Notas iniciais
Mais um conto pessoal. Apesar de achar que não tenho talento, continuo tentando, por teimosia. Um conto diferente dessa vez, nada de romance nele. Na realidade, é o que menos tem. Espero que gostem :)

A pressa é inimiga da perfeição. Estava começando a duvidar disso. Se não agisse rápido, acabaria com aquilo eu mesmo, sozinho. A medida que o tempo passava a culpa se apoderava de cada célula do meu corpo. A única pergunta que rondava em minha mente era: por quê?

Fazer justiça com as próprias mãos nunca foi do meu feitio. Todavia, sempre existe uma exceção. Aquele cara era a minha exceção. Vamos ser realistas com o fato: se a justiça não vai ao culpado, o culpado vai até justiça. Ditado incorreto, eu sei. Mas a quantidade de coisas incorretas no mundo me faz pensar que isso é o de menos. Mas não deixa de ser verdadeiro.

Sou dono de uma livraria boca de esquina, situada numa área movimentada da região. Investir nela me rendeu um nome conhecido, posso usufruir de uma vida confortável. Sabe o tipo de cidade pacata, onde nada acontece? Era assim onde eu morava. Mas isso não significa que ela está isenta de perigos. Numa noite de quinta-feira estava pronto para ir embora. A seção das crianças, naturalmente a mais bagunçada, já havia sido organizada. Ordenei o estoque que havia chegado mais cedo e fui colocar as caixas de papelão na frente da loja, no outro dia não estariam mais ali. Foi nesse dia que vi quando aconteceu, perto das 22h30minh. Numa rua sem saída, em frente a minha loja, havia um homem.

As ruas desertas, já era tarde da noite; não dei importância, afinal, era só um homem. Mas quando estava entrando ouço um grito, agudo e baixo. Fiquei atrás da porte, entreaberta, recaindo os olhos na direção do homem, que se duplicara. Segurando o corpo pequeno e esguio da garota ele a violava sem dó e brutalmente. De onde eu estava conseguia ver ela se sacudindo e tentando de todas as maneiras possíveis se soltar. O homem continuava sem parar, e parecia que a medida que os soluços e choro da menina se intensificavam sentia mais prazer. Simplesmente não conseguia entender como uma pessoa chega a esse ponto.

Eu queria sair dali onde estava e ir ajudar, mas simplesmente meu corpo não obedeceu. Fiquei parado, olhando enquanto ele consumava tal ato horrendo. A realidade foi que fiquei com medo. Medo de que algo de ruim acontecesse comigo caso ajudasse a garota. Fui fraco, egoísta, já sei disso tudo. Mas quem disse que consegui ser racional numa hora dessas? Como se isso fosse redimir algo, lembrei que estava com o celular no bolso. Porém o tempo é traiçoeiro, e apesar de necessário já não o tinha mais.

Estava com o celular em mãos quando ouço um grito mais alto. O último grito. O último soluço. A última lágrima. O último suspiro de vida arrancado por uma lâmina, a esperança de a dor cessar realizado de uma maneira angustiante. Se não bastasse ver a cena, parecia ter ocorrido em câmera lenta. O corpo da menina de encontro ao chão tirando qualquer sinal de vida, jogado cerca de dois metros de onde estava. A faca na mão do homem pingava sangue, assim como a calçada, beijada pelo sangue da jovem estirada no chão. Mesmo de longe, iluminado somente por um poste com luz amarelada, eu via o corte na jugular. Se eu tive esperança, ela foi embora tão rápido quanto a poça que se formava sob a menina no chão. Diria que a cena toda durou menos de trinta segundos, policia nenhuma chegaria a tempo.

Escondo-me mais atrás da porta quando vejo o homem andar. Vai até o corpo da jovem, limpa a faca e a mão direita em seu vestido. Pela roupa poderia classifica-la, mas não aparentava ser... Da vida. Ele se levantou, olhou mais uma vez o corpo e dessa vez ao redor, não me viu.

- sangue sujo. — ele diz, quando chuta as pernas da garota. Olha mais uma vez ao redor e sai andando, como se nada tivesse acontecido, arrumando as calças e jogando o preservativo no bueiro próximo ao local.

