Wisky a Go Go

1 E eu perguntava...


O som alto na balada não o incomodava nem um pouco, nem um tiquinho, de verdade. Afinal de contas, era plena sexta-feira, dia de festa e ele só queria uma coisa: dançar muito.

Não era novidade pra nenhum amigo seu que era apaixonado por uma boa festa onde pudesse demonstrar todas as suas habilidades naquela arte que era a dança, de fato, habilidade talvez não fosse a palavra certa, ele era bom mesmo, tinha um dom natural por assim, dizer. Ainda que fosse pequeno demais, e adolescente demais pra entrar nas baladas, e discotecas da cidade. Ser sobrinho de um cara mais ou menos influente ali no interior de São Paulo tinha lá suas vantagens.

Seiya era sobrinho de Aldebaran, e nada era mais chocante que a diferença entre eles... okey, talvez a descoberta de que a vizinha traia o marido com o irmão gêmeo dele fosse mais chocante, mas também era só isso. Aldebaran era um cara grande, de cabelos cumpridos e liso como os de índio, herança da avó deles, com olhos suaves e brincalhões e músculos um tanto quanto.. injustos. Seiya, o protagonista da noite, era bastante diferente, mas o que interessava mesmo, era o fato de que ele ia se acabar de dançar essa noite. A música agitada fazia todo mundo pular, aquela altura já via um ou dois caras embriagados, os casaizinhos mais ousados já se pegavam pelos cantos, e os grupinhos de amigos faziam suas coreografias pras músicas mais tocadas na semana. No meio de toda aquela emoção inebriante de estar naquele local que era como uma segunda casa, mesmo que se sem certeza de como, se pegou de olho em uma pessoa.

Certo, considerem o seguinte: no geral o mestiço japonês não ficava de olho em ninguém, volta e meia alguma menininha ficava de olho nele, volta em nunca um menininho ficava de olho nele, mas ele mesmo não ficava de olho nem nele mesmo – desconfiava que talvez por isso já tivesse sido roubado tantas vezes –, quem dirá nos outros. Bem, a pessoa no caso era de fato o tipo que mesmo um alguém tão desligado notaria, fosse quem fosse, ou o quê, só a imagem das costas com o cabelo colorido já faziam uma visão e tanto.

O menino se aproximou do indivíduo sentado sozinho em uma das mesas do bar que ficava no fundo da boate. Os cabelos eram compridos, mas até que do seu tio, mas não sabia dizer a cor... as luzes que piscavam faziam uma confusão com seus olhos.

Quando já estava bem próximo dele, sentiu-se empurrado de leve, olhou procurando quem esbarrara em si, mas não viu ninguém, tudo bem, acontece. Pelo menos não tinham lhe derrubado nada, aquela era sua camisa favorita. Chegou ao seu destino disfarçando olhando de canto o que, agora ele tinha certeza, se tratava de um homem.

Certo. O tal cara mais alto que ele – mas isso não chegava a ser surpreendente, quando se tem a altura de Seiya, pouco mais de 1,60 se acostuma a ser mais baixo que os outros –, provavelmente mais velho – o que também não era vantagem, se considerarmos que técnica e legalmente, Seiya não devia estar naquela festinha – e bebia alguma coisa. Cerveja, provavelmente.

Por que será que ele não estava dançando? Quer dizer, as pessoas iam lá pra dançar. E que camiseta era aquela? Não sabia o que lhe deixava mais tonto, a estampa que parecia rodar ou as luzes que continuavam piscando... talvez ele fosse um hippie, isso explicaria também as sandálias de tira e a tiara no cabelo... estranho, bem, estranho bom, ao menos.

Cutucou o cara e ele olhou para si parecendo até um pouco assustado. Seiya achou isso engraçado, desde quando ele conseguia intimidar alguém? Aldebaran ia adorar essa. A música tinha acabado de mudar, Wanna Be... droga, adorava essa. Sorriu para o cara que ergueu uma sobrancelha.

Bem, ele é quem deveria ficar curioso, não com o cara, bem, com ele também, mas mais consigo mesmo, desde quando saía por aí falando com estranhos? Isso era meio inédito, e sequer poderia colocar a culpa na bebida, é, seu primo lhe deixava vir a festa, mas bebidas seriam abusar da boa vontade, ele dizia... vai ver era a puberdade... que seja, não havia problema nenhum em chamá-lo pra dançar. Não havia, né?

