Wrestling & Romance
20 Capítulo 20: América (Parte 2)
A comemoração do título do Orlando Pride é discreta, pelo menos por parte minha, da Nicole e da Lara (que descobrimos que estava nas arquibancadas), já que no dia seguinte iríamos para a Filadélfia para as lutas na Ring of Honor.
Eu fiquei bastante empolgado com o local da luta... A razão? A 2300 Arena (ou The Arena) fora durante anos, uma das casas da Extreme Championship Wrestling e testemunhou muitas coisas nesses anos de existência.
Hoje em dia, ela é um dos palcos da Ring of Honor e da House of Hardcore... E lutar na mesma arena que o Inovador da Violência, Tommy Dreamer já era bom o suficiente pra mim, mesmo eu não sendo lá muito fã das lutas mais extremas (alguns daqueles spots com garfos ou raladores já me faziam virar o rosto de agonia.).
—Como é que tá sendo a vida de vocês nos EUA? — Pergunto pra Lara, afinal, fazia muito tempo que eu não a via.
—Ah, você sabe... O Steve tá treinando feito um condenado no Performance Center e lutando em live events. — Lara responde, dando de ombros. — E eu estou correndo pelos EUA, tentando fazer meu nome no cenário independente. Está sendo difícil, porque tem muito talento hoje em dia, mas é recompensador aprender com lutadoras mais experientes.
—Se você fosse pro México talvez as coisas fossem mais fáceis pra você... — Nicole comenta.
—Duvido... — Lara rebate. — Você tem um talento que nem eu e nem o Diego temos. Você aprende rápido, se adapta rápido e francamente, é um crime que a sua luta pelo título feminino do CMLL não tenha atraído a atenção de tanta gente aqui nos EUA, porque foi incrível.
—Calma com os elogios, Lara, ou a Nicole vai enfiar a cara no travesseiro... — Brinco, rindo.
—Você também, hein Diego... — Lara continua. — Vida boa no México, crescendo bastante aos olhos do pessoal de lá, e até mesmo alguns promotores dos Estados Unidos estão de olho em você.
—Não estou entendendo... — O que era tremendamente verdade, ou talvez o fato de eu estar trabalhando constantemente tenha me impedido de ver quaisquer boatos.
—A palavra se espalhou por aí desde aquela sua vitória contra o Ospreay no ano passado, você sabia que aquela luta rendeu 4,25 estrelas pelo Dave Meltzer? — Lara começa a explicar. — Daí, desde sua chegada ao México, tem alguns caras daqui dos Estados Unidos de olho em você, que como novato, não cobra muito por bookings, agora que está aqui, talvez queiram te tirar da CMLL.
—Não sei se vou sair da CMLL tão cedo assim, talvez pra aparições esporádicas, a não ser que uma Ring of Honor ou mesmo a New Japan que tem parceria com a CMLL me chamarem, mas ainda assim no momento a preferência é para trabalhar no México. — Respondo, decidido.
—Que assim seja, então. — Lara dá de ombros, enquanto sentimos que o avião já está descendo na Filadélfia, vão ser alguns dias de descanso, booking, ensaios e por fim no fim de semana, lutaremos.
Ter alguns dias pra descansar era ótimo, porque... Bem, a vida no México não era só lutar nas sextas, mas haviam lutas quase a semana toda, então antes de me encontrar com o pessoal da Ring of Honor, eu aproveitei pra dormir bastante, e também pra tirar o outro atraso com a Nicole, se é que vocês me entendem.
Sábado, 2300 Arena, Filadélfia, Pensilvânia
A arena estava eletrificada com a luta entre o Ring of Honor Television Champion Matt Riddle, um ex-lutador de MMA que migrou para o Pro Wrestling em 2015 por conta de lesões e vem melhorando cada vez mais, e o CMLL Middleweight Champion, Diego Alves, no caso, eu.
Como ela era uma luta pelo MEU título, ela estava sendo numa melhor de 3, aquele que conseguisse dois pins primeiro, venceria. Eu havia conseguido o primeiro pin, enquanto que Riddle havia conseguido o segundo.
E as coisas estavam meio ruins pro meu lado, já que Riddle havia aplicado um superplex (um german suplex do topo da terceira corda) em mim e estava prestes a fazer o pin.
—Um! — A torcida grita junto.
—Dois! — Eu não posso perder, se eu estragar as coisas aqui.
