Xxii
5 Minha querida Alice Perdida - Parte 05
De olhos fechados, Ekaterina ainda ouvia o barulho do sinal, a conversa dos alunos, os passos nos corredores, o virar de páginas único daquela bibliófila inveterada, a voz alta daquele idiota. De olhos abertos, ela só ouvia o som do silêncio sobreposto às ruínas que saltavam da gigantesca cratera onde um dia tinha sido o Wittgenstein.
De cima do poste, a centenas de metros, a área inteira parecia abandonada. O que provavelmente não era o caso.
— Preciso que você fique de olho na segurança – Ekaterina falou.
— Tudo bem, mas… – Angelo, pelo fone, começou – não, esquece.
— Fala.
— É que você não precisa mesmo invadir. Você podia pedir para o seu pai te deixar entrar.
Como uma gata irritada com o toque de alguém, a expressão de Ekaterina se eriçou.
— Quanto menos o EAE souber, mais tempo eu vou ter antes deles resolverem se meter – ela falou. – Agora faz o que eu disse.
— Tá, tá. Desculpe. Vou enviar o vídeo das câmeras para você.
— Agradeço.
Ekaterina apertou o play no player portátil e o Som do Silêncio se sobrepôs ao som do silêncio.
— Vou entrar – ela falou.
E então, ela saltou.
Em dois segundos, ela pousou no chão jogando pequenas ondas de fogo ao redor de seus pés, em dois segundos e doze décimos ela começou a correr. As imagens no display do visor indicavam a posição dos seguranças como pontos brancos lentos e fáceis de evitar. As câmeras não eram problema, um pouco de distorção no ar e a imagem ficava borrada o suficiente. De resto, correr, não fazer barulho. O MO.
Meio quilômetro, dois muros, um minuto e trinta segundos depois, Ekaterina estava diante da cratera. Quase quinhentos metros de diâmetro, oitenta, talvez um pouco mais, de profundidade. Vergalhões saltavam como dentes numa lampreia, pedaços das paredes, mesas, carteiras, roupas, lousas, cestas de basquete, pedaços de tudo ainda estavam presos ali, jogando sombras para o alto, projetadas pela luz branca, cegante, lá no fundo… lá, lá no fundo.
A dor no peito, o calafrio na espinha, estava tudo lá.
Ekaterina respirou fundo, deixou o ar velho sair todo de seus pulmões, deu um passo à frente.
Só precisava segurar por um momento.
E então pulou.
As imagens passavam como borrões. As salas de aulas, os uniformes, a cantina, a quadra, a biblioteca, 37. Três, dois, um.
Ekaterina girou os pés para baixo, o ar explodiu uma, duas, a terceira vez foi no chão, espalhando o fogo junto às ondas de choque jogadas ao redor dos três pontos de contato, os dois pés, o braço direito. A luz vinha de todos os lados, lançada para baixo pelas luminárias espalhadas aleatoriamente e refletidas pelo vidro esparramado no chão.
Primeiro veio a risada, seca, fraca, mórbida, irritante. Ekaterina olhou para frente, para o lado oposto da cratera, para entre vergalhões de aço, toneladas de escombro, agarrado por fios de energia, para as partes do corpo, deformado, inchado, rajado de pústulas, vermelhões, inflamações, feridas abertas, que saltava da massa de destroços, para o Demônio com o “6” em sua testa.
— Quan…to tempo – ele disse, sorrindo com o que restava dos lábios. – Não… repara na ba…gunça. Não re…cebo mui…ta visita. Mui…to muito… menos… do seu… nível. A… Imp… Imperatriz Vermelha… de A…as…no… o D… Dragão Vermelho… o Demônio de… Witt…genstein, a Invencível… Núm… Número Cin…co… Ekaterina… Kaladjieva.
A risada outra vez, mais seca, e então tosse.
— Des… culpe – o Demônio disse. – Meu pulmão… não… func… funciona… dire…ito… des… desde… cinco… a…nos… cinco anos… atrás. Mas… o… q…que trás… a Imperatriz… em… pes…soa aq…aq…aqui?
