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2 Capítulo II : Velório


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Não consegui dormir mais depois daquele pesadelo. O olhar de desespero de Dan, sua morte pareceu tão real. Fiquei acordada ate a hora de ir pro colégio.

Troquei de roupa, escovei os dentes e me arrumei quase que sem perceber, automaticamente. Desci e tomei meu café. Minha mãe não estava em casa, um fato muito incomum. Fui ate a praça esperar meus amigos.

Tudo estava como todos os dias: mães com seus filhos e carrinhos de bebês, velhinhos jogando conversa fora, pombos voando e pessoa correndo pro trabalho. E eu ali, sozinha esperando Len e Annie, como sempre. E nesse tempo de espera, fiquei pensando no meu sonho. Algo além da ‘morte’ de Dan estava me intrigando.

Aquela sombra, não me era desconhecida. Eu já tinha a visto em algum lugar. Mas aonde? Meus pensamentos foram interrompidos com a voz de Len.

- Bom dia Lizzy! Vamos aguardar a princesa chegar né.

- Esperar quem? – Annie nos surpreendeu – Vamos indo porque to doida pra saber minha nota na prova.

- De onde você surgiu garota? – Len falou espantado – pelo menos não está atrasada, vamos indo.

E lá fomos nós a caminho da escola. Passamos perto da cafeteria e ela não parecia tão sombria como no meu sonho. Fiquei feliz por não ter que entrar nela.

- Garotas, vocês não querem jogar um game online comigo não? – Len pareceu entusiasmado.

- Você sabe que eu não curto essas coisas. Estou muito longe de me tornar uma nerd que nem você querido. – Annie falou em um tom de brincadeira.

- Sabia que você não ia querer, afinal é muito informação ao mesmo tempo pra você. – todos riram. Depois Len se dirigiu a mim. – E você Lizzy, vai me acompanhar certo?

- Hmm... Parece interessante. Mas como é esse jogo?

- Se chama ‘the bravest hero’. É um jogo online que o objetivo é derrotar vários monstros e criaturas do mal e conseguir fama pra ser tornar o ‘herói mais corajoso’. Incrível não?

- Você queria que eu jogasse uma coisa dessas? – Annie respondeu por mim. – Tenho coisas melhores pra fazer, sem dúvidas!

- Coisas melhores? Fazer as unhas e ver novela? – Len parecia estar irritado.

- Bem, eu jogo com você Len. – Respondi pra não deixar o garoto sem graça. — Hoje à noite começamos.

- Por isso que te adoro Lizzy! Toma o CD de instalação, nem o tirei da mochila porque sabia que você ia querer jogar!

- Obrigada...

- Coitada Lizzy, você irá passar momentos inesquecíveis com ele. – Annie riu.

E assim foi até chegarmos à escola, rindo e discutindo. Esse clima me deixava contente. Mas esse clima logo foi quebrado quando chegamos ao portão da escola.

- Por que será que ta todo mundo da nossa sala no portão do colégio ainda? – perguntou Len.

- Algum professor deve ter faltado. – Respondeu Annie.

Continuamos a nos aproximar do portão do colégio. O nosso professor do primeiro tempo estava bem ali. Então resolvemos ir perguntar o que estava acontecendo a ele. Eu não estava sonhando mais. O que eu ouvi foi bem real e, mais que isso, assustador.

- Seu colega de classe, Danny, faleceu ontem de madrugada.

- Como assim professor? – Perguntou Len com os olhos arregalados.

- Teve parada cardíaca. Tão jovem o garoto. Uma lástima morrer assim.

Mais assustada que eu parecia estar Annie. Sua pele alva ficou em tom de cera. Estava imobilizada. Parece que seus olhos encheram de lagrimas, mas ela estava as segurando. Ela segurou minha mão, e parece que ela queria sair correndo dali, mas sua ação foi interrompida pela voz da diretora:

- Alunos sinto muito pelo falecimento do colega de vocês. Os familiares avisaram que o velório será hoje à tarde. Vocês estão dispensados das aulas hoje.

