Wishmaster
46 Erros
Não encontraram nenhum outro membro vivo da tropa de exploração enquanto se arrastavam para o interior da cidade subterrânea. Levi conseguiu observar, mesmo que de relance, o corpo do Arlert soterrado por escombros, o de Nanaba, que havia sido partida ao meio. O do Kirschtein, onde precisou até mesmo cobrir os olhos de Eren para que não visse o estado em que o outro se encontrava. Por onde passavam o cenário era o mesmo, repleto de sangue, morte e destruição, e não conseguia deixar de se abalar, mesmo que minimamente, com tudo aquilo. Estava acostumado com paisagens semelhantes, no entanto, não entendia ao certo o porquê de sentir incomodado naquele momento em específico.
Arrastou o moreno por um caminho escuro e estreito, onde precisou forçar o braço quebrado para que tateasse as paredes para que não acabasse se perdendo. Rivaille se lembrava perfeitamente de todas as passagens secretas da cidade subterrânea, geralmente usadas quando criminosos queriam fugir da Polícia Militar ou por em prática algum furto. Mas mais do que isso, tinha conhecimento de todos os esconderijos de Kaney. Alguns se encontravam em camadas mais fundas, abaixo da cidade subterrânea escondido sob pseudo bares ou, até mesmo, sob as casas de alguns civis.
A Polícia Militar nunca havia descoberto nenhum deles, por isso, sabia que estariam seguros.
Não demorou para que sentisse uma superfície de madeira logo à sua frente e, mesmo à contra-gosto, afastou-se do corpo de Eren, que se encostou cansado sobre a parede de terra ao seu lado. O capitão da tropa de exploração se afastou minimamente e, com um dos pés, chutou a porta de madeira para que a mesma se abrisse, fazendo com que um pouco de terra acabasse por se desprender e cair sobre ambos os corpos.
– Desculpe por isso. Venha. – chamou, enlaçando mais uma vez a cintura de Eren antes de cruzarem aquela abertura.
O rapaz ainda não sabia explicar como havia recuperado a visão tão repentinamente, porém, não conseguia enxergar nada à sua frente por conta da total escuridão daquilo que pensava ser um cômodo quente e úmido demais. Então apenas seguiu Levi enquanto ele o guiava, o que não se alongou, visto que logo o capitão havia se afastado mais uma vez.
– Espere aqui. – O ouviu dizer e então obedeceu, apenas erguendo os braços e movendo-os minimamente para que pudesse se encostar em algo caso encontrasse. Afinal, por mais que seu corpo se regenerasse rápido, ainda sentia dores terríveis por conta da enorme estaca de madeira que havia atravessado seu corpo e dos membros amputados. A pele dos pés cresciam de forma lenta, enquanto que as mãos ainda estavam sem os dedos.
Não havia dito nada desde que saíram apressados daquela perigosa situação, ainda tentava processar tudo o que havia acontecido e tudo o que havia visto. Foram coisas demais e que ainda não acreditava que estavam acontecendo.
Naquele momento algumas imagens se formaram na mente de Eren. Lembrou-se do dia em que as crianças brincavam ao lado de fora do abrigo e de como acabou se cortando ao tentar fazer o almoço, do alvoroço em que as meninas fizeram ao tentar fazer o curativo e dos meninos quando Levi entrou pela porta de madeira e ficou para almoçar.
Em tão pouco tempo seu mundo havia mudado tão drasticamente que não conseguia acreditar quando pensava sobre. Seus irmãos e amigos estavam mortos, seus companheiros que sobreviveram desaparecidos, não fazia ideia de onde as crianças estariam, e ainda tinha Elaijia. Doía pensar no ruivo e nas coisas que ele estava fazendo, e doía mais ainda saber o motivo.
Iria suspirar, mas foi interrompido pelo feixe de luz que de repente iluminou o local onde se encontrava, obrigando-o a tapar os olhos minimamente por conta da claridade, finalmente enxergando o pequeno quarto com uma cama improvisada ao canto, uma espécie de armário e prateleiras que serviam como dispensa para mantimentos.
Levi havia acendido um lampião com o que havia sobrado de querosene da última vez em que colocou os pés naquele local. Sabia que teria que sair para conseguir mais em breve, todavia, precisava cuidar dos ferimentos de Eren e dos próprios.