— Por que tá aqui sozinho? — Gritou por sobre o som, chegando bem perto do moço, estranhou ele se afastar de forma tão abrupta... Bem, talvez não fosse um hippie, eles sempre abraçavam e estavam pelados por aí, né? Bem, talvez Seiya não tivesse certeza se sabia mesmo o que era um hippie, mas tinha um esteriótipo pronto e se permitia usá-lo.

— I don't speak portuguese. – foi um sussurro, e claro, Seiya não entendeu nada de nada, por isso se aproximou de novo do mais alto. Que a essa altura já estava quase caindo da cadeira.

— O quê?! – O menino segurou o mais velho pela camiseta de estampa colorida e colou nele, sentiu que ele tremeu inteiro, e viu o olhar se tornar desesperado, carinha engraçado... E atitudes estranhar da sua parte? Sim, mas aquela festa era toda estranha com gente esquisita dançando, nada mais justo que agir de forma meio, adversa ao costumeiro, certo?

— I... I... Idon't spe...speak portuguese! — Dessa fez a fala foi gaguejada mas pelo menos saiu mais alta. O moreno demorou pra entender, inglês não era a matéria com que tinha maior afinidade por assim dizer, mas pelo menos agora sabia que aquele ali era gringo. Talvez ele fosse um hippie gringo, e esses fossem mais reservados?

— Tá... como é? – ele sussurrava para si mesmo, forçando-se a lembrar a palavra, tornou menos apertado o aperto no tecido da camisa do moço, e escorregou a mão para o braço dele, sorriu quando lembrou a palavra que precisava para conseguir tirar aquele estrangeiro do banco e leva-lo pra dançar um pouco. – Tá alone? – se empolgou com o sorrisinho que o outro deu ao ouvir seu inglês arrastado, apertou mais um pouco a mão no braço dele vendo-o deixar de tentar se afastar tanto.

— Yes. Can you please let me go? – O olhar parecia suplicar, realmente um gringo estranho, não entendeu nada do que ele disse, por isso continuou apenas sorrindo, o outro então se levantou, e se soltou de seu agarro, balançando a cabeça e se preparando pra ir embora. — Bye.

Bye? Que bye o quê? O baixinho agarrou o homem pelo pulso e o puxou de volta, será que ele estava perdido? Ou será que... Oh... Bem, talvez ele só não estivesse entendo nada, vai ver fosse a primeira balada que ele estivesse visitando no Brasil... Talvez ele estivesse com medo de ser roubado, ou de Seiya ser um tarado. Pobre homem. Mas tudo bem, o moreno ainda estava ali e a noite podia ser salva. Bem, se seu inglês não estivesse tão ruim pra ele quanto estava pra si mesmo.

— Please, stay. – O outro torceu os lábios, e ficou encarando a mão no seu pulso, o tal gringo estava começando a perceber que aquele ali era um menino insistente. – What is...is...is your name? — Não teve como não rir, era bonitinho, admitia que sim, era muito bonitinho o modo como aquele pequeno falava inglês, ele se embolava todo, não que fosse alguém pra julgar, ele também não tinha começado bem. Mas não tinha um sotaque tão carregado quanto o dele. Anos de prática também ajudavam. Resolveu responder, na verdade queria mesmo era voltar pro seu apartamento e dormir, descansar pra no dia seguinte poder ir até um riozinho da região, mesmo que corresse o risco de ficar igual um camarão na cor, ou pior, igual a uma cobra no quesito descascamento. Mas também, com aquele calor que fazia no país, o que mais podia fazer?

— I’am Mu, and you’re? — Voltou mais pra perto dele, já que parecia que ele não ia mesmo lhe largar, duvidava mesmo que algum dia fosse entender a necessidade desse povo de ficar pegando um no outro, tudo era abraço, beijo, aperto de mão, mais abraço, ser segurado, pegar no ombro... parecia até a Itália.

— Quê?! — Riu do menor se pondo na ponta dos pés e se inclinando para si, tentando entender, ou pelo menos ouvir o que falava, suspirou derrotado e sorriu um pouco falando perto dele, deixando-se sentir o cheiro do perfume fraco que ele usava... devia ser colônia, era tão suave. Cheiro de bebê quase.

