With A Little Help From My Friends
9 Com uma ajudinha dos meus amigos
Notas iniciais
24 de Dezembro de 1953
-Menino, — Mimi sussurrou, abanando John. – menino, acorde! Vá lá!
-Mimi? – Ele disse incrédulo. Ainda estava acordado, a pensar numa forma de sair daquela casa e não contava que Mimi estivesse ali.
-Vamos lá, menino. Saía da cama.
John olhou o despertador e disse perdido. – Mimi, pouco passa da uma da manhã!
-O menino não queria fugir? – Ele imediatamente se sentou na cama, atirando para longe os lençóis e o cobertor. No chão ao fundo da cama ele viu a mala de Mimi. – Vamos lá, vista-se!
-Sabes que se o Fruehauf descobre isto, ele despede-te.
Mimi, quase como que adivinhando o pensamento do rapaz, agarrou numa pequena sacola colocando lá a melódica, a harmónica e a pandeireta enquanto ele se vestia. – Sei pois, mas se o menino não viver mais aqui, eu não tenho mais trabalho de qualquer das maneiras.
-Porquê é que me estás a ajudar?
-O menino disse que ia fugir com uma ajudinha dos seus amigos, não foi? – Ela aproximou-se de John, segurando-lhe a face em ambas as mãos, confessando. – Eu sou sua amiga. E eu não quero ser ama de um menino que anda sempre tristonho e revoltado.
-A Michelle também era assim?
A mulher suspirou e sentou-se na beira da cama. – Um bocadinho. A Michelle sempre foi habituada a esta vida mas ao contrário do menino, ela não sabia o que era ter certas liberdades. Depois que se viu sozinha em Londres…Ela agora tem dezanove anos, é casada com um porteiro de um grande hotel de Londres e juntos têm uma menina de sete meses, a Lucy. Estudou artes e formou-se professora, mas o dinheiro é muito curto e têm dificuldade em arranjar alguém que fique com a Lucy.
-Porque é que ela não volta? – Ele tomou um lugar ao lado dela.
-O pai não a considera mais filha dele já que ela casou com um simples porteiro. Nem para os Natais ele a deixar vir. É muito triste, não é?
-Eu nunca gostei dele, sabes? Já viste ele a atirar-se à Jasmine? Ele é um porco sem respeito pelos outros! E eu não vou ficar aqui nem mais um dia para ele depois me adotar e eu não ter escapatória!
A ama voltou a suspirar fundo e disse. — Enfim, já está pronto? – Ele assentiu com a cabeça e ambos se levantaram.
Os dois desceram as escadas com muito cuidado e Mimi, como já era da casa sabia onde estavam todas as chaves. Abriu silenciosamente a porta da cozinha e saíram. Mimi sorriu; George, Richard e Paul estavam lá, tal e qual como eles tinham combinado. Os três estavam sentados, encostados ao portão, com os joelhos encolhidos contra as pernas esperando John.
“How do I feel by the end of the day
(Are you sad because you're on your own?)
No, I get by with a little help from my friends,
I get high with a little help from my friends,
I’m gonna to try with a little help from my friends”
-Agora é minha de vez. – John falou tirando a boina da cabeça de Paul.
-Estávamos a ver que nunca mais vinhas! – George reclamou.
-Demorei mas consegui. Agora sou livre! – Ele depois olhou a ama e perguntou-lhe. – E agora? Que vai ser de ti, Mimi?
-Vou para Londres. Vou fazer aquilo que melhor sei fazer.
-Vais ajudar em fugas de presidiários? – John brincou.
Mimi deu uma risada e puxou John para um abraço. – Vou ser a ama da Lucy. E desta vez vou ser ama de alguém que vive feliz com a sua família.
-Eu também acho. – Ele apertou o abraço, dizendo. – Boa sorte então, Mimi.
