- É só por uns tempos. – Disse Julia a Charles.

Ali estavam eles... No escritório de Charles, Julia sentada de frente para ele como se fosse uma consulta médica. Os olhos grandes inchados e brilhantes com o excesso de choro.

Bom, assim que Julia deixara a casa de Logan com sua mala, ela se dirigiu para o escritório de Charles. Eles conversaram a madrugada toda, e descobriram compartilhar a mesma opinião. Que isso poderia ser superado com união e amor. Algo totalmente diferente da opinião de Logan, que queria resolver tudo com afastamento e teimosia particularmente exagerada. Charles contou a ela a discussão que ele mesmo teve com Logan e logo tudo ficou esclarecido. O motivo de Logan abandonar Julia era já bastante claro, porém, tido como inútil e ineficaz tanto para Charles como para Julia.

Era como ter dois caminhos a seguir. Um fácil e um difícil que levariam a um mesmo destino e insistir no caminho difícil por acreditar que deve ser assim. Inútil.

Dessa maneira, Julia resolvera passar um tempo em sua casa original. Não estava se ausentando dos X-Men. Apenas passaria um tempo com o seu pai, longe daquela confusão estressante.

- Não quer mesmo ficar? – Perguntou Charles, embora não tivesse se oposto à sugestão dela.

- São só umas semanas fora. Continuo sendo uma X-Men... Só preciso relaxar um pouco. Em breve, estarei de volta.

- Está bem... Se cuida, e fica bem, Julia. Sei que iremos resolver isso. – Charles a tranqüilizou. Sabia que Julia precisava desse tempo só pra ela.

- Obrigada, Charles. Por tudo... É como se fosse meu segundo pai. – Agradeceu Julia, conferindo-lhe um abraço.

Um abraço assim, gracioso e paterno na sua simplicidade. Quem sabe até fraterno, ou de professor para aluno?

Assim, Julia saiu da Mansão sem fazer alarde, embora soubesse que todos lá dentro já estavam cientes dos acontecimentos tanto quanto ela. Scott foi se despedir e garantiu que tudo se ajeitaria e disse que a vida tinha dessas coisas. Scott era assim... Sempre parecia seguro de si e de suas atitudes. Kitty se despediu e prometeu visitar. E, assim, tão cedo quanto poderia desejar, Julia estava no aconchego de seu outro lar. Na casa de seu pai, abraçada com ele e contando sobre os recentes acontecimentos.

Enquanto contava, o pai de Julia, Rudolph, não se intrometia muito, o que caracterizava seu jeito sereno e otimista de ver as coisas. Como Scott. Mas, mesmo assim, as mais singelas palavras de conforto, vindas de seu pai, já eram mais do que o necessário para Julia.

Tudo transcorreu bem durante um mês, mas choros à noite, seguido de sonhos felizes como o passado, eram freqüentes. Por que negar que sofria? Porque, de fato, Julia o fazia. Passou a maior parte do tempo ocupando-se com trabalho em casa, para evitar pensar em tudo que a faria escorrer como um rio em delta.

Mas nada disso evitava que deixasse de sofrer ou de amar Logan. O motivo de suas lágrimas e de sua mais pura felicidade.

Entretanto, essa monotonia fora quebrada por algo inimaginável.

Julia começou a ter quedas de pressão freqüentes. Muito sono, enjôos e desmaios. Para uma mutante como ela, aquilo era de fato estranho. Da primeira vez, pensou ter sido um mal estar causado por um jantar pesado, mas não parou.

Os mesmos sintomas. Direto. Possibilidades aterradoras. Mas foi quando Julia se observou no espelho atentamente que pensou em outra possibilidade. Remota, era verdade, mas perfeitamente possível. Perigosamente possível. Isso porque, se essa possibilidade viesse a se confirmar, agora o problema com Logan não envolveria apenas Julia. Teria outra pessoa no meio disso tudo. Uma pessoa, talvez a única, com o poder de mudar tudo.

Julia assustou-se com a idéia.

Mas de nada lhe adiantaria ficar naquela dúvida. Precisava de confirmação. E, depois de algumas horas, se viu contra a parede. Era como se as paredes de seu antigo quarto ficassem cada vez menores, ou como se ela gritasse a plenos pulmões sem ninguém para ouvi-la. O que fazer agora? Toda sua vida seguiria um rumo completamente diferente e, por que não dizer, obscuro. Colocara em risco sua vida, e a vida dos X-Men. Pensou em seu futuro. Talvez a raça toda de mutantes corresse risco mais para frente...

