Wishmaster
11 Ponto de Ruptura
Notas iniciais
Resolveu desistir de tentar convencer o amigo ruivo de que não havia necessidade de ser levado à enfermaria, sabia o quão teimoso era e para evitar conflitos, apenas o acompanhou. Pelo menos seria aliviado das dores e ardências que insistiam em atormentá-lo, o que poderia ser considerado como um ponto positivo ao seu ver. Além disso, outra coisa o estava perturbando: a estranha reação de Elaijia quanto aos livros que lia com Hanji. Sabia que aqueles relatos eram proibidos, porém, nada justificava aquelas reações. E como se não fosse suficiente, percebeu também o clima pesado que se instalara entre o capitão Savage e Eren naquele momento no quarto.
O cabo deu de ombros ao chegar à enfermaria, sendo prontamente atendido por alguns soldados que ali estavam enquanto outros saudavam os dois homens que adentravam o local, fechando a mão direita em punho e direcionando-a para o lado esquerdo do peito. Ignorando a todos, Elaijia deixou que Rivaille se acomodasse em um dos confortáveis leitos enquanto explicava a situação para os soldados, que logo ocupavam-se de cuidar das feridas do cabo, que lançava um olhar pouco amigável ao capitão ao seu lado.
– Sabe que isso foi desnecessário, não? — O tom indiferente de Levi se fez presente.
– Pelo amor! — O ruivo exclamou, rolando os olhos em desdém. — Pare de reclamar, sim?
– Foram apenas queimaduras. — continuou, resmungando qualquer coisa ao sentir sua pele ser puxava juntamente com o tecido da camisa. — Não havia necessidade de ficar me apoiando o caminho inteiro. Eu sei andar sozinho.
– Engraçado. — Elaijia sorriu crápula. — Sou eu quem estou com as costas doendo por ajudar certo anão, mas quem está reclamando aqui é você.
Levi trincou os dentes, sentindo uma veia em sua testa saltar por conta do trocadilho referente à sua altura, que gerou certo murmurinho por entre os soldados.
– Só não te parto a cara agora porque meus braços estão ocupados. — devolveu mal humorado, referindo-se aos dois rapazes ocupados com seus ferimentos.
– Sei. — respondeu, não levando a sério a ameaça que recebera. Elaijia cruzou os braços, sem desviar seus acinzentados dos orbes do amigo, que possuíam um tom de cinza mais escuro que os seus. — Gostaria de saber o que aconteceu para ficar neste estado, mas ainda preciso descobrir o motivo para que fui chamado.
– Tsc. Que saco. — resmungou, arrancando uma risada do outro.
– Que belo exemplo de responsabilidade que acabou de dar aos seus soldados! — provocou, transbordando ironia. O cabo apenas rolou os olhos.
– Passe no meu quarto quando estiver livre. — avisou, fitando o amigo assentir antes que começasse a caminhar para se retirar. — Não esqueça, precisamos mesmo conversar.
– Não se preocupe Levi, vou aparecer. — respondeu antes de se retirar, deixando o cabo na enfermaria com a companhia dos soldados. Apenas quando ouviu o barulho da porta se fechando atrás de si que o capitão permitiu-se suspirar, logo franzindo o cenho antes de voltar a caminhar em passos lentos. Estava sendo cada vez mais difícil manter aquele tipo de fachada.
Além disso, por mais que seus planos estivessem progredindo melhor do que havia imaginado, o obstáculo que os livros que a tenente portava poderia atrapalhá-lo e apenas o pensamento de que talvez a situação pudesse estar escapando de seu controle o irritava. O ruivo precisava se livrar daqueles livros o mais rápido possível.
[...]
O rapaz de pele bronzeada, ainda ajoelhado sobre o chão de pedra, tentava entender o que havia se passado. Tentou se levantar, balançando cuidadosamente os braços no ar. Não sabia onde estava e como também não conhecia a base da tropa de exploração, todo cuidado era pouco. Ouviu o barulho de passos que ecoava pelo recinto, jungando pertencerem à Hanji, visto que sabia que a mulher não havia saído do quarto ao lado dos outros dois homens. Pensou em perguntar qualquer coisa, mas fora interrompido quando a mulher se pronunciou:
– Como está se sentindo, querido? — quis saber, voltando os orbes castanhos para o moreno, que esboçou uma carranca, confuso.
