Wolverine: Uma História
13 Recomeço
Julia acordou do torpor um bom tempo depois.
Abriu os olhos lentamente e piscou-os repetidas vezes. A claridade – ainda que leve -, a incomodava. Entretanto, forçou-os a abrir e deparou-se com uma casinha diferente da Mansão em si. Começou então a esquadrinhá-la com os olhos, observando tudo o que seus olhos podiam alcançar.
Era a casa de Logan, um pequeno espaço perfeitamente quadrado reservado só a ele no quintal da Mansão. Não era grande coisa, mas ela pensou que deveria ser ótimo para um cara solitário como ele. A porta estava aberta e dava direto no quarto dele, que continha uma cama de casal, um pequeno armário e uma estante que servia de suporte a uma televisão antiga. As duas janelas que havia no recinto estavam na sala e na cozinha.
As paredes tinham tom de um branco levemente amarelado. Ao fundo, havia uma bancada com duas cadeiras que dividia o quarto da pequena cozinha. Nessa cozinha, apenas o essencial. Julia supôs que ela não era muito usada. Havia um pequeno armário mal acomodado no canto, um fogão e uma geladeira antigos. E, no canto mais afastado, um banheiro de aparência igualmente simples. Com certeza, quem mantinha a casa limpa e em ordem deveria ser Kitty e Ororo. Logan não fazia o tipo organizado que se importava com a aparência das coisas.
Depois de muito observar a casa para se distrair da realidade, Julia não evitou que o baque das circunstâncias a tomasse. Lembrava-se de tudo e sempre se lembraria, independente das coisas que fizesse para se distrair. O plano, a vitória, as dores e machucados, e o fato de que ainda devia explicações para um bando de pessoas que provavelmente deviam estar esperando por ela.
Julia não sabia como proceder. Como contar para os X-Men que ela fingiu ser parte da Irmandade para cumprir uma missão? Ela pensaria nisso depois. De qualquer forma, o que importava era que ela tinha conseguido. E, além de conseguir trazer as Joias do Infinito em segurança, ela conseguiu sobreviver.
Já estava satisfeita com tudo e resolveu aplacar suas emoções e relaxar. Tudo estava bem, afinal de contas. Exceto pelo fato de que nesse exato momento Magneto queria matá-la. Mas nem isso a abalou. Ora, como X-Men, muitas pessoas desejavam constantemente matá-la. Isso era um detalhe. Apenas fixou-se no fato de que vencera e de que estava viva. Ela relaxou, e deixou que o tempo cuidasse do resto.
Julia levantou-se da cama e sentiu uma leve tontura tomar posse dela. Ignorou-a e levantou-se, decidida em caminhar até a Mansão. Quando Julia ficou de pé, se deu conta de quanta fome sentia. Ela atravessou a porta e apoiou-se no batente para não cair.
O sol brilhava intensamente no meio de um céu sem nuvens.
E foi só então que ela percebeu que Logan estava sentado no chão da varanda, olhando para frente com os olhos distraídos.
- Achou que seria fácil escapar? – Perguntou ele de maneira zombeteira.
- Por quanto tempo apaguei? – Julia interrompeu-o secamente. Pensou se lembrar de Logan cuidando dela e de seus ferimentos. Provavelmente tinha sido uma alucinação provocada por algum remédio excessivamente forte.
- Três dias. – Respondeu ele, voltando-se na direção dela.
- Caramba!
- Você usou muito o seu poder, isso te esgotou. O Charles disse. – Afirmou Logan, levantando-se. – Sei que você quer ir logo falar com eles. Não se preocupe.
Julia inclinou a cabeça para poder olhar Logan diretamente.
- Quero mesmo.
- Charles os preparou da maneira que pôde. Deixou claro que você não é inimiga. Mas achou melhor você mesma contar a história. Sem dúvida, eles querem saber...
- Bom, então eu vou... – Anunciou Julia, cambaleando ao menor sinal de tentar equilibrar-se sem apoiar nos batentes.
- Coma e tome um banho antes. Kitty deixou suas malas aqui. – Disse Logan, guiando Julia para dentro de casa e gesticulando em direção a uma mala preta na base da cama.
