Wrestling & Romance

5 Capítulo 5: Até o Fim


Seis e vinte da manhã e meu celular despertara. Claro, eu coloquei o mais silencioso possível, pois eu dividia o quarto com Lara e Nicole e não queria que nenhuma delas acordasse, incomodada com minha idiotice de seguir uma rotina de treinos, mesmo em férias.

Sento no alto do beliche e esfrego os olhos, respirando fundo logo depois. Vejo as mochilas de Lara e Nicole em um canto, assim como a minha, mas olhando pra uma das camas, ela está vazia e descendo o beliche suavemente, vejo que Nicole ainda dorme.

Paro por um minuto e fico observando Nicole durante o sono, pensando no que poderá acontecer se eu conseguir a vaga para a SWA e tiver que deixar tudo pra trás. Isso também incluiria deixar a Nicole para trás, e meu coração doía só de pensar nessa possibilidade. Naquele momento, penso seriamente em desistir de tudo pra continuar ao lado dela, ajudá-la a descobrir o que quer fazer e quem sabe conquistar o amor dela.

Porém eu vim para cá pra esquecer dos problemas e não acumular mais um, então saio de casa com todo cuidado, claro, trocando de roupa e colocando um calção mais adequado para a praia, além de uma camisa sem mangas. A temperatura do lado de fora era bem amena, com uma neblina matinal bem fresca. Caminhando até a praia, vejo algumas pessoas saindo para trabalhar, e jovens claramente alterados por causa da bebida... Tem gente que não tem data pra beber, mas bem... Pela idade parecem ter entrado de férias da faculdade, então não os julgaria por ter saído pra desestressar numa garrafa.

Quando chego na área da praia que fica em frente ao fim da rua onde estamos hospedados, vejo ao longe uma figura familiar correndo e dando dropkicks no nada. Com os cabelos soltos, faixas protetoras ao redor do peito e abdome, Lara corre e salta, jogando o corpo para trás e esticando os pés para frente, aplicando um dropkick. Por sorte a areia fofa da praia evitava qualquer dano ao corpo da própria.

—Ei, Lara! — Grito para ela, chamando a atenção da mesma – Isso aí não é nada prático e se você cair de mal jeito, vai ferrar com as costas!

—E aí, Diego! — Ela corre até a mim com um sorriso. Eu nunca tinha reparado tanto em como a pele levemente morena, o cabelo ruivo natural (não essa desgraça tingida que eu uso) e o corpo esguio de Lara a tornavam muito atraente. Afinal de contas, sempre deixei claro que era a fim da Nicole. — Beleza?

—Agora tá... Acordou cedo? — Me arrependo da pergunta óbvia assim que ela sai da minha boca.

—Não, eu ainda tô dormindo – Lara começa a rir – Como não poderei ir a academia da FILL essa semana, decidi fazer algo por conta própria.

—Dropkicks no vento não te ajudam nisso.

—Eu sei, mas isso me ajuda a achar a maneira mais segura de cair quando o adversário desvia do golpe.

—Entendo... Olha, eu não esperava encontrar você aqui, sério... Mas eu poderia me juntar ao treino?

—Claro, pelo menos assim vou ter em quem bater nessa manhã.

Desde o começo de meus treinos, Lara foi minha parceira, na época em que eu praticava numa cama elástica na casa de minha finada avó. Nós praticávamos golpes que víamos nos shows da WWE, claro que sem a menor habilidade, como qualquer criança. E graças a ela, consegui algumas lutas quando fui pegando a prática, lá na FILL, o que me levou em retrospecto, até a final do torneio dos Rookies nesse ano de 2016 na Brazilian Wrestling Federation. Esse lado meu do fã de wrestling será sempre grato a Lara, que me colocou no caminho certo.

Nós começamos com os Dropkicks, com Lara correndo até mim, saltando, jogando o corpo pra trás e esticando os pés, acertando meu peitoral e me empurrando pra trás. Claro, para cair eu tenho que abrir pernas e braços e aproximar o queixo do meu peitoral.

