Wishmaster
23 Famílias
Notas iniciais
– Rivaille, você está me ouvindo?
Os acinzentados foram voltados para o loiro a sua frente que, sentado confortavelmente sobre o banco daquela carruagem, tentava lhe explicar a maneira como deveriam agir na patrulha dentro da igreja naquele dia. Não era como se não estivesse prestando a atenção, conseguia ouvir perfeitamente a voz do outro e, além disso, sabia como agir em ocasiões como aquela. Na verdade estava mais preocupado com o remorso que sentia depois de ter feito aquilo com Eren, mesmo sabendo que o garoto consentira e também retribuira, não conseguia deixar de sentir uma pontada de arrependimento. Parecia que havia desrespeitado um espaço delicado.
Suspirou pesado, encostando-se melhor sobre o estofado da carruagem, cruzando os braços. Às vezes se irritava ao perceber a forma estranha como passara a agir desde que conheceu Eren, visto que até certo tempo atrás jamais se permitiria agir daquela forma. Além disso, a velocidade com que isso havia acontecido não o agradava nem um pouco e, somado ainda com as estranhas visões que tivera e que reforçaram esse "processo" faziam-no imaginar em mil e uma possibilidades, algumas delas absurdas.
– Estou cansado. — respondeu por fim, visto que o capitão à sua frente ainda esperava por uma resposta. — Foram três dias de viagem e mal tive tempo para descansar desde que voltei com Eren.
– De fato, sinto muito por fazer você vir até aqui. — disse, sorrindo cordial. — Poderia ter convencido o Marechal de que sua presença não seria necessária.
Levi balançou negativamente a cabeça, encostando-a em seguida sobre o vidro da pequena janela ao seu lado.
– Mesmo sabendo que é capaz de fazer isso, ainda preferiria vir. — contestou, franzindo levemente o cenho ao contemplar as belas construções do distrito Stohess. — Ainda mais quando levo em conta seu último encontro com o Marechal.
Irwin franziu o cenho, captando imediatamente a mensagem. Deveria ter adivinhado que o cabo à sua frente não teria acreditado veemente em sua acusação ao melhor amigo e companheiro de trabalho, Elaijia Savage, o que explicaria aquela resposta. No entanto, estava disposto a provar que o capitão ruivo não era a pessoa que todos pensavam que era.
– Devo lembrá-lo que não viemos apenas para essa reunião. — alegou, percebendo o olhar obstinado do outro para si.
– Sim, eu sei. — disse apenas, voltando sua atenção para o exterior, onde contemplou a majestosa construção de cerca de dois andares que se encontrava imediatamente após o cruzamento de uma ponte de madeira. Mesmo àquela distância, era possível enxergar os demais membros da Polícia Militar em seus lugares, apenas aguardando a chegada daquela carruagem.
Levi crispou os lábios com aquilo, nunca gostou de recepções grandiosas e dos olhares de admiração que não apenas aqueles soldados, mas também as pessoas que caminhavam por aquele lugar com certeza lhe lançariam.
[...]
A porta de madeira fora aberta, onde a longa cabeleira ruiva do capitão da Polícia Militar era destacada por não estar presa como de costume, cobrindo assim o símbolo do cavalo verde em suas costas, ao mesmo tempo em que algumas mechas teimosas saltavam para frente. Seus olhos claros rapidamente pousaram sobre o homem de baixa estatura à sua frente, onde abriu um sorriso antes de se postar ao seu lado, cumprimentando o homem velho logo em seguida.
– Desculpe-me pelo atraso, Marechal. — disse em um tom sério, fitando os olhos enrugados do homem voltarem-se para si.
– Não se preocupe com isso Elaijia. Todos sabemos a responsabilidade de um capitão ao perder um comandante em uma ocasião como essa. — O homem respondeu em um tom severo, voltando o olhar para o loiro. — Não é mesmo, Irwin?
– Sim senhor. — respondeu o Smith, engolindo aquele comentário em seco. O Marechal então voltava sua atenção para o homem de baixa estatura que se encontrava calado entre os dois capitães.
