Wishmaster
42 Coincidências?
As coisas estavam calmas demais e isso preocupava o comandante da Polícia Militar, que caminhava de um lado para o outro, resolvendo problemas internos enquanto a cabeça não parava de lhe dizer que algo estava errado. E isso se dava ao fato da tropa de exploração estar silenciosa demais para quem perdera o soldado mais forte.
O homem ruivo parou de andar por um momento, não tinha a certeza se deveria se preocupar em ordenar que os guardas ficassem atentos ou em formular uma explicação para o Marechal sobre os motivos que o levaram a cessar as patrulhas que a Polícia Militar fazia em Maria e Rose, que já não eram mais necessárias, visto que havia encontrado o que procurava.
Crispou os lábios, em seguida sendo tirado de seus devaneios por um de seus soldados que dizia que sua presença estava sendo requisitada na muralha Sina, o que o fez suspirar em desagrado antes de assentir, respondendo que iria assim que possível.
– Francamente... – resmungou, ajeitando os longos fios exóticos de forma a prendê-los melhor. Iria naquele momento, quanto antes terminasse o que quer que precisasse fazer, melhor.
[...]
Suspirou pesadamente. Não conseguia esconder o nervosismo que sentia a cada passo que dava e sentia as mãos suadas pela ansiedade que sentia. Saber que seu desempenho seria crucial para que aquele plano desse certo apenas o estressava, mesmo que fosse por uma causa nobre.
Tentava andar o mais normal possível, balançando a bengala de um lado para o outro para que não tropeçasse e ajeitando a capa esverdeada que usava para que não fosse possível enxergar a arma que carregava com a outra mão. Sabia que estava sendo seguido por Sasha e Jean discretamente, que apenas apareceriam para intervir se fosse necessário.
Ao redor das masmorras existia uma série de corredores que ligavam à vários pontos distintos daquela base. A ligação principal, que formava uma espécie de "V"e que levava às escadarias das masmorras estariam sendo guardadas por Hanji e Mike, enquanto Nanaba e Sammael ficariam encarregados de limpar os corredores para que Eren, Sasha e Jean pudessem passar.
Do lado de fora estavam Connie e Armin, próximos dos estábulos que aquela hora estavam vazios por conta da nova carga armamentista que estaria chegando de barco de Rose, fazendo com que os soldados se concentrassem mais no cás. Tomavam conta de uma carroça que se assemelhava com as que os comerciantes geralmente usavam para transportar carga. Dentro se encontravam os DMT's de cada soldado e mais um, que seria o de Levi.
Irwin e Christa estavam na cidade, próximo aos portões da cidade subterrânea. Durante os dias que se seguiram, o comandante da tropa de exploração conseguiu formular uma chamada falsa para a muralha Sina, um pretexto para que Elaijia deixasse a base e facilitasse o processo do resgate, enquanto também procurou ao lado de Hanji a melhor forma de entrar na cidade subterrânea sem que fossem percebidos. A morena havia garantido que, uma vez lá dentro, poderiam ser guiados por Levi até uma passagem onde poderiam sair próximo à muralha, usando apenas o DMT para isso.
Estavam todos preparados para um provável combate, porém, Eren tentaria seguir à risca o que Armin lhe havia explicado. Havia, sim, uma grande chance de acabarem lutando, todavia, também existia uma porcentagem que indicava que uma iniciativa simples poderia dar certo. E era isso o que o moreno estava fazendo agora. Não queria que acabassem por matar pessoas que não eram ruins e apenas obedeciam ordens, mas tinha o total conhecimento de que isso, talvez, pudesse ser necessário.
Conseguia ouvir alguns resmungos agonizantes, provavelmente dos soldados da Polícia Militar que estavam sendo abatidos no caminho para evitar complicações. Sabia que Nanaba e Sammael não fariam nada desnecessário, no entanto, simplesmente não conseguia deixar de se preocupar.