O rapaz de pele bronzeada observou quando o corpo pequeno do homem à sua frente se moveu até o que pensava ser um armário, abrindo-o e revirando-o à procura de algo. A nuca se arrepiava sempre que o braço pendurado do capitão entrava em seu campo de visão, fazendo-o engolir em seco tanto pelo nervoso quanto por imaginar a dor que ele deveria estar sentindo com aquilo.
– Quer... Ajuda? – perguntou, atraindo pela primeira vez a atenção dos orbes cinzentos para si. Eren engoliu em seco ao perceber, finalmente, as fundas olheiras e a expressão abatida sobre o rosto pálido demais para alguém que deveria estar saudável.
O jovem Jaeger não obteve resposta, visto que Levi voltou a atenção para o que quer que estivesse dentro do armário. Limitou-se, então, a observar com mais atenção o estado em que o homem mais forte da humanidade se encontrava. Mesmo que não o tivesse visto com frequência, sabia que estava mais magro do que o toque de suas mãos se lembrava. A fraqueza estava evidente em suas pernas trêmulas. Jamais imaginou que o veria daquela forma algum dia e isso o assustava de certa forma.
– Venha aqui. – Foi tirado de seus devaneios mais uma vez, dessa vez pela voz de Levi. Os esmeraldinos foram direcionados para a cama que era apontada pelo outro, não demorando para se sentar sobre a mesma com cuidado para não sujar os lençóis, não obtendo sucesso, porém.
Por mais que não lhe agradasse, resolveu se manter em silêncio. Era praticamente palpável o desconforto daquela situação em ambas as partes, porém, Levi não parecia disposto a quebrar aquele clima estranho entre os dois. Eren procurava entender.
O homem de baixa estatura se sentou sobre o chão de terra batida, resmungando baixinho por conta da dor nas costelas enquanto usava a mão boa para puxar um dos pés de Eren e colocá-lo sobre seu colo. Naquele momento, o moreno percebeu ao lado do corpo de Rivaille uma bacia com um pouco de água e algumas bandagens e toalhas velhas. Observou, também, como o capitão olhava atentamente para o pé parcialmente coberto de pele e para a fumaça que escapava do ferimento, ao mesmo tempo em que a mão livre trabalhava com uma das toalhas, umedecendo-a.
– Não acho que seja necessário que faça curativos. Apenas irei limpar para que não infeccione enquanto se regenera. – comentou rude e Eren ergueu o olhar minimamente.
– Tudo bem. – Pelo tom de voz do outro, estava claro que não havia margem para negociação, por mais que ambos soubessem que Eren poderia fazer aquilo sozinho.
O silêncio reinou mais uma vez entre os dois e era levemente quebrado pelo som da água na bacia e do movimentar da toalha sobre o pé do moreno, que logo foi substituído pelo outro quando estava devidamente limpo. Eren sentia os ferimentos machucarem e latejarem na medida em que eram limpos suavemente pelas mãos do capitão, mas tentava ao máximo evitar que qualquer ruído escapasse de seus lábios.
Levi percebia o esforço de Eren, mas não comentou nada sobre. Limitou-se apenas em continuar com aquele trabalho, pedindo para que o moreno se livrasse da camisa completamente ensanguentada para que pudesse avaliar o ferimento causado pela estaca. Porém, surpreendeu-se ao perceber que o mesmo estava completamente regenerado quando começou a limpar com uma nova toalha.
Não disse uma palavra quando terminou, levantando-se lentamente e com bastante cuidado por conta da dor que sentia, quando sentiu o braço machucado ser agarrado repentinamente e puxado com leveza. Rivaille resmungou audivelmente com aquilo, fechando os olhos por um momento.
– O que foi?
Eren nada disse, apenas continuou segurando no braço daquele homem com leveza para não machucá-lo, o que fez Levi suspirar pesadamente,
– Eu preciso limpar meus ferimentos. – disse em um tom mais suave, virando-se para Eren mais uma vez. – Meu braço está me matando, preciso imobilizá-lo.
– Eu... Posso ajudar. – disse rapidamente, soltando o braço do capitão quando finalmente teve toda a atenção que queria. – Por favor...
– Eren...
