Wizard
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estava um pouco nervoso hoje. Não nervoso de ficar irritado, mas muito ansioso, é ansioso seria a palavra certa. Fazia tempo que eu não falava em público, nunca gostei disso, sempre preferi entregar os meus trabalhos escritos, mas vez ou outra eu era forçado a apresentar. Bom pelo menos o tema é livre, e eu escolhi um tema que eu gostava muito, as Gem Nativas.
O penúltimo grupo acabara de apresentar um trabalho sobre as drogas, muito repetitivo, então quase ninguém repararia no que eu dissesse além dos professores, então me acalmei um pouco. Subi ao palco improvisado na quadra do nosso colégio. Caminhei até o centro e me apresentei. Geralmente trabalhos assim são apresentados em grupo, mas os meus “amigos” faltaram e teria que encarar essa sozinho. Também, o tema que eu escolhi, me admiraria se alguém quisesse tratar dele.
– Bom dia! Meu nome é Eduardo e o meu trabalho é sobre um grupo de pessoas que sempre fizeram o bem para a humanidade, os Wizards, e sobre as suas pedras de poder, as Gem Navitas. – Notei que alguns professores olharam torto para mim, e a maior parte dos alunos parou de conversar e passaram a prestar atenção. Comecei a suar frio, foi quando eu encontrei um olhar familiar, me acalmando e dizendo silenciosamente que para continuar, que daria tudo certo. Respirei fundo e comecei a apresentação. – Bom desde o começo da civilização, o homem amava as pedras. Não pedras vulgares, como brita e cascalho, mas as pedras preciosas. Eles amavam o brilho, as cores vivas, e graças a essa paixão elas rapidamente se tornaram bastante valiosas. Mas, mesmo entre as pedras, existiam aquelas que valiam muito mais que a maioria. Alguns humanos, graças a elas ganharam poderes que foram decisivos em batalhas, ou passagens importantes da história.
“As pedras assim se tornaram conhecidas por vários nomes, mas os dois mais conhecidos são Cromatina e Gem Navitas, que vem do latim e significa Jóia de Energia, ou Jóia de Poder. As jóias de poder davam ao usuário o domínio sobre uma parte da natureza: fogo, ar, raio, plantas; e o alcance dos seus poderes iam além. As pedras, depois de algum tempo, mudavam o usuário, modificando o seu corpo para se adaptar melhor ao seu elemento de origem. Seres assim passaram a serem chamados de Wizards, magos do inglês.
“Eles geralmente tinham altas patentes, eram sempre valorizados por seu poder e sabedoria. Mas, em algum ponto da Idade Média, onde chamamos atualmente de idade das trevas, os magos foram enquadrados como bruxas e muitos foram mortos. Mesmo sem as Gem Navitas, vários deles foram mortos, alguns apenas por supostamente estarem envolvidos com eles. Pouco a pouco, os Wizards iam desaparecendo, até restar pontos esparsos, onde eles viviam escondidos entre os humanos.
“Os filhos deles sofriam mais, por que nasciam com as características do pai, alguns até podiam usar magia sem a necessidade de uma pedra, se tornando os mais fortes da causa. Eles se esconderam por séculos até serem descobertos novamente por volta de 1900. Os humanos fizeram diversas reuniões e criaram leis para impedir o uso de magia pelos Wizards.
“Na primeira e segunda guerra mundial, os exércitos criaram esquadrões de Wizards para eliminar pontos onde era quase impossível de se passar. Muitas vidas foram perdidas na guerra, e quase entraram em extinção. Depois da Segunda Guerra, a ONU criou uma lei mundial, entre direitos e deveres, além de um código penal especial, para eles, forçando-os em um cadastro anual, para manter controle sobre os que ainda restam. – Eu consegui prender a atenção de todos durante todos esses minutos, acho que poucas pessoas falavam sobre eles por temerem que caísse alguma repressão do governo. Todos olhavam fixamente para mim, esperando algum outro tópico, explicação, qualquer coisa que tratasse sobre o tema. Os professores pareciam frios, impassivos, exceto um ou dois, que abriram um sorriso discreto. – Alguma pergunta?
– Você, — uma garota ao fundo, era alguém que eu sinceramente não fazia idéia de quem fosse. – é a favor ou não da liberação do registro.
– Bom, — essa pergunta joga qualquer um no buraco. Havia uma corrente, de maioria Wizard, que era a favor da liberação do registro, ou seja, não seria necessário registrar a Gem Navitas, nem o usuário. Já alguns, maioria normais, afirmavam que o controle impedia uma nova guerra. Como se alguma delas começou por nossa causa. – eu sou a favor da liberdade, não há um motivo válido para fazerem as pessoas, anualmente, se deslocarem para o Reino e se registrarem. – O Reino era um local único, onde os Wizards podiam livremente usar os seus poderes, sem que ninguém os impeça. Mas, anualmente, a ONU envia um grande contingente e faz com que todos vão para lá se registrar.
