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3 Minha querida Alice Perdida - Parte 03


Na pequena sala estufada de aparelhos velhos, fios, cabos e ferramentas largadas pelo chão, os monitores holográficos continuavam exercendo com precisão absoluta seu trabalho de exibir as imagens captadas pelas câmeras da cidade. O mesmo não se podia dizer daquele que deveria estar monitorando os monitores, Angelo. Recostado na cadeira, fones tapando os ouvidos, os peitos de Ada Olov tapando os olhos. Estavam perto, muito perto. Quase dava para sentir o calor, a textura macia. O sorriso de Angelo de monitores crescia a cada centímetro que encolhia a distância entre seus dedos os redondos, macios, deliciosos, peitos de Ada Olov. Só mais um centímetro e…

Os dedos atravessaram os peitos holográficos e os olhos se encheram com a mesa plástico no momento em que o a cabeça do monitor de monitores bateu, bem, na mesa de plástico. Normalmente, ao bater a cabeça numa mesa, uma pessoa grita de dor. Angelo gritou, mas mais de raiva do que de dor, enquanto girava a cadeira para trás e saltava dela.

— Quem foi o idiota que fez isso? – é o que ele teria gritado se não tivesse se virado e visto ela. Como se virou e viu ela, o grito parou depois do idiota.

Ela, com os olhos atrás de visores e os cabelos vermelhos, segurando uma tiara de orelhas de gato na mão… você já sabe quem era. Angelo também sabia e o seu sorriso nervoso foi a melhor opção que ele encontrou de responder à cara fechada da Gata. A cara fechada da Gata, porém, fechou ainda mais depois do sorriso, quase como teria se fechado se a tivessem trancado dentro de um ovo colocado dentro pato, colocado dentro de um gato, colocado dentro de um baú, fechado dentro de um cofre enterrado numa ilha deserta no meio do Oceano.

— Ei, Ekat… – Angelo tentou falar.

Antes que a boca de Angelo articulasse o “erina” e completasse o nome da Gata, um soco a fez mudar de ideia e articular um “ai” longo. Muito longo. Mais longo do que o necessário, se as sobrancelhas incrédulas de Ekaterina eram algo pelo qual se podia julgar a duração aceitável de um “ai” produzido por alguém que acabou de levar um soco na boca. Angelo esfregou a mão na boca e, para sua extrema alegria, nenhum dente ficou preso nela, nem sangue também.

— Você não precisava ter batido tão forte – ele falou.

Ekaterina arrancou o visor dos olhos de Angelo e seus dedos apenas procuraram entre os menus a confirmação do já esperado.

— Isso é o que você ganha por ficar vendo pornografia enquanto devia estar trabalhando – ela disse.

O visor voou da mão de Ekaterina para nenhum lugar em específico enquanto ela se aproximava de um dos monitores projetados. Angelo, por um bocado de sorte e um monte de desespero, conseguiu agarrar o visor antes que ele se multiplicasse em milhares de pedacinhos disfuncionais. Angelo tentou fuzilar Ekaterina com o seu olhar muito bem ensaiado olhar furioso, mas ela não tinha olhos nas costas e os olhos da frente não se afastavam de um dos monitores. Especificamente, o monitor que mostrava a movimentação da Borboleta numa saleta. Desistindo de continuar com os disparos de olhar, Angelo se aproximou da mesa e ficou observando a Borboleta junta Ekaterina por um momento.

— Preocupada com a história da Alice? – ele perguntou.

— Eu chequei com as fontes – Ekaterina disse. – Ninguém tem notícia dela há um bom tempo já.

— Acha que é verdade então? Que a Alice desapareceu e o grupo se separou?

O olhar de Ekaterina não saía de cima da imagem da garota loira andando em círculos na saleta.

— “Circus Maximus” – ela murmurou.

— O quê? – Angelo perguntou.

— “Circus Maximus”. Era o que estava no cartão de visita que ela me entregou. A tal pista. Estava no quarto da Alice.

— Isso não é latim? O nome de um coliseu ou alguma coisa assim.

— Uma pista de corrida de vigas, o primeiro circo romano. Eu chequei.

Angelo deixou seu corpo cair de volta em cima da cadeira.

— Por que alguém ia deixar o cartão de visita com o nome de um circo romano no quarto da Alice? E como ele entrou lá? Quer dizer, ela é a Alice. Ela era uma das mais fortes.

— Se eu soubesse dessas coisas eu não ia estar aqui pensando no que está acontecendo.

Ekaterina cruzou os braços e passou mais um olhar pelo monitor.