– Fico feliz que tenha vindo, Levi. Sua presença é importante, afinal, preciso saber quem poderá substituí-lo quando promovê-lo a capitão. — O cabo apenas fechou os olhos, assentindo. — Algum soldado em mente?
Rivaille então franziu ainda mais o cenho. Imaginava que o Marechal pretendia reorganizar as patentes, no entanto, não pensou que fosse promovido a um posto tão alto como aquele.
Alguns nomes se passaram em sua mente naquele momento, eram soldados realmente significativos e que fariam a diferença caso fossem promovidos. No entanto...
– Creio que o senhor fará uma boa escolha mesmo sem minha indicação. — respondeu, voltando os acinzentados para o Marechal. — Mas devo ressaltar o nome de Mikasa Ackerman, senhor. É um excelente soldado.
Percebeu quando Irwin e Elaijia voltaram seus olhares para si, o loiro estranhando aquela decisão por saber que a relação dos dois não era uma das melhores, e o ruivo, por conta do sobrenome da asiática. O Savage semicerrou os olhos na direção do mais baixo, que apenas suspirou ao entender os pensamentos do amigo.
– Ackerman... Hm. — disse, parecendo ponderar quanto àquilo antes de encostar-se melhor sobre a poltrona. — Lembro-me dos relatórios de batalha que o comandante Satoru fazia ressaltarem bastante o nome desse soldado... Posso ponderar essa ideia ao analisá-los novamente. — Levi assentiu e logo a atenção do homem sentado era voltada aos outros dois capitães. — Capitão Smith e capitão Savage.
– Sim senhor. — responderam em uníssono.
– Devo imaginar que ambos estejam aptos ao cargo de comandante. — O Marechal cruzou os braços, fitando Elaijia. — James me falava muito bem sobre você e, também, pude presenciar vários de seus feitos enquanto membro do exército. Creio que não possa imaginar homem melhor para ocupar o seu lugar na Polícia Militar.
– Obrigado senhor. — respondeu o ruivo, sorrindo discretamente ao perceber o olhar que Irwin lhe lançava no momento.
O Marechal coçou levemente o pescoço antes de se voltar para o loiro.
– Capitão Smith... Creio que deva dispensar rodeios antes de promovê-lo também a comandante. Afinal, tive o prazer de presenciar todos os seus feitos. — começou, a voz soando mais séria do que havia imaginado. — A humanidade avançou em níveis inacreditáveis após a reorganização da tropa de exploração e as descobertas de seu pelotão sobre os titãs foram de extrema importância para o exército. Portanto, posso concluir que é a pessoa ideal para substituir o comandante Satoru.
– Obrigado senhor. — agradeceu, sorrindo minimamente.
Os três homens continuaram fitando os movimentos do Marechal, que ajeitava vez ou outra sua farda antes de voltar sua atenção para os diversos papéis dispostos sobre sua mesa. Um deles, em especial, chamara sua atenção, fazendo com que se lembrasse de um assunto ainda pendente.
– Estou curioso quanto àquele relatório, comandante Smith. — proferiu, atraindo a atenção principalmente de Elaijia, que se recordava perfeitamente da reunião anterior. — Desde aquele último encontro, foi registrado algum progresso no treinamento de Eren Jaeger?
– Temo não ser a pessoa mais apta a responder tal pergunta, senhor. — respondeu. — No entanto, como a guarda do garoto está destinada ao capitão Rivaille, creio que, como responsável, ele consiga explicar melhor.
– De fato. — concordou, levando uma das mãos aos fios grisalhos, afagando-os.
Levi suspirou antes de se pronunciar:
– Gostaria que o senhor, Marechal, tirasse suas próprias conclusões. — O homem a sua frente ergueu ambas as sobrancelhas, surpreso com aquela resposta. — Creio que meu protegido esteja apto a lhe oferecer uma demonstração de suas habilidades.
– Se me permite, Marechal. — disse Elaijia, atraindo a atenção dos demais para si. — Devo enaltecer tal ideia, visto que seria a oportunidade perfeita para que o senhor pudesse concluir de uma vez a questão da custódia permanente do garoto. — Deu uma leve pausa, resolvendo pensar um pouco sobre como usar aquele argumento na frente do, agora, capitão da tropa de exploração. — No entanto, peço também que o senhor leve em consideração o curto tempo de treinamento que o garoto teve para assimilar suas habilidades.