– Por favor, Levi! – insistiu, levantando-se dessa vez, mas permanecendo em cima da cama improvisada no chão. – Você... Está estranho...
O homem de baixa estatura piscou demoradamente antes de se virar para o armário mais uma vez, como se estivesse ignorando o que o moreno havia dito, o que fez Eren arregalar os olhos e engolir em seco. Sabia que tudo estava acontecendo da maneira errada, no entanto, aquilo não justificava a forma como Levi estava agindo naquele momento consigo.
– Consegue quebrar essa estante para mim?
O moreno foi tirado de seus pensamentos pela voz de Rivaille, que apontava com o braço bom para a estante onde estavam os mantimentos. Eren assentiu mais do que depressa, aproximando-se com cuidado para não ferir ainda mais os pés e retirando o melhor que pode as coisas empoeiradas que estavam dispostas ali.
– Acho que tem um machado em algum lugar... – O capitão comentou, ajoelhando-se em um canto ali perto, tateando a parede com uma das mãos. Procurava pela portinhola que vira várias vezes quando Kaney o trazia para fugir da Polícia Militar. Todavia, ao ouvir o barulho da madeira se partindo, logo desistiu da ideia.
– Consegui! – Ouviu a voz de Eren logo atrás e iria se levantar, não fosse por um movimento do rapaz de pele bronzeada, que o segurou pelo braço bom para puxá-lo.
– Obrigado. – disse ao estar finalmente de pé, sendo surpreendido por um sorriso de Eren. Um daqueles que adorava receber.
Aquilo fez Rivaille desviar o olhar e tomar os pedaços de madeira das mãos dele, caminhando em seguida para perto da cama. Foi seguido por Eren, que se sentou ao seu lado, ajudando-o no que era necessário.
[...]
As mãos do moreno se moveram rapidamente em uma falha tentativa de afastá-lo de si. Não estava o reconhecendo, aquele não era o seu capitão.
– Levi, pare com isso... – Tentou mais uma vez, recebendo uma forte mordida no pescoço como resposta.
Aquilo fez um gemido dolorido escapar dos lábios de Eren. Não fazia a menor ideia de como haviam começado com aquilo, mas estava assustado com a maneira como estava sedo tratado. A mão livre de Levi percorria seu corpo com violência, deixando várias marcas. Os lábios, antes gentis, pressionavam-se com extrema força sobre sua pele.
Haviam se limpado o melhor que puderam com os poucos recursos que tinham à mão e também tinha ajudado o capitão a imobolizar o braço quebrado e a fazer os curativos no peito por conta das costelas quebradas. O silêncio se tornou insuportável demais para Eren, que tentou iniciar um diálogo com o homem que ali estava, sendo repentinamente atacado.
Não teria recusado os toques que ele lhe oferecia, também sentia saudades, afinal ficaram muito tempo longe um do outro. No entanto mudou de ideia no momento em que o corpo foi lançado com uma força extrema contra a parede daquele lugar, as costas e a cabeça se chocando com tudo contra a superfície dura e gelada, deixando-o por momentos desnorteado, antes de ser atacado com mais voracidade.
Naquele momento, usava as mãos quase completamente regeneradas para tentar afastar o corpo de Rivaille do seu, que arranhava seu peito nu com força o suficiente para abrir um ferimento. O capitão, que até o momento maltratava o pescoço do moreno com mordidas tão fortes que deixavam profundas que sangravam, moveu-se até estar na altura do peito do rapaz, onde mordeu o mamilo rosado esquerdo com tamanha força que fez Eren quase gritar.
– Levi! Pare com isso! – Eren pediu bem alto, erguendo ambas as mãos e agarrando os fios negros o melhor que podia. No entando, não esperava que o homem de baixa estatura erguesse a única mão disponível e a aproximasse de seu pescoço. – ...Levi?
O jovem Jaeger não teve tempo de reagir para o que viria a seguir e logo arregalou os olhos ao sentir os dedos de Rivaille apertarem seu pescoço com força, impedindo-o de respirar. Naquele momento o capitão da tropa de exploração voltou a erguer o corpo direito, os orbes acinzentados fitando diretamente as expressões apavoradas que Eren deixava escapar, ouvindo com atenção os gemidos de um pedido quase desesperado para que o deixasse respirar.