Apressou o passo, deveria ser rápido pois a qualquer momento Elaijia poderia retornar, já imaginando o que estariam planejando e isso poderia ser um problema. Assim que chegou ao fim do corredor com o formato em "V", ouviu as vozes de dois soldados que estariam provavelmente guardando a passagem para as escadas.
– O que veio fazer aqui? – Um deles perguntou à Eren, que engoliu em seco. Como nenhum deles comentou sobre a presença de Jean e Sasha, presumiu que ambos haviam conseguido se esconder.
Tentou parecer o mais natural possível ao endireitar a bengala.
– Vim à pedido do comandante vigiar o traidor em sua ausência. – respondeu exatamente como Armin lhe havia explicado, esperando do fundo do coração que tivesse soado convincente.
Os dois soldados se entreolharam minimamente.
– Não fomos reportados sobre isso. – O outro perguntou, visivelmente desconfiado. Aquilo fez Eren piscar demoradamente.
– Foi uma decisão de última hora... – continuou. – O comandante foi chamado à muralha Sina repentinamente e me ordenou que vigiasse o prisioneiro. Podem perguntar ao capitão Nile sobre, ele irá confirmar.
Mais um momento de silêncio e o jovem Jaeger crucificou-se mentalmente, imaginando que não havia soado convincente, apertando a arma com a mão livre, cujo dedo se encontrava prontamente no gatilho. Caso algum deles comentasse algo que não seguisse com o plano, tanto ele quanto Sasha e Jean seriam obrigados a agir. E, por mais que não quisesse fazer isso, sabia que Irwin estava certo em dizer que em momentos como esse não devemos exitar.
– Vá checar Thanatos, ficarei aqui com ele. – Ouviu uma voz soar e se sentiu aliviado com aquilo, ouvindo os passos do soldado chamado Thanatos se distanciar. – Sinto pela desconfiança, mas tudo isso é muito incomum.
– Ah... Não tem problema... – Sorriu para o homem que havia ficado. Sabia que no momento em que Thanatos sumisse de vista, Hanji e Mike entrariam em ação para detê-lo. Porém ainda não sabia o que fazer com o soldado à sua frente.
A ansiedade aumentava enquanto esperavam em silêncio pelo outro que não voltaria e Eren sabia perfeitamente que o homem à sua frente começava a desconfiar pela demora do companheiro, pela forma como ouvia seus pés baterem no chão conforme andava de um lado para o outro.
– Thanatos está demorando demais... – comentou, fazendo o moreno engolir em seco. – Já deveria ter voltado com a resposta do capitão.
– E-Eu garanto que ele voltará logo. – Não conseguiu evitar de gaguejar em nervosismo, xingando mentalmente, pois sabia que o outro iria desconfiar.
Outro momento de silêncio foi feito, até que o moreno ouviu os passos do soldado lentamente na sua direção.
– Como se chama? – perguntou e Eren exitou um pouco.
– E-Eren Jaeger, senhor... – "Porcaria...", piscou algumas vezes ao sentir a aproximação do outro cada vez mais.
– O garoto que pertencia à tropa de exploração? – Parou bem próximo do moreno, que usava mil e um xingamentos contra si próprio enquanto torcia profundamente para que Jean e Sasha continuassem escondidos, assim como Mike e Hanji. – O prisioneiro era seu capitão, estou certo? – Eren não respondeu, apenas tentou se afastar quando o braço foi agarrado com força pelo soldado. – Thanatos ainda não voltou...
– Merda! – Ouviu a voz de Jean soar logo atrás de si, seguido dos passos de Sasha. Ambos já estavam armados e avançando contra o soldado da Polícia Militar, que também havia sacado sua arma.
Porém nenhum deles esperava que o primeiro movimento fosse feito por Eren, que rapidamente apontou a arma que segurava na mão livre para o homem, fazendo um tiro certeiro em sua cabeça que ecoou por todo aquele corredor, seguido do barulho da queda do corpo sem vida do soldado.