– Certamente. — concordou, fechando os olhos por breves segundos. — No entanto, temo ter uma conclusão precipitada. Geralmente, levamos cerca de dois anos para formarmos soldados aptos para o campo de batalha.
Rivaille franziu o cenho com o comentário do amigo, que o fez se lembrar da conversa que tivera com Irwin dias atrás, onde soubera que Elaijia havia mostrado um estranho interesse no garoto.
– Permita-me discordar, senhor. — Irwin se pronunciou. — Tinha isso em mente desde o momento em que indicara o capitão para ser seu responsável. Tenho total confiança nas habilidades de meu subordinado e posso garantir ao senhor que as habilidades que o Jaeger adquiriu nesse período de tempo foram significativas, mesmo para alguém em uma situação tão delicada.
O Marechal pareceu ponderar sobre aquilo e, para alívio dos representantes da tropa de exploração, o homem endireitou sua postura, apontando com uma das mãos para um papel em branco, onde pedira para que Levi escrevesse o que diria a seguir. E, com um suspiro pesado, anunciou:
– Dentro de uma semana a partir de hoje, os comandantes Elaijia Savage e Dot Pixis irão me acompanhar até a base da tropa de exploração em Rose, a fim de, juntamente com o comandante Irwin Smith, decidirmos de uma vez por todas o destino do soldado Eren Jaeger dentro do exército.
[...]
Caminhando pelas ruas de terra batida de Stohess, Levi continuava absorto em seus pensamentos. Gostaria de ter conseguido conversar com o amigo, no entanto, o Marechal ainda o requisitara para debaterem sobre a política de Sina. O comentário de Elaijia não o agradara nem um pouco.
Seguia Irwin pelas ruas ignorando completamente os olhares e comentários dos moradores do local. Até mesmo ignorava algumas crianças, que paravam e fitavam-os admiradas por contemplarem membros da tropa de exploração tão de perto. Céus, como aquilo o irritava. Percebeu quando o comandante à sua frente deixou escapar uma risada nasal, provavelmente por perceber seu desconforto, o que apenas servia para que se irritasse ainda mais.
Parou de caminhar, erguendo os olhos para o grande e majestoso edifício à sua frente, que contava com dois andares decorados em um estilo barroco, que frisavam em demasia a imagem de seres celestiais e sua ligação com Deus. Levi sentiu uma pontada de desconforto, imaginando como seria o interior daquela enorme catedral, sentindo-se levemente nauseado. Não gostava de lidar com assuntos relacionados à igreja. No entanto, fora obrigado a seguir o comandante Smith quando este pôs se a caminhar outra vez.
Seguiram pelo hall principal, onde vários bancos de madeira estavam dispostos de ambos os lados, formando um corredor bem ao centro. Logo à frente estava disposta um crucifixo enorme esculpido em um material que se assemelhava ao mármore, que era pintado pelos raios coloridos que saíam dos vitrais que se encontravam espalhados pelo local. Era um verdadeiro show de cores.
– Bonito, não? — comentou Irwin, voltando os azulados para o capitão ao seu lado.
– Tsc. — resmungou. — Odeio esse lugar.
– Então não deveria ter vindo. — Ouviram uma voz ecoar por todo aquele hall e então voltaram-se para a direção da mesma. Logo atrás do crucifixo pontava um homem vestido com algo que se assemelhava a uma burca preta com detalhes dourados. — Não precisa desrespeitar Deus dentro da casa dele.
– Padre Damien. — disse Irwin, assumindo uma melhor postura enquanto parava de caminhar. — Creio que não seja para tanto, foi apenas um comentário.
– Comentário ou não, não permito esse tipo de atitude dentro da igreja. — cortou ríspido. — O que vocês da tropa de exploração querem aqui?
– Ora, isso é simples. — O loiro deu uma pausa, cruzando os braços. — Queremos os livros apreendidos pela Polícia Militar nos últimos cem anos.
