X-5221i
1 Prólogo
32º dia, 11h35 AM
Flutuando? Não, acho que a palavra certa é boiando. Sim, era exatamente isso... eu estava boiando em algum liquido espesso, dentro de algo que eu não sabia especificar o quê, com tubos de alimentação nas minhas costas e braços e na desconfortável posição fetal.
Podia ouvir sons mesmo dentro daquele lugar, podia ouvir sons eletrônicos e vozes. Muitas vozes. Primeiro senti um leve desconforto, e logo depois uma dor descomunal invadiu todos os meus sentidos fazendo-me gritar.
E então acordei.
Ainda respirava com um pouco de dificuldade e meu corpo estremecia levemente, mas meus olhos permaneceram fechados.
O leve som produzido pela batida das minúsculas gotas de chuva invadiram minha mente e quase que instantaneamente reafirmaram que fora apenas um sonho.
Não, não era um sonho e eu sabia muito bem.
Eram lembranças. As minhas primeiras lembranças.
Respirei fundo e abri os olhos apenas para me certificar do local onde eu estava, do local que na verdade nunca sai. O ambiente branco brilhava intensamente com as lâmpadas florescentes e era gelado como sempre, pelo mesmo ar-condicionado. Vozes, muitas vozes. E também as mesmas de sempre.
Acabei me desconcentrando do doce barulho da chuva e sentei no sofá onde me encontrava, jogando a fina coberta de lado e colocando meus pés nus no chão frio.
O local que ficávamos era grande e dividido em partes; a que estávamos era uma sala com livros e poltronas, grade o suficiente para todos nós. Havia o cômodo aonde dormíamos, um onde comíamos, outro onde pessoas desagradáveis sempre estavam prontas para nos limpar e vestir e raramente íamos para fora, para o nosso “banho de sol”.
Voltei meus olhos para os presentes no local, para aqueles a minha volta que eu convivia todos os dias. Os longos cabelos loiros e platinados, o rosto levemente quadrado, os olhos escuros e a pele clara salpicada de pintas minúsculas. Nossas semelhanças eram inegáveis, ainda mais quando pertencíamos a mesma ordem remanescente.
Minha analise diária foi interrompida pelo som agudo de uma voz feminina e robótica que saia dos auto-falantes. O pequeno dispositivo que ficava no meu pulso começou a piscar, assim como os de outros 8 no grande local. Todos nós olhávamos para os auto-falantes espalhados nos cantos da sala, como se já não soubéssemos o que ia acontecer:
Protótipos da Classe X e Ordem remanescente 522, de pé.
Ouve-se um barulho de porta se abrindo e pessoas saem de lá, caminhando em nossa direção. Levantamos silenciosamente apenas aguardando e observando atentamente aqueles 9 estranhos. Cada um ficou parado em nossa frente, analisando o nosso pulso esquerdo, verificando a ordem remanescente de cada um. Eles se vestiam de branco e o rosto era tão apático quanto desdenhoso, apareciam quase todos os dias e levavam sessões diferentes. Alguns de nós não voltavam e os que voltavam não lembravam o que havia acontecido. E eram diferente de nós... eles eram visivelmente menores, mais corados, não tinham marcas dos tubos de alimentação nas costas e braços e o mais interessante é que não tinham marca de identificação nos pulsos, mas sim em crachás.
A moça que estava na minha frente batia praticamente na altura do meu peito, e era a mais alta dos 9 ali presentes. Ela terminou de analisar os números estampados no meu pulso e logo em seguida retirou do bolso um aparelho estranho que fez um tipo de “bip” quando passou pela minha numeração.
– X-5221i identificado. – falou quase que roboticamente – Pronto. – disse ela por fim virando-se para os outros.
Eles também confirmaram quase que em coro:
– X-5222i, X-5223i, X-5224i, X-5225i, X-5226i, X-5227i, X-5228i, X-5229i. Prontos.
E seguiram para fora da sala, e cada um dos 8 mencionados os seguiram.
Antes de me mover, olhei estarrecido para todo o branco local, para cada um daqueles tão parecidos comigo. Alguns fizeram um aceno mínimo com a cabeça, outros um movimento imperceptível com os finos lábios rosados, e outros chegaram a sorrir abertamente.
Sim. Finalmente havia chegado esse dia.
Coloquei-me a segui-los também.
– Estamos indo para outro banho de sol? – disse teatralmente alguém atrás de mim, com sua voz inocente.
Virei-me para ela e sorri, fingindo que nada daquilo era realmente combinado.
– Hoje vamos fazer algo muito mais interessante que apenas tomar banho de sol, pequena.
Ela era idêntica a mim até as mesmas pintas faciais, era como olhar para um espelho apenas um pouco menor que você.
As pessoas de branco deram uma olhada para trás, talvez apenas para confirmar que continuávamos ali, nem se importando com a nossa conversa.
– E o que seria? – perguntou outro, se aproximou mais.
Agora todos os 8 já estavam perto de mim, esperando atenciosamente a resposta.
– Hoje será o dia de nossa libertação. – falei alto o bastante para as pessoas a nossa frente ouvirem, e parei de caminhar, assim como todos os outros atrás de mim.
Estávamos no meio de um corredor branco com as mesmas luzes florescentes e o mesmo ar-condicionado. A nossa frente estava uma ampla porta branca, toda cheia de detalhes e atrás de nós estava uma das saídas da grande Classe X, pela qual havíamos acabado de passar.
– Libertação? Como assim? Teremos banho de sol todos os dias que quisermos?! – repetiu a doce voz ao meu lado.
Eu podia sentir a excitação brotando de mim, da adrenalina correndo arduamente nas minhas veias.
– Muito mais que isso. – falei controlando a excitação na voz – Poderemos sair do E.D.E.N.
As pessoas de branco se entreolharam por alguns segundos e depois se viraram para nós, desconfiados... talvez até um pouco confusos. Olharam para cada um de nós, tentando descobrir quem havia sido o ultimo a falar.
– Chame os seguranças. – sussurrou a doce moça que havia me analisado minutos atrás para o companheiro dela.
Meu sorriso desapareceu. Bom, talvez de um jeito macabro de mais, pois eles recuaram alguns passos logo após.
Aquelas imagens passaram de relance pela minha mente, a dor dos tubos de alimentação se desconectando de mim, a momentânea falta de ar, o incomodo da posição fetal... todas elas, todas eram parte de mim e do meu nascimento.
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