Não podia chamar aquilo de erro... Mesmo porque, o que era errado era o momento, a circunstância. E Julia pensou em como lidaria com tudo aquilo sozinha, porque não tinha por perto quem mais precisava. Foi assim que tomou outra decisão.

Enquanto chorava sentada no chão da sala, em um dia fatídico. Decidiu que contaria primeiro a quem mais interessaria saber. A quem tudo se resumia, além dela, é claro.

Não importava como. Logan tinha que saber de tudo, independentemente de sua reação.

Julia tentou durante 1 semana inteira. Todos os dias, pegou o telefone com suas mãos trêmulas e discou o número particular de Charles Xavier. Na maioria das ligações, ele atendia com certo entusiasmo e parecia deveras compenetrado em ajudar. O problema era que Logan não estava disposto a nada. Julia teve certeza logo na primeira recusa que ele a estava evitando.

- Oh, olá, Julia... Como vão as coisas? – Indagou Charles animadamente.

- Bem. – Falou Julia, mesmo tendo certeza do oposto. – O Logan está aí? Preciso muito falar com ele. Muito... mesmo.

Mal sabia ela... Charles Xavier franzia o cenho, a expressão abatida, estendo o telefone para um Logan severo e rude, que prontamente o ignorou, batendo a porta enquanto ia se retirando.

Mas tudo se tornava aos poucos insuportavelmente doloroso.

As mudanças repentinas. O rompimento com Logan. As discussões. Outra certeza que vinha para mudar tudo com rastro de destruição. E como contar a Logan? Como contar a qualquer pessoa, quando tudo que Julia mais queria era sumir? Porque de fato seria mais simples que ela simplesmente evaporasse no ar. Que seu estúpido poder mutante nunca tivesse existido, para não colocá-la no caminho de quem agora já não podia viver sem.

Mas a vida ainda estava lá. Duas vidas. E se Julia lutava para encarar tudo com a mais pura coragem e determinação (ainda que vãs), era porque havia alguém que dependia dela. E que ela não poderia abandonar.

Dessa forma, Julia reuniu o que lhe restava de sanidade e perspicácia para não deixar nenhum sentimento negativo transparecer em sua casa. Atuou, por muitas vezes, para negar sentimentos que ainda estavam batendo em sua porta. Atuou para seu pai, pensando que haveria algo maior esperando por ela.

Assim, depois da última ligação a Charles e da última frase dita por ele, ressentida: “Não, Logan não está. Eu aviso que você ligou.”, Julia decidiu ir até a Mansão.

Tentara simplificar as coisas, tentara ligar a Logan no mínimo umas dez vezes, mas Charles sempre dizia que ele não estava. E Julia sabia que não era Charles que tentava acobertar Logan, mas, sim, Logan que não atenderia ao telefone, ainda que este estivesse ao seu lado. Logan não queria vê-la ou falar com ela. Então porque Charles diria que ele estava lá? Magoar Julia não fazia parte dos planos dele.

Ademais, ela dirigiu o conhecido Ford Focus de seu pai até o Instituto, resoluta. Não sairia de lá sem falar com Logan.

Julia tocou o interfone, mas nenhum dispositivo de segurança adicional se ativou. Isso porque talvez o sistema ainda a considerava da casa, ela não sabia ao certo... Dessa maneira, um holograma apareceu diante do interfone, com a imagem de Charles Xavier e Kurt.

- Ah, oi... O Logan está por aí? Pensei que ele estivesse, já que é hora do jantar.

Charles sorriu levemente, e Kurt, acenando, olhou para a direita. Teve certeza que o olhar dele se dirigiu mais do que somente para a porta do escritório de Charles.

- Ah, olá, Julia... Ele está, sim. Espero que possam conversar e resolver qualquer problema que seja. – Anunciou Charles, girando os olhos reprovadores para o mesmo ponto que Kurt olhara anteriormente. Seguiu-se então um bater de portas característico. Só alguém batia as portas daquele jeito...

Mas Julia sentiu-se desolada.

Descobrira uma notícia fatal que envolvia ninguém além de ela mesma e de Logan. Mas como contar a ele algo tão importante e vital, quando ele a ignorava sempre que possível? Não atendia telefonemas, não queria vê-la pessoalmente. Ainda continuava cego, cego em sua teimosia de mártir, em sua teimosia de animal selvagem e ignorante que insiste em fazer tudo a seus próprios métodos, ainda que estes estejam se provando estupidamente cruéis.

