Without The Love
9 Capitulo 8. 4 dias antes
Notas iniciais
Stefan e eu tínhamos 11 anos quando paramos de nos falar. Foi essa coisa momentânea entre duas crianças, uma briga boba cuja importância nunca foi relevante. Mas então os pais dele morreram naquele acidente, e nós nunca mais voltamos a nos falar. Eu fiquei pensando nisso a noite inteira. Mais uma noite, afinal. Deixando meus pensamentos vagarem nessa profundeza escura e assustadora. Eu queria odiá-lo! Eu devia. Mas não conseguia parar de pensar na forma com que ele me olhou, no jeito dele falando que ainda era apaixonado por mim. Na expectativa no seu rosto esperando que eu dissesse que não o odiava. Será que ele sentia mesmo isso? Porque, se fosse a verdade, aquele garoto foi apaixonado por mim durante 7 anos! E tudo o que eu sentia por ele era um desprezo que até então achava que fosse mútuo. Eu queria apenas sair do meu corpo, deixar de ser eu. Queria parar de sentir isso. E também queria me permitir sentir.
–Você está tão triste hoje. – minha avó me disse no café da manhã.
Stefan não estava lá, alegava indisposição. Imaginei que ele apenas não queria me ver. Senti uma pontada no peito.
–Estou bem vovó. – menti.
–Stefan também estava tão tristinho hoje. – ela disse.
E o silencio se seguiu pela mesa.
–Não brigamos. Se for isso que os preocupa. – eu disse.
–Oh, não. Essa foi a ultima coisa que imaginei ter acontecido. – meu avô comentou irônico.
E isso foi tudo pelos minutos seguintes. Ninguém estava falando comigo direito, e imaginei que Stefan tivesse dito algo para eles, mas a ideia logo escapou de minha mente. Ele não faria isso. Então fiquei apenas pensando que depois do café eu voltaria para o meu quarto e ficaria lá olhando o nada, tentando não pensar muito, mas já pensando.
Ao invés disso, minha avó pediu que eu fosse levar algo para Stefan comer no quarto, me recusei, é claro. Mas todo mundo começou a me empurrar e me ameaçar. Então cá estava eu, parada na porta dele. Querendo bater e não querendo. Entre o agora e o nunca. Uma hora eu ia precisar falar com ele, não é?
Uma batida.
–Stefan? Eu... Ahn. É a Elena. Trouxe um lanche. – eu disse meio hesitante.
Um minuto.
–A porta está aberta. – a voz dele soou.
Abri a porta do quarto devagar enquanto olhava ao redor. Nada muito sugestivo: as roupas bem dobradas dentro da mala, algumas camisas nas cruzetas e uma caixa grande em cima da mesa. Sentado na cama, terminando de vestir uma camisa polo azul marinho, estava Stefan. Ele aparentava mesmo o cansaço. O cabelo emaranhado, os olhos meio cansados e olheiras. Mas ainda assim, olhando de perto para ele, com a luz da manhã batendo em seu rosto, era a fácil perceber como ele era atraente. Os músculos do braço bem definidos, o contorno do rosto, as mãos calejadas, os olhos verdes esmeralda...
–Você está bem?- perguntei.
Ele deu de ombros.
–É só essa gripe. – disse.
–Minha avó insistiu que eu trouxesse esse café. Você precisa beber.
Stefan se levantou e caminhou até mim. Estava evitando me olhar nos olhos, mas ainda assim pegou a xícara e a colocou em cima da mesa. Pôs as duas mãos dentro do bolso e respirou fundo. Como se o simples movimento o tivesse esgotado.
–Não precisa falar sobre ontem. – raiva uma tensão no seu tom de voz.
E eu suspirei. Estava me sentindo aliviada por isso, por não precisar colocar meus pensamentos em palavras para ele. Eu não queria machuca-lo. Não se ele estivesse mesmo dizendo a verdade. Mas como todos sabemos, e no fundo eu estava ciente disso naquele momento, querer fazer algo e precisar fazer são coisas totalmente diferentes. Eu já quis muita coisa que não precisava. E precisei fazer muita coisa que nunca quis. E eu sabia que precisava falar com ele sobre ontem. Eu não queria. Mas eu precisava.
–Na verdade, acho que precisamos sim. – eu disse.
E Stefan pareceu meio surpreso e aliviado ao mesmo tempo.