Repetimos esse exercício algumas vezes, antes de passarmos a praticar em momentos alternados, arm drags (movimento imprescindível quando o oponente volta das cordas), superkicks (o segredo do impacto de um superkick é bater na perna oposta, o tapa ajuda a passar a impressão da força do chute) e spears, ainda que alguns não façam parte dos nossos repertórios, eles ajudavam na parte da venda dos golpes, ou seja, fazer parecer com que o golpe teve mais impacto do que realmente ocorreu.

Após isso, fazemos alguns exercícios regulares, antes de descansarmos na areia da praia. Como o sol não estava forte, podiamos ficar um pouco lá sem voltarmos para casa sem parecermos camarões fritos.

—E então, Lara... O que te aguarda nos shows da FILL? — Pergunto, casualmente porque obviamente como ela estava aqui conosco, não participaria do show desta semana.

—Na quinta-feira da semana que vem tem o "Caos antes do Natal" — Lara responde – E se você tivesse visto o show da semana passada saberia que eu ganhei o combate de escadas pelo contrato da luta no evento da próxima semana. E como eu viria para cá hoje, na história, eu fui atacada pelas outras duas concorrentes que me 'contundiram' a ponto de eu voltar só no combate.

—Verdade, mancada minha... E você já sabe o resultado?

—Ainda não, a reunião com a Marina, a Amanda e os escritores será semana que vem, na terça-feira, porém eu e as meninas temos discutindo alguns spots via Whatsapp, independente de quem for vencer. Porque sabe como é, pra uma luta entre três pessoas dar certo, é preciso que as três pessoas trabalhem em conjunto e...

—Pra uma luta dar errado, basta que uma estrague tudo. — Completo, lembrando de um dos principais mandamentos do pro wrestling, assim como o "Faça sempre seu oponente parecer melhor do que ele é". — Mas enfim, boa sorte... Ou melhor dizendo, que os escritores te ajudem.

—Bobo... — Ela dá uma risada e um tapa em meu ombro – Você realmente não quer tentar fazer um teste pra FILL?

—Lara, você já tentou isso inúmeras vezes e sabe qual a minha resposta, não é? — Minha voz tem um leve toque de impaciência – Não acho que eu ainda esteja preparado pro ritmo da FILL, ainda lembro do que foi a turnê da BWF no fim do ano passado e a correria que foi a Copa dos Rookies lá em São Paulo... Enfim... Vamos voltar pra casa?

Na dúvida, mude de assunto. E a verdade é que a FILL era um plano B, caso a inscrição para a Storm Wrestling Academy falhasse, mas isso eu manteria comigo até o último momento.

—Acho que o treino já rendeu o suficiente... — Lara retira o celular do bolso – Caramba, já são quase oito da manhã?

Nós colocamos nossas roupas casuais e caminhamos de volta, percebendo que as ruas já estavam um pouco mais movimentadas, pessoas indo trabalhar, alguns já fazendo seus afazeres em quiosques, e alguns ônibus circulando pela orla. Chegando em casa, vemos já de longe um taxi parado em frente a mesma, e Nicole, Brenda e Beatriz tirando as compras do porta malas e levando pra dentro.

—Parece que as meninas terminaram as compras – Lara comenta, se espreguiçando e bocejando.

—Que horas você acordou, Lara? — Pergunto, o estômago começando a roncar.

—Por volta das cinco e quarenta da manhã... Vamos ajudar as meninas!

Nós ajudamos nossas amigas a levar as compras para dentro de casa, e como não era tanta coisa assim (compras para apenas uma semana), não demorou muito até descarregarmos tudo. Lá dentro, Beatriz se dirige a mim.

—Olha, foi mal, mas usamos seu cartão para pagar o Taxi também – Ela se desculpa, um tanto sem jeito – A gente fez umas contas baseadas no que a gente come, com a dieta de vocês, e foi um pouco mais do que planejávamos e daria pra trazer sem complicações.