— Você pelo menos viu se ela ficou só andando o tempo todo que eu fiquei fora? – ela perguntou.

— Não sei por que você se preocupa tanto, Ekat. Se ela quisesse sair dali ela já tinha saído, sabe?

— Isso é verdade.

A Borboleta levantou o rosto para olhar direto para a câmera… não, para além, para o outro lado do monitor.

— Vou falar com ela – Ekaterina disse. – Grava tudo.

— Pode deixar comigo, boss.

Ela colocou a tiara na cabeça e foi para as escadas. A saleta ficava no andar de cima, o segundo, e último, do prédio. Enquanto passava pelo corredor, Ekaterina observava pelas janelas os finalmentes da movimentação noturna. A poucos quilômetros dali, no coração da cidade, as naves de luxo desciam para encerrar a noite dos ricos, os holofotes desciam. Só ficavam os neons, as lâmpadas dos prédios, as luzes das torres, dos carros, projetando sombras na parede. Antes de deixar o painel escanear sua mão e liberar a porta, Ekaterina bateu.

— Vou entrar – ela disse para o lado de dentro.

O painel piscou verde, muito satisfeito e feliz, como um fã que aperta a mão de seu ídolo, quando a mão de Ekaterina o tocou e a abriu a porta. Lá dentro, sentada numa cadeira, de pernas cruzadas, mãos sobre os joelhos e um sorriso cheio, a Borboleta esperava.

— Eu estou vendo a sua calcinha – Ekaterina disse. – Rosa não combina com você.

Enquanto trancava a porta, a Gata viu a Borboleta descruzar as pernas e escorregar as mãos para o colo.

— Você podia ao menos respeitar a minha dignidade – a Borboleta disse. – A última coisa que eu preciso é de você comentando a cor da minha calcinha. Francamente, isso é humilhante.

Ekaterina puxou outra cadeira e se sentou de frente para a Borboleta.

— Quer ver a minha? – ela disse. – Assim a gente fica quites e fecha esse assunto.

— Que tipo de lógica é essa? Por que isso devia nos deixar quites?

— Bem, como você preferir. Não estou nem usando um mesmo.

Se um telescópio fosse apontado da China para aquele quarto e conseguisse enxergar através da inclinação da Terra, dos prédios e da falta de iluminação, a pessoa atrás desse telescópio conseguiria reconhecer sem a mínima dificuldade a expressão no rosto da Borboleta como “indignação”.

— Você está falando sério? – a Borboleta perguntou.

Ekaterina abaixou um pouco o short para revelar um pedaço da calcinha. Era branca.

— Mais tranquila? – ela falou, colocando o short de volta no lugar.

A indignação ainda estava no rosto da Borboleta, plenamente visível, mesmo que ela tentasse escondê-la com as mãos.

— Eu fui derrotada por um exibicionista… – a Borboleta disse, escorregando suas mãos de volta para o colo e o olhar de volta para Ekaterina. – Me questiona logo e termina com isso, por favor.

— Apesar de você pedir isso não dá para garantir nada.

— O que você quer dizer?

— Dependendo do que você me disser, pode ser que seja melhor não te deixar por aí. Você é uma criminosa, lembra? Aposto que o EAE está atrás de você.

— Não me subestime, Imperatriz Vermelha. Eu sou a número dois da Alice Negra, não se esqueça disso.

O olhar da Borboleta correu para o lado, suas mãos empurraram e o cabelo para trás e um certo grau de encabulamento empurrou a vaidade para fora do rosto.

— Apesar de que eu tenho que admitir que você já me venceu três vezes e derrotou a Alice, mas isso não tem nada a ver com o que está acontecendo aqui e eu com certeza conseguiria te vencer se eu me esforçasse de verdade e tivesse as condições corretas! Provavelmente…

Os olhares das duas garotas se cruzaram. Uma brisa passou pela saleta.

— Você está filmando, não está? – a Borboleta perguntou.

— Cada momento – Ekaterina respondeu.

A cabeça da Borboleta despencou para o meio de seus joelhos na mesma velocidade em que seu orgulho se estatelava.

— Acaba com isso enquanto me resta um pouco de dignidade, por favor… – a Borboleta disse.

Ekaterina sorriu.

— Sabe, quando o caso estiver resolvido, bem que você podia esquecer a Alice Negra e vir para o meu time – ela disse. – Eu aceito qualquer um, independente de habilidade ou talento.

— Isso devia ser um elogio?

— Além disso, você tem um ótimo gosto para calcinhas.

— Me questiona logo!