Ekaterina fechou as mãos com toda a força de vontade que tinha. Ela apertou os olhos… só um pouco… encarou o rosto de Demônio – o sorriso estava lá. Ela sentia as próprias unhas através da luva.
— O… g…gato… co…meu a sua… lín…gua?
A dor no peito, o calafrio na espinha. O alarme no cérebro de Ekaterina gritava.
Só um pouco…
— “Circus Maximus” – ela falou.
— Ah… — o Demônio falou. E riu – Isso…
— Você sabe o que é?
— Eu… fico… so…litá…rio… rá…rá…dio é… o que… tem… do…ze… [Receber]… me…lhor… melhor do que… ele… ele usa…usava…
Batimentos acelerados, sangue quente.
Só um pouco…
— O que é “Circus Maximus”?
— Vo…cê… es…tá… com medo?
— Não esqueça quem te colocou aí.
— Es…quecer… n…não… tem… como.
O sorriso do Demônio esticou deformando o rosto.
— P…por… que… não… u…u…usa?… dez…deze…dezesse…te… vo…cê… tem… medo?… d…do… que… v…va…vai… ver?
O Demônio parou de falar, abaixou a cabeça, começou a respirar pesado, salivando, respingando sangue no chão, tossindo.
— Vo…cê – ele falou levantando o olhar para Ekaterina. – T…tem… medo… de mim… Imperatriz…
— Eu tenho pena de você – Ekaterina falou. – Eu tenho nojo de você.
— En…então… por que… es…está… aqui?
O rosto de Ekaterina se fechou, sua mão começou a doer, o gosto de sangue não parava.
— O que é “Circus Maximus”? – ela falou.
— E…eu…eu… sei.
— Então fala.
— O… Dem…demô…nio… de… Witt…gens…tein… to…do…todos… tinham… me…do… de você…
O olho do Demônio não brilhava, profundo, completamente escuro, engolindo tudo.
— M…mas… eu… s…sou… um… Dem…Demô…nio… também.
— Eu posso piorar a sua situação. Você não vai morrer. Só vai doer. Muito.
— Vo…cê… e…era… um… dr…dra…gão… e…ele… t…te… tr…trans…for…mou… num… g…gato.
A tosse outra vez, o sangue, a saliva.
— Me… mo…mos…tra… eu… qu…quero… ver… d…de… nov…novo.
Ekaterina cruzou os braços e chiou.
— Se coloca no seu lugar – ela falou.
O Demônio abaixou a cabeça e começou a gargalhar alto, se engasgando, tossindo, morrendo, mas sem parar de rir.
— B…bem… me…lhor… is…so…is…is…is…isso… é… o que… u…uma… I…Impera…triz… é…
O riso cessou, um silêncio completo deslizou em seu lugar. Ekaterina ouvia o barulho de seu próprio coração.
— A… nave… pa…ra…da…parada… no… céu… est…esta…vam… a…trá…trás de… Esp…Especiais.
— Para quê?
— Q…quem… sa…be?
Ekaterina se virou para ir embora.
— Já… vai? – o Demônio falou. – Vo…volta… mais… v…ve…zes… podemos… fa…lar do… pas… do passado… E…eu… vou… t…te esperar… Im…peratriz.
Enquanto Ekaterina escalava a cratera, a risada do Demônio a perseguia.
A dor no peito, o calafrio na espinha, continuavam lá.
Tudo era tão bagunçado. Coisas fora do lugar, espalhadas pelo chão. Uma desorganização completa. Como alguém conseguia ficar num lugar como aquele, Marie não sabia. O sujeito na frente dos monitores nem se levantava direito, só para ir ao banheiro. De resto, ficava no computador o tempo todo, às vezes falava com alguém, provavelmente com a Gata, e depois calava a boca de novo. Era irritante.
