Xxii
13 A Imperatriz, a Estrela e o Tolo - Parte 5
O chinês estava parado ao lado da moto. Servindo de apoio a Marco, Mami apenas conseguiu assistir em silêncio à chegada dele, à sua parada, à sua ordem, a cada um de seus movimentos enquanto ele colocava o capacete sobre o banco e fechava o olhar nos dois.
Talvez ela pudesse dizer alguma coisa.
Quem sabe não conseguisse convencer eles a irem embora. Afinal, eram só duas crianças, como ele mesmo tinha dito. Independente do que estivesse acontecendo, não era problema dela. Então tudo bem se ela simplesmente fosse embora, certo?
Era apenas lógico. Estava tudo muito claro na sua cabeça, cada palavra que precisava dizer, como deveria dizer e quando deveria dizer. Era para ser fácil.
Mas as palavras não saíam, assim como os olhos de Mami não saíam de cima dos olhos do chinês. No fundo da sua cabeça, ela conseguia [ler] tudo. Cada impulso elétrico, cada informação trocada, cada pensamento como um fluxo contínuo de informação, uma inundação de dados sensoriais confusos e desconexos invadindo sua mente. Do que conseguia entender, era óbvio. Terrivelmente óbvio.
Ele não ia entender. Ela poderia ter os melhores argumentos do mundo. Não mudaria nada.
Pensando direito, era estúpido pensar que daria certo. Estúpido. Era óbvio que era estúpido. Ela era estúpida.
Os olhos de Mami terminaram de percorrer o rosto do homem. Seus lábios não se afastaram mais do que milímetros.
Olhar para trás, procurar uma saída, fugir. Era o que precisava fazer, o que iria fazer. Não, não funcionaria. Com Marco ali, não iria longe. Mesmo sem ele, o chinês tinha uma moto. Se ela corresse não ia demorar nada para ser alcançada. Céus, não precisa nem mesmo ir tão longe. Ele era um Especial. Nada impedia que ele a derrubasse em um segundo assim que ela tentasse fugir.
Talvez se… se.
Se o quê?
Se pensasse em cem cenários possíveis, nos cem o resultado não diferiria em nada.
Os lábios de Mami se moveram devagar, balbuciaram, tentaram encaixar som após som. Um sopro de som… uma palavra. Uma pergunta.
— O que você vai fazer comigo? – ela perguntou.
Os olhos de Mami se arregalaram e seu corpo se dobrou ao redor de si mesmo enquanto o ruído branco da informação lhe sufocava. As mãos nos ouvidos não eram o suficiente para parar o barulho. Os gritos internos, os pensamentos caóticos. Nada. O ruído branco penetrava, entrava, infectava cada canto do cérebro de Mami, enquanto seus olhos fechados se negavam a ver.
Seu coração perdeu uma batida.
Suas mãos tremiam.
Sua garganta engasgava com o grito.
Ao redor de Mami, o mundo desabava em uma tempestade de cacos de vidro e facas.
O barulho chegou tarde demais. Quando a cabeça se levantou e os olhos alcançaram o espaço à frente, o chinês estava ali. Os olhos dele encontraram os de Mami. A garganta entalada soltou o grito enquanto o corpo de Mami se atirava para trás, tropeçando nos próprios pés, caindo. Os olhos do chinês a analisavam com lentidão inquisidora, até brilharem, de repente, como se uma lâmpada tivesse se acendido atrás deles.
— Você…! – ele murmurou.
O chinês se aproximou de Mami. Ela se arrastou no chão, sem se virar, sem pensar, só fugindo. Um passo. Dois passos. Uma mão se levantou antes do terceiro e o punho dela mirou o rosto do chinês. Passou longe. Ela tentou de novo, arrastando o corpo no fim do braço como um peso morto. Os socos, fracos e lentos, não chegavam nem mesmo perto de tocar o chinês. Eventualmente, a mão parou e despencou ao lado do corpo de Marco. Encurvado para frente, arfando e tossindo, ele encarava o chinês.
— Não chega perto dela! – Marco exclamou.
A frase foi dita como uma ameaça. A entonação agressiva, a voz gritada, a expressão furiosa, marcavam aquilo como uma ameaça. Mas não podia ser. Não havia como ser. Naquelas condições, a possibilidade, a ideia de que aquilo pudesse ser uma ameaça… era ridícula.