—Deixa pra lá, isso não é importante – Dou de ombros – Ei, Lara, vai tirar a sujeira do corpo primeiro?

—Achei que você fôsse fazer isso – Lara franze um pouco a testa

—Nah, era você quem tava pulando feito uma doida antes de eu chegar na praia – Aceno com as mãos, simbolizando um 'deixa pra lá'.

—Você quem sabe... — Lara ri, antes de entrar no banheiro.

—O que vocês estavam fazendo na praia juntos? — Beatriz pergunta, com certa malícia.

—Saliência... — Respondo, com a cara mais cínica do mundo, sem me alterar.

—Ah, você não é engraçado – Ela faz uma cara de enfado por eu não ter caído na provocação

Escuto um barulho de liquedificador ligado vindo da cozinha e me dirijo para lá, o estômago travando uma luta contra a falta de comida. Vejo Nicole colocando óleo e alguns temperos na frigideira, colocando alguns ovos nela. E enquanto ela fazia isso, cantarolava alguma musica com hum hun huns.

—Dia, Nicole... De bom humor? — A cumprimento, bagunçando o cabelo dela.

—Bem, o ano letivo acabou – Ela responde, animada – Vamos ter essa semana pra relaxar e fazer nada...

—Mas eu não acordei com um humor assim....

—Claro, porque você é um idiota que mesmo de férias, vive com a cabeça cheia de coisas e segredinhos e X e Y.

—TÁ, eu já entendi que preciso relaxar... — Dou o braço a torcer e começo a rir.

—Agora dá licença que tô fritando esses ovos e fazendo o suco... É melhor você ir tirar essa sujeira do corpo antes do café da manhã.

—Eu sei, só falta a Lara sair do banho, estávamos treinando na praia.

—Vocês não estavam fazendo outras coisas a essa hora na praia? — Ela pergunta, com um tom brincalhão

—Sério que todo mundo hoje resolveu fazer uma insinuação de que eu e Lara temos um caso secreto? Porque esse caso seria tão secreto que NEM A GENTE sabe dele.

—Ah, já fizeram a piada? — O tom de Nicole é decepcionado

—Assim que a gente entrou em casa e a Lara foi tomar banho... Enfim, vou saindo que a Lara já deve estar terminando o banho.

—Tá, e eu não quero queimar os ovos aqui.

Saio da cozinha sem sequer perguntar o que diabos a Nicole estava batendo no liquidificador e vejo na sala, com uma toalha nos ombros e o cabelo molhado, Lara. E admito que o biquini dela ali, me deixou um pouco vermelho (espero que ninguém tenha visto), então para evitar qualquer outra coisa, decido ir diretamente ao banheiro.

—Acho que alguém está com problemas intestinais – Ouço Lara me zoar, enquanto fecho a porta.

Lá no banheiro, tiro minhas roupas e entro no chuveiro, deixando a água gelada descer pelo meu corpo, pensando em muitas coisas.

Eu conhecia Lara há tanto tempo, mas nunca havia parado para pensar nela como uma garota, porque a gente sempre teve essa obsessão pela luta livre e agora, vendo ela ali... Eu não deveria me sentir atraído por ela, diabos, eu sou apaixonado pela Nicole desde que a conheci!

Mas, enfim... É melhor eu deixar esse tipo de coisa pra lá ou eu vou ter MAIS UMA dor de cabeça pra me preocupar em uma semana, que como a Nicole disse bem, eu deveria relaxar! Então, após tirar a sujeira do corpo, saio do chuveiro e coloco novamente minhas roupas, voltando a sala de casa.

Pela hora, Erick ainda dormia, então enquanto Nicole terminava de preparar o café da manhã, eu, Lara, Beatriz e Brenda arrumamos a casa, varrendo quaisquer vestígios de areia, preparando a mesa e qualquer outra coisa assim. Hora da confissão... Eu não fiz muito, já que meus amigos sabem que eu sou uma NEGAÇÃO com serviços domésticos, e pra quem consegue fazer malabarismos em um ringue de pro wrestling, é vergonhoso tropeçar em uma vassoura ENQUANTO SE VARRE.

