Wishmaster
32 Estrela Solitária
Notas iniciais
Não sabia onde estava exatamente e também não se importava com isso. Apenas permanecia ali, sentado sobre aquele chão que não sabia se estava sujo ou não, refletindo sobre tudo o que havia acontecido desde que deixara sua vida em Trost para se tornar um soldado. Foram raros os momentos em que conseguia pensar nas crianças outra vez e quando conseguia, sua mente era alagada por preocupações que pareciam não ter fim. Como elas estariam sem seus cuidados? E se os titãs que atacaram Trost tivessem atacado outra cidade em Rose? E se não recebesse mais notícia alguma das crianças que lutou tanto para criar o melhor possível?
Não obstante, ainda se preocupava com o estado de saúde de Armin que, pelo o que ouvira há pouco tempo de soldados que passaram comentando, não se encontrava nada bem. Além disso, a morte de Mikasa era outra coisa que o estava afetando em demasia. Nunca imaginou viver em um mundo onde seus amigos e irmãos não estivessem ao seu lado. Principalmente a Ackerman, que havia crescido ao seu lado quando fora adotada pelo seus pais.
O moreno suspirou pesadamente antes de apoiar as costas sobre o que imaginava ser uma parede. Não sabia que aquela era a realidade de ser um soldado, o que o fazia se questionar acerca do que a irmã asiática sempre dizia. O mundo era realmente tão cruel como parecia ser naquele momento?
E como se não fosse o suficiente, as notícias que receberam pouco tempo depois de terem chegado em segurança à base da Polícia Militar central não eram nada tranquilizadoras. Cerca de três sentinelas pertencentes às tropas estacionárias alertaram aos responsáveis de que o titã colossal havia finalmente aparecido, destruindo o portão que protegia o distrito de Klorva e, misteriosamente, feito com que um número relativamente alto de titãs invadissem o distrito, obrigando as pessoas que ali viviam a se refugiarem nos outros dois que ainda restavam.
Algumas foram transferidas para a cidade subterrânea, onde rebeliões foram registradas pelos patrulheiros da Polícia Militar. Os cidadãos estavam questionando a eficiência do exército e, principalmente, da tropa de exploração, que havia sido a responsável pela até então aparente aniquilação dos titãs. A humanidade estava à beira do colapso mais uma vez e não havia uma maneira concreta de se resolver aquela situação.
A própria tropa de exploração estava de mãos atadas pelo grande número de baixas, o que resultou em uma reunião de emergência entre os comandantes de todas as tropas e o Marechal, que deveriam entrar em um acordo para conseguirem elaborar um plano de retomada o mais rápido possível e sem falhas.
No entanto, havia outro obstáculo que poderia pôr em risco toda a operação de retomada que era gerado por puro preconceito e intolerância, visto que os soldados da Polícia Militar se recusavam a trabalhar junto com as outras tropas, por considera-las inferior às suas habilidades adquiridas com demasiado esforço. Por um lado conseguia entende-los, afinal, é necessário um grande esforço para que um soldado se forme na brigada de cadetes entre os dez primeiros colocados que poderiam ser transferidos para Sina. Mas por outro não conseguia imaginar como algumas pessoas podiam ser tão egoístas ao ponto de pensarem apenas em seus próprios caprichos.
Aquilo fez surgir um nó em sua garganta. Eram tantos problemas que vieram à tona de uma só vez que se sentia perdido, sem saber o que fazer para ajudar ao ponto de perder as forças em seu corpo. Talvez mal conseguisse se levantar caso tentasse.
Eren crispou os lábios, engolindo em seco antes de ser tirado de seus devaneios por uma voz que não conhecia. As orbes esmeraldinas se abriram de leve quando ouviu passos em sua direção. Não parecia ser apenas uma pessoa.
– Ele é da tropa de exploração. – Tornou a ouvir, poderia ser um dos soldados da Polícia Militar. – Hey, olhe para nós, estamos falando com você.
Eren não respondeu e apenas fechou os olhos antes de sentir uma bota chutando sua perna agressivamente. Normalmente teria feito alguma coisa para tentar se defender de alguma forma, no entanto, permaneceu na mesma posição.
– Quanta ousadia a desse garoto! – A mesma voz tornou a soar, sendo seguida por alguns risos que pertenciam aos outros que ali se encontravam.
– Não é aquele ceguinho que admitiram? – Outra voz se fez presente, parecendo ser um pouco mais jovial que a do outro. – Pensei que seria o primeiro a morrer! Que inútil, onde seu comandante estava com a cabeça quando concordou com isso, ceguinho?
O Jaeger então mordeu o interior da boca. Céus, não teria sequer um momento de paz para que pudesse refletir sozinho? Sempre soube dos preconceitos que o exército tinha quanto aos deficientes, no entanto, pensava que pelo menos em um momento como aquele eles iriam relevar as provocações.
