Wishmaster
37 Prefácio
Notas iniciais
Pediu para o moreno manter os olhos abertos o máximo de tempo possível enquanto aproximava uma fonte luminosa dos mesmos a fim de examiná-los, acabando por se surpreender em seguida.
– O que foi, Mike? – O capitão perguntou, cruzando os braços e se desencostando da parede onde se encontrava, aproximando-se.
– Nunca vi córneas tão saudáveis. – O major comentou, afastando o equipamento e permitindo que o outro voltasse a piscar, voltando os olhos para o homem de baixa estatura ao seu lado. – Eu realmente não tenho como justificar sua falta de visão. Desculpe Rivaille.
O menor voltou os olhos para Eren, que coçava-os com uma das mãos antes de saltar da cadeira onde estava sentado, tateando uma cômoda ali próxima. Estava mais tranquilo agora que sabia que aquela cegueira não era algo físico. No entanto, vários questionamentos então se acercavam em seus pensamentos, o que o fazia se lembrar dos momentos em que o outro enxergava, quando estava em perigo extremo ou em uma situação em que precisava ver o caminho que iria seguir. Mas nada fazia sentido.
Crispou os lábios, segurando sobre o pulso do moreno antes de se despedir do Zakarius, saindo da sala onde estava rumando para os corredores. Estava frustrado, afinal, gostaria de ter recebido alguma resposta significativa com aquele exame que há muito ansiava para ser feito.
Enquanto caminhavam sem um rumo certo, a mente do jovem Jaeger processava a informação que recebera de Mike, engolindo em seco várias vezes. Ele próprio gostaria de poder responder tal pergunta, no entanto, enquanto não conseguisse “controlar” suas vontades quanto à sua visão, nada poderia fazer para amenizar a ansiedade do capitão.
Além disso, outras coisas também o estavam incomodando ao ponto de não conseguir descansar à noite. Desde a última reunião que a tropa de exploração teve com Irwin, sua situação como membro e protegido de Rivaille estava por um fio, visto que, com o fracasso da última missão de retomada, sua custódia estava mais uma vez em jogo e, provavelmente, seria levado pela Polícia Militar. Por mais que o capitão dissesse que tal decisão não seria tão ruim, no fundo, sabia que, de alguma forma, estaria correndo um risco extremo ao estar sob os cuidados de Elaijia Savage. O que não entendia era o porquê, visto que o ruivo o estava tratando bem desde que procuraram abrigo na base da Polícia Militar central.
Estava tão entretido nos próprios pensamentos que acabou esbarrando acidentalmente em Levi, que havia parado de caminhar repentinamente. Logo tratou de se desculpar, ouvindo o outro resmungar alguma coisa antes de voltar sua atenção para alguém que estava provavelmente passando pelo local. Apenas continuou parado, ouvindo os passos de alguém se aproximando.
– As próteses do seu irmão chegaram. – avisou, voltando os acinzentados para Eren em seguida. – Irwin as está levando até o quarto dele.
O moreno suspirou pesadamente antes de tentar responder qualquer coisa. Não havia passado no quarto de Armin desde que voltara da missão de retomada da base de Rose, portanto não sabia ao certo o estado em que o amigo e irmão se encontrava, o que o preocupava em demasia. Pelo o que lhe disseram, seus dias como soldado haviam chegado ao fim.
– Espero que ele consiga se acostumar com isso... – comentou, atraindo a atenção do capitão para si. – Dizem que próteses de madeira são horríveis.
Levi deu de ombros, também suspirando.
– Isso vai depender apenas da força de vontade dele. – devolveu, segurando o pulso do moreno com mais força antes de voltar a puxá-lo. – Vamos, é hora do almoço.
–
A respiração ofegante era bem audível e se misturava ao som nem um pouco agradável das correntes que se arrastavam pelo chão na medida em que se movimentava. Sentia frio e a umidade e a escuridão daquele lugar apenas piorava sua situação.
Não sabia quantos dias tinham passado, não conseguia entender o porquê de tudo aquilo e, como se não fosse o suficiente, também não conseguia odiá-los. Não era como se um sentimento como aquele pudesse mudar tão de repente.
Afinal, como odiar o homem que o salvou e o homem e o amou?
Fechou os olhos mais uma vez, sentindo o corpo ir de encontro ao chão sujo. Seus ferimentos ardiam tanto que mal conseguia se levantar e a sujeira daquele lugar apenas intensificava aquelas sensações terríveis.
Foi arrancado de seu suplício pelo som do ranger da porta daquele lugar e então voltou a exibir os intensos esmeraldinos, apenas para semicerrá-los novamente por conta da claridade que o invadia tão repentinamente. Não conseguiu enxergar quem estaria ali, concentrando-se apenas no som de passos molhados que se aproximavam aos poucos de seu corpo.