— Your name? — sentiu que ele se arrepiou com isso, não entendeu bem, agora ele é que estava desconfortável, mas não era ele que tinha vindo falar consigo, povo estranho. E além do mais, quantos anos aquele ali tinha? Será que ele podia entrar ali? Vai saber, não sabia do que podia e não podia naquele país, não sabia nada mesmo.

— My nam...? Ah tá, meu nome, my name is Seiya. — Se embolava todo, bem, não devia ser bilíngue. Coitado. Não que ele precisasse, provavelmente não precisava. Ficaram naquele silêncio constrangedor, aquele mesmo que a gente fica sempre que inventa de falar com alguém que não conhece, e depois fica sem assunto. Pior silêncio. Tá, talvez o silêncio depois de você fazer um pedido de casamento fosse pior, mas é bem por aí mesmo. Mu se despediu mais uma vez com um movimento de cabeça e um sorrisinho sem graça, porém mais uma vez foi puxado pelo mais novo.

Uma música começou a tocar, tinha algo como guitarras ao fundo, e a galera pareceu adorar, porque de repente todos estavam gritando. O menino segurando em si abriu um sorriso enorme. Talvez aquele pessoal gostasse da música, mas era só um chute.

— You want dance? — ignorou o melhor que pode a forma toda erra de ele falar, e se concentrou na mensagem que ele queria passar. Bem, claro que não, ele lá parecia saber dançar? Ainda mais uma musica tão animada daquelas? Jamais. Seu talento para dança se resumia a passos fechados na cozinha de casa enquanto preparava um chá e ouvia as novidades da rádio baixinho.

— No, and the right is: Do you wanna dance? — Por que o tinha corrigido? Maldita mania de corrigir os outros, tinha que parar com isso. Mas, bem, ele tinha tido vontade de se professor algum dia da vida, vai ver era só isso.

— Isso, isso dance!! Vamos dançar! — só que ele tinha acabado de recusar, será que ele não entendera? Talvez nem tivesse ouvido. Sentiu-se puxado para o meio da multidão que pulava e se remexia berrando o que devia ser o refrão, algo envolvendo coca... estranho.

Geração coca-cola, não podia deixar essa passar, arrastou o gringo consigo pro meio da pista, não largou do braço dele nenhum estante, sentia que ele não estava necessariamente bem naquele ambiente, mas logo ele se acostumava. Sem se segurar cantou um pedaço enquanto começava a pular e chacoalhar a cabeça ao ritmo da música

— Depois de 20 anos na escola, não é difícil aprender, todas as manhas do seu jogo sujo, não é assim, que tem que ser? — olhou para o homem ao seu lado e ele lhe encarava estranho, mas não se mexia, nem um pulinho ou um passinho de lado, cara estranho demais, que tipo de psicopata não dançaria Renato Russo? Ou será que ele não sabia dançar, talvez no país dele não houvesse dança? Era possível haver civilização sem dança? Mas era tão simples, era só imitar todo mundo, pular e pular, e gritar. Nada complexo.

Chacoalhou o cara apontando pra todo mundo. Gritou pra ele pular também, mas ele apenas lhe encarava com um sorriso amarelo, talvez estivesse passando mal.

— I don't dance. Sorry. — Não tinha entendido nada, mas okey, se aproximou e ficou na pontinha dos pés, estava fazendo muito isso hoje. Nada que não fosse convencional de seus dias, afinal, altura não era seu forte. Embora no geral não tivesse tanto interesse ou coragem para ficar tão próximo assim de ninguém.

— O quê? Ah é, tu não fala português, What? — tinha a impressão de estar falando tudo errado. Mas tudo bem, quer dizer, contanto que ele entendesse.

