Working Things Out
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu também não sei qual ficou o resultado final deste capítulo, pois estava tentando uma linha narrativa um pouco diferente da que eu costumo fazer.
Espero que gostem mesmo assim!
Sempre existe uma idade em que as pessoas começam a se preocupar com a sua saúde. Normalmente acontece junto com alguma crise de meia idade aos quarenta anos, quando temendo não ter atingido nada de importante na vida, eles questionam se ainda terão tempo de viver o suficiente para mudar o rumo que tomaram.
No caso de Arthur, a preocupação sempre esteve lá. O que sempre faltava era o tempo.
Aos trinta e quatro anos, Arthur Kirkland já era um homem realizado profissionalmente. A realização não veio, porém, sem esforço. Desde o começo de seu curso de graduação, o inglês era um estudante aplicado e leitor compenetrado. Logo ao se formar, iniciara sua carreira em sala de aula. Já havia também completado tanto seu mestrado quanto doutorado – ambos escritos sobre Shakespeare, autor demasiado usado e clichê, mas ainda impressivo, ele explicaria.
Hoje, Professor Universitário de Literatura, o inglês podia se dizer satisfeito pelo o que conquistara, mesmo que muitas coisas ainda faltavam em sua vida. Por exemplo, amigos ou até mesmo um pouco de romance. Vivendo tão fechado em páginas de histórias, Arthur negligenciara a sua própria. Por vários anos ele se convencera de que havia tempo de sobra. E que talvez não precisasse realmente se preocupar com tais assuntos fúteis.
Havia um episódio que mudaria sua vida.
Não era algo que aparecera da noite do dia, na verdade, era algo que vinha se acumulando ao longo dos anos. Por exemplo, ele não conseguia carregar muito peso, o que ainda não era um problema, Arthur nunca fora muito forte. Mas dores musculares eram também comuns, os ombros estavam sempre tensos e sobrecarregados.
Só que não era algo para se preocupar, Arthur era conhecido por ser mesmo um pouco estressado e, além disso, ele não levava exatamente o tipo de vida saudável. Ele fumava dois maços de cigarro por dia, sendo também magro demais para a sua idade. O corpo franzino, mais os cabelos loiros desalinhados, sobrancelhas grossas e aparência descuidada passavam uma impressão quase doentia em dias muito ruins e melancólicos.
Mas Arthur ao menos possuía uma alimentação balanceada. Ele detestava comidas industrializadas ou qualquer alimento gorduroso e também não comia muito. Desde que seu organismo tivesse os nutrientes que necessitava, Arthur pensava que estaria tudo bem. Coisas como sua saúde ele cuidaria depois, quando tivesse tempo para tanto fora das suas atividades acadêmicas.
Afinal, Arthur também planejava fazer um pós-doutorado na Inglaterra, retornar para casa e reencontrar seus pais e irmãos mais velhos. Apesar de gostar de trabalhar nos Estados Unidos, por vezes batia-lhe a saudade de casa. Ele se lembrava do velho e apertado apartamento em Londres que alugara nos subúrbios da grande cidade. Nunca havia silêncio, mas ainda era uma paz maior do que a casa que possuíam no interior da Inglaterra, onde ele e os quatro irmãos mais velhos conviviam juntos, até a mãe casar novamente com um americano, e terem que também se dividir a casa com mais outra criança, Alfred Jones.
Alfred que por algum motivo que Arthur ainda não entendia bem, apegara mais a si do que ao resto da família. Assim, anos mais tarde quando Arthur resolvera fazer seu mestrado nos Estados Unidos, Alfred aproveitara a oportunidade para retornar à terra natal junto com o inglês. Mesmo que Arthur fosse ainda muito jovem, e Alfred apenas um adolescente, o inglês fizera o possível para cuidar bem do outro.
Não era, portanto, como se ele estivesse completamente longe da família. Arthur e Alfred estavam sempre juntos e assim, o inglês deixava os dias passarem. Adiando os seus planos de voltar para a casa, assim como adiava a sua ida ao médico.
Acontece que nem tudo na vida espera as coisas acontecerem, elas simplesmente acontecem. E foi com certa resignação que Arthur teve que aceitar que passara da hora de fazer uma consulta.
