabia que ele falava a verdade. Ele apertou mais o abraço, como se aquilo fosse um apelo para que ela o perdoasse. Melissa afagou-lhe levemente os cabelos de maneira carinhosa.

- Não se preocupe Gary... Não estou chateada com você. – Ele afrouxou o abraço e virou o rosto para cima a fitando. Ela sorriu e agachou-se beijando a testa do moreno. – Obrigada.

Ele soltou o abraço e sorriu, ainda meio triste, porém mais aliviado. Ela saiu do quarto. Ele se tranqüilizou mais aquilo não era suficiente para apagar tudo o que havia acontecido àquela noite. Alias, nada, nunca, seria suficiente. O gosto doce daquele beijo jamais poderia ser esquecido.