— I. Don't. Dance! — Mais uma vez ele repetia para si, dessa vez mais pausadamente, entendeu, demorou mas entendeu. Bem, fazia sentido, vai ver ele nunca tinha aprendido a dançar, ou será que estava com vergonha? Sorriu pra ele, segurando-o pelos dois braços. Ninguém vem pro Brasil, pra uma boate, encontra com o Seiya e sai sem dançar, era tipo uma lei, uma lei improvisada e de última hora, mas uma lei. Aquele gringo precisava se soltar, e seria agora, aproveitando o som de Like a Virgin – mesmo que não fosse lá tão fã de Madonna –, puxou o moço mais alto para perto si se dando um pulinho e se mantendo o máximo de tempo esticado pra falar perto do rosto dele:

— Everybody dance, gringo. — E sorriu, aquele tipo de sorriso que dizia sua mãe: "dava arrepios na espinha". Começou a movê-lo pelos braços improvisando uns passinhos, demorou, mas o outro se rendeu e relaxou o corpo permitindo-se ser movido conforme o som da música, eles giraram, depois se aproximaram e aí se afastaram. Certo que não era a melhor das coreografias, mas também, a culpa não era do baixinho se aquele cara não sabia nem um passinho básico.

As músicas continuavam tocando, uma atrás da outra, algumas Mu conseguia entender pois estavam em inglês, outras era naquela língua que ainda não entendia nem o mais simples. Aquele menino era animado demais, será que ele comia muita coisa de alto valor energético? Ou será que... pior, e se ele estivera se drogando?! Bem, é, talvez estivesse ficando um pouco neurótico, mas valha, na sua primeira viagem internacional, para a Inglaterra, tinha sido roubado meia hora depois de sair do aeroporto, desde então ficava difícil confiar muito nas pessoas. Se bem que... aquele tiquinho de gente não devia ser assim tão perigoso.

Mexia-se meio desordenadamente e provavelmente mais atrapalhando que acompanhando o moreno, se deixava levar, qual o problema? Ele que lhe chamara, e não era mesmo isso o que estava querendo? Saiu de seu quarto confortável de hotel às dez e meia para isso não? Para curtir alguma balada naquele país quente, e quente como aquele lugar estava se tornando, abafado, sentia o suor escorrendo pelas suas costas, pelo pescoço, o cheiro estranho de vários perfumes e suores misturados espalhados pelo ar, empurrados pelas ondas sonoras. Como conseguiam aquelas pessoas se amontoar ali? Vai ver era algo do sangue.

A música mudou e os passos também, agora era algo mais ritmado, e forte, o cantor dava gritinhos que davam a Mu vontade de rir, música estranha. O menor a sua frente lhe fazia mexer de modo desordenado com o corpo, virando pra lá e pra cá, dando chutes no ar e pulando, jogando a cabeça pros lados e pra cima e pra baixo, ia acabar quebrando o pescoço, isso sim. Mas continuava. Não tinha nenhum talento pra isso. Mas talvez estivesse tudo bem. Em seus quase 27 aninhos de vida, poucas vezes tinha se divertido tanto, o Brasil era realmente um lugar interessante.

Estava até se divertindo, isso até sentir um par de mãos em seus ombros e um corpo de mulher colar as suas costas. Outro costume, ou seria mania? Enfim. Coisa bem comum para aqueles tais brasileiros era chegar assim abraçando desconhecidos. Mu não gostava muito disso, se sentia meio invadido, não, não era frescura era só... falta de costume. É bem diferente. O fato é que, sentindo-se incomodado virou-se rápido para a mulher que o agarrava afastando-se ao passo que ia quase pra cima de Seiya. O menino ria de si e da cara curiosa e sorridente da mulher vestida em uma calça larga e camisa colada deixando o umbigo de fora.

— O que foi bonitinho? Te assustei? — Ela tinha feito de novo, pelos deuses, será que ela não entendia que não queria o corpo dela se dependurando em si? Se esfregando? Ali dentro estava fazendo o que? Uns 50 graus? E a tal ainda queria grudar em si, empurrou-a o mais delicadamente possível e gritou por sobre o som que agora tinha um ritmo mais rock que não falava português. A garota o encarou sem entender nada... ah não, só faltava mesmo.

Foi nesse momento que foi posto de lado pelo menor que entrou na sua frente ainda sorrindo divertindo, indo falar com a doida que o tinha praticamente atacado.