– Droga David... – Ouviu a pessoa resmungar e logo reconheceu o dono da voz, que se ajoelhou ao seu lado.
– ...Elai...jia... – Disse arrastado, fechando os olhos ao sentir a mão do outro afagando seus cabelos molhados. — ...Ajuda...
O cavaleiro franziu o cenho com força, trincando os lábios em seguida antes de sussurrar:
– Não posso... David, não nos deu outra escolha. Se continuasse assim iria apenas atrapalhar. – Tentou explicar enquanto o moreno balançava a cabeça negativamente com esforço.
– Não... Precisa ser... Assim...
– Poupe esforços. Eu te trouxe água e um pouco de comida. – disse, abraçando o corpo do adolescente com ambas as mãos, trazendo-o para o seu colo antes de pegar a pequena garrafa que trouxe escondido. – Beba e coma o máximo que puder, não sei quando poderei voltar aqui.
Aproximou a garrafa dos lábios secos e rachados do jovem Jaeger, umedecendo-os apenas o suficiente para fazê-lo abrir a boca, o que não demorou. David sentiu o líquido escorrer como lâminas em sua garganta extremamente seca, antes de sentir o alívio de ter o estômago sendo preenchido por alguma coisa que não fosse a própria saliva. Em seguida o ruivo pegou um pedaço de pão, oferecendo ao outro em pequenas parcelas para que conseguisse se alimentar direito.
– Obrigado... – Foi surpreendido pelo mais novo, que havia falado de boca cheia.
O Savage engoliu em seco, assentindo enquanto continuava alimentando-o com o pão.
– É o mínimo que posso fazer para conseguir dormir à noite, David. – Comentou, suspirando quando o outro terminou de comer, pegando então a fruta que também tinha trago. – Não quero que me agradeça por isso, não sou uma boa pessoa, ou então você não estaria sofrendo dessa forma.
Naquele momento o sol se fez mais forte do lado de fora, iluminando parcialmente o interior daquela masmorra e fazendo os acinzentados de Elaijia praticamente saltarem com o que o mesmo contemplara. A visão do rosto do rapaz de pele bronzeada completamente ensanguentado e repleto de hematomas o fez prender a respiração, não apenas pelo estado do mesmo, mas também pelo sorriso mais bonito que recebera desde que o havia conhecido, além das lágrimas que escorriam grossas pelo canto dos esmeraldinos.
– E existe sofrimento maior do que viver pela vingança? – disse arrastado. – Passar um dia após o outro com esse desejo infame no coração e ser incapaz de perdoar o próximo... Não conseguir enxergar outra solução, outro caminho... Eu não estou sofrendo pelas coisas que você e Francis fazem... – Ergueu ambas as mãos trêmulas, segurando o rosto do cavaleiro entre elas, acariciando levemente. – Eu apenas queria aliviar um pouco todo esse seu sofrimento, Elaijia. E se para isso, você precisar me odiar... Então me odeie com todas as suas forças.
A visão de David se embaçou um pouco naquele instante, porém, conseguiu ver quando duas finas lágrimas escorreram dos olhos do ruivo.
...
– Eren!
Foi tirado de seus devaneios pelo chamado de seu superior, que balançava seu ombro sem parar com uma das mãos.
– O... Que...? – perguntou ainda aéreo, piscando algumas vezes para poder voltar para a realidade, sentindo as pálpebras um pouco úmidas. Aquela havia sido uma visão muito intensa, era como se conseguisse sentir o aperto no peito que aquelas palavras lhe causaram naquela época.
– Por que está chorando? – A voz de Rivaille soou preocupada, observando quando o moreno ergueu uma das mãos, levando os dedos ao rosto para sentir a umidade que havia ali. – Está se sentindo mal?
Eren fungou alto, enxugando o rosto com o uniforme enquanto tentava se recompor pelo menos um pouco. Não queria preocupar o homem ao seu lado, que havia interrompido sua refeição quando percebeu o moreno olhando para um ponto em específico, sem nunca tocar na comida que lhe fora servida.
– Desculpe... – respondeu finalmente, sorrindo cordial enquanto tateava a mesa em busca dos talheres. – Não se preocupe capitão, apenas me lembrei de uma coisa ruim.
Levi continuou o observando por poucos segundos antes de continuar a comer. Não iria pressioná-lo a falar sobre o que quer que estivesse pensando. No momento, o que o preocupava era como o amigo ruivo iria se posicionar quanto à custódia de Eren. Não queria admitir, mas estava temeroso depois de todas as coisas e situações estranhas pela qual estava passando naquele momento, o que o lembrava que deveria terminar de ler os manuscritos que Hanji lhe havia confidenciado para que conseguisse compreender, nem que fosse um pouco, toda aquela situação que classificaria como loucura até pouco tempo atrás.