Por sorte em casa eu tento fazer a menor bagunça possível e graças a Deus existem coisas como máquina de lavar roupas e lava louças. Mas, deixando de lado minha inaptidão doméstica, alguns minutos depois, Nicole saía da cozinha trazendo uma jarra de suco, que pela cor eu chutaria que é maçã, e pouco tempo depois, com uma panela contendo os ovos fritos.

—E lá se vai minha dieta... — Comento, fazendo meus amigos rirem.

Atraído pelo cheiro de comida, Erick sai do quarto esfregando os olhos e bocejando.

—Bom dia... — Ele se arrasta até a mesa.

—Ao menos dessa vez ele veio sozinho – Beatriz comenta, nos lembrando sutilmente da preguiça de seu irmão em fins de semana.

—Pois é, se lembro... — Brenda conclui – E o traste fica uma fera quando não tem comida, e sempre precisamos chamar ele.

—Eu responderia essa provocação se não estivesse tão cansado – Erick parte um pão entre um bocejo e outro e coloca ovos mexidos nele.

Bom, não havia como errar com suco de maçã e ovos mexidos para o café da manhã. E conhecendo a Nicole, tenho a impressão de que ela não temperou os ovos com sal, mas alguma outra coisa, como condimentos e cebola picada.

Após alguns minutos em que tudo o que se ouvia era mastigação, terminamos nosso café da manhã. E Erick parecia ter finalmente acordado, graças ao estômago forrado.

—Que beleza de café da manhã! — Ele se levanta e se espreguiça – Que tal irmos pra praia?

—É uma boa ideia... Ao menos pra essa manhã – Brenda comenta – Se bem que a cidade não tem tanta coisa assim pra fazer.

—Então, vamos nos trocar? — Sugiro, indo até meu quarto pra pegar uma bermuda melhor que a que uso (como se tivesse alguma diferença realmente nas minhas bermudas... São todas básicas e unicolores), além de uma camiseta sem mangas.

Junto comigo veio Erick, que pegara rapidamente algumas roupas em seu quarto porque as meninas iriam se trocar lá... Aliás a Lara já estava pronta, mas a Nicole passou no nosso quarto pra pegar algumas roupas e ir se trocar com as outras.

Eu e Erick retornamos em pouco tempo para a sala, e juntamente com Lara, que já estava pronta, aguardamos por Beatriz, Brenda e Nicole que ainda escolhiam biquinis.

—Olha, eu não sei a opinião de vocês – Erick começa – Mas deve ser extremamente difícil para a Nicole ir escolher biquinis... — Eu e Lara erguemos uma sobrancelha pra ele, como se o incitando a continuar – Sabe, com aqueles... O tamanho... Sabem do que falo? Enfim...

—Não, Erick, do que você está falando? — Uma voz é ouvida atrás dele

—Você sabe, Nicole, a Nicole tem uma comissão de frente um tanto quanto avantajada pra uma garota que completou dezoito anos esse AAAAAAI! — O raciocínio de Erick é interrompido por um tapão na nuca que a Nicole acerta nele.

Entre o susto de Erick e a minha vontade de rir, não deixo de notar o quão bonito era o corpo de Nicole, ainda que ela não faça o tipo mulher fatal, suas curvas eram belas e aquele biquini verde, apesar de não ser chamativo, acentuava bem os atributos dela. Só que eu tinha medo, porque apesar da beleza de Nicole ter me atraído a princípio, foi a personalidade doce dela que fez com que eu tivesse me apaixonado por ela, e eu tinha medo de tentar algo e estragar a amizade que construímos ao longo desses quase três anos que nos conhecemos.

E tem o fato de que hora ou outra alguém vai surgir na vida dela e ela vai se apaixonar por essa pessoa e...

—Terra para Diego, Terra para Diego! — A voz de Nicole me tira de meus devaneios – Cara, você está com febre?