— Moça. Meu amigo aqui é gringo, não sabe português! – okey, não era do tipo que se divertia com as desgraças alheias, mas daquela vez tinha sido impossível não rir de Mu, o pulo que ele deu quando foi abraçado? Por deus, tinha sido hilário, mesmo que fosse a única coisa hilária, sim, porque ver aquela... gostosa agarrando o gringo não tinha sido nada legal. Detestava gente assim, que sai agarrando o parceiro de dança dos outros, falta de educação do caramba. Quer dizer, uma coisa é você chegar em alguém desacompanhado, outra ela querer tirar o pitelzinho de outra pessoa.

— Ah, tudo bem, mas será que de outras línguas ele não entende? — que sorriso safado era aquele? Impossível que aquelazinha achava que ia ceder o estrangeiro para ela abusar dele, né? Que ousadia.

— Acho que não, olha só pra ele? Tá quase sumindo aqui atrás de mim. No país dele as mulheres não pode abraçar os homens sabe.. É...hun... Pecado. — Revirou os olhos com a própria desculpa, uma porcaria mais cliché que coque frouxo em história de adolescente. Mas parecia que a outra tinha acreditado, pela cara espantada que tinha feito. Às vezes gostava de gente burrinha por isso. Eram tão fáceis de se convencer.

— Sério? Ah, mas a gente não está no país dele. — E se você não sumisse logo, não ia estar nem no mesmo plano de vida que o dele. Talvez ela não fosse tão burra assim, não que isso resolvesse, já que Seiya não estava com tanta paciência assim, queria voltar a se divertir com o moço bonitinho estrangeiro de fala chique, não era ciúmes, era respeitar a lei, quando você trás alguém na pista de dança, você ganha a companhia da pessoa até ela querer ir embora, e o moço cabeludo não parecia querer.

— Sim, mas ele segue muito a risca algumas tradições, ainda mais que ele é noivo. E... Lá no país dele traição pode fazer ele ser preso...

— Ah, mas ninguém vai sab...

— E castrado. Você não quer que esse gringo seja castrado né?

A mulher arregalou os olhos e olhou espantada para o homem atrás do menor que até agora apenas observava a discussão dos dois, ele tinha a expressão meio perdida, mas parecia bem, quer dizer, quão bem se pode ficar sendo esbarrado no meio de uma festa com luzes piscando e som alto; pobrezinho, devia ser de algum país de costumes loucos, não ia mais atrapalhar, vai que depois ele perdia a vida? Ou pior, o p...

— Ah, isso é terrível... De qualquer forma, até mais então. Bye bye! — A despedida animada foi um gritinho, e depois disso ela girou nos seus saltos e voltou para a pista de dança, provavelmente pra fofocar com os amigos o que descobrira daquele homem meio hippie que achara por ali, ou ainda pra achar outro cara em quem se enroscar, independente do quê, aquela ali se daria bem, insistente e bonitona. Mulheres altas, Deus tinha um plano magnífico para elas, com certeza.

— Hey, já pode sair, tudo bem? Quer dizer, are you good? — o moreno retornou com um sorriso enorme para si, e não pode evitar sorrir de volta , ainda que fosse um sorriso de cantos, contido como tinha o costume de ser com estranhos; a única coisa pra lhe fazer alargar o sorriso era a graça em ouvir mais umas palavras em inglês que ele pronunciava de forma estranha e cheia de sotaque. Era, e não achava palavra melhor pra descrever, fofa.

— Yes, thank you, Seiya. — olhava para o menino, ele já estava todo desalinhado, provavelmente estava no mesmo estado depois de terem dançado tanto, os cabelos dele grudavam um pouco na testa, e o tênis allstar tinha desamarrado em algum ponto da dança. Era bonito. Quer dizer, já tinha notado antes, esse é o tipo de coisa que você repara numa pessoa, sabe? É alta, é gorda, é bonita, tem cabelo bonito, eu gostaria de joga-lo no chão e transar loucamente com ele, entre outras coisas. Notamos isso, e claro, Mu não era nenhuma exceção. Mesmo assim, mal conhecia o menino, e já gostava dele. Pena que não tinha muito mais que uma noite pra conhecer, ah, e que ele tinha cara de criança, o que apostava, pela energia toda que tinha para gastar que era algo bem próximo de ser verdade.

