Wolf Woods
6 Capitulo 5 - Piano Para Dois
Era quinta-feira e como tal iam dentro da carrinha com Alex a caminho do ensaio. Chloe que ia à frente sentada ao lado de Aida reparou que esta estava demasiado focada nalguma coisa.
— Nervosa? – perguntou levando a outra para longe do seu pensamento.
— Muito. Hoje é o primeiro ensaio a sério e tenho medo de errar as falas.
— Não sejas parva! Vi-te ensaiar ontem na ora do almoço e intervalos e tu foste perfeita! — Aida corou e mais nada disse.
*
Marcus e Jenna estavam em cima de palco a explicar como decorreria o ensaio. Todos ouviam com extremo cuidado e alguma ansiedade todas as palavras que eles transmitiam. O espetáculo tinha de sair perfeito! Já iam a sair de palco quando Jenna exclamou e, rodando os calcanhares, voltou a subir atraindo a atenção dos presentes.
— Ia-me esquecendo de algo muito importante! Peço imensa desculpa à pessoa. – juntou as mão em reza e acenou com a cabeça na direção de Chloe – Meninos e meninas, meus jovens tenho a informar-vos que haverá musica de fundo a acompanhar o decorrer das cenas. O instrumento escolhido foi o piano visto que este belíssimo piano – indicou o imponente piano branco – merece ter o seu momento. E para o tocar temos o privilégio de ter connosco uma grande artista desconhecida, que soem os rufos, Chloe Maer! — olharam-se uns aos outros perguntando-se quem poderia ser. Mickael olhou-a espantado ao que ela respondeu com um sorriso tímido. Incentivada por Jenna, levantou-se, e, sob os minuciosos olhares de todos, fez um breve “olá”, voltando-se logo a sentar. – Apesar de não irmos ensaiar com música até as cenas estarem perfeitas prefiro que já o tenham em mente. E agora ao trabalho! – desceu as escadas e sentou-se.
Ainda um pouco surpresos os atores subiram a palco e desempenharam o seu papel, repetindo falas e cenas inteiras com as contantes e meticulosas criticas que lhes eram feitas. Chloe estava certa, Aida fora perfeita. Sem descanso aperfeiçoaram as três primeiras cenas e mesmo assim ainda havia muito por que trabalhar. Já o céu era manchado de tons laranja torrado quando finalmente saíram da sala de atuações. Assim que teve oportunidade Mickael aproximou-se de Chloe mostrando-se incrédulo e felicitou-a, logo Aida se lhe juntou e perguntou porque é que ela não lhes contara. Jenna e os restantes do pequeno grupo aproximaram-se e falaram até que Alex apareceu para os levar para casa.
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— Só estou a dizer que me podias ter dito! – exclamou Mickael pela milésima vez enquanto desciam a rua para casa.
— E privar-me do belo prazer de ver a tua cara quando anunciaram? É que nem pensar! – riu-se Chloe deliciada com a persistente incredulidade do amigo.
A conversa continuou animada até se separarem, hora em que Chloe pôs os phones e continuou caminho. Já escurecera quando sentiu algo que lhe dizia que a perseguiam. Chamem-lhe sexto sentido ou instinto, o que quiserem, Chloe sabia que estava a ser seguida e tinha de fazer algo. Começou a andar mais depressa e espreitou de tempos em tempos por cima do ombro, olhava nervosamente em volta tentando ser discreta. Ouviu algo. Algo se passava definitivamente. Correu pelo atalho. Entrou na floresta e correu o máximo que pode. Ela conheci bem aqueles caminhos. Percorrera-os com o avô quando era pequena, antes de sua mãe ter agarrado nela e se mudado; Nos primeiros verões após a mudança ainda visitavam os avós mas depois… simplesmente deixaram de o fazer. Correu pelos matreiros trilhos, por entre as assustadoras sombras que se alongavam infinitamente. As árvores pareciam ter caras e os ramos serem compridos dedos com sinuosas garras, os arbustos imóveis predadores felpudos e cada barulho, até o mais simples sussurrar do vento, aterrador. Durante a corrida deixou de ouvir o quer que fosse que a perseguia, mas Chloe sabia que ainda lá se encontrava alguém, alguma coisa, algum sere. Um sere grande e peludo que caminhava silenciosamente sobre quatro patas que a reclamara como sua presa. Corria guiando-se pelo instinto até que reconheceu o caminho por onde ia, era o trilho onde correra na primeira manhã, ao longo do riacho e depois as pedras por onde teve de saltar…. Tarde demais. Tropeçou numa pedra e caiu ficando estendida no chão suja de terra. Paralisada não se mexeu e observou a aproximação da besta. Esta caminhou lentamente até que o húmido focinho se encostasse à barriga da pobre rapariga que se esforçava para abrandar o mais possível os batimentos cardíacos. Cheirou-a, provocando-lhe um frio arrepio que a percorreu por inteiro. Suores frios acumulavam-se-lhe. O focinho da criatura subiu até o seu pescoço e quando pareceu estar satisfeita afastou-se até estar sob a branca luz da lua, deixando-se observar pela primeira vez. Era um lobo, o mesmo lobo que vira no dia da corrida. Tentou olhar para todos os lados menos para os olhos do lobo, algo que aprendera nas aulas de ciências quando estudara os animais e os seus hábitos predatórios. Mas os olhos do animal atraíram-na como se ele quisesse que se olhassem nos olhos. Um uivo distante atravessou a noite e passou por eles sem se deter. O lobo levantou a cabeça e uivou em resposta. Olhou uma última vez na direção de Chloe antes de saltar para fora do trilho e a deixar sozinha, entregue à sua sorte.