Havia umas duas semanas que passara a sentir uma dor muscular mais forte que o comum. Alarmado com as constantes, excessivas e exageradas reclamações do irmão, Alfred não hesitou em marca uma consulta no médico. Porque estava cansado de Arthur reclamar feito um velho, palavras do próprio.
— Você reclama mesmo como um velho. – repentinamente a voz do americano interrompia a linha de pensamento do inglês, este bufara, dando uma leve bebericada na lata de chá gelado que tinha em mãos.
— Eu não me lembro de ter reclamado agora, ou melhor, eu ainda não disse nada. – Arthur respondera enfim, observando com o olhar duro o rapaz loiro a sua frente.
Alfred era um rapaz alto, usava óculos de lentes rasas, gostava de vídeo games e era extremamente preguiçoso. Apesar disso, Alfred era forte. O que contrastava com a aparência magra do inglês e o irritava profundamente. Arthur suspirara, olhando a sua volta ele tinha uma visão ampla da área de musculação da academia que matriculava. Homens mais fortes que ele levantavam pesos enquanto garotas exibiam os corpos definidos pelo salão.
As diferenças eram tão gritantes que a carranca do inglês aumentara ainda mais. Aquele não era o tipo de ambiente que ele costumava frequentar. Se estava ali, era apenas por ordens médicas. O que Arthur tinha era na verdade, bastante simples, suas dores musculares proviam de seu sedentarismo. A solução então era também fácil. Bastava que Arthur passasse a ter uma vida mais tranquila, com menos estresse e exercícios físicos. Doutor Honda fora bastante enfático naquele último ponto. Arthur suspirara ao lembrar-se do sermão do médico asiático, voltando o olhar para o irmão mais novo que o encarava intensamente.
Desde que fora ao médico Arthur estava sendo evasivo quanto ao que o doutor havia dito. Talvez por estar envergonhado. Cuidar do seu próprio corpo era uma obrigação dele, ainda assim, o inglês descuidou-se de sua saúde. Ele sentia-se tolo e não queria compartilhar aquilo com o irmão mais novo. Bem, aquele pelo menos era o primeiro motivo, e o que fazia Alfred o olhar com preocupação.
— E aí? Você vai ou não vai me contar o que o médico lhe disse? – Cansado de esperar por uma resposta, Alfred decidira perguntar diretamente.
— Mas eu lhe disse, ele me mandara matricular na academia.
— Você está tomando medicamento!
- É apenas um anti-inflamatório, Alfred. E é temporário.
- Tá, mas para quê? – o americano sibilara, inclinando-se sobre a mesa e encarando-o com mais determinado. – Que droga, Arthur! Eu estou preocupado, mas você continua sendo um babaca!
— Eu estou cumprindo as ordens, não estou? E você não tinha faculdade hoje? – O inglês suspirara, massageando as têmporas – O que diabos você está fazendo aqui?
— Ah, está tendo um conselho diretório ou algo assim, e depois, eu prometi que passaria para ver o meu antigo treinador de futebol hoje.
— Hm, e por que está aqui me incomodando ao invés de procurá-lo?
— Não precisa, eu só tenho umas perguntas para fazer para ele – Alfred repetidamente se levantara, acenando o braço para alguém ao longe. Arthur também virara o rosto enquanto bebericava seu chá. Um homem pálido e sem camisa acenava de volta para Alfred, fazendo um sinal para que ele esperasse enquanto vestia uma camisa esportiva.
Arthur engasgara, o rosto avermelhara-se e ele tivera que abaixar a cabeça enquanto tossia. Aparentemente, o treinador de futebol americano da época colegial de Alfred era ninguém menos que o seu professor naquela academia. Arthur perguntara a si mesmo se o americano havia planejado aquilo, erguendo a cabeça, o inglês fitara o irmão com um olhar inquisidor, este apenas lhe retribuíra um sorriso.
Não era possível que Alfred soubesse alguma coisa sobre o professor. Arthur ainda não havia dito nenhuma palavra sobre Gilbert Beilschmidt, homem de sorriso arrogante e pele pálida. Seus cabelos eram tão loiros que pareciam brancos, além de olhos castanhos de um tom tão forte que dependendo da luminosidade pareciam quase avermelhados.
