World Of Chances
4 Brick By Boring Brick
Notas iniciais
;*
- Sinto saudades também mãe. – repeti pela milésima vez.
- Porque eu deixei você viajar mesmo? Deveria ter ficado aqui comigo. – choramingou. – Agora não agüento de saudade.
- Calma, dois meses passam rápido. – suspirei me espreguiçando em minha cama.
- Não sem você aqui, minha pequena. – disse em tom de adeus. – Tenho que desligar agora, tudo bem?
- Fique tranqüila mãe, eu não tenho ciúmes do seu namorado. – ri.
- E nem precisa querida. Beijo. – despediu-se. – Te amo.
- Também mãe. – disse desligando o celular.
O relógio marcava dez horas da manhã de sábado, o que não fazia diferença para mim. Já que as férias me davam esse privilégio.
Levantei e ajeitei o velho mini sorte do pijama antes de descer as escadas.
- Bom dia! – desejei, beijando meu pai carinhosamente.
- É, pode ser. – respondeu Megan, a cabeça apoiada na mesa.
Queria saber o que há te errado com ela. Dois dias atrás ela pulava com qualquer palavra alegre que disséssemos e agora, simplesmente acabou.
- Vejo que alguém acordou de humor péssimo. – cantarolei pegando meu prato e sentando ao seu lado.
- De novo. – completou meu pai.
Ela soltou um resmungo incompreensível.
- Selly, é hoje que você vai pintar seu quarto? – perguntou meu pai, mudando de assunto.
- Pode ser, ‘tava mesmo pensando em hoje. – respondi.
- Tudo bem, a tinta ‘ta na porta dos fundos. Comprei ontem. – explicou ele, colocando omelete com queixo em meu prato. – Você sabe como fazer, não é? Quer ajuda?
- Não, tudo bem. – disse rapidamente. – Pode fazer suas coisas, afinal, não é hoje que o senhor apresentará aquele tão esperado projeto?
- Pois é. – suspirou ele, com orgulho. – Estou tão nervoso.
- Nervoso? – zombei. – Nervosismo é para os fracos.
- Tem razão. – riu. – Vou arrasar.
- Esse é o espírito.
Bati em sua mão levantada, assustando Megan com o estralo.
- Desculpa Selly, mas se não estivesse tão morta, até ajudaria você. – bocejou ela.
- Tudo bem, não é difícil pintar quadro paredes. – encolhi os ombros. – Tomara que não.
(...)
Olhei o quarto com a interrogação explícita em minha face.
Todos os passos já estavam cumpridos. Um: os moveis estavam cobertos com jornal; Dois: os posters e quadros já haviam sido retirados; Três: tinta e pinceis a postos; mas, quadro: por onde começar?
- O que esta acontecendo aqui? – perguntou uma voz confusa da porta. – Não tem nem uma semana direito e já ‘ta destruindo a casa?
- Bom dia pra você também, Demi. – disse vendo a cabeça preta emergida em minha porta. – E, o que te faz pensar que pode entrar em meu quarto assim?
- Assim como? – tornou a perguntar, a voz engraçada.
- Sem bater.
- Aaah. – fechou a porta por fora. – Toc-toc-toc.
- Quem é? – perguntei, entrando na brincadeira.
- Jesus Cristo. – falou entrando no quarto.
Ri, enquanto caminhava até mim.
- Pintando? Hm, interessante. – disse examinando as latas de tinta. – Branco? Que sem graça.
- Não procuro graça e sim um lugar confortável. – contrapus. – Vai me dizer que seu quarto é vermelho.
- Bem, só uma parede. Mas, enfim, cadê a Megan?
- Poxa, você só tem esse assunto comigo?
- O que você quer que eu pergunte? – encolheu os ombros, em interrogação. – Como vai sua vida?
- Claro. – respondi. – E também se não preciso de ajuda.
- Precisa de ajuda?
- Não.
- Não? Por que me mandou perguntar?
- Pra te ensinar a ser educada.
Ela ficou me encarando por alguns segundos e eu a olhei de volta, a desafiando.
- Ok. – ela tirou a jaqueta de couro, ficando só de jeans e blusa branca.
- Já disse que não quero sua ajuda. – repeti.
- Mas agora eu vou ajudar. – respondeu pegando um pincel com um sorriso infantil.
Suspirei revirando os olhos. Gostava de interpretar os papeis que me dessem em seus joguinhos.
- Vertical ou horizontal? – perguntou.
- Vertical, pode pegar aquela escada. – respondi pegando um pincel também. – Eu fico com essa.
O silencio caiu entre nós e só o ruído das folhagens dos pinceis arranhando a parede eram audíveis, mas, nem cinco minutos de pintura se passaram e uma musica encheu o ambiente.
A voz do Panic! At The Disco se destacou a fazendo assustar.
- Pare de rir. – repreendeu-me quando se desequilibrou da escada. – Alô.
Observei a cena dela sentada no ultimo degrau da escada de madeira, o cenho ligeiramente enrugado e os pés pendurados balançando.