–Tudo bem.
–Eu não quero machuca-lo, Stefan. Você pode não acreditar nisso... Mas se você estiver brincando comigo...
–Acha que eu estou brincando?- ele perguntou. Exasperado. — Acha que meus sentimentos são uma mentira? Que eu tenho outra intenções além de...
–Além do quê? É sobre isso, Stefan. Quais são as suas intenções aqui?- devolvi, no mesmo tom de voz que ele. — Não me culpe por duvidar de um cara que escreveu que eu não passo de uma emo virgem...
–EU NÃO ESCREVI AQUILO!- Ele quase gritou. Parecia cansado demais para isso. — Elena, será que você não pode acreditar em mim?
Eu fiquei olhando pra ele. Meu fôlego havia acabado. E quando voltei a falar, minha voz saiu como um murmuro.
–Se não foi você, quem foi? Tinha suas iniciais lá... Você se responsabilizou por isso! Se não tivesse sido você, Stefan, nem estaríamos juntos aqui, para inicio de conversa.
–Exatamente. — ele me disse. Tinha voltado a se sentar na cama. Seus olhos me fitavam, e por mais que eu quisesse, não conseguia desviar deles.
–Você... — levei uma mão a boca e interrompi a mim mesma. CÉUS.
–Eu me responsabilizei por isso porque queria estar aqui. — ele me disse. Seu tom de voz era calmo. — Eu só não queria que você achasse que eu tinha mesmo escrito aquilo, porque eu juro, eu nunca seria capaz disso.
–Eu não entendo...
–Eu sempre fui apaixonado por você, Elena! E isso não é difícil de se entender.
–Eu... Eu destruí o seu carro! Ferrei com você o colegial inteiro... Stefan...
Um leve sorriso se formou no rosto dele. E aquilo era tão lindo! A curva da boca dele se contraindo...
–Não é como se eu adorasse ver você me ferrando. Mas a gente mantinha um relacionamento interessante.
–Stefan!
Ele estava meio que rindo a essa altura. Como se tudo não passasse de uma grande piada da vida. E talvez fosse mesmo. Mas eu não conseguia me mover, nem formar palavras que fizessem sentido em uma frase. Virei-me de costas para ele, com as mãos no rosto, não vou chorar, não vou chorar... Levantei os olhos para a mesa onde havia a caixa grande, havia uma pilha de livros ali, além de Sonho de uma noite de verão, que provavelmente ele já havia terminado. Fiquei encarando os livros dele por um tempo. Pensando em como eu nunca tinha percebido o aprecio de Stefan pela literatura. Como eu nunca tinha percebido que Stefan nunca deu muita bola para as coisas que eu fazia com ele. Como eu nunca tinha percebido que ele estava apaixonado por mim.
–Eu sinto muito. — disse enfim.
E o fato das palavras soarem como um sussurro triste fizeram Stefan levantar-se novamente e caminhar até mim. Não me tocou em momento algum, mas seus olhos atraiam o meu perigosamente.
–Não quero que sinta. — Ele me disse. — Eu... Eu sinto muito por ter demorado tanto.
–Eu não consigo entender...- eu queria simplesmente explodir em mil pedacinhos de Elena.
–“Ah! Porque será que o amor, sendo tão terno na aparência, se torna tirano e cruel quando se experimenta?”- ele sussurrou para mim, fazendo-me sorrir brevemente.
–Você e sua mania de citar Shakespeare para as garotas.
Ele sorriu.
–Cito apenas para você.
–Stefan...
–Elena.
Fechei os olhos por um minuto. Tentando organizar as ideias. O que quer que fosse acontecer adiante, seria definitivo para ambos.
–Você pode me beijar agora. — eu sussurrei. Por um minuto pensei que ele não tivesse escutado, porque Stefan continuava a me olhar, seus olhos cor de esmeralda brilhando. Mas em um minuto ou outro, ele se inclinou em minha direção e pressionou seus olhos quentes nos meus. E então estávamos nos beijando. Foi como estar em queda livre, sem como parar de cair... A boca dele tinha gosto de hortelã e... Stefan. Ele me envolveu em seus braços, pressionando minha cintura contra o corpo dele, levantei meus braços e segurei seus ombros fortes e musculosos....
–"O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado." Eu quero que você seja o meu sonho. — ele me disse um minuto depois.
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