Julia abriu a sua mala e observou suas roupas cuidadosamente dobradas. Somente Kitty faria uma coisa daquelas.
Logan andou até a cozinha, tirou algo do armário e colocou café em um copo de vidro comum.
- Eu não costumo comer por aqui, então desculpe. É o que tenho.
Então colocou na bancada um copo de café, um pacote de bolachas salgadas e outro pacote com bolachas doces. O estômago de Julia, ávido por comida, não estava em condições de exigir ou reclamar.
- Obrigada. – Agradeceu Julia, comendo avidamente assim que pôde por a primeira bolacha na boca.
Logan não comeu nada, a não ser um mínimo gole do café. Ele se sentou ao lado dela na bancada, mas não puxou assunto em momento algum.
Quando Julia terminou de comer, ela levantou-se e falou:
- Bom, vou tomar um banho então.
Logan assentiu.
Ela foi até o banheiro e separou sua roupa do dia. Nada muito extravagante, apenas uma regata preta e um shorts. Ela escovou os dentes e observou a sua imagem no espelho. Machucados visivelmente melhores e menos arroxeados. Em seguida, ligou o chuveiro e permitiu que a água morna corresse por ela, anuviando e anestesiando os resquícios das últimas batalhas e também as dores musculares.
Ficou assim por um bom tempo. Lavou o cabelo com seu xampu e condicionador, que estavam em um compartimento especial de sua bolsa. Sem dúvida, a água morna aliviou a tensão em seu corpo e diminuiu a rigidez deste.
Quando Julia saiu do banho, secou-se, trocou-se rapidamente e penteou os cabelos. Ela arrumou os cabelos molhados em uma única e longa trança que lhe caía pelas costas até a cintura.
Saiu do banheiro e encontrou Logan sentado na porta, fumando um charuto cubano barato.
- Vou até a Mansão. – Anunciou Julia em alto e bom som, esperando tirar Logan de seus devaneios o mais rápido possível.
- Eu vou com você. – Respondeu ele, a voz alterada pelo charuto na boca. – Não perderia essa por nada.
Ao entrar na sala principal, Julia se deparou com vários olhares curiosos sobre ela.
A grande maioria dos mutantes que ali se encontravam estavam dispostos ao redor da mesa de jantar. Os olhares ávidos e ansiosos por uma explicação. Aparentemente, a explicação que Charles lhes fornecera, ao invés de atenuar os ânimos, apenas os deixou ainda mais sedentos de informação.
Julia engoliu em seco ao se ver do lado de Logan e diante de tantas pessoas. Ela focalizou uma cadeira intocada na ponta da mesa e calculou que aquele deveria ser o seu lugar, então, andou a passos lentos e hesitantes até à cadeira, mas não se sentou. Afastou-a da ponta da mesa, de modo que tinha agora mais espaço para si e para todos poderem observá-la.
Dessa forma, ela começou a observar os rostos na mesa. Do seu lado direito, Scott, com o rosto encorajador de sempre; Jean, inexpressiva e contida; Kitty, sorrindo animada; Kurt, fazendo um sinal de positivo com as mãos, entre muitos outros. Em suma, os olhares eram aprovadores, o que já era um bom sinal. Ela notou também que Charles havia se postado ao lado de Logan, irritantemente mais baixo devido à sua cadeira de rodas. Esses dois se encontravam um pouco atrás da mesa, de modo que pudessem participar da conversa, mas manterem-se meticulosamente afastados.
Julia pigarreou e o murmúrio baixo que vinha da pequena multidão cessou.
- Bem... – Ela começou, insegura. Precisou altear a voz. – Acho que o Professor Charles contou a vocês algumas coisas. Mas eu acho que devo a vocês uma explicação que parta da minha boca. Pessoalmente.
Outro murmúrio agitado de incentivo. Julia observou que Jean murmurou irônica algo como: “É claro que deve uma explicação!”, mas foi aquietada por Scott. Julia permitiu-se usar seus poderes e fez com que uma leve calmaria domasse todos. Ela sabia que apenas duas ou três pessoas ficariam imunes a isso, mas mesmo assim o fez.