– Ah, não fique assim ceguinho! – disse uma terceira voz que, provavelmente, pertencia a pessoa que segurou com força o rosto de Eren antes de erguê-lo. – Veja pelo lado bom! Não será o único aleijadinho da sua tropa! Aquela garotinha loira perdeu as pernas, não é? Ou será que aquilo é um garoto?
– Ácido como sempre, Bardo! – Um deles comentou antes que o trio caísse na gargalhada coletiva. Provavelmente esperavam que Eren fosse responder de alguma forma, porém, o moreno continuava com a mesma inexpressividade estampada no rosto.
“Fique tranquilo, logo eles irão” pensou, quando os esmeraldinos se abriram de repente, arregalados, pelo golpe repentino que recebera na boca do estômago, o que o obrigou a abrir a boca em busca de ar.
– Além de cego também é surdo? – comentou o que havia sido identificado como Bardo, que usou de ambas as mãos para erguer o corpo de Eren do chão de forma brusca. – Escute bem, aleijadinho. Não pense que irá receber algum tratamento especial apenas por ser cego, entendeu? Estamos fazendo muito aceitando pessoas como vocês da tropa de exploração aqui.
O moreno ainda tentava recuperar o ar que lhe fora roubado quando um sorriso crápula de repente surgia sobre os lábios de Bardo, que largou repentinamente o corpo de Eren e se virou para os outros dois.
– Finny, Enzo, segurem ele. – disse e os outros dois rapidamente obedeceram, segurando o moreno pelos braços, que abaixou a cabeça assim que percebera o que estava prestes a acontecer. – Vou ensinar esse bastardo a ter mais respeito e responder quando os outros falarem com ele.
[...]
Por momentos imaginou que poderia ao menos ter levado alguma notícia boa à Eren, todavia, logo depois que deixou o quarto onde Armin estava se encontrou novamente com Mike, informando-lhe sobre o estado do braço ferido do loiro. O amigo, antes de entrar afobadamente no quarto, pediu para que chamasse Hanji e um assistente o mais rápido possível e, quando o fez, logo soube que o jovem soldado perderia também aquele membro.
Sabia que durante o processo de operação o loiro não poderia receber visitas, portanto, não se esforçou em procurar o garoto para informa-lo sobre qualquer isso, apenas o faria quando tivesse a certeza de que o Arlert estaria bem e apto para conversar.
Poderia aproveitar aquele momento para procurar sobre algumas coisas que ainda o incomodavam. Desde o dia em que voltara da pequena missão com Irwin onde encontrou o histórico de Reis que não conseguia se concentrar e processar aquela informação como deveria ser. Sabia que seria imprudente vaguear pela base da Polícia Militar central à procura do lugar onde guardavam os livros proibidos, principalmente naquele momento. As salas onde deveriam estar os arquivos valiosos estariam altamente vigiadas.
Além disso, aquela era a situação perfeita para investigar sobre as estranhas patrulhas que aquela divisão do exército realizava nos distritos pertencentes à Rose e Maria. Não poderia questionar Elaijia diretamente, visto que o amigo poderia também estar envolvido nisso, o que não duvidava que fosse verdade, afinal, assim como Irwin desconfiava de que o ruivo mantivesse uma atividade suspeita dentro do exército, o capitão pensava a mesma coisa. O comandante Smith por nunca ter gostado do Savage, e Levi por causa das estranhas atitudes que o outro tinha quando se tratava de Eren.
Rivaille sorriu nasalmente na medida em que caminhava pelos corredores daquela base, ignorando por completo os cumprimentos dos soldados que passavam por si. Nunca se imaginaria tão preocupado com alguém quanto estava com Eren. Era incrível como tomava decisões impulsivas apenas para vê-lo bem. Além disso, sempre que o via sorrir para si, sentia algo dentro do peito que não sabia explicar, mas gostava muito. Aquilo seria o que Hanji havia lhe dito sobre gostar verdadeiramente de alguém?
Balançou a cabeça negativamente, apoiando uma das mãos sobre uma porta de madeira envelhecida, encontrando então uma ampla sala com várias bancadas espalhadas em seu interior. Havia finalmente encontrado o refeitório.
Moveu rapidamente as pernas ao passar pela entrada, dirigindo-se para a cozinha que se encontrava ao fundo. Estava sedento por uma xícara de chá há algum tempo e sabia que isso o ajudaria a raciocinar melhor. No entanto, os acinzentados rapidamente captaram certo acúmulo de poeira nos móveis ali dispostos e no chão, sentindo a pálpebra de seu olho esquerdo se mover algumas vezes por conta de seu habitual “tic” nervoso. Aquilo o fez suspirar mais pesado do que o normal, concluindo que deveria tomar a iniciativa em breve quanto à limpeza daquele lugar.
Ignorando aquele pormenor, concentrou-se em chegar logo à cozinha, onde procurou por um chá que mais lhe agradasse antes de começar a prepara-lo. Entretendo-se tanto que mal percebeu quando a porta do refeitório foi aberta mais uma vez, porém, percebendo o eco que os passos daquela pessoa faziam no local. O capitão esticou levemente o pescoço, encontrando-se com os fios ruivos da mulher que conhecia bem.