E antes que o braço do juiz chegue ao três, eu estico minha perna de modo a ficar com o pé na corda, fazendo com que o juiz quebre a contagem.
"Isso é foda! Isso é foda!" A torcida grita, ensandecida, enquanto que frustrado, Riddle soca o chão.
Eu me levanto, assim como Riddle, que está com sangue nos olhos. Vejo ele dizer algo, que pela leitura labial é "É agora".
Ele corre, bate na corda oposta e volta pra mim a toda velocidade, eu pulo por cima dele (o que devido ao meu cansaço é um pouco mais difícil, qualquer erro e eu iria passar na próxima edição do Botchamania) e quando ele bate na outra corda, eu aplico um superkick bem no queixo, e ele cai desacordado.
Com esforço, vou até o córner e subo na terceira corda, respirando fundo. Até então eu usava o 450º Splash invertido, mas ele exigia que o oponente estivesse próximo ao canto do ringue, então eu decidi por um novo finalizador.
Usando o máximo de impulsão das pernas que eu tinha, dou um salto que certamente visto de fora pareceria alto, descendo com meu cotovelo direito na altura do abdômen de Matt Riddle, um perfeito Flying Elbow, reminiscente do lendário Macho Man Randy Savage, já emendando no pin.
—UM! DOIS! TRÊS! — Todos contam junto com o juiz.
—Eis o vencedor, e AINDA, CMLL Middleweight Champion... Diego 'del Viento' Alves! — O anunciador diz, enquanto o juiz me entrega meu cinturão e ao fundo toca Glorious Aggression, do Galneryus.
O público comemora, independente de quem tenha vencido, porque eles testemunharam uma luta excelente, e eu não poderia ter pedido debut melhor na Ring of Honor e na lendária Arena da ECW.
Após voltarmos aos bastidores, recebemos uma salva de palmas de todos ali presentes, e seria falso demais dizer que não as merecemos.
—Bela luta, cara! — Riddle me cumprimenta, com tapinhas nas costas. — Fazia tempo que eu não era tão exigido assim.
—Valeu! — Agradeço, puxando ele pra um abraço rápido. — Foi bom pra mim respirar um pouco do ar fora do ambiente da Lucha Libre. Eu amo lutar lá, mas de vez em quando é bom lutar contra gente de outros estilos.
—A gente pode resolver isso, se você quiser. — Escuto uma voz, e olhando na direção, vejo que veio do chefão da Ring of Honor. — Mas, creio que se formos conversar, terei de esperar um pouco porque um certo alguém vai lutar agora, não?
Assinto, positivamente, porque ele se referia a luta da Nicole que seria logo depois da minha. Coloco a minha jaqueta e vou assistir a luta, do melhor lugar possível, na primeira fila.
—O combate a seguir é válido pelo CMLL Women's Championship e será decidido em apenas uma queda. — O Anunciante começa. — Introduzindo a desafiante, vinda do Rio de Janeiro... Lara... Lima!
Fazia muito tempo que eu não via uma luta da Lara (basicamente, desde que deixamos o Canadá, no começo de 2018), então seria interessante ver a evolução dela nesses quase dois anos.
A entrada de Lara mudou, agora ela entra ao som de "The Awakening", do Onlap e toda a movimentação dela é mais acrobática por assim dizer, começando com um backflip (mortal de costas) assim que entra na vista do pessoal, dando uma corrida ritmada até o ringue, subindo os degraus de ferro e indo até a terceira corda, de lá, saltando em um frontflip (salto mortal pra frente), emendando com uma rolada e ao se levantar, ergue os braços.
Apesar da disputa eterna que há entre a popularidade das lutadoras, Lara já é queridinha do público da Ring of Honor.
—E em seguida, vinda do Rio de Janeiro, temos a CMLL Women's Champion... — O Anunciador diz, enquanto os acordes de "This ain't the end of me" do White Comic tocam. — Nicole Almeida!
Nicole desce a rampa cumprimentando o público, tanto de um lado quanto do outro, até que sobe na terceira corda de um dos postes e dá um tchau pro público, antes de entrar de vez no ringue.
—Essa é a primeira vez que as duas vão estar em lados opostos em uma luta. — O narrador diz, enquanto Nicole entrega o cinturão pro juiz. — Elas treinaram na Storm Wrestling Academy em 2017, mas enquanto Lara veio pros Estados Unidos, Nicole foi lutar na Inglaterra e por algumas vezes, as duas lutaram juntas na Shimmer.