A risada do padre ecoou de repente, fazendo ambos os homens ali fardados franzirem o cenho. Levi, particularmente, começava a perder a paciência.
– Desculpem, mas isso não será possível. — retrucou, começando a caminhar para adentrar o interior da igreja mais uma vez.
– De acordo com a cláusula 47, escrita pelo rei Marcel Heiss, o comandante de cada vertente do exército tem livre acesso ao material apreendido durante as patrulhas da Polícia Militar, assim como os demais subordinados de alta patente. — interrompeu Levi, fitando como o padre Damien fechava ambas as mãos em punho antes de se voltar para si e encará-lo furioso. — Então, senhor padre, deixe de rodeios e nos leve ao material apreendido. A menos que queira arriscar o lugar da igreja no júri.
Irwin sorriu satisfeito, o que não passou por despercebido por Rivaille, que apenas fechou os olhos calmamente antes de ouvir os passos do padre outra vez.
– Acompanhem-me.
–
O capitão descansou o corpo sobre um sofá empoeirado que havia no canto daquele porão, entornando o nariz logo em seguida ao perceber a leve nuvem acinzentada que havia se levantado por sua causa. Resmungando alguma coisa, esperava não ter alguma coceira por conta daquilo, seria péssimo se sua pele se irritasse com alguma coisa naquele momento, visto que ainda se recuperava das queimaduras de alguns meses atrás.
Os olhos então repousaram sobre a figura do loiro à sua frente, que esfregava uma das mãos sobre a superfície poeirenta de um dos vários livros que estavam ali dispostos em pilhas diversas. O ambiente escuro era iluminado por uma única vela, que estava disposta sobre a mesa onde Irwin estava trabalhando. Por um momento, permitiu-se admirar as nuances douradas que aquela iluminação faziam sobre a imagem do comandante que, somado aos seus cabelos loiros, tomavam uma coloração um tanto quanto esbranquiçada.
Levi suspirou cansado, balançando a cabeça negativamente ao perceber que estava regulando seu amigo e superior. Resolveu se levantar, talvez se ajudasse o outro aquele trabalho terminasse mais rápido.
Os azulados de Irwin então se ergueram, acompanhando todo o trajeto que Rivaille fazia até uma cadeira de madeira ali próxima antes de arrastá-la, deixando-a ao seu lado. O comandante ergueu uma de suas grossas sobrancelhas quando seu subordinado ali se sentava.
– O que está fazendo? — perguntou, atraindo a atenção das acinzentadas para si.
– Vou te ajudar. — respondeu apenas, esticando ambos os braços a fim de alcançar um livro que se encontrava do outro lado da mesa. — Esse lugar está me dando nos nervos.
O loiro riu nasalmente antes de continuar.
– Levi, você está cansado. Não quer aproveitar para descansar um pouco enquanto cuido disso aqui? — sugeriu, tendo como resposta o olhar incrédulo do outro.
– Como posso descansar nessa imundície? — Balançou a cabeça negativamente, como se o homem ao seu lado o tivesse insultado. — Francamente...
Irwin riu alto com isso, logo voltando ao seu trabalho. Por mais que o outro estivesse cansado, sabia que o mesmo jamais se permitiria adormecer em um local como aquele.
Todavia, os olhos de Rivaille começaram a pesar no momento em que começou a ler o manuscrito que tinha nas mãos. O outro tinha razão ao dizer que deveria descansar, mas, além do lugar estar demasiadamente sujo, queria muito descobrir mais coisa sobre o possível surgimento dos titãs. Esse pensamento o fez crispar levemente os lábios, estava parecendo Hanji.
Fechou os olhos com força, apertando-os com uma das mãos enquanto tentava voltar a se focar nas letras miúdas e caligráficas que ali se encontravam. Pularia as passagens que não entendia, por provavelmente estarem escritas em irlandês e não conseguiria entendê-las. No entanto, no momento em que abrira os olhos, a paisagem que havia se formado a sua frente não se assemelhava em nada com a do porão.