Eu não acreditei que ele foi tão baixo a ponto de deixar a garota ali, na sarjeta. Um único sentimento se apoderou de mim foi: ódio. Como um ser da própria espécie faz isso com outro? Somos animais irracionais agora? O que será da família dessa menina agora? Como os pais irão enterrar a filha sem nem saber que fez essa atrocidade com ela? Os planos, todos sonhados com carinho no lixo. Como um desenho que não de certo. Mas não foi a primeira vez, não, não foi. Ela sabia que poderiam muito bem coletar o sêmen e fazer alguma ligação com ele, no mínimo já tinha passagem pela policia. Sabia que tinha câmeras por ali, por isso estava encasacado mesmo com aquele clima subtropical, e ainda de óculos escuros. Sabia que poderiam procurar por digitais no local, por isso das luvas de inverno. Porém ele não sabia de uma coisa. Não sabia que havia uma testemunha.

Liguei para a polícia e contei o ocorrido. A perícia e ambulância foram chamadas, e confirmaram tudo o que não saia da minha mente. Colocaram o corpo envolto de um saco preto e levaram para dentro da ambulância. Os prédios ao redor começaram a acender as luzes, procurando o destino daquele barulho das sirenes. Alguns curiosos mais corajosos chegaram perto do local, para logo serem mandados de volta para seus lares. Se eu prestei atenção? Ela estava naquela poça de sangue onde jazia o corpo daquela menina. Mais tarde fui saber que conhecia a menina. Não muito bem, era filha do dono de uma padaria a duas quadras dali. A menina era bem comportada, de família, não fazia mal a ninguém. O único mal, erro que cometeu, foi ter acreditado em alguém que mal conhecia.

Os dias se passavam e nada da polícia encontrar aquele ser deplorável e sem escrúpulos. Querendo ou não, me senti responsável pela morte daquela menina. A ideia de que podia ter evitado a morte de uma pessoa me assombrava. Mantinham-me informado, podia a qualquer instante vê-lo andando por perto. A medida que o tempo passava mais minha sede de fazer algo aumentava. Se a polícia não fazia, porque eu não podia? As imagens vinham todas as vezes que minha mente não estava ocupada. Um sentimento de culpa misturado com desesperança alimentava a ideia de que o ser humano já não tinha mais chance. Cada vez mais doentes andavam na rua como indivíduos inocentes, no meio de pessoas sem saber os animais sujos que são. O ser humano está cada vez mais alienado ao seu redor que não se dá conta da gravidade da situação. Sair na rua e correr o risco de não voltar pra casa. Voltamos para a Era da Ditadura Militar, mas dessa vez, encoberta por uma neblina de desumanidade e egoísmo. Sim, porque só assim para conseguimos "viver normalmente", sem se importar para o que acontece bem ao nosso lado.

E eu me sentia assim, apesar de saber e ter visto, não fiz nada para mudar. Toda vez que lembrava da cena pensava: porque não corri e ajudei aquela menina? Porque simplesmente fiquei parado naquela droga de porta com medo de sair? As perguntas rondavam e entravam na minha mente sem permissão, uma luz vermelha acendia toda vez e gritava "culpado! Culpado".

O caso não repercutiu. Claro que não, pensei enquanto lia o jornal do estado que não fora capaz de colocar uma mísera reportagem de alerta para os bairros próximos. O caso espalharia, obviamente, mas a atenção que deveria ter não foi dada. Eu sinceramente não esperava mais ver o sujeito, até o dia que ele apareceu na minha livraria, uma semana depois do ocorrido. De cara não reconheci, parecia um cara normal. Mas quem iria pensar algo diferente? Mas quando olhei em seu rosto pela terceira vez reconheci o assassino da garota. Paralisei, não acreditando na audácia do homem em aparecer na rua onde matou e estuprou uma menina de dezesseis anos. Observei acabado enquanto ele analisava o ambiente, decerto procurando alguma câmera. Deu um sorriso de lado quando uma garota passou por ele, sorrindo tímido. Um sorriso sujo, carregado de malícia, um sorriso que carrega a maldição de um doente a cometer loucuras, para ele, divertidas.

O homem saiu da loja antes mesmo que eu pudesse ter alguma reação maior. Mas foi naquele instante, saturado de todos os pensamentos de martírio e tomado por um sentimento de culpa que eu sentia ser minha, enquanto o via atravessar a rua e passar por aquele mesmo lugar ainda sujo de sangue que prometi que ele não sairia impune. Não dessa vez.