– Bem... Obrigado. — respondeu, arriscando dar um passo para frente, resmungando mentalmente ao bater o pé sobre uma superfície qualquer. O barulho atraiu a atenção da tenente, que a voltou para o dono dos orbes esmeraldinos.
– Opa! — A mulher exclamou, aproximando-se mais uma vez de Eren, segurando-lhe o braço. — Desculpe, venha.
Caminhou, guiando o moreno até a cama em que estava, anteriormente, deitado. O jovem Jaeger esticou a mão livre a fim de tatear qualquer coisa que estivesse ao seu alcance a fim de não esbarrar em mais nada, logo sentindo a textura dos grossos lençóis da cama.
– Obrigado tenente. — disse após se sentar, apoiando ambas as mãos sobre as coxas.
– Nada de formalidades Eren! Trate-me por Hanji! — respondeu em sua euforia característica, arrancando um sorriso do rapaz de pele bronzeada, o que apenas aumentou a alegria da morena.
– Onde estamos? — perguntou finalmente, ouvindo os passos da mulher voltarem a ecoar por aquela divisão.
– No quarto do Rivaille. — respondeu, aproximando-se da poltrona onde o cabo estava anteriormente sentado lendo o livro que havia trago, voltando o olhar para o garoto em seguida, sorrindo pela vermelhidão excessiva que tingia sua bela face. — Não fique assim querido! Ele mesmo o trouxe aqui.
Eren sentiu a temperatura de seu rosto aumentar com aquele comentário.
– Não entendo...
– Não se lembra de nada? — quis saber e seus olhos castanhos brilharam ao receber uma resposta negativa. — Interessante... Ah! — Estalou os dedos de repente. — Encontrei com seus irmãos quando fui chamar por Elaijia, estavam te procurando.
O jovem Jaeger ergueu ambas as sobrancelhas ao ouvir a menção de seus irmãos, sorrindo timidamente em seguida. Não se lembrava de ter algum tempo livre quando os treinamentos com Rivaille começaram, o que ocasionava em raros encontros com Mikasa e Armin. Sentia falta daqueles dois e pensou que poderia encontrá-los com mais frequência caso ingressasse na tropa de exploração.
Além disso, sentia certo desconforto ao ouvir um nome em específico: Elaijia. Provavelmente tanto Hanji quanto Levi o conheciam e pela forma como a morena de óculos se referia ao homem, este também parecia pertencer ao exército. Mais particularmente, à Polícia Militar. Todavia, não era o fato do homem pertencer àquela classe do exército da humanidade que o incomodava, mas sim a sensação nostálgica que fez todo o seu corpo estremecer apenas por sentir sua presença. Algo que se assemelhava ao medo, este que não sabia exatamente explicar de quê.
Balançou a cabeça negativamente em uma tentativa de expulsar tais pensamentos. Não gostava de divagar demais em hipóteses que poderiam não serem concretas. Até mesmo Armin havia lhe dito que não era saudável insistir em determinadas situações pelo simples fato de que nossa mente poderia criar problemas onde estes não existiam. No entanto, aquilo ainda o incomodava.
Voltando sua atenção à Hanji, ouvia barulhos estranhos, algo que se assemelhava a papéis sendo rasgados.
– O que é isso? — perguntou Eren, atraindo novamente a atenção da morena para si, esta que segurava um dos três grossos e antigos livros em seus braços, folheando-os rapidamente e arrancando algumas páginas.
– Estou arrancando algumas páginas de livros. Não conte a ninguém. — respondeu a sua maneira, sorrindo antes de voltar ao trabalho. — Elaijia quer confiscar os livros e não duvido que ele fará isso. Porém... — E de repente seu semblante se tornava sério. — Rivaille precisa ler isso.
– E do que se tratam esses livros? — perguntou uma outra vez, curioso.