— De nada! Let's dance! — mais uma vez? Ele não cansava mesmo. Já Mu estava quase morrendo, seu corpo implorando por um descanso, ainda mais depois de o corpo esfriar, mas se sacudiu e voltou a se chacoalhar no ritmo da música, e claro, as músicas pareceram ficar mais agitadas, a maioria em português agora, animando cada vez mais. E Seiya dançava todos os passos perfeitamente, enquanto ele mesmo ainda tropeçava nos próprios pés, mas também, dança esquisita aquela. Mesmo que fosse divertida.

Achava que Mu ia desistir logo de dançar. Mas não, ele tinha ficado um bom tempo rodando pela boate dançando consigo, mas talvez estivesse na hora de levá-lo a outro lugar, um mais calmo onde ele ia conseguir respirar melhor, ele devia estar derretendo. Pegou-o pelo braço aproximando os corpos, sentindo o calor que vinha do outro, era gostoso, aconchegante, atrativo, bem, ele era todo isso, ou seus hormônios faziam parecer que sim.

— Come whith me. — indicou com a cabeça um caminho a esquerda, onde havia uma escada que eles subiram sem maiores problemas, as escadas foram dar para o segundo andar e de lá passaram por uma porta que levava a uma pequena varanda suspensa. A brisa morna que chegava até ali era um alívio e tanto para os dois, Mu sentia os cabelos colando na camiseta que já tinha colado ao seu corpo à tempos, os olhos ardiam com a claridade que vinha das ruas. Respiraram fundo observando a paisagem. E só depois é que voltaram a se olhar, ali no claro, finalmente podiam se ver perfeitamente.

Seiya era realmente bonito, fofo e tudo mais, era baixinho, de cabelos castanhos, e os olhos... lhe lembravam grãos de café recém moídos. Mu adorava café, ele estava todo desalinhado, claro, mas isso não importava, era só um charme a mais naquela figura, aquele ali seria um terror quando tivesse a sua própria idade, quer dizer, tinha a ligeira impressão que seria, ainda mais com todo aquele carisma.

Já Mu era alto, e os cabelos de um tom castanho que era quase loiro, fora isso os olhos verdes chegavam a brilhar, as sobrancelhas fininhas lhe chamaram a atenção, bem como as pintinhas que haviam sobre elas. A pele dele era morena como a sua, mas dava pra notar que a dele era por estar tomando sol demais. Era lindo, mais alto, mais velho, seus hormônios tinham bom gosto, pelo menos. Seu tio lhe mataria se soubesse do que andava pensando e fazendo.

— That's good, have air, have you here. It's the best place I has stay that night, and is better because you is whith me. — Não tinha entendido muito, então apenas sorriu e balançou a cabeça esperando não ter sido um xingamento. Achava que não fosse, ele era bonito demais falando pra estar lhe xingando.

Ficaram em silêncio, não era um silêncio desconfortável, era mais um silêncio de "preciso falar algo, mas não sei como", literalmente no caso, já que a linguagem não estava concordante entre eles. Se olhavam, Seiya sorrindo aberto e mexendo a cabeça, enquanto os braços se moviam para suas costas, os dedos se entrelaçando; engraçado como repentinamente se via nervoso, ele que geralmente não era atraído por ninguém, que não se interessava, assim, do nada, estava bem interessado no gringo alto de cabelo grande. Estava sendo uma noite fora de parâmetros mesmo, não é?

Mu tinha o olhar perdido além do menino que não parava quieto, ele também achava tudo muito estranho, quer dizer, era um garoto, mais novo que ele, do mesmo sexo que ele, que sabia dançar, esse era um ponto bem importante. Mas, não havia sido por isso mesmo que tinha saídos do Tibete? Não fora pra conhecer gente diferente, ir a outros países onde se sentisse mais à vontade, onde visse pessoas que lhe encantassem, como aquele pequeno estava fazendo naquele exato momento. Focou os olhos verdes nele, e reparou que ele parecia perdido em algum mundo a parte, a cintura se mexia ao ritmo da música que tocava dentro da boate, e ele tinha um dos dedos na boca, mordendo a unha com o olhar perdido em si... era realmente lindo, pena que não podia dizer isso pra ele, correndo o risco de ele não entender nada. E de ser preso como um pedófilo, tinha certeza que mesmo a maior diversidade cultural não devia diferenciar tanto assim o tratamento para pessoas que abusam de crianças. Mesmo com isso em mente se aproximou dele.

