Wolf Woods

4 Capitulo 3 - O Clube de Teatro


Notas iniciais
Aqui vai mais 1... :)

— Acorda sua dorminhoca. É o teu primeiro dia de aulas e queres chegar atrasada? – gritou a avó.

Tateou à procura do relógio. Entreabriu os olhos e constatou que eram 07.30h. pousou o relógio e voltou a fechar os olhos relaxadamente. De repente abri-os sobressaltada lembrando-se que entrava às oito da manhã.

"Estou atrasada!!!", gritou na sua mente.

Saltou da cama. Sorte a sua tinha apenas dormido com uma blusa por isso vestiu rapidamente um par de calças que se encontravam no chão aos saltinhos, calçou as meias e os ténis estilo 'all star' atabalhoadamente, desfez-se da blusa do pijama e vestiu a primeira camisola que conseguiu agarrar do armário depois de finalmente ter conseguido acertar com os ganchos do sutiã. Agarrou nas coisas da escola e num casaco e correu para a casa de banho. Lavou os dentes, a cara e escovou o cabelo apressadamente. Correu até á cozinha onde deu os bons dias e um beijo aos avós, bebeu o leite de um trago e agarrou numa torrada saindo de seguida porta fora em direção à sua nova escola.

Viam-se vários adolescentes em grupo ou sozinhos e crianças mais novas do mesmo modo a caminhar nos passeios em direção à escola que esperava ser cheia por estudantes que lhe davam vida e confidenciavam coisas dentro das suas paredes.

Caminhou por entre eles enquanto acabava de comer a torrada com os acontecimentos do dia anterior ainda presentes na sua mente. Esforçou-se para os enterrar bem fundo nalgum recanto e prometeu a si própria só os desenterrar quando tivesse tempo para pensar neles com a devida atenção, concentrando-se assim apenas nos olhares e comentários que a rodeariam assim que entrasse na escola que passaria a frequentar.

*

O edifício da escola era antigo e frio, construído por tijolos e telhas. Subindo a pequena escadaria de degraus rochosos desgastos, passou a porta dupla de vidro e ferro. Percorreu os velhos mas cheios de vida corredores com chão em azulejo até á secretaria.

Atrás do balcão de madeira com tampo de mármore encontrava-se uma mulherzinha que a atendeu. Era baixa, com o cabelo castanho curto a emoldurar uma cara redonda, olhos castanhos, nariz franzido onde se apoiavam uns óculos retangulares com fitas de missangas, vestia uma saia às flores onde entalava uma camisa branca e um casaco de malha rosa suave.

— Sim?

— Venho levantar o meu horário e dar entrada.

— Nome completo por favor. – pediu-lhe enquanto a olhava de alto a baixo avaliando-a.

— Chloe Elizabeth Maer.

— Cartão de Cidadão por favor.

Entregou-lhe o cartão. A mulher agarrou e verificou o cartão indeterminadamente. Em seguida fulminou-a como se a qualquer momento uma máscara caísse e revelasse outra pessoa. Quando se convenceu que isso não aconteceria devolveu-lhe o cartão e carregou com força excessiva nas teclas do computador enquanto digitava as informações numa folha de inscrição. Ao fundo uma impressora acordou e a secretária recolheu as folhas que esta cuspiu.

— Aqui tens o teu horário, uma folha com informações e um mapa para não te perderes. – ao que disse entre dentes. — Mas duvido que mesmo assim não o faças.

Enquanto saia da sala consultou o horário. A sua primeira aula seria História. Com a ajuda do mapa localizou o seu cacifo que ficava na área laboratorial e depois de o conseguir abrir desfeche de tudo o que não precisava. Reviu o horário e o mapa e dirigiu-se à sua primeira aula.

*

Entrou na sala e encarou o professor. Era baixo e magro, de cabelo curto loiro pintado, olhos castanho e nariz arrebitado. Vestia uma camisa axadrezada verde e calças castanhas-cremes.

— Tu deves ser a nova aluna! Entra! Entra! Estávamos prestes a começar! – exclamou. Avançou para ele – Turma! Esta é a nova aluna tratem-na bem. Agora calem-se que vamos começar! Sente-se ali. – disse apontando para o lugar do fundo ao lado da janela.