Inconscientemente, apertou ainda mais o pescoço do moreno, que segurava seu braço com ambas as mãos e o forçava para tentar se soltar. Aquela situação era nostálgica demais para Levi, que não percebeu quando os olhos de Eren reviraram levemente e o rosto começou a se avermelhar pela falta de ar.
Porém, naquele mesmo momento uma imagem se fez presente na mente do homem de baixa estatura. O rosto ensanguentado de Eren de repente entrou em seu campo de visão, ao redor, uma paisagem que de momento desconhecia, mas não demorou para perceber se tratar das masmorras onde estivera antes.
Aquilo foi o suficiente para fazer com que soltasse o pescoço do moreno, que caiu sentado no chão tossindo violentamente enquanto puxava desesperado o ar para seus pulmões. Levi fitou aquela cena catatônico, os acinzentados arregalados.
– Eu... – Resolveu se calar ao ouvir um suspiro sôfrego do moreno aos seus pés, afastando-se rapidamente em seguida até se encostar na parede mais próxima que seu corpo encontrou. – O que eu estou fazendo?
A mão livre foi parar nos próprios cabelos, os dedos se emaranhando nos fios negros e puxando-os com força enquanto era chamado por Eren baixinho, que olhava ainda assustado para Levi quando este se virou de repente para a parede e se abaixou aos poucos, encolhendo-se e batendo com a testa sobre a mesma.
– Levi... – chamou baixinho mais uma vez, tossindo outras duas vezes antes de se apoiar com as duas mãos para conseguir se levantar. – Levi...
– Eu deveria estar de protegendo... Não te machucando dessa forma... – continuou, martirizando-se enquanto a imagem do rosto completamente ensanguentado do moreno não saía da sua cabeça. Não sabia dizer se sua mente havia formado aquilo por conta do momento ou se era mais uma de suas conturbadas lembranças, ou o que achava que eram lembranças.
Como pode se descontrolar daquela forma? Não sabia responder. A verdade era que estava com muita raiva, mas ele era a última pessoa em quem deveria pensar em descontar todas as suas frustrações.
Levi estava tão absorto em seus pensamentos que apenas percebeu os braços de Eren envolverem seu corpo quando sentiu a respiração quente do moreno se chocar contra a sua nuca, aparentemente mais normalizada, mas percebia que ainda ofegava.
– Converse comigo... – Ouviu a voz dele sussurrar em seu ouvido e então fechou os olhos, suspirando pesadamente antes de se permitir encostar melhor o corpo no peito do seu moreno. – Eu não quero te ver assim, Levi...
Eren apertou mais o abraço com a ausência de resposta, mas não muito para que não o machucasse. Queria, sinceramente, entender o que estava se passando na mente de seu amante naquele momento, mas também não deixava de estar relutante por conta da atitude do mesmo de momentos atrás.
– Levi? – chamou ao perceber o corpo de Rivaille mais pesado sobre o seu e então ergueu a cabeça bem de leve, conseguindo ver o rosto completamente vermelho do capitão, além dos olhos fechados e o corpo levemente trêmulo.
Aquilo o deixou demasiadamente preocupado e, movendo-se bem de leve, o deitou em seu colo. Mais do que depressa sentiu o pescoço quente de Levi, chegando a temperatura dele logo em seguida.
– Está com muita febre... – comentou, mordendo o lábio inferior com força antes de se levantar e arrastá-lo o melhor que conseguiu até a cama improvisada no chão, onde o deitou.
Em seguida correu para o armário à procura de algum cobertor, infelizmente não encontrando nada que pudesse ser útil. Aquilo o deixou levemente frustrado, no entanto, logo uma ideia o fez se esquecer rapidamente da frustração, dando lugar ao constrangimento.
O corpo magro se moveu rapidamente até que se deitasse ao lado de Levi, que permanecei imóvel, aparentemente dormindo por conta da febre alta. Eren então envolveu o peito do homem em seus braços, trazendo-o para mais perto. Lembrou-se uma vez que Hanji lhe havia dito que o calor humano poderia ser uma excelente opção em casos extremos.
E foi pensando nisso que o abraçou mais forte, aproveitando também para descansar o quanto lhe fosse permitido.
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