– O que faz aqui Petra? – perguntou, logo voltando os acinzentados para seu precioso chá.
A mulher, assim que percebeu que não estava sozinha naquele lugar, apressou os passos até se encontrar ao lado de seu superior, sorrindo lhe cordial.
– Pensei em fazer um café, preciso de mais energia hoje. – respondeu, voltando os olhos cor de mel para as mãos de Rivaille. – Quer que termine isso para o senhor? Sei que não pode forçar sua visão.
Levi ponderou por alguns segundos antes de se afastar do fogão, decidindo esperar em uma das bancadas ali dispostas. No entanto, rapidamente mudou de ideia ao fitar a poeira que ali se encontrava, voltando para a cozinha e procurando por algum pano limpo que pudesse usar para limpar, pelo menos, a bancada que usaria.
Petra observou os movimentos do outro de relance, mas em momento algum se desconcentrando do chá e do café que decidira fazer. Às vezes achava engraçado a forma como aquele homem encarava a limpeza e, naquele momento, sorria enquanto observava a concentração do outro enquanto espanava minuciosamente cada centímetro daquela bancada, resmungando vez ou outra sobre coisas que não conseguia entender, mas que provavelmente estariam ligadas à limpeza.
Quando terminou, pôs os líquidos em suas respectivas xícaras e foi de encontro ao capitão, sentando-se antes de repousar as louças sobre aquela superfície de madeira. Levi prontamente agradeceu, largando o pano em um canto qualquer antes de se sentar e degustar seu chá de erva doce, segurando a xícara à sua maneira. A ruiva sorriu, resolvendo também experimentar seu café.
– Deveria estar descansando como os outros. – disse Rivaille, repousando a louça sobre a bancada antes de voltar os acinzentados para a mulher à sua frente, que desviou o olhar. – Sabe que não ficaremos assim para sempre, iremos lutar novamente e creio que o esquadrão será selecionado para isso.
Petra crispou os lábios, largando o café antes de responder:
– Não consigo ficar parada como os outros. Acho que estou habituada a trabalhar constantemente. – Voltou os olhos para os acinzentados de seu superior, desviando-os rapidamente ao perceber que estes o fitavam direto, sentindo o rosto esquentar. Levi ergueu uma das sobrancelhas. – Heichou... É verdade que agora o senhor é um capitão?
O homem de baixa estatura interrompeu uma de suas goladas, franzindo levemente o cenho.
– Onde ouviu isso? – quis saber, voltando a fitar a ruiva diretamente, que se encolheu levemente.
– Foi Hanji quem me disse. – respondeu e então Rivaille rolou os olhos, desdenhoso. – Ela também disse que nosso comandante agora é Irwin. Parece que as coisas estão começando a seguir um bom rumo. Os dois são muito inteligentes e sei que podem reverter essa situação.
O capitão engoliu em seco, sentindo um gosto amargo em sua boca e logo voltou a bebericar de seu chá. Não gostava desse tipo de responsabilidade, afinal, assim como Irwin fizera tantas vezes antes, teria que dizer palavras ilusórias para seus soldados a fim de guia-los da forma que desejar e, na maioria dos casos, isso nunca terminava bem. Sua responsabilidade não seria apenas tomar as decisões de seu esquadrão em campo de batalha, mas sim de toda a tropa que estivesse em expedição ou missão e caso escolhesse errado...
Levi largou a xícara outra vez, apoiando um dos braços sobre a mesa antes de massagear as têmporas com força. Aquilo não soava nada bem e como se não fosse suficiente as imagens das situações passadas de repente se faziam nítidas em sua mente. Não gostava de pensar nisso, mas era inevitável.
Ao perceber seu desconforto quanto àquele assunto Petra rapidamente se pronunciou:
– Falou com Eren hoje, senhor?
Aquilo fez o homem se exaltar levemente, em seguida endireitando a postura.
– Ainda não. – respondeu. – Não quero preocupa-lo com o Arlert sem ter a certeza de que o garoto ficará bem.
Era nítida a mudança, até mesmo para alguém sem muitas expressões como Rivaille. Apenas em mencionar o nome do moreno o capitão alterava seu humor, seu cenho ficava menos franzido e os olhos mais perdidos. Aquilo fez Petra sorrir levemente, afinal, tudo indicava que o garoto estava fazendo muito bem ao seu superior.
– O senhor realmente se preocupa com ele, não? – comentou, atraindo os acinzentados levemente surpresos para si. – É bom vê-lo assim, senhor. Mas não se preocupe com isso no momento, Eren precisa de um tempo para refletir sozinho. O melhor a se fazer é dar o espaço que ele precisa.
Rivaille rolou os olhos outra vez, ocupando-se de beber seu chá antes que esfriasse enquanto a ruiva ria sozinha pela sua reação. Entretanto, a mulher estava certa, precisava ser, acima de tudo, compreensivo pela perda de seu garoto. Resolveu não comentar nada mais e então o silêncio reinou naquele refeitório.
[...]