Comecei a pesquisar casos parecidos, para ver se ele se encaixava em nenhum. Nada. A maioria dos casos que achei as vítimas tinham alguma grau de parentesco com algum policial ou algum amigo que trabalhasse nessa área. Eram muitos, agora imagine os casos que não eram reportados, como esse. Tentei manter a atenção no que estava fazendo. Cada vez que aprofundava no assunto, mais vontade tinha de estrangula-lo com minhas mãos. O pior de tudo era saber que faziam por prazer. Não tinha nenhuma ligação com a menina, mas imaginei como se fosse minha filha que está em casa. Informei que o tinha visto a polícia, e chegaram com a notícia de que o cara havia combinado com Lúcia, a menina morta, por uma rede social. Mas a conta havia sido apagada, não havia mais nada o que fazer a não ser esperar que o culpado aparecesse.

Se a justiça não vai ao culpado, o culpado vai até a justiça.

Arquitetei um plano. A meu ver, algo que o país já devia ter instalado. Parecia meio arriscado, podia não dar certo. Chegava a ser até sinistro para alguém que nunca fez mal a um fungo. Mas e dai? Pelo menos minha consciência estaria limpa em saber que terei feito algo para vingar aquela menina que eu podia ter salvado. Era só esperar que ele começasse a aparecer na livraria, o que eu não duvidava, ia sempre no mesmo horário, as 16h. Ficava sempre na seção juvenil, porque será? Acompanhei sua rotina pouco mais de um mês, até que o plano estivesse isento de falhas. A polícia já havia desistido, não iria precisar me preocupar com ela. Porém não queria fazer isso sozinho, e nem iria. Numa sexta-feira combinei com Josef, pai de Lúcia, para me encontrar na livraria. Escutou o plano e concordou, estava muito mais sedento do que eu. Concordamos que não seriamos animais a ponto de matar o cara, ah, não. O que iríamos fazer era bem pior, algo além de uma morte rápida e sem lembranças, seria uma vingança para toda vez que ele ouse fazer aquilo de novo, se lembre.

Na semana seguinte ao combinado com Josef colocamos o plano em ação. Pedimos para a outra filha dele fazer uma pequena representação, ela também sabia o que iríamos fazer. O cara chegou no horário de sempre, e a garota, Kendra, dois anos mais velha que a irmã, se pôs em ação. Começou com um livro caindo "acidentalmente" muito perto dele, os olhares e alguns sorrisos. Claro que não iria deixar passar. Por fim, ela passou o Facebook dela pra ele. Perfeito. O perfil era falso, nós três monitorávamos ele. Dois dias depois ele a adicionou, e no mesmo dia, já começou a puxar assunto. Conversamos todos os dias, e apesar de não ter pedido nenhuma foto, tinha vezes que sua falas pareciam com duplo, e se duvidar, triplo sentido. Nós três ficamos imaginando quantas outras meninas ela já não devia e estava fazendo esse mesmo jogo.

Passou um mês e meio para ele — finalmente — pedir um encontro pessoalmente. Ele estranhou ela não ter ido mais na livraria, a desculpa usada foi que morava longe, e estava na casa de uma amiga aquele dia. E, por pura coincidência, falou que iria passar a noite na casa dessa amiga. Aproveitou e marcou o encontro para essa noite. Já havíamos arquitetado minuciosamente o que iria acontecer a cada segundo, e no horário combinado o sujeito estava lá. Seu nome, no perfil pelo menos, era Gastón. Combinaram perto de uma rua onde ocorreu tudo com Lúcia. Kendra chegou e cumprimentou ele, tentava a todo custo colocar um sorriso convincente, mas a única expressão que não queria sair de seu rosto era de nojo. Nojo desse sujeito que matou sua irmã. Começaram a andar, e a garota coçou o nariz, sinal de que tudo estava certo e que em pouco tempo o levaria para o lado da livraria.

Não havia mais ninguém aquela hora na rua, naquele breu foi fácil, quando os dois passaram ao lado da livraria Kendra o empurrou para a porta lateral, onde eu e Josef o esperávamos de braços abertos. Gastón, ou seja lá quem for, não entendeu o que estava acontecendo quando o colocamos amarrado sentando em uma cadeira.

- que porcaria é essa?! — ele reclama em alto e bom som, como se quisesse que o escutassem para poder sair dali. — não podem me prender aqui, eu não fiz nada! — reclamou mais uma vez, dessa vez se revirando na tentativa de sair do lugar.