E, ainda assim, por alguma razão, ninguém ria. O chinês não mudou de expressão, só deslizou a mão para o bolso e de dentro dela tirou uma… moeda, apertando-a firmemente na palma da mão.
— Vou admitir uma coisa, criança – ele disse. – Você tem peito. Qual o seu nome?
— Marco.
— Marco. Certo. O meu é Yun. Eu gosto de gente como você. Se você não fosse da Kaladjeva, eu te chamaria para o meu grupo.
Marco sorriu de dentes cerrados.
— Como se eu fosse perder tempo com um cara feito você.
— Você realmente tem espírito – Yun disse sorrindo. – Então eu vou honrar isso.
A expressão de Yun mudou como se um pasto tranquilo subitamente se abrisse revelando por baixo dele um rio de magma. Ele recuou três passo, estendeu a mão até a altura do abdômen de Marco e abriu a palma.
Com o estrondo de uma marreta esmagando madeira, o corpo de Marco se dobrou, sua boca cuspiu ar e saliva. O som de uma moeda batendo no chão passou pelas paredes, seguido de perto pela baque do corpo de Marco.
— Foi mal, criança – Yun disse. – Mas você realmente não devia tentar enfrentar gente mais forte que você. Isso é idiotice.
Os olhos de Yun então encontraram Mami, ainda caída no chão, aterrada. O pé do chinês se levantou e moveu seu corpo para mais próximo do da garota. No momento em que a sola do sapato de Yun voltou a encostar no chão e as ondas de som se espalharam, no cérebro de Mami, um sinal disparou. Como num impulso descontrolado, adrenalina foi disparada por todo o corpo dela. Irradiados pela mudança química, seus membros se reativaram, se levantaram. E fugiram. O caminho se abria diante de seus olhos como um trilho de trem sem desvios. Só precisava correr, a plenos motores, sem parar, até chegar ao fim do caminho.
A dor estourou na perna de Mami antes que ela chegasse a metade do caminho. Os joelhos perderam o equilíbrio na hora, o corpo girou ao redor de si mesmo, até cair, encarando o céu. Estava nublado, sem uma abertura de céu noturno.
Era tão óbvio…
Os passos chegavam rápido. Mami só fechou os olhos.
Como era que seu pai dizia mesmo?
Por alguma razão, não conseguia lembrar. Mas lembrava de uma música…
Se um desejo meu pudesse
se realizar nesse momento, eu quero um par de asas
O rosto de Yun apareceu entre o céu e Mami, a mão dele descendo em sua direção. Ela fechou os olhos.
Nesse enorme céu eu quero
abrir minhas asas e voar
Ela podia sentir as mãos agarrando sua camiseta, forçosamente afastando-a para longe do peito.
Para o livre céu sem tristeza
eu quero bater minhas asas
e ir
Estranho. Onde tinha ouvido essa música? Não conseguia lembrar. Estranho. Mami abriu os olhos e… o céu parecia tão… distante.
Mesmo se ela esticasse suas mãos bem alto e saltasse, não iria conseguir. Talvez, se pegasse toda a velocidade do alto de um prédio e pulasse… talvez.
Ah… o céu estava realmente longe.
As mãos se afastaram de repente.
O corpo de Yun foi para longe. Enquanto ouvia ele se afastando, Mami se levantou devagar, apoiada nas próprias mãos. Os olhos do chinês ainda estavam nela, então ela colocou a camiseta de volta sobre o peito onde o número 17 era plenamente visível.
— Você também – Yun disse. – Você é uma Especial.
Yun agarrou Mami pela gola, a empurrou contra a parede, encarando-a de frente, apertando com força o bastante para sufocar.
— O que você quer? – Mami murmurou.
— Nós dois temos assuntos a tratar!
— Ah é? – uma voz vindo do alto disse. – Eu quero ouvir isso.
Um rastro de fogo abriu um rasgo no escuro do beco, jogando faíscas e luz pelas paredes como uma estrela cadente a descer, até pousar no chão enquanto chamas ao seu redor se erguiam em pilares espiralantes. O olhar da estrela cadente recaiu por um momento sobre o corpo do garoto desmaiado ali perto, antes de se voltar, incinerante para Yun. Nesse momento, o coração de Mami se inflamou de esperança e luz, transparecendo no brilho do olhar e do sorriso que se acenderam nela.
— Então, quem quer que você seja – Ekaterina disse – melhor começar a falar agora.
Fale com o autor