A respiração falhou outra vez por conta do chute que recebia na barriga, seguido por uma sequência de socos contra o rosto e que abriam cortes profundos. O moreno abaixou perigosamente o corpo, ainda sendo segurado por Finny e Enzo que riam e colaboravam com aquelas sessões de golpes consecutivas.
Sentia o sangue escorrendo pelo rosto e, provavelmente, sujando seu uniforme que até o momento apenas estava sujo de poeira e terra. A risadas de Bardo ecoavam nítidas na medida em que observava o estado em que havia deixado Eren, que arfava necessitado.
Não conseguia entender como pessoas daquele tipo dormiam à noite depois de tantos atos de maldade enquanto tantas outras arriscavam suas vidas para salvar sujeitos como aqueles. Por um momento, o Jaeger imaginou se tudo aquilo realmente valia a pena. Correr todos aqueles riscos de morte, ver seus companheiros e amigos perecerem diante daquilo enquanto esses soldados viviam na segurança da base da Polícia Militar central não parecia ser a coisa certa a se fazer. A vontade que tinha naquele momento era de desistir de tudo.
“Não use isso como desculpa”.
Eren então arregalou os olhos, recebendo outro golpe que fez suas pernas fraquejarem. De repente a imagem de Rivaille se fazia presente, com um olhar ríspido.
“Não importa o nível de sua fraqueza, um bom soldado é capaz de superá-la e fazer dela a essência de sua força”.
Foram as palavras que o homem havia lhe dito quando começaram com o treinamento e, naquele instante, Eren finalmente as havia compreendido.
“Um bom soldado não precisa de olhos para enxergar”.
O moreno então franziu o cenho, lembrando-se de tudo o que havia aprendido com seu superior até aquele crucial momento. Havia aprendido a ouvir e com isso, sabia que poderia se defender perfeitamente assim como havia feito com Levi fora das muralhas.
Seguiu-se outra sequência de golpes onde Eren não fizera questão de desviar por momento algum, apenas esperando o momento certo, um pequeno deslize de Bardo para que pudesse entrar em ação. E foi quando o outro tentou desferir um golpe contra seu rosto que o moreno então se desviou repentinamente.
Para a surpresa dos demais, Eren não havia parado ali. Usando de sua força, o moreno se apoiou com um dos pés contra o chão enquanto usava o outro para chutar o corpo de Bardo para longe. Tal movimento fez com que seu corpo tombasse levemente para frente, o que serviu para que Finny e Enzo se atrapalhassem em tentar segurá-lo com a mesma força.
Percebendo isso, o garoto rapidamente agarrou sobre o pedaço de pano que julgava ser a camisa de ambos e, agora com ambos os pés no chão, impulsionou o corpo e os braços para frente, lançando os dois corpos para longe.
– Ora, ora... Então o bastardo sabe se defender? – Ouviu a voz de Bardo soar debochada. – Mas ainda assim são três contra um. Acha realmente que tem alguma chance contra nós?
Eren não respondeu. Ainda respirava ofegante enquanto tentava se recompor dos golpes que havia recebido durante tantos minutos. Sabia que aquela situação não era nem um pouco vantajosa para si, ainda mais levando-se em consideração seu estado atual. No entanto, não iria desistir.
Iria fazer isso por ele.
Conseguiu ouvir passos corriqueiros na sua direção seguido por um golpe que provavelmente iria atingir seu rosto e então se esquivou rapidamente. Todavia, não contava com um ataque vindo por trás, trincando os dentes quando sentiu braços o segurarem pela cintura, impossibilitando-o de se movimentar como queria.
“Um bom soldado não precisa de braços e pernas para se defender”.
O moreno então se lembrou da parede onde estava anteriormente encostado, encurvando-se o máximo que conseguia para erguer o corpo atrás de si e então se movimentou rapidamente até chocar o indivíduo contra aquela superfície de pedra com uma força considerável, fazendo-o grunhir em desagrado e afrouxar os braços, libertando-o mais uma vez.
Para sua sorte, havia se liberado em tempo o suficiente para se esquivar de outro golpe na sua direção, que acabou por atingir acidentalmente o garoto atrás de si, que escorregou até encontrar o chão, desacordado.
– Droga Finny! – exclamou Enzo, o autor do golpe, que voltou a atenção para Eren, sendo surpreendido pelo movimento do rapaz, que se abaixou e moveu rapidamente o corpo em uma rasteira, fazendo com que Enzo também caísse.
Eren sorriu pelo seu feito, por momentos imaginando que conseguiria sair daquela situação por conta própria. No entanto, não percebeu o movimento de Bardo, que se aproximou por trás e envolveu os braços em seu pescoço em uma chave de braço que fez com que o Jaeger começasse a sufocar de imediato.
– Desgraçado... – murmurou Bardo, aumentando a pressão que seus braços faziam contra o pescoço do moreno, que balançava os braços e tentava golpeá-lo em vão. – Quero que você morra... Bastardo!