"Abraçava com força o corpo do jovem ao seu lado, descansando o queixo sobre a cabeça do mesmo enquanto tentava normalizar a respiração. Conseguia sentir os braços magros do rapaz circundarem-lhe a cintura pesados, imaginando se o mesmo estaria ou não dormindo depois do que fizeram.
Movendo a cabeça, deixou o nariz próximo às madeixas castanhas do moreno, permitindo-se aspirar o odor natural que elas exalavam e que o deixava tão relaxado naqueles tempos. Os acinzentados procuraram por um ponto em específico do quarto iluminado apenas pela luz da lua que escapava pelas frestas da janela em uma tentativa de organizar seus pensamentos. As coisas estavam acontecendo rápido demais e agora, com a enfermidade de seu pai, deveria se preparar para assumir o título de Imperador. No entanto, não era isso que queria. Por mais que soubesse de suas responsabilidades, simplesmente não conseguia mais gostar de ser um nobre. Além disso, saber que era um dos únicos capazes de promover uma revolução o estava tirando o sono.
Voltou os olhos para o moreno abaixo de si, que se moveu um pouco apenas para se sentir mais confortável. Até poucos anos atrás, não renunciaria tão fácilmente a ideia de tomar o lugar do pai e mover o que restava da humanidade para o seu fim definitivo. No entanto, passara a ponderar seriamente sobre isso quando David entrou em sua vida.
Sorriu levemente antes de trazer o corpo do garoto para mais perto. Como um simples camponês conseguiu mudar sua personalidade daquela forma? Agora, como seu aprendiz, conseguia enxergar o grande guerreiro que poderia se tornar no futuro. 'Sir David' soava tão bem aos seus ouvidos. No entanto, gostaria que o garoto conseguisse alcançar um maior título de nobreza e faria o possível para isso. Ser um Conde, por exemplo, poderia poupá-lo de uma vida sangrenta no campo de batalha.
Conde... Mas Conde de que? Se ao menos lhe pudesse doar um pedaço de terra para começar sua fortuna ou se David tivesse um sobrenome forte...
Foi quando se lembrou da conversa que teve com Elaijia há alguns dias atrás. Sabia que deveria ter cuidado com os Jaeger's, mas acusar David de ser um membro daquela família era algo um tanto sem fundamento. Talvez o garoto quisesse apenas manter-se privado de alguns assuntos, afinal, não sabia de muita coisa a cerca de sua vida.
O jovem rei suspirou pesadamente, fechando os olhos e resolvendo então relaxar. De nada adiantaria tentar encontrar problemas onde eles não existem.
– Hm... Francis... — Ouviu o garoto murmurar e por breves segundos imaginou que o tivesse acordado, mas ao sentir seus braços apertando sua cintura com mas força, percebera que o mesmo ainda estava dormindo. O que resultou em um sorriso do rei ao saber que David estava sonhando consigo.
Aconchegou-se o melhor que pode antes de relaxar o corpo e se entregar ao sono. Não pensaria naquelas coisas naquele momento."
Rivaille piscou por alguns momentos, sentindo uma dor lancinante nas costas que estavam arqueadas. O que achou ser mais uma de suas visões era, na verdade, um sonho. O capitão levou uma das mãos aos olhos, coçando-os levemente antes que os abrisse por completo e se adaptassem ao local, enxergando novamente o porão da igreja. Não se lembrava do momento em que havia pegado no sono, mas agora arrependia-se profundamente por dormir apoiado na mesa. O que o fez se lembrar de Irwin e, ao voltar a atenção para o loiro, percebeu que o mesmo continuava a ler aqueles livros antigos.
Resmungou algumas coisas desconexas antes de erguer o corpo e esticar as costas, sentindo-a doer profundamente. O movimento atraiu a atenção do comandante, que desviou os azulados do livro e os voltou para o capitão.
– Vejo que acordou. — comentou, mas não recebendo resposta. — Deveria estar realmente cansado por não ter pensado duas vezes antes de se deitar para dormir.
– Calado Irwin. — devolveu mal humorado, coçando a lateral do pescoço enquanto o loiro ria levemente. — O quanto de informação conseguimos?