Seguiu pelo corredor de mesas rodeada pelos olhares avaliadores até se sentar.

— Ótimo! Agora abram o manual onde ficamos na última vez.

— Olá. Sou a Chloe. – apresentou-se ao rapaz que se sentava na mesa individual ao lado da sua. – Podes dizer-me qual é a página, por favor?

Olhou-a prolongadamente. Tempo esse que passou a observa-lo. Não se podia dizer que era feio, mas também não era belo, "não como o rapaz do café", pensou. Magro, alto, apercebeu-se pelas pernas compridas, de cabelo castanho claro com a franja a cobrir-lhe a testa, sobrancelhas arranjadas, pestanas em abundância, olhos verdes, nariz pequeno, lábios cheios, vestia uma t-shirt azul engomada e umas calças de ganga, tinha ar de inteligente.

— 175... — virou-se para a frente – Não voltes a falar comigo.

— Porquê? – perguntou surpreendida.

— Olha... — encarou-a – Se queres ter pelo menos uma hipótese de pertencer ao grupo dos "conhecidos"- fez o gesto das aspas com as mãos – aconselho-te a não voltares a falar comigo. Pois como irás reparar eu pretenso ao outro grupo, aquele que o radar social não capta.

— Eu escolho os meus amigos, não o "radar social". – fez o gesto das aspas. – Por isso é melhor ires-te habituando à ideia de teres de me aturar!

Sorriu e abanou a cabeça rendendo-se.

— Sou o Mickael. Mickael Stuart. – estendeu-lhe a mão e Chloe sorriu e apertou-a.

Tomaram atenção à aula. O stor falava de criaturas mitológicas em que se acreditava existirem na idade média.

As aulas seguintes passaram calmamente e até rápido para o que esperava.

*

À hora do almoço, sentou-se numa mesa sozinha ao fundo do refeitório onde se podia resguardar dos comentários, olhos curiosos e da confusão.

— Então como foi a tua manhã? Já decidiste em que clube entrar? – perguntou avidamente Mickael enquanto pousava o tabuleiro e se sentava á sua frente.

— Como qualquer outra manhã num dia de aulas. – pausa – Estou a pensar deixar essa coisa toda dos clubes de lado.

— Ahh, mas isso é que não pode ser! Que espírito de estudante é esse? Aviso já que quando fores uma velha enrugada vais ser uma infeliz resmungona.

— Éhh, que exagero! És mesmo dramático! Que clube é que sugeres então?

— O clube de teatro, é claro! É o melhor dentre todos!

— Deixa-me adivinhar... Tu estás no clube de teatro.

— É claro! – declarou entusiasmado.

— Isso explica o dramatismo. – riu-se.

— Está então decidido, vais entrar para o clube de teatro. Qual é o teu cacifo?

— 1404. Porquê?

— Encontramos-nos em frente dele depois da última aula. O clube reúne-se a essa hora e tu vais comigo.

— Está bem. Eu vou. Mas não prometo nada.

O resto da hora falaram sobre as mais diversificadas coisas, tais como o stor de história, a sua antiga escola, o motivo por que se mudou, ao qual respondeu vagamente.

Tocou. Separaram-se. Foi para a aula de Filosofia, a qual passou a pensar no clube de teatro.

*

Encontrou-se com Mickael em frente ao seu cacifo e este levou-a para um pequeno auditório escondido da vista daqueles que por ele passassem, onde já se encontrava um pequeno grupo de alunos.

Entraram e pousaram as mochilas nas cadeiras das plateias. Conduziu-a até ao grupo e fez as apresentações:

— Ei, malta, esta é a Chloe. Chloe estes são o Leo, o Jan, o Jackpot e a Aida.

Olhou para o grupo. O Leo, alto e esquelético, com o cabelo comprido castanho claro a moldar-lhe o rosto escondendo os olhos, lábios rosados finos. Em contraste Jackpot, de estrutura média, corpulento, de músculos trabalhados, cabelo escuro curto, olhos verdes pântano e lábios carnudos. Jan, com os membros longos e finos, cabelo loiro encaracolado lustroso, olhos azuis gélidos e lábios finos de cor pálida. E Aida, a única rapariga do grupo, com cabelos curtos cor de hena apanhados em dois totós baixos, olhos castanhos grandes, lábios pintados de roxo, vestia uma camisa azul, saia cinza e meias ás riscas até ás canelas por dentro de sapatos castanhos de colégio.