– Histórias sobre os titãs! — Os castanhos da tenente se iluminavam apenas com aquilo. — Adoraria explicar mais querido, mas eu realmente preciso esconder as páginas mais importantes desse livro antes que Elaijia volte. — Fechou o livro que segurava e então caminhou em passos rápidos até a cômoda onde se encontravam os outros dois. — Estamos na hora do almoço Eren, deveria ir para o refeitório. Seus amigos devem estar lá.
O dono dos esmeraldinos resmungou desconfortável, movendo ambas as pernas a fim de mudar de posição.
– Tene... Hm, Hanji. — chamou a mulher uma última vez. — Eu ainda não conheço as coisas por aqui e não tenho uma bengala... Poderia me levar até lá quando terminar ou me deixar perto?
A mulher então parou o que fazia por um momento, voltando os castanhos para o garoto sentado sobre a cama que fitava fixamente um ponto em específico, sentindo os ombros relaxarem, cansados. Às vezes se esquecia da deficiência do garoto.
– Claro. — respondeu cordial, aproximando-se novamente do rapaz e levando a mão livre até suas madeixas, acariciando-as levemente. — Apenas me deixe terminar isso.
–
A atenção dos soldados era voltada para a porta dupla de madeira, por onde atravessavam duas pessoas em específico. A tenente sorria amplamente, exibindo despudoradamente seus dentes amarelados enquanto segurava com a mão esquerda o pulso direito do rapaz de pele bronzeada, correndo os olhos pelas bancadas a procura de uma onde os irmãos do garoto estariam, ao mesmo tempo em que ria escandalosamente sobre algo que havia comentado com o mesmo, que permanecia com um sorriso forçado, sem entender sobre o que a morena estaria falando.
Na verdade, a atenção do jovem Jaeger estava voltada para os comentários acerca de sua presença. Assim como havia imaginado, grande maioria dos soldados não concordava com sua entrada àquela tropa, afinal, não havia passado pelo mesmo treinamento e processo seletivo, o que gerava certo sentimento de inveja. Além, é claro, do aparente nível de preconceito vindo de comentários como "Mais um aleijadinho para servir de isca para titã", ou "Mais um para atrapalhar". Lembrava-se do momento em que estava no antigo Abrigo Arlert, almoçando ao lado do cabo quando o mesmo disse que o responsável capitão Irwin não permitiria tal comportamento por entre os membros de sua tropa. No entanto, sabia que era algo inevitável, mas mesmo assim não conseguia deixar de se sentir mal.
Percebendo o desânimo do subordinado ao seu lado, a morena aproximava os lábios do ouvido do rapaz, murmurando:
– Não se preocupe com esses comentários sem educação. A maioria deles morrerá na próxima expedição. — A morena riu pela expressão incrédula estampada no rosto do garoto.
– E desde quando isso é uma coisa boa?! — perguntou levemente exaltado, fazendo a mulher rir mais alto.
– Depende do ponto de vista. — Deu de ombros, correndo os olhos mais uma vez pelo local até que os mesmo repousaram sobre certa cabeleira loira. — Ah, ali! Armin! — chamou, segurando mais firmemente sobre o pulso do moreno, puxando-o consigo enquanto corria afobadamente por entre as bancadas, sendo seguida por um garoto que tentava manter os dois pés no chão. O loiro virou o corpo, olhando para trás e sorrindo amplamente em seguida.
– Eren! — exclamou eufórico, levantando-se da bancada e antes que pudesse fazer algo mais, onze pessoas baixinhas corriam na direção do moreno, que foi pego de surpresa e acabou indo de encontro ao chão, enquanto os onze corpos o envolviam apertado.
– Eren! Você está bem! — O moreno imediatamente arregalou os olhos, sem esconder o grande sorriso que insistiu em adornar-lhe a faze. Reconhecia perfeitamente aquela voz infantil.