– Mas assim não acha que o número de crimes vai aumentar? – Um dos professores tentou fazer com que eu me contradissesse.
– Bom como foi a lei do desarmamento para nós? – Tuchê.
– Mas mesmo assim, não acha que liberar poderia causar alguma diferença? – Outro professor tentou ir ao auxílio do primeiro, mas obviamente sem sucesso.
– Bom desde que os humanos conseguiram sintetizar algumas Gemas, o comércio delas chega a Bilhões de Dólares, isso apenas com as pedras, mas elas são, em sua maioria, pedras muito fracas. Então, o único impacto seria na economia, que melhoraria, talvez algum impacto cultural, mas seria muito pouco provável.
– Como diferenciar uma pedra sintética de uma Nativa? – A mesma garota, sempre ela, me ajudando como pode.
– As Gemas sintéticas sempre são lapidadas, elas nunca têm uma curvatura natural como as nativas, são sempre com pontas em sua superfície, enquanto as Nativas são lisas, sempre fazendo curvas, nunca nenhuma reta. Mas a diferença mais clara e a quantidade de poder. Uma pequena Gem Navitas tem mais poder que uma grande esfera sintética.
Todos ficaram calados nesse momento de debate, onde nos minutos finais tirei a maioria das dúvidas. Depois me sentei no meu lugar, bem ao fundo, onde eu pudesse ver a todos sem que reparassem muito em mim. Os professores conversaram entre si, eram 12, um de cada matéria, incluindo as extracurriculares. Depois de cinco minutos falando diversas notas, chegara a minha vez. E como de se esperar, o meu grupo ficou acima da média, mas eu fiquei com uma nota quatro de doze. “já é um terço, é mais do que eu esperava”.
Fui para casa com essa nota ruim no boletim. Sempre tirava notas boas, mas há uma primeira vez pra tudo. A garota no auditório se aproximou de mim, deu um sorriso caloroso, um leve aceno com a mão, bem discreto. Eu correspondi, ela moveu as mãos rapidamente, me chamando para perto dela. Sentei-me rapidamente em uma árvore próxima, alguns segundos depois ela se sentou do meu lado e recostou a cabeça no meu peito.
– Você não merecia aquele quatro. – Ela disse calmamente depois de alguns minutos de silêncio.
– Mas eu tinha certeza que minha nota seria pior.
– Não podia, sei lá, ter falado de outra coisa? Talvez fizesse uma nota melhor.
– O tema era livre, achei que não fosse levar em conta o tema e sim a apresentação. – Um garoto passa perto de nós, olha rapidamente para ela e se perde no bosque há cerca de um quilômetro. Conversamos por um tempo, cerca de uma hora depois ela se despede e vai embora. Ela era minha namorada, mas já desconfiava que rolasse algo assim por alguns meses.
Segui-as até o bosque onde a encontrei aos beijos com o garoto. Ela nem tentou se explicar, acho que nem me senti surpreso, irado, nada. Coloquei calmamente o colar que ela me dera no chão e saí com uma calma digna de um monge.
“Nota ruim, traição de namorada, que belo dia pra um adolescente”, pensei amargamente enquanto caminhava para casa. Andei por mais alguns metros até chegar na minha casa, um antiga casa da cidade, uma das primeiras a ser erguidas. Lá dentro, ao contrário da fachada, tudo respirava a modernidade. Minha mãe me cumprimentou com um abraço apertado, é por isso que amo ser filho único. Ela me falou rapidamente que o jantar estava pronto, fez mil perguntas sobre a escola, o namoro, o que eu sentia. Era por isso que eu odiava ser filho único. Por fim ela falou que o meu pai me esperava na sala.
Caminhei calmamente até a sala estar, no segundo andar. Meu pai lia o jornal, mas assim que me viu na escada, guardou o jornal e retirou algo no bolso. Apesar da casa que tínhamos, nós a herdamos do pai da minha mãe, mas meus pais passaram, e passam, muito perrengues para me manter saudável. Meu pai trabalhava de gari e fazia trabalhos esporádicos na capina e minha mãe era auxiliar de cozinha de uma rede de fast food. Ela sempre que podia trazia algo para mim. Mas raramente ele me dava algo.
– Pra você meu filho. Não é muito, eu sei que não é muito, mas você gosta tanto dessas pedras coloridas, tem até uma coleção no seu quarto, que quando achei num matagal próximo, enquanto ajudava na capina, não pude deixar de trazê-la pra você. É o seu novo amuleto.
Em suas mãos repousava uma pedra circular, parecia uma esfera, mas muito achatada, quase plana. Ela era de um azul tão intenso. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Com certeza seria o meu novo amuleto. Eu não só não sabia como aquele simples gesto mudaria toda a minha vida.
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