Depois de cumprimentar todos, Aida comentou:

— É bom ter mais uma rapariga no grupo!

Uma mulher elegante com um brilhante e negro cabelo encaracolado, olhos castanhos cor de mel, lábios carnudos pintados de vermelho, vestida numas calças de ganga justas, blusa branca e casaco de cabedal e equilibrando-se nuns vertiginosos saltos agulha, entrou na sala roubando todas as atenções para si.

— Carne Fresca hamm? – ao ver a sua cara riu-se – Estou a brincar! Eu sou a Jenna, a responsável pelo grupo de teatro. E tenho uma notícia escandalosa para vocês! – disse elevando umas oitavas a voz. Sentaram-se todos na primeira fila e ela postou-se á sua frente e, agora de rosto sério, prosseguiu – Bem como todos sabem este ano escolhemos a Lenda das Almas – dando destaque ao título – para a apresentação anual da escola que ocorrerá daqui a um mês e meio, o que infelizmente é pouquíssimo tempo, mas estou a desviar-me do assunto.... Supostamente devia ser uma peça exclusiva, mas ao que parece o colégio de Riverwood também optou por esse tema... por isso fui ter com o responsável pelo seu clube de teatro e após uma exaustiva reunião chegamos ao acordo que era benéfico para ambos os clubes que.... – fez suspense. Abriu um enorme sorriso e – juntássemos os dois grupos e fizéssemos apenas uma peça que será apresentada na sua sala de apresentações! – o grupo saltou exclamações de festejo e alegria calando-se depois ao ver que as noticias ainda não tinham acabado. – Decidimos também, Aida presta bem atenção, que irás ser tu a desempenhar a protagonista! – Aida paralisou e passado o choque ficou histérica. – Já os rapazes terão de prestar casting para os papéis amanhã depois das aulas, por isso hoje durante o ensaio vão agarrar-se de corpo e alma a estes guiões — mostrou um molho de papéis – e amanhã irão arrasar! Quanto a ti Aida irás trabalhar o teu papel comigo. Carne Fresca, — chamou-lhe a atenção – fica por aí e dá umas voltas que mais tarde falo contigo. – abriu um sorriso ainda maior e bateu palmas – Vamos lá ao trabalho!

Aida e Jenna foram para um canto treinar enquanto os rapazes agarravam no guião do personagem queriam desempenhar e espalhando-se pela sala começavam a praticar.

Chloe foi ter com Mickael.

— Então o que achas?

— Não é mau de todo. E a Jenna é bastante excêntrica, o que se adequa a um professor de teatro.

— Então isso quer dizer que vais ficar?

— Sim. – festejaram com um tosco abraço que Mickael iniciou. – Agora uma pergunta: O que é a Lenda das Almas?

— Oh, esqueci-me que não és daqui. Toda a criança da vila cresce a ouvir sobre a lenda de um casal que se conheceu por acaso e se apaixonou, mas, para infelicidade do casal, esse amor é proibido, tipo Romeu e Julieta, 'tás a ver? Porque, supostamente, ela já estava noiva de outro, por isso eles encontram-se às escondidas; um dia fartos daquilo tudo decidem fugir e casar, mas a mãe do rapaz adoece e ele não vai ter com a amada que o espera toda a noite junto da grande árvore onde o costumavam fazer; só que naquela noite ouve uma grande tempestade e a rapariga acaba por morrer. O rapaz culpasse pela sua morte e começa a perguntar-se qual é o verdadeiro significado da vida. Filosófico não? Pois é, só que a rapariga não foi para o céu, transformou-se em fantasma ou espírito, o que lhe quiseres chamar, e guia o seu amado que está perdido em amargura e solidão. Daí surge uma amizade improvável entre o nosso pobre protagonista e o irmão da rapariga que passam a conviver ajudando-se mutuamente; por obra do destino, quando vai visitar a campa da amada para lhe contar o que lhe está a acontecer, consegue vê-la e após uma sentimental conversa, ele vê-a partir para onde quer que ela foi, o céu presumo; a partir daí nunca mais se apaixona e vive com essa triste e carinhosa recordação no coração esperando um dia poder reunir-se novamente com ela; Fim.