– Emi... — afirmou, erguendo ambos os braços e tateando os rostos dos pequenos ali presentes. — Klaus... Thuomas... Marien... Minhas crianças! — Eren elevou o tom de voz, não conseguindo ocultar a alegria que dominava seu corpo. — Estão todos aqui? Deus, vocês estão bem! — E então abriu ambos os braços, sentindo seu corpo ser envolvido pelos braços finos daquelas crianças, que riam eufóricas por voltarem a se encontrar com o jovem Jaeger, este por sua vez que não tardou em retribuir o abraço, apertando-as firmemente por entre seus braços. — Vocês estão bem...
Hanji fitava àquilo tudo com um grande sorriso sobre os lábios, feliz em poder presenciar tamanha alegria em meio à uma realidade cruel e caótica. Era incrível a maneira como Eren parecia radiante com a presença daqueles pequenos, pouco se importando com o fato de estar sentado sobre o chão levemente empoeirado do refeitório. Já o loiro fitava aquilo tudo com as maçãs do rosto levemente avermelhadas por estarem atraindo atenção demais para aquele ponto em específico e imediatamente ao seu lado estava a jovem Ackerman, que mantinha um singelo sorriso sobre os lábios.
– Você disse para que cuidasse das crianças Eren, então pedi permissão para trazê-las aqui em segurança. — A garota asiática se pronunciou, atraindo a atenção do moreno para si.
– Obrigado Mikasa. — Eren respondeu sincero, afagando os cabelos castanhos de uma das crianças enquanto as demais tentavam chamar a sua atenção ao mesmo tempo, contando-lhes novidades que o rapaz não conseguia entender devido ao alvoroço e afobação. — E-Ei... Um de cada vez, por favor!
– Casa comigo Eren? — Ouviu uma das meninas perguntar e então todo o ambiente se aquietou, sendo ocupado segundos depois pelas escandalosas risadas de Hanji e as discretas vindas de Armin, seguidas de uma expressão confusa do rapaz.
– Oi? — perguntou e então uma onda de risadas se fez presente. Até que a presença de mais uma pessoa fez com que a atenção das crianças perdesse seu foco.
– Que bagunça é essa? — O tom indiferente se fez presente e Eren imediatamente reconheceu a quem aquela voz pertencia. — Levante-se pirralho, não é mais um bebê.
– Cabo Levi! — exclamou Thuomas, que se afastou do jovem Jaeger juntamente com as outras crianças, que o fitavam admirados. — Foi você quem salvou o Eren, não foi?
O homem suspirou, assentindo impaciente quando deixou escapar um pequeno palavrão ao sentir os braços de onze crianças rodearem-lhe a cintura, fazendo-o perder momentaneamente o equilíbrio. A cômica cena não passou por despercebida pelos soldados que ali se encontravam, incluindo os membros do Esquadrão Rivaille, que perguntavam-se por quanto tempo mais aquela pequena distração duraria antes do cabo perder completamente a paciência. Fato que não demorou a acontecer, visto que após uma simples ameaça as crianças se escondiam atrás do corpo de Eren, acuadas, enquanto Hanji enlaçava o pescoço de Levi com um dos braços, recebendo um olhar mortal do cabo como resposta.
Por fim o jovem Arlert havia juntado duas bancadas enquanto Mikasa e Hanji pegaram mais dois longos bancos, acomodando melhor as crianças dessa forma. A tenente insistia para que Rivaille se juntasse ao alegre grupo, mas este apenas cedeu após um pedido vindo de Eren, sentando-se assim em frente ao dono dos esmeraldinos, recebendo um olhar de poucos amigos da garota asiática, que permanecia ao lado do moreno.
– Vocês são muito inconvenientes e barulhentos. — O cabo comentou, cruzando os braços.
– Não seja o ancião do grupo, Rivaille! — A morena reclamou, levando uma das mãos até a bochecha do homem de baixa estatura, puxando-a levemente por entre os dedos antes de receber um forte tapa sobre a mão como resposta.
– Cabo Levi! Não se bate em mulher! — repreendeu a jovem que o cabo reconhecera como sendo Emi.
– Isso não é uma mulher. — respondeu, referindo-se a morena ao seu lado, arrancando mais risadas das crianças.
[...]