Os olhos de Eren estavam arregalados e, em uma tentativa de se libertar, levou ambas as mãos aos braços que insistiam em aumentar a pressão a cada movimento que fazia. Aquilo não poderia estar acontecendo, estava indo tão bem...
– Afaste-se dele agora, Bardo. – Uma voz conhecida soou por aquele lugar e então o agressor voltava sua atenção para seu dono, imediatamente largando o corpo do Jaeger, que se ajoelhou no chão e levou uma das mãos ao pescoço, aliviado por finalmente conseguir respirar outra vez.
– C-Comandante Savage?! – O garoto exclamou, os olhos arregalados de surpresa por encontrar o superior naquele momento. – P-Pensei que o senhor estivesse em uma reunião...
– E estava, mas terminamos. – comentou ríspido, correndo os acinzentados pelo local, franzindo o cenho e cruzando os braços em uma raiva aparente. – Exijo explicações agora, soldado.
Bardo engoliu aquilo em seco, correndo os orbes pelos corpos de Finny e Enzo que se levantavam ainda atordoados e por Eren, que havia fechado os olhos e permanecia de quatro sobre o chão.
– Aquele ceguinho da tropa de exploração nos agrediu. – mentiu, olhando nervosamente para Elaijia. – N-Nós apenas nos defendemos!
O ruivo ergueu uma das sobrancelhas com aquilo, encarando fixamente seu subordinado, que engoliu em seco mais uma vez.
– Você acha que vou acreditar que um garoto cego atacou à vocês três sem qualquer motivo aparente? – disse, crispando os lábios quando Bardo encolheu os ombros. – Não permito esse tipo de comportamento sob meu comando, soldado. Será castigado por isso.
– M-Mas eu não tenho cul-
– Todos aqui são culpados. – interrompeu, piscando demoradamente antes de levar uma das mãos às têmporas, massageando-as. – Como punição, os três acompanharão o esquadrão de operações especiais e os demais soldados da tropa de exploração na operação de retomada.
– Mas isso é morte garantida, senhor! – tentou argumentar, desesperando-se quando o ruivo não lhe dera ouvidos e começou a caminhar na direção do moreno.
– E quanto à você, Jaeger. – comentou, abaixando levemente o corpo para tocar sobre o ombro do moreno, que estremeceu levemente. – Terá um castigo um pouco... Diferente. Então, acompanhe-me.
Eren sentiu os lábios tremerem com aquele comentário. Sentia-se profundamente agradecido pela intervenção de Elaijia, visto que não saberia se conseguiria ou não ter saído daquela situação por conta própria. No entanto, não fazia ideia do que o outro poderia fazer e admitia sentir medo.
–
Não sabia onde estava, o que poderia ser considerado como algo arriscado, não fosse o fato de estar sentado sobre algo que parecia ser uma cadeira enquanto dedos frios tocavam vez ou outra seu rosto, que ardia por conta de algum medicamento que era colocado sobre as feridas. Não poderia imaginar que o ruivo iria trata-lo daquela forma. Porém, percebia que aquilo parecia não o agradar em demasia, visto que não dissera uma palavra desde que entraram naquele lugar.
Sentiu quando o polegar de Elaijia percorreu um ferimento em seu lábio inferior, o que havia lhe causado certa dor ao ponto de fechar os olhos levemente.
– Está se regenerando rápido. Isso é um bom sinal. – comentou, logo em seguida se afastando para vislumbrar as vestimentas do outro. – É melhor tirar essa camisa e vestir algo mais limpo. Acho que tenho alguma coisa que pode lhe servir.
O comandante se movimentou rapidamente, abrindo seu armário de roupas e movimentando as mãos com rapidez até encontrar bem no fundo um pequeno baú com uma chave ao lado. Rapidamente o pegou, abrindo-o logo em seguida e retirando de lá uma camisa esverdeada* que era pequena demais para si.
Os acinzentados fitaram aquele pedaço de tecido por um tempo e com uma expressão diferente. Ah, aquilo trazia-lhe tantas recordações... Jamais pensou que um dia fosse abrir aquele baú mais uma vez.
O Savage então balançou a cabeça negativamente, tirando aqueles pensamentos da cabeça. Não era o melhor momento para ficar pensando naquelas coisas, bastava o que estava fazendo naquele momento.
Voltou-se então para Eren, entregando-lhe aquele pedaço de pano quando o mesmo havia se desfeito de sua jaqueta e camisa.
– Não tenho a jaqueta de sua tropa, mas creio que o Smith poderá providenciar isso para você o mais rápido possível. – disse, levando ambas as mãos à cintura enquanto o moreno vestia aquela camisa com cuidado, surpreendendo-se ao perceber que a mesma encaixava-se perfeitamente ao seu corpo. – Não se preocupe com os ferimentos, eles irão se regenerar em alguns minutos. Apenas descanse enquanto isso.
Eren assentiu, abaixando levemente o olhar enquanto descansava as costas sobre o encosto da cadeira. Não conseguia entende-lo, afinal, às vezes tratava-o como se fosse um ninguém enquanto outras vezes o tratava tão bem como naquele momento. Mesmo que agora se lembrasse do passado que tiveram tantas vezes juntos, não conseguia compreendê-lo.