- Agora? – ela olhou de canto para mim, que tentei desviar o olhar. – Estou ocupada.
O jeito que jogava sua franja para fora dos olhos era hipnotizante, digo, se repetia muitas vezes.
- E o que você tem a ver com isso? Ok, estou na casa de uma amiga. – respondeu. – Da Megan, ué, quem poderia ser?
Continuei a pintura, tentando ignorar sua voz ao fundo, mas não queria realmente isso.
- Quer saber, por que esse questionário? Parece até que estamos juntas! – indagou, fazendo minha mão oscilar na parede com o susto.
Ela tem namorada?
Sabia, deve ser outra drogada.
Mas, admito que foi estranho essa sensação. Quero dizer, tenho uma pessoa complemente desconhecida em meu quarto e não estou, no mínimo, gritando.
- Opps, caiu a ligação. – sussurrou apertando o botão vermelho do Back Berry.
- Namorada? – perguntei limpando a garganta.
- Quem, ela? Não! – respondeu rapidamente. – Só dei um abraço meio apertado demais nela e agora arrumei pra cabeça.
- E qual foi sua intenção com isso?
- Sei lá. – admitiu. – Entenda, eu estava bêbada.
Assenti com a cabeça, descendo da escada.
A metade da minha parede já estava feita e a dela também parecia, pois imitou meu gesto.
- O que anda acontecendo com Megan? – perguntou-me, mudando de assunto.
Megan. Só Megan.
- Não faço idéia. – suspirei, sem desviar o olhar da parede esbranquiçada.
- Olha, desculpa, mas não tenho nenhum outro assunto com você. – expressou-se. – Sei lá, me conta sobre você.
- Não, não acho uma boa idéia. – estremeci.
- É, também acho. – bufou, como se uma briga interna estivesse acontecendo. – Eu falo coisas sem pensar.
- Como assim? – disse confusa. – É normal você querer conhecer uma pessoa. Ainda mais quando esta a ajudando a pintar seu quarto.
- Não. – continuou ela. – Não é bom pra mim, quer dizer, pra você. Nem deveria estar aqui.
- Não estou te entendendo. – disse me virando para ela.
- E por que acha isso uma coisa ruim? – perguntou, interessada no trabalho.
- Você esta no meu quarto. – apontei ao redor. – Realmente precisa de mais motivos?
- Quando se trata de mim, acho que um bilhão de motivos ainda é pouco. – sorriu desconfortável, jogando mais tinta na parede.
- Porque você se acha diferente? Porque você se trata diferente?
- Porque todos me tratam assim. – ela parou o movimento repetitivo com o braço, ainda encarando o branco. – Acho que me acostumei.
Abri minha boca varias vezes, mas nada saia. Afinal, o que falar em uma ocasião dessas? Como provar não ser verdade, se tudo estava contra você.
- Realmente todos? – perguntei curiosa.
- Bem, não. – ela me olhou com um sorriso tímido. – Você não.
Nós duas nos encaramos por um bom tempo, sem coragem para desviar o olhar. Aquilo era sincero, eu sentia.
Soquei levemente em seu braço quando ela foi a primeira se dispersar.
- Vai ser briga agora? – perguntou em uma raiva forçada.
- O que? Quer vir pra cima? – ri entrando no jogo novamente.
- Aaah você não deveria ter falado isso. – estreitou os olhos e quando vi, meu braço esquerdo estava totalmente pintado de branco.
Gritei com o troque da tinta gelada em minha pele.
- Não, não. Você vai se arrepender. – respondi molhando meu pincel na pinta.
- No cabelo nã... – tentou dizer, mas sua bochecha foi tomada de branco antes. – De adeus a vida Gomez.
Admito que foi difícil terminar o trabalho depois.
A guerra durou um tempo maior que o esperado e digamos que, as vezes, pequenos jatos de tinta ainda voavam em minhas costas. Me obrigando a revidá-los.
- Bom trabalho. – parabenizou uma Demi encharcada do liquido pesado.
- Igualmente. – observei o quarto como ela.
Tinha ficado impecável e perfeito.
A musica no Panic! soa novamente no ambiente silencioso de apreciação.
- Que droga. – resmungou atendendo. – Alô! ... vou claro que vou ... ok, até lá.
- Quem? – estranhei a conversa curta.
- Uma amiga. – respondeu hesitante. – Bem, acho melhor eu ir tomar um banho.
- Vai sair? – disse desconfiada.
- Não, quer dizer, vou. – suspirou. – Desculpa Selena, mas, as coisas não são simples. Eu tenho que ir.
- Podemos repetir a dose qualquer dia, não é? – perguntei observando-a caminhar até a porta.
- Mais pra frente você perceberá que não foi uma boa escolha de palavras. – disse ainda de costas.
- Como assim? – perguntei novamente confusa.
- Só... só vá para o bom caminho, Selly. – falou indo embora.
- Selly? – sussurrei para mim mesmo no quarto. – Ela me chamou de Selly?
Notas finais
Obrigada, beijoos ;*
Review
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