- Então. Vamos começar pelo começo. – Outro murmúrio recheado de risadinhas contidas. – Magneto se aliou a Dentes de Sabre para, junto com a Irmandade, conseguirem pegar as Joias do Infinito. Cinco Joias que conferem poderes praticamente ilimitados a quem conseguir reuni-las. Ele possuía três delas. Estava em busca da quarta e da quinta.
Julia fez uma pausa para respirar.
- Charles ofereceu-me, então, uma missão. Eu teria que passar para o lado deles e, aos poucos, conseguir descobrir a localização das tais Joias. E, assim, trazê-las para o Instituto. Achei melhor não contar a ninguém, pra atuação ficar mais convincente. E, depois desses meses todos, consegui descobrir onde as Joias estavam, e as trouxe para cá.
Novamente, Julia observou aqueles rostos a observarem. Eram tantas expressões diferentes, mas, no fim, todas acabavam sobressaindo algum traço de admiração, como se fossem crianças ansiosamente esperando o professor contar uma história.
- Não foi fácil. Nem divertido. Charles não enxergou outra pessoa capaz de realizar o plano, e eu tenho consciência que eu era a única que podia concluí-lo. Peço desculpas se feri os sentimentos de alguém, ou se decepcionei algum de vocês. Mas sou uma X-Men e eu tinha uma missão pra cumprir sozinha. Sei que vocês me entendem e entendem porque eu fiz isso dessa maneira. Vocês são todos corajosos e capazes. Só queria ser como vocês.
Julia fitou Scott. Ele tinha a expressão de um professor com muito orgulho de um aluno. Charles encontrava-se calmo, mas com um sorriso iluminador.
- Perguntas? – Julia indagou, esperando, na realidade, que pudesse ir para seu quarto.
- Você foi incrível. Não vou dizer que não quis te matar, mas ainda assim foi incrível. – Disse Kitty, levantando-se.
- É mesmo... Foi muito corajosa. Agiu como uma verdadeira X-Men. – Completou Kurt.
E assim, uma nova onda de vivas se seguiu. Julia queria muito demonstrar mais animação, mas só conseguiu sorrir. Estava preparada para uma comemoração singela e discreta. Nada de vivas ou algo mais impactante. Merecia apenas um cumprimento pela sua missão. Nada mais. As suas últimas ações (ainda que decorrentes de atuação) não justificavam, sequer, o recebimento de mais.
Entretanto, Scott entoou:
- Você foi muito corajosa. Enfrentou sozinha o Magneto e sua corja de mutantes... Lutou bravamente em nome do que acreditava, sempre preocupada com seu objetivo final. Obrigada por fazer parte de nossa equipe
- Fico feliz por ser digna dos X-Men... – Disse Julia timidamente, acenando para os que gritavam para ela e para Scott.
- A questão não é essa. – Interrompeu ele, levantando-se da cadeira. Sua voz que inspirava liderança cessou os murmúrios restantes. – A questão é que... Agora, os X-Men são dignos de você.
Nem mesmo Julia acreditara no que ouvira.
Secretamente, tivera uma vaga vontade de chorar. Como ela agora amava o que fazia, como amava os colegas, o Professor Charles... Como se sentia em casa. Verdadeiramente. E, pensou também que, nessas circunstâncias, não pudera ter recebido elogio melhor. Ainda mais vindo de Scott.
Julia percebeu que era tarde demais. Atrelara-se a isso tudo. Fazia parte disso e jamais teria como sair ou abandonar. Ela fazia parte dos X-Men e nunca se sentira tão feliz por isso, nem tão acolhida como até então.
- Obrigada, mesmo. – Ela disse a Scott. Foi com felicidade que ela percebeu que Scott captou tudo o que ela quis expressar nessa pequena frase.
Assim, todos foram se dispersando aos poucos e voltando aos seus afazeres normais. Era um domingo de manhã, de modo que os mais jovens não foram à escola e dedicavam-se a treinar ou a sair para se divertir.
Enquanto a dispersão ocorria, Julia era recebida alegremente de volta pelos companheiros. Todos proferiam palavras de congratulação e admiração. Kitty, Kurt, Evan, Ororo, Vampira... Todos a cumprimentaram e aos poucos tomando seus caminhos.