O sorriso de Ekaterina deu lugar a uma seriedade absoluta. A transição de um modo para o outro era virtualmente instantânea – bastava que o sorriso descesse e todo o rosto da Gata parecia se reformar para acompanhá-lo. Ekaterina espalmou sua mão para cima e da luva saltou um holograma do cartão de visitas que a Borboleta lhe entregara.

— Você disse que a Alice Negra se dividiu depois que a Alice desapareceu – a Gata falou. – Eu chequei minhas fontes e ninguém tem sinal dela por mais de três meses.

— Ela estava escondida. Depois da última vez que vocês brigaram ela achou melhor descansar um tempo e juntar forças para te pegar quando a situação melhorasse.

O horror puro e branco encheu o rosto da Borboleta quando suas próprias palavras chegaram a seus ouvidos. Ekaterina só levantou as sobrancelhas.

— Pelo visto ela ainda não aprendeu a lição – ela falou.

— Seria muito pedir para você não dizer para a Alice que fui eu quem te contou isso?

— Seria.

Uma Borboleta despencou no chão.

— Você disse que ela desapareceu e você encontrou esse cartão de visitas no quarto dela – Ekaterina disse. – Tem alguma ideia do que é isso?

— Nenhuma. E parece que ninguém tem.

Os olhos da Borboleta desceram para o seu colo.

— Quase ninguém – ela corrigiu. – Tem uma pessoa que dizem que comentou disso.

Ekaterina sentiu um alarme disparar na sua espinha.

— Quem? – ela questionou.

— Você sabe quem – a Borboleta disse olhando nos olhos da Gata. – Aquele cara.

O alarme saltou como um se uma bomba estivesse prestes a explodir. Ekaterina se levantou empurrando a cadeira com as pernas, ignorando tudo menos o caminho para a saída.

— Ei, espera! – A Borboleta disse enquanto se levantava. – Aonde você vai?

Ekaterina liberou a trava da porta e saiu da saleta.

— A porta está aberta – ela respondeu. – Se quiser, vai embora.

Nem por um instante a Gata olhou para trás, pisando pelo corredor enquanto o calafrio subia pela sua espinha e seus dentes inferiores tentavam se enfiar dentro dos dentes superiores. A Borboleta correu atrás dela no corredor.

— Espera! – a Borboleta insistiu sem parar de andar. – Você vai atrás da Alice, certo? Você tem que ajudar ela!

Os pés de Ekaterina pararam de se mover tão de repente de que a Borboleta, assustada, recuou.

— Por quê? – a Gata perguntou olhando a Borboleta nos olhos.

— Não pense que eu preciso de você! Se eu tivesse todos os Coelhos comigo eu resolveria isso sozinha! Se não fossem aqueles dois babacas achando que tem o direito de tomar o lugar da Alice eu já estaria a meio caminho de achar ela! Então não fica pensando que eu dependo de você! Eu nem gosto de você!

As unhas da Borboleta se cravaram em suas palmas, suas sobrancelhas desceram e seus olhos brilharam. Ao longe, uma nave passava atirando luzes pela janela, jogando a sombra da Borboleta contra a parede, enorme, tremulante.

— Mas eu não sou idiota – a Borboleta disse. – Eu não tenho como ajudar a Alice sozinha. Além do mais, é isso que você faz, não é, Imperatriz? Você resolve os problemas antes que o EAE se meta. Então é óbvio que você tem que se meter nesse caso.

— Você não acabou de dizer que não precisa de mim?

O olhar da Borboleta fugiu para a janela.

— Eu não preciso! – ela disse. – É… é diferente! Além do mais, se você não for ajudar, então que seja! Eu vou sozinha e resolvo isso!

— Se você não consegue nem achar um jeito de não deixar sua calcinha à mostra como você espera achar a Alice?

— Para de falar nisso!

A cabeça da Borboleta abaixou, mas seu olhar continuou travado em Ekaterina.

— Então? – ela perguntou. – Como vai ser?

O calafrio ainda percorria sua espinha, a frase escrita em vermelho no cartão ainda enchia sua mente, porém, no fundo, não havia dúvidas. Ekaterina jogou seu cabelo para trás numa cascata vermelha chamejante e exagerada.

— Não tem jeito – ela disse. – Como a única e verdadeira governante de Asano, eu não posso ignorar os pedidos dos meus súditos. Muito bem, Marie, vamos achar a Alice.

— Obrigada – Marie disse. – Apesar de tudo, você não é tão horrível.

Como um sorriso sem gato, Ekaterina esticou cinismo em seus lábios.

— Mas, você sabe – ela falou – aquela calcinha realmente não combina com você.

— Cala a boca!