– Obrigado senhor. – Resolveu arriscar um agradecimento, que pareceu surtir algum efeito. Elaijia voltou os olhos para Eren por alguns segundos antes de responder.
– Não precisa agradecer. – E então se sentou sobre a cama.
– Senhor... Eu queria perguntar uma coisa. – arriscou outra vez, ouvindo um suspiro pesado como resposta. – T-Tudo bem se não permitir.
– Vá em frente.
O ruivo observou como o moreno brincava com os dedos, como se estivesse perdido entre as palavras que diria logo a seguir. Novamente a sensação ruim então surgia, fazendo com que sentisse certa vertigem por conta daquilo. Era complicado para si estar tão próximo daquele garoto depois de tudo, principalmente agora que o mesmo sabia, em partes, do passado que os levaram àquela situação.
– O senhor disse que eu entenderia o porquê de tudo isso estar acontecendo caso eu me lembrasse. Mas ainda assim não consigo... – murmurou a última frase, abaixando ainda mais a cabeça. – E eu não entendo o porquê de continuar sendo tão bom comigo depois do que aconteceu... Poderia me esclarecer quanto à isso?
Elaijia mordeu o lábio inferior com força, apoiando ambas as mãos sobre o colchão macio de sua cama antes de ponderar seriamente sobre. Sabia que aquilo serviria apenas para deixar o Jaeger ainda mais confuso acerca do que estaria acontecendo. No entanto, aquela dúvida era uma parte importante do processo para que seu plano fosse finalizado com sucesso.
Com aquilo em mente, voltou os acinzentados para o rapaz que olhava um ponto em específico fixamente enquanto esperava por uma resposta. Aquilo o irritou de certa forma, afinal, havia dito como o mesmo poderia voltar a enxergar perfeitamente. Ignorando tal pormenor, resolveu expor sua resposta friamente calculada.
– Francamente... – resmungou, crispando os lábios. – Farei então uma pergunta direta, dessa forma espero que consiga chegar em uma resposta por conta própria.
Observou quando o moreno encolheu levemente os ombros e então se levantou, rapidamente colocando-se de frente ao corpo de Eren, abaixando-se até que estivesse à centímetros de distância do rosto do moreno.
– Você nunca parou para pensar o porquê dos titãs o perseguirem tão fervorosamente?
As esmeraldinas então se arregalaram levemente na medida em que franzia o cenho. A verdade era que nunca havia sequer pensado naquilo, visto que não fazia a menor ideia de que aquela era a real situação.
– Perseguirem a mim? – retrucou, sorrindo nervoso em seguida. – É porque eu sou um humano e titãs devoram humanos.
– Não. – negou rapidamente, endireitando a coluna antes de voltar a caminhar pelo quarto, mordendo o interior da boca antes de continuar. – É verdade que titãs se alimentam unicamente de humanos. Porém... – Voltou o olhar para o moreno. – Desde o dia em que eles o encontraram em Trost eles o vêm perseguindo, reconquistando a cada dia que se passa os territórios dentro das muralhas à sua procura. A morte de terceiros é apenas uma consequência.
Eren sentiu as narinas inflarem com aquilo, prendendo a respiração logo em seguida tamanho era o seu choque. O pior era que aquelas palavras realmente faziam sentido, afinal, grande parte dos grandes números de baixas dentro da tropa de exploração foi causada porque estava em perigo em algum lugar.
– O senhor está dizendo que...
– A culpa disso tudo é sua, unicamente sua. – respondeu direto, franzindo o cenho ao perceber o pequeno acúmulo de lágrimas que começava a ficar visível no canto dos olhos do Jaeger. – Não é a primeira vez que isso acontece, garoto. Busque em suas memórias e perceberá que não estou mentindo. A humanidade está correndo riscos por todos esses anos por sua causa.
– Não pode ser... – O moreno levou ambas as mãos aos fios castanhos, emaranhando-os em seus dedos finos enquanto acabava por puxá-los vez ou outra. Aquele mal estar característico da ansiedade começava a se tornar presente em seu peito, fazendo com que não conseguisse respirar como gostaria. – Por todos esses anos eu matei as pessoas que mais amava no mundo... E até poucos dias atrás eu fiz o mesmo... – Fechou os olhos com força, não segurando mais as lágrimas que agora corriam pelo seu belo rosto jovial. O aperto no peito crescendo cada vez mais. – Meus pais... A sra Lockwook... Mikasa...
Elaijia manteve o semblante sério enquanto o garoto se levantava da cadeira, mas logo ajoelhando-se ao perceber o quanto as pernas estavam trêmulas. Era verdade que todas as pessoas próximas ao garoto acabavam perecendo, aquilo não era uma mentira por completo. Porém, isso também o incomodava em demasia, afinal, naquele momento as lembranças de seu passado acabavam por vir à tona em sua mente como flashes doloridos.