Estava cansado e a única coisa que queria no momento era poder se deitar antes de voltar para Sina. Sabia como eram as reuniões sobre táticas e planejamento, porém, era deveras problemático precisar criar situações e expectativas para, posteriormente, favorecer-se disso. O ruivo suspirou, caminhando em pesados e lentos passos por um dos corredores abertos da base da tropa de exploração, rumando para o quarto de Levi. A noite já estava chegando e esperava que o cabo fosse rápido.
No entanto, era interrompido por um movimento estranho que fora captado por sua visão periférica, obrigando-o a parar de caminhar imediatamente. Seus olhos acinzentados correram toda a extensão do corredor e da paisagem à sua volta, recebendo como retorno apenas a escuridão e o barulho dos animais noturnos que começavam a acordar, a procura de seu precioso alimento. O capitão franziu o cenho, voltando a caminhar ainda em seus passos tranquilos quando, mais uma vez, o vulto fora percebido próximo demais dessa vez.
Suspirou cansado, não estava com um dos melhores humores naquele momento e virando-se bruscamente a tempo suficiente para seguir o vulto que o perseguia, fechou os olhos. Quando os reabriu, fitou o vulto a cerca de oitenta metros de distância de seu corpo e, em um piscar de olhos, seu corpo se movimentava a uma velocidade sobrehumana, conseguindo abordar o vulto que tanto o perturbava segurando-o firmemente pelo pescoço e o erguendo no ar a poucos centímetros do chão, percebendo tratar-se de um ser encapuzado. O ruivo ergueu uma das sobrancelhas quando madeixas loiras entraram em seu campo de visão e então soltou o corpo a sua frente, observando a pessoa misteriosa levar ambas as mãos até o pescoço, tossindo algumas vezes.
– Não faça mais isso. — repreendeu, levando ambas as mãos até a cintura enquanto observava a pessoa se recompor. — O que foi? Não era para estar aqui.
Após alguns segundos em silêncio, o misterioso ser se pronunciava:
– Estamos aguardando ordens, Mestre Elaijia. — A voz feminina se fez presente, arrancando um suspiro cansado do capitão.
– Francamente... Estou cansado. — resmungou, levando uma das mãos até suas longas madeixas, afagando-as enquanto direcionava o olhar para o céu levemente arroxeado do fim de tarde. — Amanhã em Sina, pelo meio da tarde. É o horário perfeito.
– O senhor também estará presente? — quis saber, atraindo o olhar de Elaijia para si.
– Claro. Faz um bom tempo desde a última vez. — comentou, rindo à sua maneira em seguida. — Agora vá antes que algum membro da tropa de exploração perceba sua presença.
A misteriosa garota assentiu, oferecendo ao homem mais alto uma breve reverência antes de se voltar para a escuridão fora daquele corredor, deixando para trás um ruivo que esboçava um sorriso libertinoso. O capitão Savage voltou seus orbes para frente mais uma vez, voltando a rumar para o quarto do cabo.
–
Bateu o punho três vezes sobre a porta de madeira escura a sua frente, recebendo um "entre" como resposta e sem esperar um segundo a mais, levou a mesma mão até a maçaneta, abrindo caminho para seus passos e deparando-se com o homem de baixa estatura encostado à janela, degustando alguma bebida exótica em uma taça simples de vidro. Ergueu uma de suas delineadas sobrancelhas antes de fechar a porta atrás de si com força, atraindo a atenção do cabo para si.
– Não vai me oferecer Levi? — perguntou, sorrindo debochadamente enquanto recebia um rolar de olhos como resposta.
– Como se você se importasse com isso. — devolveu, aproximando a taça dos lábios mais uma vez, apreciando o gosto exótico daquela bebida. — Mas não, esse vinho foi caro.
O capitão riu nasalmente, caminhando até se aproximar da cama do cabo e então lançando-se sobre aquele colchão, sentindo as costas se chocarem contra aquela superfície macia.
– Estou cansado, então não demore. — comentou, fechando os olhos e levando os braços atrás da cabeça. — Nunca presenciei uma reunião tão cansativa!