Josef não aguentou mais se segurar, poucas lágrimas de dor e raiva desceram por sua face, ao mesmo tempo em que um estalo foi ouvido, quando sua mão foi de encontro ao rosto do homem a sua frente.

- seu sujo imprestável! Como ousa dizer que não fez nada depois de violentar e matar a minha filha! Seu nojento, depravador e sem coração! — lhe deferiu em torno de quatro tapas, que eu contei. Kendra chorava em silencio num canto mais afastado. O homem pareceu surpreso, pensando como o teriam descoberto.

- eu. — respondi, ganhando sua atenção. Vi em seus olhos uma interrogação. — sou o dono dessa livraria. Vi quando fez tudo aquilo com Lúcia. — o rosto do homem foi ficando branco, mas tão rápido quanto ficou voltou ao normal, com uma expressão maliciosa e sombria.

- nem foi tão bom assim. — ele respondeu, soltando uma gargalhada, logo transformada num gemido de dor quando Kendra, que já estava no seu limite não suportou o que disse da irmã, chutou entre as pernas de Gastón e deferiu um belo tapa na cara do mesmo. Agarrou os cabelos do homem e o forçou a olhar nos olhos dela.

- lave essa sua boca imunda antes de falar da minha irmã, seu lixo. Pode apostar que se ela não conseguiu se livrar de você, eu terei o prazer de fazer você pedir pelo inferno aqui dentro dessa sala! — ela disse, enxugando as lágrimas. Soltou bruscamente a cabeça dele, que riu mais uma vez.

- e o que irão fazer? Me matar? — ele riu com gosto, como se estivesse em casa vendo seu seriado de humor favorito. — me poupe, garota, se eu morrer não vou pagar por nada e vocês que irão presos. Qual a parte ruim mesmo? O que as pessoas vão pensar de vocês?

- o porquê de não ter mais gente fazendo justiça como nós. Quem deveria, parece que está se tornando o bandido. — Kendra diz, enquanto se afasta e se encosta numas caixas.

- você não teme a morte? — Josef perguntou, horrorizado com a frieza do homem.

- eu temo mais o poder do ser humano do que o poder da morte. — ele responde, lhe dirigindo um sorriso zombeteiro.

- nisso eu tenho que concordar com você. Apesar de achar que você logo vai pedir para estar a sete palmos do chão. — respondi, enquanto me dirijo a uma mesa, que tenho certeza que ele não havia notado. Volto com uma seringa na mão. — você por acaso já ouviu falar em Castração Química? — os olhos do homem se arregalaram, começou a se debater na cadeira olhando para todos os lados tentando encontrar uma maneira de fugir.

- VOCÊ QUER ME CASTRAR!? EU NÃO SOU CACHORRO PARA SER CASTRADO! EU NÃO QUERO, ME SOLTEM AGORA! — ele gritava, não que importasse, aquelas paredes conseguiam ocultar todo tipo de som. Olhei risonho para Josef e Kendra.

- olhem só, parece que nosso pupilo mudou rápido de ideia, não é? — pergunto para os dois, que sorriem. Ninguém pretendia matar ninguém, mas ele vai lembrar para o resto da vida.

- apesar de na minha opinião você ser sim um cachorro, seu encéfalo, castrar não é somente em animais que não tem raciocínio lógico. — Josef dizia praticamente cuspindo as palavras na cara dele. O sujeito realmente estava começando a ficar preocupado.

- de uma forma clara, existem varias formas de castrar o homem com o intuito de diminuir seu apetite sexual. As duas formas mais usadas são a retirada do órgão masculino... — que fez as órbitas do homem saltarem. — ... E a injeção de hormônios femininos, no caso, a Castração. Ou seja, irá impedir sua ereção. — quando terminei de falar, Gastón não parecia mais tão abalado.

- é isso? Pode ir logo, então. — ele disse, tentando esconder um sorriso no rosto.

- não tão rápido, verme. Por acaso sabe se é essa que vamos aplicar em você? — disse Kendra, andando até o meu lado, junto de Josef. Nós três. Na frente do homem que havia tirado a vida da filha do meu amigo. E não sabíamos quantas mais ele havia feito da vida se transformar num inferno.

- e não é? — ele diz, a preocupação voltando a sua voz e face.