Suspirou pesadamente ao terminar de comer, concentrando-se apenas no copo d’água que lhe havia sido oferecido por um soldado da Polícia Militar que havia passado. Iria questionar Irwin quanto à isso o mais rápido possível, visto que não tinha interesse algum em entregar o garoto, não apenas por motivos pessoais.
Foi tirado de seus devaneios pelo barulho da porta do refeitório sendo aberta e então os acinzentados foram voltados para ela, onde o comandante da tropa de exploração caminhava em passos extremamente lentos e cautelosos enquanto usava um dos braços para dar apoio à Armin, que estava fazendo uso das próteses nas pernas naquele momento. Pela expressão do mais novo e pela forma como suas pernas tremiam, aquilo não parecia ser agradável, principalmente pelo fato dos demais soldados que ali se encontravam ficarem em silêncio, fitando-o. Tentava imaginar como aquilo parecia ser desagradável para o Arlert, que até então não tinha deficiência alguma.
Chamou a atenção de Irwin com um dos braços antes de se virar para Eren novamente.
– O seu irmão está aqui. – avisou, percebendo como a expressão do amante se alterou. – Posso deixa-lo contigo enquanto tenho uma conversa com Irwin? Não vou demorar.
– S-Sim... Eu também queria falar um pouco com Armin a sós. – Deu um meio sorriso ao responder, deixando a coluna mais ereta enquanto Rivaille apenas o observava.
Não demorou muito para que os dois loiros chegassem à mesa, imediatamente sendo cumprimentados. O capitão pediu licença enquanto chamava o Smith para ir consigo para o lado de fora, onde provavelmente não teria muitas pessoas e dificilmente seriam ouvidos, deixando os dois irmãos finalmente a sós, um de frente para o outro. Eren não conseguia ver, mas algumas partes do corpo do amigo e irmão continuavam cobertas pela atadura e, provavelmente, as pernas também, visto que ainda não teriam cicatrizado por completo.
– Armin... Desculpe não ter ido de visitar depois daquele dia. Aconteceram tantas coisas... – começou, suspirando antes de abaixar levemente o olhar em reflexo.
– Não se preocupe Eren, não conseguiria lhe dar muita atenção também. Era drogado a maior parte do tempo. – Deu de ombros, arrependendo-se em seguida pela incômoda dor que sentia. – Eu... Sinto muito. – Voltou os azulados para o moreno, apoiando o único braço sobre a mesa. – O comandante me contou o que aconteceu.
O moreno crispou os lábios com aquilo enquanto as imagens daquele dia voltavam nítidas em sua mente.
– Às vezes eu penso se não seria melhor se tivesse morrido naquele dia em Trost. – comentou cabisbaixo, fazendo Armin se surpreender. – Eu não me encaixo aqui Armin, sempre que acontece alguma coisa e eu estou envolvido, alguém acaba morrendo ou se ferindo gravemente.
– Não diga essas coisas Eren! Essa batalha infernal está quase chegando ao fim! Até o momento, apenas aqueles quatro nos estão perturbando. Se conseguirmos derrubá-los, a humanidade terá vencido. – Tentou animá-lo. – Quando você... Começar a controlar essa habilidade que possui, estaremos dando um passo muito grande!
– É... Mas será que vale mesmo a pena todo esse sacrifício por algo que nem ao menos é certo? – Suspirou pesadamente, tateando a mesa mais uma vez para afastar a louça que tinha ali. – Desculpe, estou aqui me lamentando e nem perguntei como você está.
O loiro sorriu, balançando a cabeça.
– Estou bem melhor que antes, com certeza. – disse. – Essas próteses machucam, mas acho que isso vai passar quando os ferimentos cicatrizarem.
– Deve ser difícil andar com elas...
– Muito, mas não é nada que não acabe me acostumando. – Deu de ombros mais uma vez, sorrindo, abaixando o tom de voz em seguida. – Parece que você e o capitão estão bem de novo, não é?
O moreno sorriu levemente constrangido antes de assentir.
– Ele gosta muito de você Eren. – comentou, movendo-se no banco, tentando ficar mais confortável. – Irwin me contou o que ele fez na última missão. Nunca o vi fazer isso por ninguém, arriscar-se dessa forma... Você deve ser muito importante.
– Talvez... – respondeu aéreo e com uma entonação levemente cabisbaixa. – Mas será que toda essa dedicação terá algum resultado?
Armin ficou em silêncio enquanto Eren ergueu o olhar pensativo. Gostaria de entender o que estaria passando na cabeça do amigo naquele momento.
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