– Mesmo? — O cabo se aproximou do outro, sentando-se sobre a beirada da cama. — Sempre pensei que Elaijia Savage fosse uma pessoa incansável. — O ruivo crispou os lábios. — Sobre o que era?
– Estratégias apenas. — respondeu, dando de ombros. — Os comandantes queriam ouvir a opinião dos capitães quanto às estratégias e foi realmente complicado chegar a algum resultado, Smith ficou criticando todas as ideias que tinha. — Suspirou pesadamente, reabrindo suas íris acinzentadas. — Ele é um pé no saco.
– Concordo, Irwin exagera às vezes. — comentou, ingerindo o resto de seu vinho antes de deixar a taça no chão ao lado de seus pés. Elaijia voltou o olhar para Rivaille, desacreditado.
– Às vezes?
– Tem razão, ele sempre exagera. — Levi fechou os olhos e o amigo riu alto, levando uma das mãos à barriga.
– Ele também queria saber sobre o seu treinamento com o Jaeger. — O sorriso sobre os lábios do ruivo desaparecia, dando lugar a uma expressão séria.
– Sobre isso... — O cabo voltou a expor suas íris acinzentadas, fitando o teto. — Vou levá-lo para fora das muralhas amanhã. Tem uma cidade quase pronta próxima a uma floresta, será perfeito para os treinamentos com a DMT.
Elaijia poupou esforços para esconder o sorriso de satisfação que surgiu em seus lábios naquele momento.
– É mesmo? Vão ficar muito tempo fora? — quis saber, aparentando uma curiosidade fora do normal que não passou por despercebida por Rivaille, que ergueu uma de suas sobrancelhas.
– O suficiente para aquele pirralho aprender alguma coisa. — respondeu e então virou o rosto para fitar diretamente os orbes do capitão Savage. — Mas não era sobre isso que queria conversar.
– Hm. — O ruivo ergueu ambas as sobrancelhas, tomando o impulso necessário para se sentar. — Sobre o que era então?
E então Rivaille suspirou, movimentando-se até estar próximo o suficiente da cabeceira da cama, descansando as costas sobre ela em seguida.
– O que foi aquilo mais cedo? — começou. — Com os livros de Hanji. Creio que não era para tanto.
Elaijia rolou os olhos, cruzando os braços.
– É meu trabalho como capitão da Polícia Militar cuidar para que esse tipo de material não caia nas mãos da população. — respondeu, fitando diretamente o olhar frio de Levi para si.
– Por que? — insistiu, obrigando o ruivo a suspirar mais pesadamente enquanto formulava uma resposta aceitável.
– Apenas obedeço ordens. — explicou, relaxando os ombros em seguida. — Além disso, você conhece Hanji tanto quanto eu. Se não mantermos o pulso firme ela nunca vai obedecer.
Levi ficou em silêncio por alguns segundos, sendo obrigado a concordar com aquela afirmação. A morena era, realmente, muito insistente quando se referiam a titãs. No entanto, por mais que esta questão estivesse aparentemente resolvida, ainda não conseguia entender sua repentina reação para com o jovem de olhos esmeraldinos. Queria perguntar, porém, no momento em que separara os lábios o capitão se levantou.
– Bom, vou agora. A menos que queira que eu durma na sua cama. — comentou sarcástico, rindo nasalmente pela expressão vinda de Rivaille.
– Ainda não terminei. — tentou, observando o ruivo crispar os lábios, nem um pouco satisfeito.
– Terminamos isso amanhã de manhã. É sério, estou exausto. — O ruivo se esquivou, levando uma das mãos até o ombro do homem a sua frente, pressionando-o levemente.
– No refeitório então. Não esqueça. — resolveu concordar, afinal, sabia como Elaijia era teimoso.
– Obrigado mesmo! — exclamou, exibindo seus dentes perfeitamente alinhados, caminhando para a porta do quarto do cabo. — Até amanhã então Levi!
O homem de baixa estatura apenas cruzou os braços em resposta, observando a porta do seu quarto ser fechada pelo ruivo.
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