O juiz ordena que o gongo toque e a luta começa. As duas se encaram por alguns segundos, até que correm pras cordas opostas e voltam, Lara abaixa um pouco a cabeça e Nicole salta por cima dela, abrindo as pernas.
Enquanto Lara bate na corda oposta, Nicole se vira e vai na direção dela, aplicando um Dropkick, mas Lara havia segurado na terceira corda e Nicole cai de costas no chão. Lara dá uns quatro passos na direção de Nicole, vira de costas e corre até as cordas, saltando na segunda e pegando impulso para um mortal de costas, um Lionsault que seria certeiro, se Nicole não tivesse rolado pro lado e evitado que o golpe a acertasse, com Lara atingindo em cheio o ringue.
Nicole aproveita, se levanta e desce com o cotovelo nas costas de Lara, e em seguida vai até as cordas e passa pro lado de fora, segurando na terceira corda.
—VAMOS! LEVANTE! — Nicole grita, em português mesmo e Lara se levanta, um pouco tonta... Será que a Nicole estaria preparando um Aerial Claw logo no começo?
Nicole salta na terceira corda e a usa como um trampolim, saltando na direção de Lara, pronta pra acertar um golpe com o antebraço, porém Lara recua três passos e Nicole meio que perde um pouco o equilíbrio ao chegar no solo, fato que Lara usa como vantagem pra dar um chute no estômago de Nicole e aplicar um DDT, derrubando-a no chão.
Nisso, Lara já cai pro pin, assim como o juiz, só que Nicole se levanta no um mesmo, não dando muito tempo. As duas se levantam e ficam se encarando por pelo menos meio minuto, até que Lara dá um tapa no rosto de Nicole. Mas não foi qualquer tapa, foi um tapa tão forte que provocou um "Ooooh", na torcida e até eu mesmo senti a dor do tapa.
Nicole encara Lara com um sorriso maníaco que eu nunca tinha visto, e que faz expressão de Lara vacilar, Nicole aproveita essa vacilada pra acertar alguns golpes com o antebraço em Lara, avançando, até que quando perto das cortas, ela joga a mesma pra fora do ringue.
Lara se levanta, ainda tonta, uns três segundos depois, Nicole corre pra corda oposta e volta, mergulhando em cima de Lara, a derrubando novamente e caindo em cima dela. O público reage ruidosamente.
Nicole, ainda montada em Lara, começa a dar socos nela, e o juiz começa a fazer a contagem pro fim da luta por contagem. No 3, Lara segura a mão de Nicole, dando uma cabeçada nela.
Lara consegue se levantar e começa a reagir, jogando Nicole na direção dos degraus de metal, para logo em seguida voltar ao ringue e recuperar o fôlego.
Nicole se levanta, e sobe ao ringue também, para continuar a luta. A luta continua com diversos spots e finais falsos, sendo, sem querer puxar o saco, muito melhor que a minha luta.
Já estamos perto da marca de meia hora e as duas não mostram sinais de esgotamento, a plateia estava em um frenesi e nem era o evento principal da noite. Eu estava sinceramente com pena das lutas restantes do card porque eles teriam que dar duro pra manter o nível.
Em um momento, Lara corre até as cordas e tenta novamente fazer um Lionsault, com Nicole ainda de pé, só que Nicole a segura no ar. Ela poderia aplicar um piledriver ali, a posição era perfeita, só que não era isso que Nicole tinha em mente, já que ela começa a erguer o corpo de Lara. Não apenas erguer, mas jogar Lara por cima da cabeça em um Suplex toss (suplex com arremesso).
Logo em seguida, Nicole vai pras cordas, enquanto Lara se levanta. Nicole salta na terceira corda e a usa como um trampolim, saltando na direção de Lara e aplicando um golpe com o antebraço. E dessa vez acertou em cheio o rosto de Lara, que cai no ringue, e Nicole cai para o pin.
—Um! — O público grita, enquanto sinto uma pontada de inveja porque a luta fora melhor que a minha.
—Dois! — Sinto que Lara e Nicole estão muitíssimo orgulhosas da performance de hoje, é a primeira vez que lutam uma contra outra, desde os treinamentos na SWA.
—Três! — O público vem abaixo.