Gilbert também tinha músculos bem definidos, apesar de parecer despojado, ele mantinha sempre uma boa postura. Havia outros pequenos detalhes que Arthur também havia notado, por exemplo, que Gilbert não tinha uma boa visão, mas aparentemente era avesso a óculos. Fora em um dia que o inglês havia trazido um livro para ler antes da aula, e Gilbert teve que inclinar bem perto antes de conseguir ler as letras graúdas da capa. O professor também não possuía quase nenhum sotaque aparente, mas quando se animava em uma conversa as palavras escorregavam pela sua boca de forma errônea, provando que era de fato, um imigrante alemão.
Muitas dessas coisas eram coisas que Arthur não perceberia se não tivesse prestado atenção o suficiente. Coisas como o modo que Gilbert repartia seus cabelos ou a forma que ele caminhava não era algo que todo mundo observava, e isso era apenas um dos sintomas do que havia errado com o inglês. O fato de que estava apaixonado – interessado, ele se corrigiu – era algo que Arthur não sabia explicar como aconteceu.
Ele só sabia que o simples toque em seu ombro era o suficiente para que se sentisse nervoso novamente. Arthur virara o rosto para baixo, evitando assim, olhar Alfred diretamente, quando Gilbert finalmente se aproximara.
— Boa tarde, Kirkland. Pronto para outra aula? – Gilbert o cumprimentou, com um leve e breve tapa no ombro, o mesmo sorrisinho arrogante de sempre. Arthur acenara positivamente com a cabeça, mas antes que conseguisse dizer algo, Gilbert já se dirigia a Alfred. – Ei, Alfred. Quanto tempo, cara! Não sabia que eram amigos.
— Pois é, cara! Ah, não sabia? Arthur é meu irmão. – O americano sorrira em direção do inglês que lhe devolvera um olhar irritado, mas resolvera ignorar. Seja lá o que Alfred tentava sugerir com o olhar, era melhor não ouvir. Metade das coisas que o americano dizia era realmente estúpida.
Por isso, Arthur deixara seus pensamentos fluírem até dias atrás. Para o dia em que vira Gilbert pela primeira vez. O alemão vestia uma camiseta esportiva preta, e Arthur admitiria, Gilbert era extremamente atraente. Ele admitiria aquilo se o outro não tivesse provado ser um completo idiota arrogante logo no primeiro instante. Sempre zombando de seu fraco desempenho físico, logo no primeiro dia de aula, Arthur viu-se discutindo com o professor.
Então mesmo que Gilbert tivesse um corpo realmente invejável, músculos bem definidos e na medida certa, ele era um completo idiota Ainda mais com aquele ridículo e irritante sorriso, que fazia Arthur ranger os dentes sempre que via. O inglês logo chegara à conclusão que era melhor não ouvir o que o professor dizia.
Fora esta a conclusão de Arthur depois de alguns dias, decidindo-se por trazer os seus fones de ouvido para a academia. O que se provara uma decisão completamente acertada. Era até mais fácil se exercitar ao som dos acordes da guitarra de uma boa música punk. Tão distraído, ele não teria percebido quando o treinador aproximara, arrancando-lhe um dos fones. Arthur, confuso, apenas erguera o olhar, quando Gilbert dissera que eles terminaram por hoje.
O alemão colocara os fones, fechando os olhos e comentando com a voz animada.
— Ei, eu gosto dessa banda! – Ele teria devolvido os seus fones, passado à mão em seus cabelos, e lhe desejado um bom trabalho Exceto que agora o comentário era dirigido a Alfred, e apenas a semelhança da frase com os seus próprios pensamentos fizera Arthur despertar e perceber que não ouvia nada do que eles conversavam.
– Depois me manda por email os detalhes, pode ser? – Gilbert dizia, e Arthur franzia o cenho, confuso por não saber do que se tratava.
— Pode deixar! Mas ei, você não tem que trabalhar agora? – Alfred, respondera energético.
Gilbert fizera uma leve careta, e Arthur não conseguira evitar um sorriso de canto dos lábios ao pensar o quanto aquilo era típico do treinador.
