Wolf Woods
12 Capitulo 11 - The Place
Kyle conduziu até deixarem os edifícios para trás; até a estrada deixar de ser de alcatrão; até a estrada não passar de um simples caminho feito por quem ali passasse. Pela altura em que parou estavam rodeados de altas e densas árvores. Ele abriu a porta e saiu do carro. Chloe seguiu-lhe o exemplo e inspirou o ar puro. Pequenos raios de sol incidiam na sua face atrevendo-se a desafiar as nuvens que ainda permaneciam no céu. Apertou o casaco pois apesar do sol ainda fazia frio.
Kyle observou-a com cuidado antes de lhe chamar a atenção sobre um estreito caminho de pedestres que se encontrava entre as árvores e que eles deveriam tomar. Como era possível que, depois do que lhe revelara sobre o seu ser, ela permanecesse assim tão calma? Ele agradecia a calma, mas esperava algo um pouco mais dramático da parte dela após a revelação.
Ela seguiu-o ainda intrigada de onde iriam. E o sentimento apenas aumentou quando a trilha desapareceu e eles passaram a caminhar pura e simplesmente no âmago da vegetação. Aquela altura nem os antecedentes raios de sol lhes chegavam. Volta e meia Kyle, que ia à frente a liderar o caminho, voltava-se para trás como que para ter a certeza de que ela ainda lá estava e de que não precisava de ajuda ou algo do tipo. Continuaram assim durante um bocado até que Chloe percebeu uma claridade entre as árvores. Com a sua aproximação ao local viu que se tratava de uma clareira em meia-lua que beirava uma lagoa. Explorou o local com o olhar assim que chegaram. A límpida água, fornecida por uma pequena e simplesmente linda cascata, era tão límpida que permitia ver o fundo rochoso da lagoa. As flores que habitavam naquele pequeno paraíso eram donas de uma tal variedade que levaria dias só para as contabilizar a todas. E por fim, o sol que ali chegava e era refletido e absorvido por todos aqueles elementos atribuía uma certa dose de misticidade ao local. Parecia algo mágico saído diretamente de um conto de fadas.
— Gostas-te? – perguntou Kyle ao perceber a sua expressão.
— É lindo. – respondeu fazendo-o soltar uma gargalhada.
Ele avançou indo sentar-se numa das rochas maiores perto da água. Pouco depois ela sentou-se a seu lado, marcando que deveriam iniciar a conversa independentemente do quão espetacular aquele sítio era.
— Deves ter perguntas a que queres respostas.
— Sim.
— Então começamos por aí. Decerto que muitas delas me ajudarão a falar o que quero.
Ela assentiu. Retirou do bolso do casaco a lista que nesse mesmo dia fizera e continha muitas das perguntas que lhe queria fazer. Desdobrou o papel que guardara quando fora buscar o casaco ao quarto com a esperança de o vir a utilizar. Ao ver o que era, Kyle, não se conseguiu impedir de soltar uma breve gargalhada. Chloe lançou-lhe um olhar de esguelha antes de aclarar a garganta e prosseguir.
— Então… Primeira pergunta. Quando estás em forma de lobo ainda és tu ou quando te transformas tornas-te mesmo no animal?
— Hm… Essa é um pouco complicada. A pessoa e o lobo são um só. Isso quer dizer que na forma de lobo a pessoa está presente, mas na forma humana o lobo também lá está. Não que haja diferença porque são o mesmo espírito. O que eu quero dizer é que sim que enquanto animal ainda sou eu próprio, mas que na forma humana o instinto do animal ainda lá está.
» E mesmo enquanto humanos, para além do instinto do animal, ainda temos mais algumas regalias, como por exemplo os nossos sentidos são mais desenvolvidos e não costumamos ter frio porque somos criaturas bastante quentes.
— Ok. Então para além de te transformares num lobo, enquanto humano não és um simples humano mas um super humano. – ele sorriu face á comparação. Ela avaliou a lista passando à segunda pergunta – A transformação doí? Quer dizer, a anatomia do lobo é diferente da do homem por isso presumo que tal mudança deve doer, não?