— Que triste!

— Pois é.

— E completamente lamechas.

— Também. Mas é a lenda que perdurou e este ano faz 150 anos por isso em sua homenagem nós vamos recriá-la. Agora mão á obra – e começou a ensaiar, enquanto Chloe ficou a pensar na história que ele lhe acabara de contar.

Meia hora depois juntaram-se todos e um a um subiu ao palco para que Jenna os pudesse ir corrigindo. Apercebeu-se então que alguns deles até eram bastante bons. Observando o palco com maior pormenor reparou no pequeno piano de madeira escura mal tratado escondido ao fundo; Antes que se pudesse perder nos seus detalhes Jenna atirou-lhe para o colo um montinho de folhas.

— Vai preenchendo-as. – depois subiu a palco e começou a ralhar com Jan por este não projetar a voz.

Analisou as folhas. Eram inscrições para o casting. A princípio não percebeu o porquê de lhas ter dado, mas depois começou a preenche-las com os nomes de cada um e o papel a que se propunham. Assim que acabou, olhou para o palco, os seus olhos vagueando até reencontrarem o velho piano, por isso quando Jenna anunciou o fim do ensaio pondo fim aos seus desvaneios agradeceu mentalmente.

Enquanto arrumavam as coisas Mickael convidou-a para ir com eles ao café, oferta que declinou educadamente com a desculpa de ter de chegar cedo a casa. Era a última. Já quase tinha chegado à porta quando se deteve. Olhou hesitante para trás, para o piano e não se conteve, ele atraía-a, chamava-a audivelmente pedindo para que ela o tocasse. A caminho do palco deixou a mochila no chão. Subiu os poucos degraus laterais para cima de palco e lentamente aproximou-se, como se o piano fosse um animal ferido com quem precisasse de ganhar confiança. Sentou-se no banco, abriu a tampa e poisou os dedos nas teclas. Fechou os olhos e começou a tocar uma lenta melodia já decorada por inúmeras vezes tocada. Era uma melodia triste que falava de tristes despedidas e dolorosas partidas. Para sua tristeza a música findou cedo demais. Abriu repentinamente os olhos ao ouvir palmas a bater. Virou-se para a porta e viu Jenna em pé com um sorriso no rosto.

— Vais ficar encarregue da sonorização da peça.

— Mas... e-eu... — gaguejou.

— Não aceito um não como resposta. – disse enquanto se aproximava dela — Ah e para esclarecer, 'ficar encarregue' quer dizer que tu é que escolhes o que é que vais tocar, fica ao teu critério, desde que se encaixe com a história. Amanhã vens connosco para a audição. Depois dos papeis serem atribuídos vamos fazer uma pequena encenação para ver como é a harmonia dos atores aí podes ver o que vais tocar. Mas podes ir já pensando nisso. – lançou-lhe um guião completo da peça e virou costas – Até amanhã Carne Fresca.

Vendo-se sem opção guardou o guião e foi para casa. Ao jantar contou as novidades a seus avós, ocultando a parte de ir tocar piano, ainda não estava nada confirmando mesmo Jenna tendo dito o que disse e, sendo assim, não lhes queria estar a dar falsas esperanças de a verem tocar. Os avós ficaram entusiasmados com a ideia, não só do clube de teatro, mas também pelo tema ser a tão conhecida lenda e incentivaram-na a continuar.

Depois de cumprir os seus afazeres subiu para o quarto despedindo-se dos avós. De pijama já vestido postou-se à janela a apanhar a brisa fresca que passava enquanto lia o guião da história; músicas fluíam-lhe na mente no decorrer das cenas. De repente, algo chamou-lhe a atenção, no meio da floresta avistava-se um vulto no meio das árvores. Um vulto com olhos amarelos que a fitavam. Recuou assustada. Piscou os olhos e voltou a olhar. Nada. Tinha desaparecido. Decidindo que era estranheza demais, foi-se deitar culpando o cansaço de lhe pregar partidas. Nessa noite sonhou com enormes lobos de olhos enigmáticos que corriam na floresta a seu lado trocando olhares de cumplicidade; do nada um lobo de pelagem creme aparecia à sua frente e saltava para a atacar.