O ruivo então fez uma carranca, sendo tirado de seus devaneios quando Eren agarrava-se à sua camisa com os dedos trêmulos. Tal reação o surpreendeu por momentos.
– Por favor... Diga-me... Eu fiz o mesmo para o senhor? – Aquela pergunta havia pego o Savage de surpresa, que arregalou os acinzentados que ainda o fitavam. – O senhor tinha família? Pais... Esposa... Filhos... Em nenhum momento do passado me lembro do senhor falando sobre isso...
Foi como se o mundo estivesse desmoronando para Elaijia naquele momento. Os olhos, antes arregalados, agora fitavam Eren perdidos em uma sôfrega carranca que o ruivo jamais imaginaria que esboçaria um dia, o que o fez agradecer por momentos pela cegueira do rapaz de pele bronzeada. Céus, como haviam chegado àquele assunto, afinal? Isso não estava em seus planos, nunca deveria estar.
A respiração do comandante falhou por alguns minutos enquanto um baque de vertigem de repente o atingia, obrigando-o a se apoiar com mais firmeza sobre o chão. As mãos involuntariamente procuraram os fios ruivos para massageá-los antes de desviar o olhar, sentindo o típico desconforto na garganta de quem estava prendendo o choro eminente. Aquilo era inadmissível.
– Ah... Eu tive uma família. – respondeu após alguns minutos em silêncio, a voz soando miseravelmente, em seguida rindo nervoso. – Era apenas um adolescente quando meus pais foram mortos por um... Maldito e desgraçado Rei... – Precisou fazer outra pausa quando fechou os olhos, levando ambas as mãos à cintura novamente. – Meu filho e minha esposa... Céus.
Levou uma das mãos aos olhos, pressionando-os enquanto respirava profundamente a fim de se controlar e manter a postura, pelo menos enquanto o garoto estivesse ali, o que era tarefa difícil por conta dos flashes de memória. Elaijia então umedeceu levemente os lábios antes de continuar:
– Sarah... Minha linda esposa... Morreu nos meus braços e na frente do meu filho de quatro anos depois de um ataque à vila onde morávamos. – Percebeu quando Eren parou de fungar, parecendo prestar atenção em suas palavras. – E para proteger meu filho, pedi para que fugisse para o lugar mais distante que conhecesse, sem olhar para trás. Nunca mais o vi desde então. – Elaijia riu nasalmente, esboçando um sorrido desolado enquanto balançava a cabeça negativamente. – Aquilo foi de partir o coração, ver os olhinhos castanhos dele inchados de tanto chorar, implorando para que não o deixasse... Perguntando se a mãe iria encontrar com ele quando tudo aquilo acabasse...
Eren há muito havia parado de chorar, afastando-se do corpo do ruivo enquanto ouvia aquela espécie de desabafo e imaginando o quanto aquilo deveria ter sido difícil de se superar. Além disso, levando-se em consideração aquele relato e suas lembranças, poderia deduzir que aquilo aconteceu antes que ambos se conhecessem. Deveria se sentir aliviado ao ouvir aquilo, no entanto, não conseguia parar de pensar no quanto o homem à sua frente deveria ter sofrido durante todos aqueles anos. Suas feridas ainda não haviam se cicatrizado e a prova disso era a forma como o ruivo deixava escapar aquelas palavras.
– Eu sinto muito, senhor. – disse por fim, atraindo novamente a atenção de Elaijia, que o fitou por breves momentos antes de segurá-lo pelo braço.
– Vamos, levante-se. – pediu e fora prontamente atendido, analisando com os acinzentados a vestimenta do Jaeger. – Sarah havia feito essa camisa para o meu filho. Iríamos presenteá-lo quando completasse seus treze anos... – Suspirou melancolicamente, coçando o queixo com a mão livre. – Ficou bem em você, fique com ela. – O moreno mordeu levemente o lábio inferior, sentindo-se agradecido enquanto Elaijia voltava a cruzar os braços. – Quanto à sua punição... Bom, considere o que havia dito antes como o castigo. Afinal, agora você pode tentar conviver sabendo de tudo.
– Sim, senhor. – respondeu prontamente, esticando os braços e balançando-os ao redor de seu corpo a fim de conseguir se localizar, afinal, aquela era a deixa final para que se retirasse.
O ruivo observou aquilo por um tempo, era engraçada a forma como Eren batia os pés no chão completamente perdido, o que fazia com que se perguntasse mentalmente como o outro havia conseguido caminhar pelos corredores da base da tropa de exploração sem dificuldades por tanto tempo.
Com isso, acabou por se lembrar de algo que possuía e que poderia auxiliá-lo caso necessário. Rapidamente se voltou para o armário, abrindo-o e retirando de lá uma bengala de madeira preta revestida por uma camada de verniz. Estava guardando-a para o Marechal, que havia pedido para que comprasse quando fosse para o distrito de Yarckel.
– Fique com isso. – disse assim que se aproximou mais uma vez de Eren, segurando em uma de suas mãos e entregando-lhe o objeto.
– O que é?