Marie sentava de pernas cruzadas numa das cadeiras de rodinhas, olhando ao redor, balançando os pés rápido, vendo qualquer coisa no holo instalado na sua cabeça. Nada de interessante. Nada para fazer, nada para ver. Nada, nada, nada.
Ela se levantou e foi indo para a porta.
— Vai aonde? – Angelo perguntou sem se virar ou pelo menos parar de mexer no computador.
— No banheiro.
— Quer guardanapos? Se bem que acho que garotas não precisam disso.
— Eu não vou fazer nada disso! Francamente, que tipo de pessoa você acha que eu sou? Eu sou uma dama!
— E-Kat estava certa – Angelo falou rindo. – Você é fofa demais.
Marie fechou o inteiro em Angelo, enviando por ele todo o seu ódio.
— Cai – ela disse.
E Angelo prontamente obedeceu, caindo no chão com toda vontade e velocidade. Sorrindo muito satisfeita consigo mesma, Marie continuou seu caminho para o banheiro. Antes de passar para o corredor ela deu meia volta e olhou para Angelo com toda a intimidação de que uma Borboleta é capaz.
— Não tem câmeras no banheiro, tem? – ela perguntou.
— Está brincando? – Angelo falou enquanto voltava para a cadeira. – Se eu fizesse isso a E-Kat tinha me matado. Apesar de ser uma exibida, ela é bem tímida na verdade.
Angelo girou a cadeira para encarar Marie.
— Sabe, eu trabalho com ela tem quatro anos já – ele disse. – E é engraçado que eu nunca vi ela com ninguém.
— O que você quer dizer?
— Não é óbvio? Ela nunca sai com ninguém. Ela só trabalha, trabalha, trabalha.
— Por que você está me falando isso? – Marie falou cruzando os braços e virando a cara. – Acha que eu sou alguma fofoqueira que se interessa na vida de qualquer uma?
— Só achei que você estava entediada e resolvi falar. Mas, beleza, nesse caso acho que você não vai querer saber do resto.
— Que resto?
— Você não acabou de dizer que não se interessa pela vida dos outros?
— Não é interesse pela vida – Marie falou voltando a encarar Angelo. – É que eu preciso saber o máximo que puder para poder derrotar ela em nome da Alice. Só isso. Por que eu estaria interessada em qualquer coisa da vida daquela mulher? Eu não gosto dela!
Angelo coçou a cabeça e suspirou.
— Sabe, você podia ter parado no “em nome da Alice”. Não que eu fosse acreditar, mas o resto foi tão clichê que, caramba, nunca pensei que fosse ouvir isso na vida. Você é como uma fogueira num iglu.
— Você não ia falar alguma coisa sobre a Gata?
— Ah, sim, verdade. Eu conheço ela tem quatro anos, sabe, mas eu ouvi histórias de como ela era antes. Apesar de todo exibicionismo, parece que ela nunca se interessou em se aproximar de ninguém. Exceto por uma pessoa que…
A boca de Angelo não teve a chance de terminar de falar, já que acabou dando prioridade a uma interjeição muito bem articulada e clara de dor, o que é algo natural de se esperar quando essa boca faz parte de uma cabeça que acabou de ser atingida por uma chave de fendas.
Ekaterina entrou pela claraboia, caindo de pé e sem inclinar os joelhos, indo diretamente para Angelo. Antes que ele pudesse ter a chance de procurar algum argumento racional ou de pensar uma maneira prática e rápida de pedir perdão, Ekaterina já tinha virado a cadeira para forçá-lo a encará-la e colocado o pé direito muito firmemente entre as pernas dele.
— Eu acho que você estava falando alguma coisa – a Imperatriz falou. – E acho que era sobre mim. O que era?
Se Angelo fosse um balde de água, ele teria virado gelo naquele momento. Como não era, apenas virou neve.
— Eu estava dizendo como você é incrível – Angelo começou – e fabulosa e maravilhosa e…
O rosto de Ekaterina estava perto, muito perto, e fechado atrás de sete portas da mais pura raiva fria e indiferente.
