Outro relâmpago cortou os céus; seu estridente barulho não me assustou daquela vez. O clarão matou a escuridão da noite por um segundo, e iluminou a sala. Eu olhava os dois corpos estendidos no chão, sentindo de longe que estavam começando a esfriar. Era inevitável, eu reparava na face de dor, horror e medo de meus pais, desejando em silêncio que o tempo voltasse.

Sim, eu matara meus pais.

Não foi algo que eu quis fazer. Não foi algo que eu conseguisse controlar. Eu simplesmente senti uma forte dor em meu olho direito – uma dor incontrolável que me fez desejar a morte, se ela me aliviasse – e gritei, como qualquer criança de sete anos faria. Meus pais chegaram na sala, correndo. Um segundo depois, estavam gritando em horror e dor, e no seguinte, estavam caídos no chão.

Mortos.

A dor em meu olho passou; antes ela continuar do que chegar o aperto que me veio em seguida. Minhas pernas tremeram, e eu caí de joelhos no chão. A mão direita ainda sobre o olho, que sangrara bastante.

Eu estava com medo.

Outro relâmpago iluminou a sala. Desta vez, eu gritei. Gritei de medo, de horror, de tristeza. Em plenos sete anos de vida, eu não sabia como reagir, não sabia o que fazer. Levantei-me num pulo assim que entendi que parara de tremer. E corri. Não sabia para onde, apenas queria estar longe dali. A porta da cozinha era a única cuja fechadura me era alcançável. Abri, com alguma dificuldade devido a minhas mãos estarem tremendo, e corri para fora daquela casa.

A chuva estava forte, e minha visão estava criticamente falha. Meu olho direito estava cego – ou pelo menos, era a sensação que eu tinha – e as lágrimas e gotas d’água deixavam turva a visão que me restava. De qualquer maneira, eu continuei correndo, correndo para um lugar qualquer, para lugar nenhum.

O detalhe é que eu morava com meus pais em uma pequena cidade, que era praticamente uma vila. A tal ficava quase à beira da estrada, que por sua vez era cercada por uma mata fechada. E foi lá que eu me enfiei, sem parar de correr. Eu já estava exausta, mas por algum motivo não queria parar de me afastar.

Foi aí que aconteceu. Em um segundo, eu estava correndo; no outro, estava caindo por tropeçar em algo que eu juro não estar ali antes; e no seguinte, estava no chão. Havia batido fortemente a cabeça em uma pedra, e não demorou três segundos para que tivesse desmaiado.

Pelo menos, aquele momento de terror parecia ter acabado.