– Uma bengala. – respondeu, sorrindo levemente pela expressão de surpresa que fora estampada no rosto do mais novo. – Isso vai ajudá-lo a se locomover aqui dentro com mais facilidade.
O moreno tateou com ambas as mãos aquele material de madeira antes de colocá-lo no chão a fim de começar com o teste, sorrindo cordial quando começou a chocá-lo contra alguns móveis à certa distância. Isso certamente o iria ajudar bastante.
– Obrigado senhor! – agradeceu empolgado antes de oferecer uma leve mesura ao ruivo, que balançou a cabeça algumas vezes antes de fita-lo a se retirar, deixando-o sozinho naquele quarto.
Imediatamente após ouvir o barulho da porta se fechando a expressão do comandante mudava para algo melancólico antes de se voltar para a cama, lançando-se contra aquele colchão macio e afundando o rosto contra o travesseiro. Estava fazendo aquilo mais uma vez, porém, nada podia fazer se era mais forte do que imaginava que fosse.
Um pesado suspiro ecoou por aquele quarto espaçoso demais, aquele assunto o havia deprimido por trazer à tona tantas recordações. Ao fechar os olhos por alguns segundos, conseguiu enxergar outra vez os fios negros esvoaçantes de sua esposa, que carregava uma criança pequena consigo enquanto tinham o belo vislumbre dos peixes em uma nascente no interior da floresta.
Lembrança
Acabava de sair daquela nascente, sem se importar com os galhos e folhas secas que acabavam por se agarrar em seu corpo úmido, coberto apenas por uma bermuda de um tecido envelhecido, na medida em que caminhava. Os acinzentados repousaram sobre o corpo da mulher que estava sentada à sua margem, que trajava um vestido bege simples que era puxado insistentemente pela criança ruiva que carregava em seu colo.
O homem sorriu com aquela visão, logo aproximando-se daquela dupla e tendo dois pares de orbes castanhos sendo voltados para si. A mulher sorrindo-lhe cordial enquanto a criança saía correndo de seus braços, eufórica.
– Papai, papai! – chamou animada, agarrando-se firmemente na bermuda do homem, que afagou os curtos fios ruivos de seu filho. – A mamãe e eu vimos um peixe dourado!
– Isso é verdade? – perguntou, voltando os acinzentados para a esposa, que assentiu. Logo voltando-se para a criança e usando de seus grandes braços para erguê-la, segurando-a em seu colo. – Bom garoto! Gostaria de um desses para o jantar? – Os olhos castanhos do garotinho então brilharam em expectativa.
– Podemos, papai? – perguntou e então o homem assentiu, recebendo como resposta um dos melhores sorrisos de seu filho, que usou de suas pequenas mão para acariciar o rosto do pai, próximo à cicatriz que o mesmo possuía sobre a ponte do nariz. – Obrigado papai! – E em seguida o abraçou, usando dos dedos para brincar com os cabelos ruivos compridos do pai, que soltou uma risada quase lírica por conta da brincadeira.
– Elaijia. – Ouviu uma voz feminina chama-lo e então voltou os acinzentados para a morena, que agora estava de pé ao lado dos dois. – É melhor pegar logo o peixe antes que ele desapareça.
O homem ergueu uma das sobrancelhas, em seguida sorrindo cordial antes de encurvar a coluna para selar brevemente seus lábios contra os de sua mulher, enlaçando levemente sua cintura.
– Tem razão Sarah. – concordou divertido, logo entregando a criança e se preparando para mergulhar outra vez. – O sol também está prestes a se pôr.
– Mamãe, podemos comer um peixe bem grandão assim no meu aniversário? – O garotinho perguntou, gesticulando exageradamente e então os orbes castanhos da matriarca da família Savage foram voltados para si.
– Claro que sim, meu ruivinho querido! – respondeu dócil, beijando levemente as bochechas rosadas de seu filho enquanto Elaijia voltava o olhar para o céu mais uma vez.
– É melhor voltarem para a vila agora, está escurecendo. – comentou o maior. – Vou levar o peixe para casa, podem ir na frente.
– Cuidado querido. – disse Sarah, recebendo um sorriso imoral que sabia que a mulher adorava.
– Irei ficar bem. Tome cuidado com o caminho de terra, pode cortar os pés com alguma pedra no caminho. – comentou e a mulher assentiu, aproximando-se outra vez do homem ruivo, que beijava-lhe a testa e em seguida recebia um forte abraço do filho.
– Tchau papai!
Fim da lembrança
Elaijia agora chorava audivelmente, não segurando os soluços que vinham por consequência. Céus, jamais imaginaria que aquela seria a última vez que os veria antes daquele maldito incidente que levara sua esposa e o fizera perder o filho de uma forma tão cruel. E sabia perfeitamente de quem era a culpa de tudo aquilo, afinal, fora por isso que se dedicou por tantos anos àquele plano.
– Maldito Rei... – murmurou entre as lágrimas, levando ambas as mãos aos olhos, tapando-os. – Você vai me pagar dessa vez... Nem que eu precise morrer para isso.
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