— Fica tudo bem se eu pedir desculpas? – Angelo falou com seu melhor sorriso falhando terrivelmente em não ser um sorriso nervoso.
Na terra, se ouviu um soco.
No céu, os anjos receberam uma alma recém-chegada.
Marie apenas assistia à cena com a mais pura incredulidade pintada em seu rosto.
— Você conseguiu encontrar alguma coisa sobre aquela nave? – Ekaterina perguntou enquanto se sentava sobre uma mesa.
— Mais ou menos – Angelo falou ainda com menos ar do que esperava. – Não tinha nada nos registros oficiais que parecesse problema. Só que a nave está no nome de um laranja, então alguma coisa errada tem.
— E a rota?
— Eu chequei as câmeras da cidade. Parece que ela sai todo dia de um porto particular, vai até uma posição qualquer da cidade e aí para por horas.
— Entendo…
No canto de seu olho, Ekaterina viu a cara de ponto de interrogação de Marie.
— O que foi? – a Gata perguntou à Borboleta.
— Você foi lá? – a Borboleta perguntou. – Para a Cova do Demônio?
Ekaterina empurrou o cabelo para trás.
— Eu fui, sim – ela disse.
— E o que ele disse? – Marie falou, subitamente agitada.
— Ele disse que alguém na “nave parada” estava atrás de Especiais.
Angelo se virou para Ekaterina.
— Atrás de Especiais? – ele falou. – Mas por quê? E como? Quer dizer, até alguém sem a menor experiência, como a Marie, sem ofensas, é perigosa. Imagina alguém como a Alice. Não tem muita gente por aí que conseguiria pegar ela viva.
Marie ensaiou uma interjeição, mas no último momento esqueceu a fala e só se lembrou de virar a cara.
— Pode ter sido outro Especial – Ekaterina falou. – Isso explicaria o como. E o por quê…
Ekaterina podia ouvir a risada do Demônio ecoando na sua cabeça.
— De qualquer jeito, aquela nave é o melhor que tem até aqui – ela falou. – Eu vou entrar nela amanhã.
— Eu vou com você – Marie disse. – E não importa quanto você insista ou tente dizer o contrário eu vou.
— Eu não ia. Apesar de incompetente, você ainda é uma Especial. E a sua Especialidade é bem útil. Apesar do alcance não ser particularmente grande e o limite um pouco chato.
Marie ergueu um dedo e abriu a boca para falar, mas se interrompeu.
— Eu não sei como eu deveria reagir a isso – ela acabou falando. – Eu estou ofendida, mas acho que isso foi um elogio. Não que eu me importe com os seus elogios, não entenda errado. Eu não podia me importar menos com eles.
— Como uma fogueira num iglu – Angelo disse. – Bem como eu falei.
— Cai.
E lá foi Angelo beijar o chão de novo.
— Tem um problema – Ekaterina disse. – Não dá para você ir vestida desse jeito. Vestidos e saias não são práticos.
— Eu não tenho nada diferente.
— Sério?
— Eu sou uma dama e não uma garota qualquer.
— Você pegou os hábitos ruins da Alice, mas nada da Inteligência. Sério, você não deu sorte mesmo, não é? Bom, pelo menos você é fofa então acho que isso é alguma coisa.
Marie virou a cara, fechou os olhos e cruzou os braços fingindo toda a frieza de um cubo de gelo. Ekaterina saltou de cima da mesa e começou a se espreguiçar.
— Por agora vai dormir – ela disse. – Amanhã a gente resolve esse problema.
— Você já vai para a cama, E-Kat? – Angelo perguntou.
— Banho. Essa correria me deixou suada e toda suja.
Ekaterina trancou a porta do banheiro, jogou todos os periféricos eletrônicos no cesto de roupa suja, ligou o chuveiro e saltou sem tirar a roupa. Seu lábio estava doendo, quando ela passou o dedo ele saiu vermelho. Sangue.
— Droga – ela sussurrou.
Ela tinha mordido o lábio. De novo.
Fale com o autor