Notas iniciais
Linking Park - The Catalyst
;*

Caminhava com os olhos entreabertos pelo corredor iluminado pelo sol da manhã no pijama improvisado que Demi me emprestara. O caminho do banheiro até o quarto de hóspedes já era quase totalmente feito quando senti um cheio suspeito, identificando-o de imediato.

Lá estava ela, sentada sob o parapeito da grande janela de vidro liso do segundo andar, os pés para fora balançavam pelo movimento do corpo e uma fumaça cinza saia dentre seus dedos.

Caminhei arrastando meus pés no piso de madeira até ao seu lado, observando-a tragar descontraidamente o tubo branco.

A cena me chamou uma atenção estranha, assim como tudo nela desde pouco tempo atrás. Os dedos ágeis manuseavam o cigarro com habilidade fazendo-me questionar a quanto tempo ela praticava o horrível ato, a boca fechava-se com uma certa delicadeza feminina com o borrão branco entre os lábios e o quanto eles ficavam ressecados ao retira-lo.

- Dormiu bem? – perguntou após a fumaça sair do corpo.

- Sim e você? – respondi, apoiando os braços cruzados onde repousava.

- Só três horas. – riu amargamente.

A insônia é um dos principais problemas da bipolaridade sendo que o corpo não precisa da energia, embora a mente esteja acostumada as oito horas diárias.

Suspirei focando o cigarro agora preso em seus lábios.

Peguei-o entre os dedos levando até minha boca.

Puxei o ar filtrado por ele sentindo o horrível gosto da nicotina.

- Eca! – reclamei quando senti a fumaça sair. – Como você consegue gostar disso, é horrível.

Ela riu quando me vindo tragar novamente e devolver em sua boca.

- Bem, eu não gosto é mais uma mania. – falou.

- Tem gosto de... de queimado. – descrevi, gerando um arrepio. – Nunca mais encosto nisso.

- Ótimo. – concordou ela.

- Acho melhor aproveitar esse ai, porque vai ser o ultimo. – observei o transito leve na rua, mas desviei para ela quando senti fitar-me com confusão. – Não vou arriscar meu pulmão nessa fumaça tóxica.

- Aaah claro, isso tem tudo a ver com seu pulmão. – encolheu os ombros num sorriso. – Vai mesmo confiscar todas minhas coisas?

- Não todas. – disse. – Só as necessárias, como isso.

Agarrei o maço de vinte cigarros primeiro que ela.

- Selena...

- E não só os cigarros como as bebidas e aqueles pacotes pequenos de heroína que encontrei no fundo da gaveta do quarto de hospedes. – avisei. – E não se atreva a esconder algo de mim, porque vou vistoriar a casa inteira.

- Não esta levando isso muito a sério? – perguntou-me.

- E o assunto não é sério? – respondi. – Você quer acabar com isso?

- Claro. – assegurou. – Minha família ficaria...

- Não, não. – neguei. – Se for fazer por sua família estou me retirando. É por você. Você quer parar?

Ela me olhou com atenção, como se tentasse achar uma brecha qualquer em minha face. Algo que esclarecesse minha preocupação como mentira, mas o suspiro foi audível quando desistiu da busca.

- Quero. – afirmou.

- Então vamos fazer juntas. – estendi a mão os dedos mexendo em indicação ao cigarro já na metade.

- Hm... ta. Ok. – assentiu entregando-me o ultimo cigarro que tinha direito legal nessa casa.

(...)

Foi uma longa conversa com meu pai e, como disse a Megan, ele entendeu. Meu principal motivo agora não era somente o fato de desconfiança de minha irmã mais velha e sim a esperança proporcionada por Demi. A esperança de uma vida fora de perigo constante e aquele brilho especial que surgia em seus olhos quando percebia não estar sozinha, o que me fazia sorrir sem motivo.

Meu pai resistiu no começo, a mente impregnada de comentários maldosos de Megan, mas a verdade foi descoberta conforme a conversa via telefone de desenvolveu e, após falar com Demi por mais de vinte minutos, concordou em nós ajudar. Desejando muita boa sorte a mim e coragem a Demi, que agradeceu aliviada por ainda ter alguém adulto ao seu lado.

- Não vai ser bonito. – comentou ao fazer a natural patrulha no cômodo onde me encontrava.

- O que não vai ser bonito? – perguntei, jogando mais uma seringa usada no lixo que carregava pela casa.

Tinha começado a limpar a casa começando pela área mais preocupante: seu quarto.

- Esse lance de “sem bebidas”. – respondeu, reproduzindo a cena de mim jogando todas as garrafas do famoso lixo. – Acostumei a encher a cara todas as noites e uma pode fazer diferença.

- Eu sei que esta com medo. – disse começando a tirar as roupas do guadaroupa. – Não precisa ter, eu já pesquisei tudo. Tenho tudo sobre controle.

- Mas e se sair do controle? – perguntou insegura, apoiando-se no batente a porta.

- Não vai. – assegurei, jogando a ultimo cabide na cama e olhando-a. – Demi, eu realmente sei todas as fases de depressão pós drogas.

- Então deixe-me sair hoje, só hoje prometo. – pediu.

- Não...

- Pro favor, daí eu calo minha boca e deixo você trabalhar. – continuou.

- Não.

- Porque?

- Porque se hoje eu deixar, amanhã você trás a bebida pra cá, e depois de amanhã vai ser só um golinho e, não. – justifiquei. – Demi, eu sei que não é totalmente certo cortar a bebida tão radicalmente, mas não temos tempo. Eu tenho dois meses e meio pra ficar ao seu lado e, depois, será você por conta própria.

- O quê? – disse espantada. – Você vai me deixar?

- Demi, não vou te deixar, só vou voltar para New Jersey com minha mãe. – disse. – Não vou te abandonar, somos amigas, não é?

Um sorriso carinhoso tomou seus lábios.

- Só um ultimo golinho de vodka e... – insistiu, mas a cortei voltando ao trabalho.

- Não.

(...)

- Não estou me sentindo bem. – comentou Demi, no meio do filme.

- O que sente? – perguntei levantando-me da posição deitada, me sentando.

- É uma dor de cabeça boba. – explicou. – Tenho isso as vezes, tudo bem.

- Tem certeza? – assegurei-me.

- Claro, volte ao filme. – sorriu.

Hesitei em voltar meus olhos para a grande Tv.

Era o começo de uma longa jornada.

Notas finais
Decidi postar mais esse capitulo essa semana por ele ser pequeno demais e meio chatinho, mas já aviso que no próximo terá mutilação então, se ficar com receio entenderei.
Obrigada ;*