—Hein? — Eu sou pego desprevinido, e não sei o que dizer

—Diego, eu estava te avisando que eu e as meninas já estamos prontas... Sério, cê tá com febre?

—Felizmente não, eu só estava distraído com qualquer coisa...

—Ótimo, agora já podemos ir, não? — Erick diz, ainda esfregando a nuca.

Sinceramente eu preciso me distrair menos quando estou perto da Nicole, ou ela vai pensar que estou tendo devaneios perto dela e vai achar que eu sou um pervertido feito o Erick... Não que eu não tenha meu lado tarado, mas esse só aparece naquelas noites mais solitárias nas quais visito sites adultos...

O que foi? Como se você nunca tivesse se masturbado, mas enfim, nós seis saímos de casa e dez minutos depois, estamos na praia, ainda um pouco vazia, já que faz pouco tempo que deu nove da manhã.

—Bem... — Eu tiro minha camisa e jogo ao lado de meus amigos – Um mergulho me espera!

Eu simplesmente corro até a água e dou um mergulho. E pra mim, essa sensação do primeiro mergulho nunca muda, e por sorte a temperatura da água estava amena. Porque tem vezes, que quando vamos a praia, a água está gelada e nosso corpo precisa se acostumar ao choque térmico.

Após esse mergulho súbito, assim que chego na areia, Nicole me recebe rindo.

—Acho que alguém estava empolgado na água, não? — Típica Nicole.

—Eu definitivamente sentia saudade dessa sensação de mergulhar – Respondo, com um sorriso – Não sou um cara de ir muito a praia, mas quando vou, adoro sempre dar um mergulho desses... Claro que a cada dez vezes que faço isso, em pelo menos oito eu sinto a porcaria do choque térmico, mas é um pequeno preço a se pagar.

—Deu pra perceber isso, até deu vontade de ir te acompanhar na água, mas não queria estragar esse seu momento.

—Eu não me incomodaria com isso... Além do mais, a água tá ótima.

—Sério? — Nicole abre um sorriso de criança e corre até a água para mergulhar. E eu gosto bastante desse lado ingênuo dela, que me faz querer protegê-la (que ela não ouça isso, pois ela me chamaria de idiota).

—As vezes a Nicole se comporta feito criança, não? — Erick se aproxima de mim, sentando ao meu lado na areia enquanto as ondas tocam nossos pés.

—Falou o cara que desenhou um monóculo e um bigode em mim quando eu tava dormindo na viagem pra Angra dos Reis no final de 2014...

—Não é necessariamente desse tipo de criancisse que eu falo

—Então explique... — Beatriz pede ao irmão, enquanto se senta ao nosso lado.

—Bem, quando estamos na escola, ou nas vezes em que saímos juntos, a Nicole tá sempre séria, e calada. Sim, ela é um pouco tímida, mas ela é bastante séria – Erick começa, falando com seriedade – Mas, em alguns momentos, principalmente quando ela tá com o Diego, ou nos momentos que estamos mais descontraídos, ela se torna uma pessoa mais aberta, alegre e chegando a ser um pouco infantil.

—Creio eu, que é porque ela tem uma pressão em casa para conseguir as melhores notas – Lara opina — Tipo, sei que os pais dela dão suporte pra tudo o que ela venha fazer, mas em troca cobram resultados na escola. E quando ela precisa colocar essa pressão pra fora, bem, vemos o lado infantil da Nicole.

—Verdade... — Afirmo com a cabeça – Inclusive eu gosto desse lado mais criança dela.

—Peraí... — Brenda se levanta, como se tivesse uma revelação repentina – Você tá assumindo que é um lolicon?

—Er... — Eu ergo uma sobrancelha – Se eu fosse um lolicon, eu estaria dando em cima de você, já que mesmo sendo um ano mais nova que eu, não há muita diferença entre seus peitos e uma tábua de cortar carne.

Aparentemente, eu toquei num nervo porque a Brenda começou a ficar vermelha, e a Beatriz começou a rir dela descontroladamente.