Mal sabia eu que havia ainda muito por vir.

~~~~~

Acordei meio sem saber onde estava; uma sensação horrível, com certeza. Comecei a me mexer, sentindo um forte incômodo em minhas articulações, e uma forte dor de cabeça. Sentei-me, e percebi que minha visão voltara. Cocei os olhos para acordar devidamente, e me dei conta de estava em uma cama; sim, uma cama. Assustada, dei um pulo para trás, batendo na cabeceira da mesma. Meus olhos correram o lugar que logo reconheci como um quarto – um cômodo desnecessariamente grande e cheio de móveis, brinquedos, quadros e tudo o mais.

Acalmei-me um pouco; a ruim lembrança da noite anterior se foi. Qualquer criança ficaria empolgada com um quarto daqueles. A cama, de casal, tinha uma cabeceira de madeira antiga, porém com um toque atual por ser talhada em borboletas, todas pintadas de roxo; as paredes, todas brancas, eram desenhadas com desenhos abstratos e tons de lilás; o chão era de carpete, este com um tom claro de areia – um pouco mais claro que a cama e os móveis, entalhados como esta; bonecas de porcelana, pelúcias, um cavalo de balanço laranja.

Corri imediatamente para este último brinquedo, montando nele e começando a cavalgar. Não sei se sorri devidamente, mas eu estava mais feliz naquele momento. Senti que aquilo era meu, que alguém me dera aquilo porque se importava comigo. Não fiquei muito tempo ali, porém. Levantei-me e rodeei todo o novo cômodo, estudando-o com meus olhos tão jovens. Parei quando voltei à minha cama; acabei subindo na mesma novamente, e agarrando um grande gato de pelúcia preto que acabei por chamar de Chess.

E estava eu, divertindo-me com meu recém nomeado gato de pelúcia, quando alguém abriu a porta.

- Oh, vejo que já acordou, senhorita Miko. – não sei se minha maior confusão foi ter à porta um sujeito vestido a caráter de mordomo, ou o fato de ele saber meu nome. – Por que não se arruma e desce para o café da manhã?

Assustei-me novamente, mas fiquei quieta em minha cama. Assenti com a cabeça, ou pelo menos acho que o fiz, pois o tal mordomo sorriu e fechou a porta. Ótimo, pelo menos ele tinha ido embora. Agora, eu precisava entender o que estava acontecendo; uma tarefa bem complicada para uma criança de apenas sete anos.

O estranho foi que fiquei assustada, mas não com medo. De alguma forma, senti-me em casa desde que acordei naquele quarto, então processei rapidamente que eu só precisava me trocar e descer para o café, mesmo que eu não soubesse onde estavam minhas roupas ou onde ficava a cozinha daquela casa. Levantei-me, indo até o armário – tão grande que me convenceu rapidamente de que eu encontraria ali tudo o que precisasse, encarando-o.

- Precisa de ajuda para se trocar, senhorita? – outra nova voz invadiu o quarto. Olhei para a porta; era uma empregada, vestida tão a caráter quanto o mordomo. Bem, eu não negaria ajuda de alguém que se vestisse tão bem. Assenti. Recebi um sorriso dela, e a porta foi fechada. Ela veio até mim, abrindo o armário.

De fato, naquele armário, não faltava nada.

Mal tive tempo de olhar os vestidos, as saias, as blusas, as sandálias, os tênis e o que mais existisse naquele armário; a tal mulher – se não garota, de tão nova aparentava – tirou dali uma calça azul marinho, uma camiseta branca e uma sapatilha da mesma cor, e fechou as portas.

Eu fiquei tão adorável naquela roupa.

- Vamos arrumar seu cabelo também, o que acha? – sugeriu-me ela, em um sorriso. Assenti novamente – por algum motivo ainda não falara nada desde que acordara, mas pelo visto isso não era necessário, e sentei-me em minha cama, com ela atrás de mim.

Ela pegou uma escova que estava em minha mesa-de-cabeceira, e começou a pentear meus fios loiros, sem dificuldade.

- Ah, senhorita. – começou, novamente. – Pode me chamar de Hyuna.

- Hyuna. – repeti baixinho, depois de um instante. E aquela foi a primeira palavra que falei naquela casa. – É um nome bonito.

Ela apenas sorriu, e eu voltei a olhar para a frente enquanto ela prendia meu cabelo em um rabo-de-cavalo. Assim, logo eu estava saindo do quarto; a curiosidade fazia palpitar meu coração, e meus atentos olhinhos corriam cada centímetro do corredor, das escadas e, por fim, da enorme sala de estar, onde esperava o mordomo de antes.

- Venha comigo, querida. – disse, e andou para outro cômodo, onde havia apenas uma grande cristaleira e uma mesa para oito pessoas, cujo lugar de uma das extremidades estava arrumado para que eu comesse. Sentei-me. Um pedaço de bolo de morango me esperava. Sorri abertamente, usando de um garfo para comer. O mordomo sorriu diante meu apetite. – A propósito, senhorita. Pode me chamar de Claude.

Apenas assenti para meu mordomo, e continuei a comer. Eu já me sentia em casa, como se sempre vivera naquela casa, com Hyuna e Claude.

Só mais tarde eu entenderia que aquela sensação de conforto não era algo tão positivo assim. Porém, naquele momento, eu estava feliz, completamente desligada do meu recente passado de terror.

Notas finais
Bem, foi esse o prólogo da confusão toda. Desculpem se algo não ficou claro.
Espero que tenham gostado.
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