— Depende. Para alguns nem sequer a sentem. Acontece em questão de segundos. Para outros já não é tanto assim. Dura alguns minutos que são bastante agoniantes. – antecipando-se à pergunta que provavelmente se seguiria continuou – Mesmo sendo lobisomens existem diferenças. Há aqueles que, como eu, já nascem sendo o que são e aqueles que são transformados em tal. Aqueles que nascem não sentem a mudança dar-se, como se nós tivéssemos os dois corpos e quando optamos por usar o outro o nosso espírito simplesmente escorrega entre eles. Já os que são tornados… bem a história é diferente. Eles não têm os dois corpos. Por isso quando a mudança se dá o corpo humano deles sofre todas as alterações necessárias para que passe a ser um corpo de lobo. E como deves imaginar sentir os nossos ossos a mudarem não é nada agradável.
— Disseste que não sentias dor, mas falas como se tivesses sentido.
— Mente de Alcateia. Em ordem a proteger os seus, as alcateias desenvolveram algo a que chamamos Mente de Alcateia. Todos os elementos da alcateia estão ligados mentalmente o que faz com que comuniquemos telepaticamente e sentamos o que os outros sentem. Na minha alcateia existe uma pessoa que foi transformada. Cada vez que ele muda de forma todos outros sentem a agonia dele, incluindo eu. Mas a verdade é que o que nós sentimos nem se compara ao que ele sente realmente.
—Sendo assim porque é que o transformaram? Se sabiam que ele ia sofrer tanto?
— Não fomos nós. O meu pai, assim como quase todos os alfas, proíbe que os seus transformem alguém. Sabem que apenas lhes estão a colocar um sofrimento desnecessário. E mesmo aqueles que não pertencem a alcateias por norma não fazem para que alguém mude. Só estariam a expor o seu segredo, o segredo de todos nós, em perigo.
— E então porque…?
— Não sabemos. E a pessoa não nos consegue dar muitas informações porque não se lembra bem do que aconteceu de quando foi transformado.
Uma pequena pausa ocorreu até que algo se iluminou na sua mente.
— Espera. Disseste que o teu pai é o alfa?
— Parece que sim… Disse.
— E nasceste já como lobisomem?
— Sim.
— Isso quer dizer que sempre te conseguiste transformar num lobo? – tentou imaginar Kyle com cinco anos de idade a transformar-se numa fofa e felpuda cria de lobo desajeitada e bem amorosa. A imagem fê-la sorrir.
— Não. Eu não sei ao certo como acontece, mas normalmente a primeira transformação dá-se aos treze anos. Claro que isso não é linear, existem lobos que só aparecem pela primeira vez em anos depois disso. Normalmente após os dezanove anos não existem transformações.
— Se até aos dezanove não houve a transformação quer dizer que nunca haverá.
— Exato.
— Quando foi a tua primeira transformação?
— Aos quinze anos.
— A tua mãe sabe disto tudo? – perguntou de repente olhando para ele.
Ele sorriu.
— Sabe.
— Mas ela não é como tu, pois não?
— Não. Ela é humana. – olhou para ela quando respondeu.
Antes que se apercebessem já se tinham fixado um no outro. E aquela estranha ligação entre eles revibrou ainda mais intensamente. A constante ligação magnética que os puxava um para o outro e que parecia aumentar quando estavam assim. Ela desviou o olhar observando o lago.
— Esta ligação que… Sou só eu que sinto?
— Não. – respondeu lutando contra a palavra.
— O que é?
— Gostava de saber responder. Tenho andado a ver os livros antigos do meu pai mas ainda não achei nada que se assemelhasse.
Silêncio. Reparou que a luz do sol estava cada vez mais escassa. A noite aproximava-se perigosamente. Se queriam chegar ao carro ainda com claridade teriam de sair dali naquele momento.
— Anda. Temos de ir. Podes fazer-me perguntas no caminho. – informou ao levantar-se.
Chloe dobrou e guardou a lista com as perguntas no bolso do casaco e aceitou a mão estendida dele que oferecia ajuda para se levantar. Percorreram o caminho de volta ao veiculo em silêncio, como se se falassem estragassem a misticidade que envolvia aquele espaço da floresta constituído por velhas e sábias árvores. Mal se instalaram no carro esse problema desapareceu e, ao contrário da viagem que os levara até ali, mergulharam numa conversa ativa.
— Existem muitos como vocês?