Chloe chegou a casa cansada e coberta de terra e lama das chuvas que tinham havido, razão pela qual se dirigiu que nem um relâmpago à casa de banho onde tomou duche. Em seguida entrou no quarto onde se trocou e deitou, caindo imediatamente num profundo sono.
— Boa noite meu anjo. – diria mais tarde a avó, quando a fosse espreitar para chamar para jantar e, em vez disso, acabasse a aconchega-la.
*
Com o sucedido Chloe não conseguira reter nada do que acontecia durante sexta-feira. As aulas não passavam de barulho de fundo para a sua pesquisa, os intervalos tempos para reabastecer os meios de pesquisa e confirmar fontes, até o seu almoço substituiu por palavras. Mas por mais que procurasse não encontrava qualquer tipo de explicação para o que lhe acontecera. Só não perdeu a hora de partida para o ensaio porque Mickael a encontrou e arrastou dos desvaneios para a realidade. Durante a viagem olhava pela janela tentando entender algo que parecia impossível. Estava ali à apenas uma semana e já lhe tinham acontecido coisas imagináveis.
*
— Hoje depois do ensaio quero que fiques a praticar no piano. No próximo ensaio deverás ensaiar a parte musical com a Aida e o Kyle e começaremos a introduzir a música nas cenas. Quero que estejas preparada. – informou Jenna a certa altura do ensaio.
Quando o ensaio acabou Marcus dispensou os restantes atores indicando-lhes que se dirigissem à sala de convívio. Saíram todos deixando-a a sós. Clareando a mente sentou-se no banco do piano. Apoiou as pontas dos dedos nas teclas, mas por mais que tentasse não se conseguia concentrar na história. Em vez disso recordou a noite anterior, desde uma tarde calma, à perseguição e ao estranho momento em que ele a cheirou e depois se encararam, o uivo e o seu desaparecimento na noite. Os dedos batiam nas teclas consoante o que sentia, confusão, medo, cansaço. Abriu os olhos quando sentiu alguém a seu lado. Chloe não saberia explicar o porquê, mas manteve-se ombro com ombro com Kyle, tocando o que lhe ocorria, deixando a melodia fluir instintivamente.
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Kyle não saberia dizer o porquê, sabia apenas que sentia algo em relação àquela rapariga, um instinto primitivo que o atraia na sua direção. Na primeira vez que se encontraram… Aquela ligação que tiveram… E na outra vez, tal como agora, que estava enfeitiçado pela sua música, não tinha a mínima noção de como é que ela o fazia, mas de alguma forma… fazia. Voltara à sala para ir buscar o casaco e encontrou-a a tocar. Mas ela não estava a tocar a música da peça, pelo menos não lhe parecia que o fosse. Era algo mais confuso. Mais profundo e íntimo. Não resistiu ao impulso de se sentar a seu lado. Ela estava tão concentrada que só reparara na sua presença quando já se tinha sentado e começado a tocar, acompanhando-a. Pensou que ela se iria levantar e afastar-se atabalhoadamente com a esperada pergunta presa na garganta, mas ela apenas abriu os olhos, não fugiu, não ficou atrapalhada, nem sequer proferiu um som, voltou a concentrar-se e deixou-se levar pelo momento.
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