—Eis a vencedora, e AINDA CMLL Women's Champion... Nicole Almeida! — O anunciador diz, enquanto o juiz entrega o cinturão a Nicole.
Lara se levanta aos poucos e Nicole vai até ela e ergue o braço de Lara, e o público reage positivamente ao espírito esportivo, até que Lara dá uma joelhada no estômago de Nicole e o público reage com um "Ooooh", eu incluso.
Depois, Lara a arremessa de modo que Nicole caia atordoada, com o corpo apoiado na segunda corda.
Era a preparação para um outro golpe, no que Lara corre até a corda oposta, volta até a corda onde Nicole está caída, e segurando a segunda e terceira cordas, passa por entre elas com o corpo de lado e dá um chute com os dois pés no corpo de Nicole, que cai de costas no ringue. Lara fica de pé, com as mãos na terceira corda, preparada pra usá-la como um trampolim, saltando e aplicando um Frog Splash, batendo as palmas das mãos nos joelhos flexionados, depois abrindo o corpo, caindo sobre o peitoral do Nicole.
Em seguida, enquanto o público vaia, Lara pega o cinturão de Nicole, que estava caído no chão, o ergue e o joga em cima dela, que está imóvel. Nisso, ela vai embora do ringue.
Eu retorno para o backstage alguns minutos depois, durante o co-main event que era uma luta pelo título de duplas da Ring of Honor, e lá Nicole e Lara estão cansadas, suadas, mas pela expressão nas duas, extremamente felizes.
—Eu não esperava esse final. — Comento, abraçando Lara e em seguida dando um beijo em Nicole.
—Uma coisinha que o Paco e o pessoal da Ring of Honor discutiu. — Nicole comenta, antes de tomar um gole de água. — Aparentemente eles querem que eu comece uma rivalidade com a Lara aqui em cima, e estão pensando em trazer a Lara pro México pra trabalharmos lá um tempo também.
—E precisavam de uma heel, então, quando me fizeram a oferta de ter que atacar a Nicole após a luta, nem pensei duas vezes. Sempre quis bater nesse rostinho lindo. — Lara brinca, enquanto Nicole dá um tapa no ombro dela e todos rimos.
E assim foi meu fim de 2019 e 2020 em geral, já que cheguei a um acordo onde lutaria na Ring of Honor e CMLL exclusivamente, me revezando entre o México e Estados Unidos, e isso me deu também a chance de trabalhar com alguns dos mais notórios nomes da cena independente Norte Americana e até mesmo logo no comecinho de 2020 lutar pelo Ring of Honor World Television Championship, num dos locais que sempre associei a Wrestling de qualidade, no caso o Wrestle Kingdom 14 em Tóquio.
Foi uma experiência fascinante, mas isso só acrescentou mais tempo de viagens, já que era sempre o triângulo México, Estados Unidos e Japão, pois tanto a Ring of Honor, quanto a CMLL tinham parcerias com a New Japan Pro Wrestling, então tive a oportunidade de lutar com os melhores do Japão também, em eventos como a Fantasticamania, da CMLL, o New Year Dash e o Sakura Genesis da New Japan.
No geral, 2020 foi um ano onde eu não parei em um lugar, sempre viajando do México pros Estados Unidos, e lá foi onde meu futuro foi definido, quando em setembro daquele ano, eu finalmente perdi meu Middleweight Championship, mas eu não vi isso como um problema, pois meu oponente era um jovem promissor e eu estava praticamente de saída do CMLL, já que na semana anterior ao Aniversário da CMLL, eu havia começado as negociações para ir de vez para a New Japan Pro Wrestling.
E paralelamente a isso, a Nicole também havia perdido o título dela, na verdade teve de abdicar do mesmo por conta de uma lesão no tornozelo... E nesse interim da lesão, Nicole assinou contrato com a World of Stardom, a maior empresa de luta livre feminina do mundo.
A nossa despedida dos mexicanos foi algo realmente de levar as lágrimas, pois tanto eu, quanto a Nicole éramos muito gratos ao Paco e todos lá, dos luchadores a equipe de produção e o público, que nos acolheu durante esses dois anos que moramos num hotel próximo a Arena México.
Mas agora era hora de ir pro Japão, e viver lá... Quem sabe meu sonho de chegar na WWE não seria alcançado através de uma empresa que tem o alcance global como é a New Japan Pro Wrestling?
O que eu não sabia, é que levaria bastante tempo pra isso acontecer...
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