— Ei, quem é você para dizer qual é o meu trabalho? De qualquer forma, é uma pena que tenha largado o esporte. Mas se mudar de ideia, vem falar comigo. Estamos entendidos? – Gilbert então virara em sua direção, e Arthur rapidamente tentara recuperar a postura. Sinceramente, era patético. Nada daquilo fazia sentido ainda. Como ele, logo ele, poderia se apaixonar (Aquilo não era uma paixão, ele se corrigira novamente) à primeira vista sem motivo algum? – Arthur, eu te espero lá dentro.
E acenando, logo ele se distanciara. Arthur continuava a observá-lo, porém. Distraído demais em seus pensamentos para perceber a expressão faceira do irmão.
- Shakespeare tem algum poema sobre como ser um perdedor apaixonado? – Arthur virara o rosto ao outro, abrindo os lábios para retrucar, mas Alfred continuara. – Não, espera. Tudo que ele escreve é sobre isso mesmo.
— Desde quando você sabe? – Arthur perguntara, seco.
— Que você é um fracassado? Ou sobre a sua queda pelo Gilbert?
Arthur desviara o olhar, claramente incomodado e irritado com a situação que se encontrara no momento. Mas ver o irmão assim, só fazia o sorriso faceiro no rosto do americano aumentar.
— Arthur, tem mais de um mês que você vem aqui todos os dias.
— Ordens médicas.
— Eu liguei para o Kiku. Disse que você só é sedentário. – O americano revirara os olhos, e cruzara os braços – Meio ridículo que você estava escondendo algo simples assim de mim. E ele disse também para você não exagerar nos anti-inflamatórios.
— Quem te deu permissão para ligar para o meu médico? – Arthur aumentara a voz, indignado pela atitude do mais novo, mas Alfred resolvera ignorar a pergunta mesmo assim.
— Está na cara que vem por algum motivo.
— Estou cuidando da minha saúde, apenas.
— Eu vim aqui semana passada.
— E por que diabos você não me avisou?!
– Quando eu te indiquei essa academia, foi justamente porque eu tinha um conhecido aqui. Gilbert é legal, e foi um bom treinador na época que eu praticava futebol.
- Alfred, por favor, não é o que está pensando. – Um suspiro desanimado escapara dos lábios do inglês – Beilschmidt é provavelmente uma das pessoas mais irritantes e arrogantes com a qual eu tive o desprazer de encontrar.
- Eu vi vocês conversando semana passada. Ou melhor, vocês estavam discutindo e acho que faltava pouco para pularem no pescoço um do outro. Você tinha aquele mesmo brilho no olhar de quando se encontrava com Francis. Não sei qual é a tua, mas quando mais discute com uma pessoa, mais você gosta dela.
O americano encarara o irmão com uma expressão tão séria que Arthur não sabia como reagir ou retrucar. Logo, ele apenas abaixara a cabeça, massageando as têmporas e sentindo-se cansado, mesmo que ainda não tinha começado a ginástica naquele dia.
- Eu vou te ajudar nessa. Está na hora de você mudar de vida, não? – Foram as palavras finais do americano, pois, por mais que Arthur tentasse persuadi-lo, Alfred não ouviria. E ao longe, ele podia ouvir Gilbert mandando-o (E como aquele idiota se atrevia a lhe dar uma ordem?) se apressar.
Notas finais
- Sobre a idade do Arthur e a sua formação acadêmica: Ele parece um pouco novo para ter toda essas formação acadêmica, mas eu tirei de exemplo um dos meus professores universitários. Ele tem 31 anos e já terminou o seu doutorado. Portanto, é perfeitamente possível.
- Sobre o problema de saúde: Sedentarismo dói. Acredite. Eu tenho um problema no meu joelho por isso. Me mandaram fazer exercícios físicos mas quem disse que eu vou? Então, eu estou baseando isso no minha experiência mesmo.
- Sobre Gilbert ser um albino: Ugh, albinismo é uma doença genética e seria difícil escrever. Sinto muito? :'D (Eu sei que albinos tem problemas de visão, tá aí).
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Espero que tenham gostado, e comentários são legais ;3;
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