– Nada muito significativo. — disse, voltando sua atenção para o livro em questão. — Estou tentando ler esse livro. — Marcou a página que lia com uma das mãos e então o fechou, revelando a superfície de couro escuro com caracteres gravados em dourado. — Se chama "Teaghlaigh*"... Ou algo parecido.
Rivaille ergueu ambas as sobrancelhas por conta da terrível pronúncia do outro, no entanto, resolveu ficar em silêncio, visto que não seria melhor nisso. Resolveu simplesmente voltar a apoiar o corpo sobre a mesa, deitando-se parcialmente enquanto voltava os acinzentados para a chama da vela que estava pela metade.
– O que esse livro diz? — quis saber.
– Não sei direito... A maioria das passagens está em uma língua estranha. — respondeu, voltando a abrir o livro e correndo os olhos rapidamente por um parágrafo em específico. — Por exemplo... "Bhí cursed trí theaghlaigh le haghaidh eternity, agus beidh na trí a scriosadh freisin", o que isso significa? Parece uma frase inútil.
Levi continuou fitando a chama da vela por um longo tempo enquanto aquela frase ecoava pela sua cabeça. Não tinha como saber o que aquilo significaria sem Hanji e, provavelmente, não poderiam levar aqueles livros até a base de Rose para a mesma traduzir.
O capitão suspirou profundamente, ainda fitando a chama da vela, que permanecia estagnada na mesma posição por um tempo considerável. Era como se estivesse simplesmente congelada, assim como seus pensamentos estavam a cerca daquele assunto. Não aumentava e nem diminuía, continuava a mesma coisa.
– Bhí cursed trí theaghlaigh le haghaidh eternity... Agus beidh na trí a scriosadh freisin... — repetiu, sem nem ao menos perceber a perfeição na qual aquelas palavras foram proferidas, o que chamou a atenção de Irwin. - Três famílias foram amaldiçoadas pela eternidade, e as três também irão se destruir.
A íris azuladas do comandante se arregalaram com aquilo, ao mesmo tempo em que Rivaille se levantava de ímpeto, espalmando ambas as mãos sobre a mesa antes de puxar aquele livro para o seu campo de visão, onde os acinzentados corriam rapidamente. Estava conseguindo ler e compreender o que aquela estranha língua dizia, mas como?
– As três famílias foram ligadas para sempre após um ato de desespero dos deuses, mas também foram fadadas a viverem no sofrimento eterno. Elas são o exemplo do poder da crueldade daqueles que deveriam nos proteger. — Seu olhar estava perdido. Como conseguia ler aquilo e por que não conseguia ler antes?
Sentiu uma das enormes mãos de Irwin segurar-lhe o pulso, o que o tirou de seus devaneios, mas não o fez desviar os olhos daquele manuscrito.
– Você consegue ler isso? — quis saber, suas íris transbordando ansiedade.
– Acho que... Sim... — respondeu, estreitando os olhos outra vez para voltar a ler. — As três famílias se odeiam desde muito antes do que se tem conhecimento, no entanto, em algum momento da história, os maiores anjos celestiais reencarnarão em um descendente de cada uma dessa família, e as unirá para o caos.
"São marcadas por histórias trágicas e manchadas com a vida de milhares de inocentes. São a materialização do erro que os deuses cometeram ao enviarem seres tão poderosos a uma terra consumida pelo mal.
Atualmente, não se tem registro de que algum descendente esteja vivo para dar continuidade a era negra que comanda nossa geração. Pela primeira vez a humanidade se encontra parcialmente estável, apoiando-se na esperança de se reerguer gloriosamente outra vez.
Nós, humanos, deveríamos agradecer pela extinção desse mal, ou temer o próximo que estaria por vir? Quando as reencarnações das famílias Rivaille, Jaeger e Savage voltarão a nos atormentar? Até quando elas irão procurar a destruição uma da outra?"
Levi omitiu o último parágrafo, lendo mentalmente e levando uma das mãos aos lábios. Os olhos arregalados transmitiam claramente, pela primeira vez, um choque tão grande que o fez prender inconscientemente a respiração. Irwin alternava os olhares entre o livro e seu subordinado, aparentemente preocupado com a reação do outro, que rapidamente fechou o livro em seguida e o abriu novamente na primeira página.