Julia percebeu que Jean ainda permanecia sentada, parecendo categoricamente entediada. Era como se esperasse a sala esvaziar para falar com Julia. Mas era claro que Jean não iria elogiar Julia em público. O ego dela não estava preparado para isso. Além do mais, Jean não admitiria em possibilidade nenhuma que ela estava errada esse tempo todo e que Julia nunca fora traíra. Cumprimentar Julia com um belo discurso de coragem estava fora de questão para Jean.
Julia esperou, e, quando a sala de fato esvaziou, confirmou suas suspeitas. Ela encontrava-se casualmente de pé, postada ao lado da mesa principal. Jean levantou-se e aproximou-se aos poucos. Ela chamou Julia a falou com a voz rouca e resignada:
- Julia... Não lhe devo desculpas. Tudo o que fiz foi uma resposta à sua atuação, portanto, não foi errado. Mas... devo admitir que foi muita coragem da sua parte. Você agiu como eu faria. Como um X-Men faria. E devo dizer que tenho orgulho em ter você no grupo. Mas... sua atuação foi bem convincente. Convincente mesmo.
Era bastante claro, também, que Jean não faria um elogio a Julia sem pontuá-lo por ironias. Ironias ácidas acerca do lado o qual Julia pertencia. Ironias sobre a natureza dela. Típico, aliás.
- Obrigado Jean. Eu também não lhe devo desculpas sobre pisar em sua mão. Era atuação, não é mesmo?
E, com essa outra ironia, Julia se dirigiu para a cozinha. Antes, acrescentou, olhando novamente para Jean:
- Aliás... É bom ter você na equipe também. Obrigada.
E as duas trocaram um sorriso mútuo não de amizade exageradamente forçada, mas de, pelo menos, aceitação e, acima de tudo, orgulho.
Julia se dirigiu à cozinha. Estava com fome pelos três dias em que ficara apagada e pela manhã exaustiva contando a sua missão aos colegas. Eles finalmente sabiam e era ótimo estar aliviada por não esconder mais nada de ninguém. Eles estavam cientes do fato de que Julia apenas atuara e que, na verdade, sempre fora e sempre seria uma X-Men. Ela era pare do grupo e lutava por ele acima de qualquer coisa.
Mas as bolachas da manhã não foram suficientes. Precisava comer. Abriu um armário na cozinha da mansão e fez uma deliciosa refeição com direito a pão de queijo, achocolatado e cookies feitos por Kitty.
- Desculpa interrompê-la... Eu sempre faço isso. – Disse Charles, aparecendo subitamente.
- Imagina... É seu, quer dizer, nosso trabalho. – Ela falou, sorrindo.
- É que... Bem, gostaria de lhe falar uma coisa.
Julia estremeceu levemente. Lembrava-se da maneira que Charles falara com ela quando pediu que ela participasse da missão. Esse mesmo tom cauteloso e ligeiramente misterioso. Não que não faria outra missão, porque, logicamente, faria. Mas Julia estava cansada demais e a ideia de todos a odiando novamente revirou seu estômago. Queria um pouco de paz.
- Diga. – Ela falou, depois de um longo tempo.
- É que, na sua ausência, novos alunos chegaram. Alunos... Menos estáveis que você. – Ele disse, encarando Julia com os olhos pesarosos e sábios. – Eles precisam de atenção, treinamento e cuidado. Eu posso fazer isso, já que você superou a fase de treinamentos inicial e está muito mais preparada e controlada.
Julia sorriu, mas ainda não entendia onde ela entrava na história.
- Julia, eu vou continuar treinando você. Ajudando você a controlar seus poderes mentais. Mas, creio que você não precisa de nada muito intenso. Está quase completamente treinada. Evoluiu muito desde que chegou aqui...
- Pode ir direto ao ponto, Charles... – Julia pediu suavemente, novamente ardendo de curiosidade.
- Os novos mutantes não tinham onde ficar... Tive que colocá-los no seu antigo quarto. Agora, você terá de morar no único lugar disponível... Você vai morar com Logan.
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