—E o pateta alado arrasa com a sabichona! — Beatriz caçoa (inclusive de mim, mas não sei de onde ela tirou o pateta alado) – Ele te arrasou, Brenda.

—Ah, cala a boca! Vou pra água! — Brenda corre, vermelha feito um pimentão.

—E o placar mostra agora... Brenda 35 x 1 Diego! — Erick declama, como um poeta.

—Bem, alguma eu tinha que ganhar, né? — Dou uma risada boba

—Isso é verdade... — Lara diz, se levantando – Enfim, vou pra água também.

—E eu não vou ficar nesse sol! — Beatriz segue Lara.

—Cara, se quiser pode ir pra água – Eu me levanto – Vou dar uma volta na praia sozinho, caminhar.

—Falou! — Erick acena pra mim, antes de ir dar um mergulho

Eu realmente estava com vontade de ir caminhar sozinho, então me dirijo a outro ponto da praia, onde tinha algumas palmeiras e um pouco mais de sombra. A visão do mar me acalma enquanto caminho, tenho tempo de pensar nas coisas que já aconteceram desde que vim pra cá.

Tá, não foi lá muita coisa, mas o pouco que conversei com meus amigos, me fez pensar em rever algumas das minhas prioridades. Aquele estágio havia tomado muito do meu tempo, e apesar de eu ter conseguido fazer uma boa grana nele, eu tive que sacrificar muito do meu tempo livre.

E esse tempo livre não voltaria, sem contar que meus amigos pagaram o preço por isso. Sem contar que eu aguardava a resposta do Lance, e por isso eu precisava aproveitar o tempo com meus amigos, já que ele podia estar perto do fim.

—Diegoooooooo! — Ouço a voz de Nicole ao longe, e a vejo se aproximando de mim.

Ela chega com dois picoles na mão, com embalagem transparente e pela cor, eram de morango.

—Ainda bem que te achei rápido, senão seu picolé derreteria – Ela me entrega um dos picolés.

—Valeu pela consideração – Agradeço, abrindo a embalagem.

—Nah, não tem de quê... — Ela dá de ombros, enquanto chupa seu picolé. Aliás, comprar um picolé sempre que for a praia é quase uma lei. Dependendo do fabricante, você pode se surpreender. — Aliás, Diego, você parecia pensativo... Algum problema?

—Você percebeu? — Pergunto, enquanto chupo o meu picolé – Eu só tava pensando nas más escolhas que fiz esse ano. Sei que você disse que não tava chateada comigo...

—E não estou...

—Mas ainda me sinto mal por ter deixado vocês na mão.

—Você não deveria...

—Ah, droga... Tô fazendo isso de novo – Baixo a cabeça, meio furioso comigo mesmo e meio envergonhado

—Fazendo o quê?

—Colocando as minhas preocupações como prioridade e esquecendo de aproveitar essa linda manhã de sol com meus amigos.

—Então que tal mergulharmos depois desse picolé?

—Ótimo, melhor ficarmos por aqui que é mais vazio...

Nicole assente com a cabeça e tomamos nosso picole... Caramba, como eu tinha saudade de um bom picolé sem precisar me preocupar com dietas. Após terminar os picolés, jogamos as embalagens na lixeira. Eu me levanto e me espreguiço.

—Sabe de uma coisa, Nicole? — Pergunto, me dirigindo a água.

—Sim?

—Você fica LINDA com esse biquini!

Começo a correr em direção a água e olhando para trás, vejo Nicole ficar vermelha. Só que olhar pra trás enquanto corria DEFINITIVAMENTE não era uma boa decisão, já que tropecei nas minhas próprias pernas e caí de cara na água. Meu tombo foi o suficiente pra tirar o rubor do rosto dela. E como toda ação gera uma reação, a reação de Nicole a meu mergulho involuntário na água foi cair na risada.

—Pffft... Hahahahaha! Bem feito! — Nicole zomba de mim, se escangalhando de rir.