Eu ainda não acreditava naquilo. Como assim Len morreu? Aquilo não foi só um sonho? Que coincidência terrível. De alguma forma eu me sentia culpada.

- Gente acho que deveríamos ir ao velório do Dan...

Annie não conseguiu se conter mais. Seu rosto já estava coberto de lágrimas. Rapidamente eu e Len a tiramos dali. A levamos até a biblioteca, que nesse horário não havia praticamente ninguém lá, só os funcionários. Ficamos atrás de uma prateleira, bem ao fundo.

- O que está acontecendo Annie? – Perguntei preocupada.

- Eu, eu queria que ele sumisse... e ele... – Annie desabou em lágrimas.

- Pare com isso garota, você não tem culpa disso. Foi apenas uma coincidência, uma trágica coincidência... – Len tentou confortá-la.

- Vocês não conseguem entender. – Annie tentava falar entre um soluço e outro. – Dan gostava de mim. E o que eu fiz esses anos todos foi desprezar ele. E ainda por cima desejei que ele sumisse e é isso que aconteceu. Ele vai ‘sumir’ pra sempre. Me sinto um lixo. Uma pessoa horrível.

Len e eu nos olhamos. Não sabíamos o que dizer. Realmente Annie sempre desprezou o garoto, mas sua morte não tinha nada a ver com isso. Achávamos que só foi uma fatalidade do destino...

- Não fique assim... Vamos ir pra casa ok? – Len se dirigiu a mim – Lizzy ligue pros pais dela vir buscá-la ta bem?

Em poucos minutos os pais de Annie vieram nos buscar. Eles deixaram eu e Len na praça perto da minha casa.

- Lizzy, devemos ir ao velório dele?

- Acho que sim.

- Então mais tarde passo aqui. – Len me abraçou e foi embora.

Quando cheguei em casa minha mãe ainda não estava lá. Tentei ver televisão e entrar na internet, mas nada conseguia prender minha atenção. Deu a hora do almoço, e esquentei minha comida. Não consegui comer nem a metade. Então decidi ir me arrumar e esperar pelo Len. Estava quase cochilando, quando ouço a campainha tocar. Era Len.

Ao chegar ao velório de Dan, nos sentamos nas cadeiras mais ao fundo, onde os nossos colegas de classe estavam. O velório em si não havia muitas pessoas: Os pais deles estavam mais a frente, ambos do lado do caixão. Algumas senhoras de idade também estavam mais a frente. Deviam ser parentes ou ate mesmo vizinhas. Perto de nós tinham dois casais com filhos. E só. Todos pareciam tristes, mas uma tristeza que parecia conformada. Nenhuma lágrima, nenhum lamento. Apenas silêncio.

E o silêncio se rompeu quando uma pessoa entrou ali.

- Ela veio Lizzy! – Len me cutucou.

E lá estava ela. Com um vestido preto e o rosto avermelhado por causa do choro. Annie entrou e veio até nós.

- Eu não me perdoaria se eu o ignorasse mais uma vez. E acho que ele também não...

Seguramos a mão dela. Ela mais uma vez estava segurando as lágrimas. O velório seguiu normalmente, os pais e alguns familiares falaram algumas palavras e por fim o padre fez sua leitura. Já estava anoitecendo quando saímos dali.

Os pais de Annie nos deram carona novamente ate a praça. Quando desci do carro, parece que vi o carro de meu pai descendo a rua. Será que ele resolveu aparecer em casa? Me despedi de Len e fui direto pra casa, queria saber se meu pai estivera lá mesmo. Minha mãe estava na sala, assistindo televisão como de costume.

- Mãe – ela olhou pra mim. – Alguém esteve aqui em casa hoje?

- Não. – Me respondeu e logo se virou novamente para a televisão.

Era esse tipo de conversas que eu tinha com minha mãe: Monossilábicas. Apesar de ela falar que não, eu podia ter certeza que vira o carro do meu pai saindo dessa direção. Mas eu não conseguia pensar mais em nada, meu corpo estava cansado.

Então chegou o momento que eu mais temia e queria escapar: A hora de dormir.