-Fique bem, menino John. – Eles depois separaram-se e ela acrescentou. – Fiquem todos bem, meninos. Espero que se deem bem após o fecho do orfanato. – A cara deles de espanto fê-la concluir que eles ainda não sabiam da notícia e explicou então.
Os quatro despediram-se mais uma vez de Mimi e viram-na partir e desaparecer no final da rua. – Bem, malta, hoje é véspera de Natal e eu acho que posso dizer que já tive uma prenda antecipada. – John falou.
-Eu acho que foi uma prenda antecipada para todos nós. – Paul disse. – Nós até que sentimos um bocadinho de saudades tuas!
-Um bocadinho?- John proferiu numa gargalhada, agarrando Paul e esfregando-lhe o punho cerrado nos cabelos. – Só um bocadinho?
-Vá lá, não se matem!- Os quatros colocaram juntaram-se num círculo, de braços sobre os ombros uns dos outros. – Feliz Natal, rapazes. – Richard disse sorrindo.
-Este é o melhor Natal que tive em todos estes anos. – George falou. – Considerando que vivi sempre na rua e sozinho.
-Isso não muda nada, Georgie. – Paul confessou. – Eu tinha família, mas estes Natais foram do melhor que tive. Até porque quando pedi aos meus pais um irmão, — Ele olhou John e sorriu. — recebi uma bicicleta!
Os outros riram às gargalhadas, e John falou por fim, parando de rir aos poucos. – É, eu sei que isto vai soar piegas, mas eu não podia ter recebido melhores prendas do que vocês como meus amigos. Como meus irmãos.
-Ok, — Richard proferiu, os quatro agora largando-se uns dos outros. – sendo eu o mais velho, eu nunca vou deixar que nos separem.
-Nós também nunca deixaremos que nos separem. – George finalizou.
-Se algum dia tentarem, — John disse, fazendo uma bola de neve. – eles devem saber que eu, John Lennon, sou bom a arremessar coisas! – E dizendo isto, atirou a bola de neve contra Richard. Começaram uma batalha de bolas de neve, correndo e rindo pela rua fora, alegres e despreocupados.
Receberam a notícia por Mimi de que Strawberry Field já não iria aceitar mais crianças e já não seria mais orfanato. Uma ordem de demolição e reconstrução assim forçava South. Contudo, ele conseguiu negociar essa demolição do orfanato fosse adiada até que as crianças mais velhas atingissem uma idade em que pudessem viver sozinhas por elas próprias. Eram exemplo disso John e Richard, agora com treze anos, e que em menos de dois anos estariam a ser mandados embora. Mas eles não deixaram que Paul e George fossem mandados para outro orfanato. Os quatro ficaram juntos…como sempre estiveram.
Então, ao invés de entrarem no orfanato, os quatro agarraram uma pedra do chão e escreveram os seus nomes no muro de pedra, bem por baixo do nome do orfanato em letras brancas. Aquele muro não seria demolido e ficaria ali, servindo de memorial, de todos os que tinham sido parte daquele pedaço de terra. Os rapazes passaram o resto da noite, correndo, rindo e brincando na parte arborizada do orfanato.
Mas por agora, Strawberry Field era a casa deles, pelo simples facto de estarem todos juntos. Perceberam que qualquer sítio poderia ser a casa deles, desde que os quatro lá estivessem. Fruehauf teve uma infância regalada, fácil, mas agora é um infeliz. Estes quatro estavam a ter uma mísera infância, difícil, mas eram felizes. Viviam apenas para o presente e não se preocupavam em delinear o futuro. Viviam despreocupados e divertidos, vendo sempre o lado positivo de todas as situações. E viviam juntos com os amigos.
E com os amigos a vida é fácil. Os dias passam rápido, mas são dias em cheio. As dificuldades são mais facilmente ultrapassadas. Porque tudo é mais simples com uma ajudinha dos nossos amigos.
“Oh I get by with a little help from my friends,
I get high with a little help from my friends,
I'm gonna try with a little help from my friends.”
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