E, no calor do momento, com tantas lembranças e perspectivas futuras nada animadoras, Julia desmaiou sobre a calçada da Mansão para jovens superdotados Charles Xavier.

- Kurt! Teleporte-se e traga Julia aqui para dentro! – Gritou Charles, observando o holograma que continha Julia caída no chão. O rosto tão pálido quanto o de Emma Frost.

Kurt mal respondeu. Apenas materializou-se na calçada do Instituto e pegou Julia desajeitadamente no colo e novamente teleportou-se no escritório de Charles.

- O que aconteceu com ela? – Perguntou Kurt, enquanto Charles deslizava sua cadeira em direção a um filtro de água gelada.

- Não sei... Mas é algo sério. Ela está muito pálida...

Kurt colocou Julia em uma das cadeiras, e ele e Charles ficaram cuidando dela. Charles colocou água em um pano e passou na testa de Julia, enquanto Kurt levava água aos lábios dela pelo menos na tentativa de que despertasse.

- Ah... – Murmurou Julia, sentindo que recuperava a consciência. Só desejou ainda ter tempo de consertar as coisas e fazer o que devia de uma vez por todas.

Procurou pelo chão de cimento da dura calçada, mas encontrou apenas o estofado fofo de uma cadeira na sala de Charles.

- Você se sente melhor? – Perguntou ele, parecendo aliviado.

- Sim. Eu estou bem. – Comentou Julia, piscando os olhos na tentativa de reunir disposição.

- O que você tem, Julia? – Perguntou Charles, incisivo. Não dava pra esconder nada dele, mas a notícia chegaria a seu devido momento. Ainda assim, Charles teria suas desconfianças. Ele sempre sabia.

Julia acenou para Kurt, agradecendo o resgate e a água.

- Obrigada, Kurt. – Disse ela, bebericando a água.

- Julia... – Chamou Charles.

- Tem acontecido direto. É apenas uma... Queda de pressão. Dor de cabeça, desmaios, sono... Eu vou ficar bem. – Contou ele, omitindo grande parte da verdade.

Seguiu-se um silêncio aterrador, que foi interrompido por Charles olhando Julia fixamente nos olhos, como se uma conversa íntima se estabelecesse entre eles apenas com base nos olhares. Porque, dizem, os olhos são a janela da alma, e, pelo menos neles, Julia não conseguiria ocultar nada. Teve certeza de que nesses segundos Charles captou boa parte de tudo que acontecia.

- Sei. – Finalizou ele.

Depois disso, Charles suspirou longamente. A expressão dele era a mesma de alguém que vê o futuro, sabendo que terá de lidar com muitos problemas para manter tudo em ordem e sob controle. A expressão cansada e resignada de alguém que sabe que ter muitos desafios pela frente para manter as coisas no lugar. Ele sabia...

- Bom, porque você não leva Julia para a cozinha, Kurt? Acho que ela quer comer alguma coisa...

E então, enquanto era guiada por Kurt, Julia viu o último olhar de Charles. Algo entre incentivo e pena.

Não houve surpresa, embora pudesse ter havido.

Charles devia ter captado a mente de Logan e visto em que cômodo ele estava, mandando, assim, ela para este mesmo cômodo.

Incrível como o roteiro de um diálogo mais ensaiado pode ser esquecido quando se presencia a cena de fato. Julia, ao vê-lo, esqueceu-se de xingamentos e falas especialmente designadas para essa ocasião. Mas não precisou forçar nada. Logan estava sentado na bancada da cozinha, as mãos cerradas em punhos. Provavelmente esperando que Julia fosse embora. Não contava com a presença dela bem ali.

Ele sobressaltou-se por um segundo, depois pareceu costumeiramente irritado.

- Julia... – Falou, evitando olhar para ela.

- Aqui, Julia. – Chamou Kurt, só então sendo notado por Logan. Ele fazia um belo sanduíche. – Não se esqueça de comer. Não queremos ninguém batendo a cabeça na calçada!

- O que aconteceu? – Perguntou Logan, não se dirigindo especificamente a ninguém.

- Ela desmaiou. Disse que tem tido isso várias vezes, não é, Julia? – Falou Kurt enquanto preparava alegremente o sanduíche. Como sempre, deixando escapar mais do que devia.