– Ano 118... — murmurou para si mesmo antes de se afastar da mesa, correndo por aquele porão e passando afobadamente pelas muitas pilhas de livros que ali estavam. — 118... 118... Onde está você?
– Levi, o que aconteceu? — O loiro perguntou, também se levantando ao perceber o aparente desespero do outro em encontrar alguma coisa.
– Eu preciso do histórico... — comentou, socando com força a pilha de livros que estava na sua frente por não encontrar o que queria. — O histórico de reis... Irwin, ajude-me a encontrá-lo!
O capitão se voltou para o homem que agora estava ao seu lado, levantando a cabeça e olhando diretamente nos azulados do comandante Smith, quase suplicante. O mesmo assentiu, afastando-se de Levi para se aproximar de uma pilha ali próxima, começando a procurar enquanto Rivaille crucificava-se mentalmente por não ter feito aquela associação antes. Era um fato que desconfiava disso há algum tempo, mas agora fazia tanto sentido que estava se sentindo um idiota por não ter chegado àquela conclusão antes. Precisava apenas ter certeza... Precisava de algo que confirmasse que não estivesse enlouquecendo.
Continuou sua busca, procurando livro após livro e se preocupando cada vez mais por não conseguir encontrar nada. No entanto, fora tirado de seus devaneios por Irwin, que se exaltava levemente do outro lado daquele porão.
– Encontrei! — disse, voltando-se para Levi, que rapidamente caminhou em sua direção e tomou o grosso livro de páginas amareladas de suas mãos, repousando-o sobre a mesa e, ignorando completamente a quantidade de poeira acumulada ali, começou a folheá-lo, procurando desesperadamente pelo ano 118.
Irwin jamais vira o homem de baixa estatura a sua frente tão preocupado. Era como se tivesse lido algo extremamente importante naquela faixa que lhe fora traduzida.
– Não pode ser... — Ouviu Rivaille murmurar para si próprio ao finalmente repousar sobre uma página em específico. O comandante Smith se aproximou para espiar o que havia ali escrito.
"Ano 118
Reinado do Imperador Rivaille e de seu filho, Francis Rivaille"
Os lábios de Levi tremeram violentamente naquele momento, ao mesmo tempo em que sua mente o conectava outra vez às imagens que tanto o perturbavam desde o momento em que conhecera Eren.
– Não eram visões... — murmurou, fechando ambas as mãos em punho em seguida. — Eram lembranças...
Não estava louco afinal, estava mais lúcido do que nunca. Agora entendia o porquê da conexão que sentia para com Eren e os motivos daquele pseudo relacionamento ter caminhado tão depressa, como se se conhecessem há séculos...
O capitão trincou os dentes, lembrando-se então do quanto Elaijia era referido naquelas lembranças. Os três estavam conectados por causa de uma força maior e, como relatado no livro que lera anteriormente, estavam fadados à destruição.
Foi quando uma luz se acendeu em sua mente.
– Merda... — Imediatamente se afastou da mesa, pondo-se a correr para fora daquele porão, ignorando completamente os chamados preocupados de seu superior. — Isso já aconteceu antes...
Precisava voltar para Rose o mais rápido possível. Queria ver Eren, precisava saber se o mesmo se lembrava de alguma coisa ou se, pelo menos, desconfiava de algo. Além disso, o fato de estarem fadados a se destruírem fez com que se formasse um aperto incrivelmente forte em seu peito. Se conseguisse descobrir se Eren ou Elaijia se recordavam de alguma coisa, poderiam, juntos, mudar aquela história.
Seus passos corridos ecoavam pelo hall principal da igreja acompanhados pelo barulho de sua respiração descompassada. Sentiu-se aliviado ao ver que a porta de entrada estava aberta, passando por ela como um raio e parando por alguns segundos na rua, ofegante, olhando para todos os lados possíveis, procurando uma rota rápida para a carruagem.
Não sabia o que acontecera anteriormente, mas definitivamente, iria lutar para fazer com que não se repetisse.
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