- não. — respondo. — é óbvio que seus impulsos continuariam os mesmos, logo, ainda poderia consumar outras espécies de crime, pois não é só com o órgão reprodutor que você iria contra a liberdade dessas pessoas. A sua injeção será de Depo-provera, uma forma sintetizada de hormônio feminino progesterona, e tal uso poderá provocar alguns efeitos colaterais como aumento de peso, fadiga, trombose, hipertensão, leve depressão e mais algumas coisinhas. — digo, mandando um sorriso pra ele. — li em um livro.

- pois eu não quero nada disso! Exijo que me soltem agora, aposto que isso não é permitido aqui, não é? Por isso estão fazendo na surdina. Exijo que me SOLTEM- o homem começou a berrar de novo, não mais que cinco segundos, dessa vez Josef socou seu abdômen.

- perto do que você já fez é pouco, muito pouco. Estamos apenas ajudando a sociedade a ter menos um animal como você andando na rua, a espreita de qualquer beco para violentar mais jovens e deixar famílias aos pedaços, como está a minha agora! Não faço isso somente pela minha filha, mas por vingança por todas aquelas que um dia você ousou tocar. — o homem disse novamente aos prantos, sendo amparado pela filha.

Já estava na hora de acabar com isso, pego a seringa e injeto no braço do homem. Por hora não iria acontecer nada, mas duvido muito que ele volte a fazer algo. A injeção não foi aprovada ainda no Brasil ainda, por causa da constituição. Porém a mais fraca já estava em andamento.

- não pense que estará livre de nós. Podemos muito bem falar a polícia onde você está. Qualquer deslize seu, sabemos exatamente onde te encontrar. Se eu fosse você, andava na linha. — digo pra ele, enquanto separo o material para atirar na churrasqueira de casa.

Soltamos o homem e ele sai correndo, decerto com medo de que o pegássemos e realmente tirássemos algo dele. O perdemos de vista depois de alguns segundos. Josef e Kendra vão embora logo depois, agradecendo por ter dado um pouco que fosse de conforto ao coração de ambos. Não tive como não me desculpar com ele, dizendo que se pudesse ter feito algo a tempo, se tivesse raciocinado poderia ser diferente. Ele diz que entendia, e apesar de ter sido com a filha dele, isso serviu como uma chance de salvar a vida de outras meninas. Não restou mais nada a não ser ir pra casa. Apesar de saber que fiz algo errado, nada me tirava da cabeça que foi o certo, que devia ser desse jeito. Há males que vem para o bem. É horrível saber que o ser humano está se tornando cada vez mais com animais; tendo ser que controlado — sem ser por alguma doença degenerativa — por remédios.

O dia seguinte amanheceu como qualquer outro. As pessoas já estavam cedo na rua, umas indo ao trabalho, outras apenas por sair de casa. Estava mudando a plaquinha de "fechado" para "aberto" quando vejo Josef na rua. Nos cumprimentamos apenas por aceno de cabeça, para todos não éramos muito íntimos. Ninguém sabia que por nós havia um mal a menos por aquelas bandas. E se descobrissem, quem acreditaria que um velho padeiro ou o dono de uma livraria faria mal a alguém? Mas... Sinceramente? Num mundo onde quem deveria proteger está matando, quem não acredita é louco. Sim, realmente a algo de errado. Mas quem somos nós para fazer algo, não é?

Se a justiça não vai ao culpado, o culpado vai até a justiça. Sem ele saber, obviamente, ela acontece. E sem ser das mãos de quem deve. Mesmo com o passar dos anos aquele sentimento de culpa ainda existia. Se duvidasse, ainda iria me perseguir até depois da morte. Eu só imagino, até hoje, o que teria acontecido se não tivéssemos feito aquilo. Continuamos acompanhando o cara, sabíamos onde ele morava. Bom, antes de ser morto. Ele tentou uma última vez, antes de ser morto com um tiro no pescoço pela família da vítima. Tiveram mais coragem do que nós três, que no nosso íntimo sabíamos, queríamos ter feito o mesmo. Apesar de tudo, de todo o contexto, o assassino do cara foi indiciado e preso.

E me pergunto, apesar dos prós e dos contras, vale a pena ou não fazer justiça com as próprias mãos?

Notas finais
Se chegaram até aqui, podia deixar um comentário né? Mas mesmo assim, obrigada! Até o próximo :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!