Seiya se assustou quando sentiu o outro segurar sua mão, a que estava na boca, e puxá-la para si, de modo a deixar os dois corpos muito próximos. Olhou para cima, era estranho estar assim com outro homem, podia isso? Bem... com tantas coisas acontecendo nos últimos tempos, cantores dizendo ser gays, paradas e palestras... por que não? Seus hormônios gostariam de dar uma resposta positiva. Sorriu de forma incontida, e levantou-se na ponta dos pés unindo seus lábios aos do mais velho.

Adolescentes costumam ser afoitos, e o moreno não era diferente, logo ele já tinha sua língua dando um jeito de entrar na boca do outro. Mu que apenas se deixava levar pelo fogo daquele menino, pensava em como os costumes daquele país ainda eram estranhos para si, mas conseguir um beijo e não ser obrigado a casar já era um estranho bom demais. As mãos do estrangeiro seguravam a cintura do mais novo, e os lábios não se desgrudaram até que os dois não aguentassem mais e precisassem se separar para recuperar o fôlego.

Okey, pedofilia era algo bem ruim, e podia entender isso, mas digamos que aquele era um ambiente para adultos, então se ele tinha entrado, mesmo com a cara de bebê ele devia ser um adulto? Bem, talvez um quase adulto ou um recém adulto? Bom, um adulto, imaginava.

Depois de se separarem se olharam em silencia, respirando um pouco afoitos e constrangidos, a melhor forma de lidar com constrangimento depois de um beijo, todo mundo sabe é voltando a beijar. E foi por isso que o mais velho voltou a beijar o menor que emaranhava os dedos em seus cabelos, o que fez com que sua tiara ficasse toda torta e seu cabelo parecendo um ninho, não se importou, aproveitavam que estavam sozinhos e não se preocupavam em chamar a atenção, as mãos afoitas do mais novo tinham se enfiado dentro da bata que o maior usava e agora os braços estavam nas costas largas dele, enquanto Mu se revezava em beijar o pescoço e os lábios do moreno, tomando cuidado pra não deixar marcas, apertando a cintura dele. Claramente esse não era um comportamento que o tibetano tivesse nos dias comuns, mas ele já tinha dançado muito, sido salvo de uma menina quase tão alto quanto ele, e agora aquele brasileiro parecia tão empolgado, não poderia dizer não, certo?

Ficaram assim por um tempo até se separarem por completo antes de ficarem mais animados do que o que seria recomendado, ainda que tivessem continuado abraçados, com Mu tendo o rosto enterrado no pescoço do moreno buscando respirar, e Seiya apertando os músculos se suas costas, o gringo era magrelo, mas isso ficava tão bem nele.

A música continuava alta lá dentro, e quando percebeu qual era, Seiya teve de rir, que conhiecidencia, não? A risada do mais novo, chamou a atenção do tibetano que o olhou curioso.

— What?

— Nada. Hun... Nothing... Just a... music, about... — e esperou que o refrão começasse com um sorriso no rosto. –And I ask do you wanna dance? And I hug you, do you wanna dance? — cantou com o ritmo da música rindo porque sabia que muito provavelmente tinha falado tudo errado, e o outro mal devia ter entendido qualquer coisa que fosse. Bem, fazer o que se o gringo não falava português? Ele que não ia falar inglês, né?

Mu levantou uma sobrancelha, tá, tinha achado bonitinho ele cantar, até admitia, mas, aquilo estava bem errado, pensou em corrigir, mas deixou de lado, não valia a pena, o momento estava bom demais pra estragar com gramática inglesa, que, a propósito, ele nem gostava tanto assim, de fato, preferia as línguas antigas como grego. Abriu um sorriso de lado, apertando o abraço na cintura dele, remexendo levemente e de forma desengonçada – tinha que aprender logo a dançar.

— Ah, and what? Do you wanna dance? — O moreno abriu o maior sorriso balançando a cabeça efusivamente em um sim, e saiu o arrastando de volta ao inferninho que estava dentro da boate, bem, se não podia fugir dele — se bem que agora nem queria mais-, teria o maior dos prazeres em se unir a ele.

Notas finais
Qualquer erro de ortografia, desculpem e aceito correções, o mesmo para o inglês no qual são tão boa quanto o Seiya.
bye.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!