Não que não quisesse que Logan soubesse dos recentes acontecimentos, o problema é que esse mês sem Logan era como um vazio, um buraco incapaz de ser preenchido e insistentemente capaz de trazer à tona dor mista de alegria, momentos que um dia valeram mais do que tudo. Porque olhar novamente, depois de tanto tempo, para Logan, era isso. Lembranças. Dor mista de alegria e com pitadas de raiva. E porque não lembrar, felicidade.

- Desmaiou? – Perguntou Logan, agora se referindo a Kurt.

Julia odiava isso. Os dois discutindo sobre ela, sem se referir a ela, enquanto estavam bem diante dela.

— Sim. Um desmaio e tanto! Você tinha que ver... – Continou Kurt, feliz por ter algum furo para contar. Kurt era um bom rapaz, com um fraco para comunicação.

- Pensei que não se importasse. – Lançou Julia acidamente, postando-se entre Logan e Kurt. Estava decidida.

- Eu nunca deixei de me importar. – Falou Logan, baixinho. Ele parecia sem dúvida mais velho e amargurado. Um aroma de Uísque e de briga parecia emanar dele.

- Percebe-se. – Ironizou Julia, esquecendo-se por um momento do que a trazia ali.

- Não vou discutir de novo. Cada um teve seus motivos. Você sabe disso. – Falou Logan, encarando-a nos olhos pela primeira vez em tempos.

Achou-a fraca, com a aparência frágil e com os olhos castanhos grandes anormalmente inchados. Choro.

- Você teve seus motivos, Logan. Eu não tenho nada com isso.

- Por que está aqui, então? – Perguntou Logan, rispidamente.

- Eu tenho uma coisa pra te falar. – Começou Julia, sentindo o estômago revirar.

- Fale.

- Bom, eu tentei, mas acho que você estava muito ocupado sendo estúpido quando ignorou minhas ligações. – Alfinetou Julia, cruzando os braços. Um leve rubor apareceu sob a barba mal feita de Logan.

- Eu não queria piorar as coisas. Não pense que é difícil só pra você. – Falou Logan, chutando uma cadeira discretamente.

- Está sendo assim porque você quer.

- Apenas diga. – Falou ele, gesticulando impaciente.

- Aqui não. Vamos dar uma volta no meu carro. É uma coisa muito importante. E, posso garantir, interessa a nós dois.

Julia seguiu sem rumo no volante, com Logan a seu lado.

Ela comera o sanduíche após uma chata insistência de Logan e Kurt, que parecia resoluto em mostrar seus dotes culinários. Assim, ela e Logan seguiram em silêncio até o carro, Julia deu a partida e partiu para nenhum lugar específico de NY.

O silêncio só foi quebrado quando, depois de uns metros longe da Mansão, Logan perguntou:

- O que houve, Julia? Se é tão importante quanto diz, eu quero saber.

Logan estava apressado e urgente, provavelmente querendo acabar logo com tudo aquilo. Afinal, que coisa tão terrível fizera Julia agir tão insistentemente nos últimos dias? Curiosidade e, acima de tudo, preocupação, eram palavras que dominavam Logan por inteiro naquele momento. Comprometera-se em proteger Julia, anulando até mesmo sua própria felicidade e seu desejo, e a idéia de que algo a pudesse atormentar era como uma afronta direta do inimigo.

- Olha, não quero que pense que estou triste com isso ou arrependida. Porque não estou. Também não quero que pense que estou fazendo disso uma chantagem. Eu seria incapaz.

Falou Julia, falhando ocasionalmente por causa de uns soluços indicativos de choros próximos.

- Seja direta, Julia. O que está acontecendo? – Falou Logan, impaciente.

Mil possibilidades passaram pela mente dele. Mal podia ele imaginar que a mais remota seria a verdadeira...

Enquanto isso, Julia pensava na reação dele. Se ficaria alegre, esfuziante, ou se ficaria triste e ressentido, como se lhe roubassem o futuro de lutas e glória. Se tentaria abraçar a causa ou se fugiria dela, simplesmente não querer alterar seu modo de vida.

Mas a verdade batia em sua porta.

Julia respirou e anunciou:

- Logan, eu...

- Espere! – Anunciou Logan inesperadamente, olhando pelo retrovisor. – O Magneto está atrás de nós!

Notas finais
Acho que alguns vão sacar o que está acontecendo, hahaha, mesmo assim, continuem acompanhando :)