— Algumas alcateias aqui e ali de que temos conhecimento. É provável que existam mais. Principalmente com um mundo tão grande como este em que vivemos. Não concordas?
Ignorando a pergunta dele, passou à frente.
— Todos os lobos vivem em alcateias?
— Em geral sim, mas a resposta terá que ser não. Existem lobos solitários. Lobos que preferem viver sozinhos e sem dependerem ou responderem a outros lobos.
— Então e se confrontados com um alfa?
— Ao serem confrontados por um alfa tendem a obedecer, não porque querem, mas porque a parte de lobo em nós assim o exige, não ser que a dominância do alfa seja menor que a sua o que é raro acontecer.
— Raro, mas não impossível…
— Não, não é impossível, mas é extremamente raro.
— Toda a gente pode ser transformada?
— Na teoria, sim toda a gente pode ser transformada se as apropriadas ações forem tomadas, mas na realidade para que a transformação se dê a pessoa tem de ter uma predisposição para os genes que nos tornam como somos.
— Então e… a lua cheia? É verdade que sempre que é lua cheia vocês sentem aquela necessidade de se transformarem e todos juntos como a matilha unida que são uivar à lua?
— Espero que tenhas noção do quão ofensivo isso suou. – ela riu-se. A gargalhada dela era tão jovial e honesta que Kyle deu por si a sorrir. Era tão fácil sorrir quando estava com ela. Algo nela fazia-o simplesmente… sorrir. Sem motivo, sem razão, sem nada. Só sorrir. Era a coisa mais pateta que já lhe acontecera e mesmo assim… – Depende. Aqueles que já nascem lobos não sentem essa necessidade de que falas. Já aqueles que são compelidos a tornarem-se num lobo, são muito mais primitivos nesse aspeto e a cada lua cheia têm de ser supervisionados para não fazer nenhum disparate como lançarem-se em frente de um carro e darem cabo do secretismo que temos tanto trabalho a ter.
Ponderou a resposta.
— Mais cedo falaste em ligação psíquica… Vocês estão sempre em sintonia? É que se for o caso a vossa vida privada é assim um bocado, não privada.
— Imagina uma sequência de barragens. Enquanto na forma humana só por vontade própria é que abrimos a barragem permitindo que a ligação psíquica se dê nos dois lados. Se quisermos por alguma razão transmitir alguma mensagem psiquicamente podemos fazê-lo. O alvo ouve-a mas nós não temos aceso à mente dele. Dessa forma a ligação é unicamente unilateral. Na forma de lobo é uma coisa imposta pelo nosso lado animal, uma forma de nos protegermos. Nesse caso as barragens são todas abertas e nós não temos como o controlar. Isso faz com que todos estejamos na mente um dos outros, mas penas sintamos o que os outros sentem, ou seja, para ouvirmos os pensamentos a pessoa tem que estar a falar propriamente, ou algo assim parecido.
— Hmmm.
O carro parou revelando que já se encontravam de volta ao local de partida. Chloe nem podia acreditar que o tempo passara tão rápido. Ainda haviam tantas perguntas a ser feitas. E ao mesmo tempo precisava de tempo para assimilar tudo o que tinham acabado de conversar.
Antes que pudesse abrir a porta para sair ele falou.
— Eu sei que já falamos disto ontem à noite, mas eu tenho mesmo de te pedir. Por favor, não contes nada a ninguém. Deves ter noção do quão horrível isso seria para mim. Para todos nós.
Chloe colocou a sua mão em cima da dele. E com uma expressão que pensou transmitir calma e segurança, olhando-o olhos nos olhos, confirmou-lhe.
— Eu não vou dizer nada a ninguém. Não te preocupes. Para além do mais sei o que aconteceria se o fizesse. Nenhuma das minhas perguntas serão respondidas e eu sou curiosa demais para deixar isso acontecer. – acrescentou em leve tom de brincadeira de forma a suavizar a situação.
Ele acenou. Ela deslizou para fora do carro e despediu-se. Da porta viu-o a desaparecer na curva. Só depois entrou.
Passou pela cozinha, onde agarrou qualquer coisa para comer e conversou com a avó que a encheu de perguntas às quais respondeu evasivamente sem deixar sair nada em pormenor, e instalou-se no seu quarto onde se deixou rapidamente dormir devido ao cansaço mental de todo aquele dia.
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