—Ei, não teve graça... — Retruco, evitando rir com Nicole.

—Teve gra... Teve graça sim... Hahahahaha!

—Ah é?

Eu corro até a areia e puxo Nicole pra dentro da água, pra logo em seguida jogarmos água um no outro, como crianças de dez anos. Se havia rolado algum clima ali, ele havia desaparecido naquele instante.

Algum tempo se passa, até que cansados, nos sentamos pra descansar na sombra de uma palmeira. Eu e Nicole estávamos lado a lado, em um silêncio que era bastante confortável, fazia muito tempo que eu não tinha um momento assim.

—Ei, Nicole...

—O que foi?

—Sabe... São momentos como esse, assim... Que eu gostaria de guardar pra sempre no meu bolso – Suspiro fiundo – A gente está sempre correndo, estudando, treinando, trabalhando, e nunca para pra curtir os amigos sem preocupação alguma.

—Isso é verdade, mas você poderia ter saído mais conosco...

—Eu sei, Nicole... Mas pense um pouco, quando você saía com o pessoal, fora o momento ali, o que se passava na sua cabeça?

—Caramba, agora você me pegou desprevinida... — Nicole coça a cabeça, pensativa – Acho que eu pensava nas notas do colégio, futuras provas e se quero MESMO fazer alguma faculdade.

—Certo... E no que você está pensando agora?

—Nada... Bem...Quase nada. Que tal antes de voltarmos para onde o pessoal está, darmos um último mergulho?

—Fechado!

Nós dois corremos até a água e mergulhamos uma última vez, porém quando Nicole começa a andar de volta na direção onde nossos amigos se encontram, eu seguro o braço dela.

—Peraí, Nicole... Antes de voltarmos de verdade... Bem... Eu queria falar algo com você,

—Como assim? — Nicole fica meio surpresa.

—Como é que eu posso dizer... Bem, eu sei que você ainda tá naquela fase de procurar o que fazer da vida, não é? — Ela afirma com a cabeça – Então, que tal fazermos uma promessa aqui, e agora?

—Promessa? — Nicole está mais confusa ainda.

—Sim, vamos aqui, em nome da nossa amizade, prometer lutar até o fim para fazermos nossos sonhos virarem realidade. Mesmo através das dificuldades, ir até o fim, para não nos arrependermos! Não com palavras, simplesmente falar eu prometo, mas fazer o juramento do mindinho.

—Ah... — A compreensão passa pelo rosto de Nicole, apesar de um pouco confusa. — Vamos fazer o juramento normal, de que quem não cumprir corta o mindinho ou...

—Não, sem cortar o dedo... Acho que esse tipo de coisa dói.

—Ufa... Então... — Ela abre um sorriso – Tudo bem!

Nós dois fechamos a mão direita, enlaçamos nossos dedos mindinhos e cantamos ao mesmo tempo:

Yubikiri genma (Juramento do dedinho feito,)

Uso tsuitara (quem quebrar essa promessa,)

Hari senbon nomasu (terá que engolir mil agulhas,)

chikai no chu (está selado com um beijo)

Ok, essa última parte nós tiramos de Hunter x Hunter, porque cortar o mindinho por uma promessa não cumprida é hardcore demais. E no momento do "beijo", nós tocamos nossos polegares, simbolizando o selamento da promessa.

—Agora está feito... — Sorrio, sentindo-me mais leve.

—Mas e se eu não encontrar o que quiser fazer? — Nicole volta a perguntar, um antigo fantasma que ainda a assombra.

—Acredite... Você vai Nicole... Eu acredito em você! — Sorrio novamente, mostrando confiança

—Por agora, vou acreditar na sua confiança – Nicole sorri, enquanto juntos, nós corremos de volta para onde nossos amigos estão.

Acho que naquele momento ali, o fato de a Nicole ter algo em que acredita, já é um passo para ela deixar para trás essa falta de perspectiva e descobrir o que gostaria de fazer. E isso para mim, valia muito... Só espero que nós dois consigamos cumprir nossa promessa.