Naquele momento até mesmo Hanji e Mike saíram de seus esconderijos, a morena correndo na direção do jovem Jaeger para parabenizá-lo por pensar rápido enquanto Mike tentava apressar os que estavam ali.
Nanaba e Sammael chegaram logo em seguida, correndo.
– Tudo certo? – O ruivo perguntou assim que se aproximaram, recebendo o acenar positivo dos demais.
– Eren, você está bem? – Era a voz de Sasha, que apoiou uma das mãos sobre o ombro do moreno, que estava visivelmente abalado com o que tinha acabado de fazer, apenas meneando positivamente a cabeça para que desse espaço para o major ou a tenente falar.
– Vamos seguir com o plano. – disse Hanji, dando uns tapinhas nas costas de Eren. – Sammael e Nanaba ficarão aqui na porta enquanto o resto de nós irá entrar.
– Por mais que os corredores estejam vazios agora, é impossível que nenhum soldado tenha escutado o disparo. – apontou Mike, voltando-se para os outros dois. – Não exitem em nos chamar caso algo de estranho aconteça.
Os dois assentiram e logo entraram em posição enquanto a tenente e o major tomavam a dianteira. Sasha guiava Eren no meio, que havia largado a bengala, e Jean cuidava da retaguarda com a arma que tinha em mãos.
–
Batia de leve com a cabeça nas grades de ferro, suspirando algumas vezes enquanto tentava inutilmente pensar em algo para passar o tempo da melhor forma possível enquanto Irwin e Hanji ainda não se mobilizavam. Geralmente conversava com Nowaki ou com algum outro companheiro de cela sobre os mais variados assuntos. Porém, nunca conseguia abdicar de fato dos pensamentos que se acercaram de repente desde que foi preso: As diversas formas em que poderia se vingar de Elaijia.
Espirrou duas vezes naquele momento, levando as mãos imundas ao rosto em seguida. O tempo em que ficou ali largado apenas contribuiu para que adoecesse e sempre que espirrava ou tossia sentia o peito doer. Além disso, sentia alguns formigamentos misteriosos nas pernas que apenas pioraram depois que Nowaki lhe contou a história de um preso que acabou entrando em decomposição ainda vivo.
Não admitiu em voz alta, mas aquilo o assustou bastante. Em momentos assim que deveria se lembrar de nunca mais reclamar da poeira dos quartos. O mofo e cheiro de podre daquele maldito lugar o estavam deixando louco.
Foi tirado de seus pensamentos por um barulho que conhecia bem, o que o fez se levantar, apoiando-se nas grades e esticando o olhar para o fim daquele corredor escuro.
– Um disparo? – murmurou, precisando arranhar a garganta em seguida, visto que a voz saiu mais rouca do que gostaria.
Ainda ficou de pé por um tempo, conseguindo ainda ouvir um pequeno alvoroço que parecia vir do andar superior. No entanto logo sentiu as pernas fraquejarem, os joelhos encontrando o chão lamacento em seguida. Praguejou algo em voz baixa antes de socar fraco as barras de ferro. Não imaginava estar tão fraco ao ponto de não conseguir se manter em pé por muito tempo e isso o irritava profundamente.
Logo em seguida ouviu a já familiar risada de Nowaki soando logo à sua frente, o que o fez erguer o olhar de leve.
– Parece que seus amigos vieram te buscar, capitão... – disse, soltando outra risada arrastada. No início estranhou a forma como Nowaki ria e transformava uma frase aparentemente inofensiva em algo à se desconfiar. Porém, acabou por perceber ser uma mania da mesma.
– Ou então a Polícia Militar os deteve. Mas prefiro acreditar na sua versão. – comentou também, voltando a se sentar no chão e erguendo um pouco os pés descalços para que se apoiassem nas barras. Estavam enrugados pelo tempo submersos e começavam a ferir.
Foi possível ouvir barulhos de passos que vinham das escadas, o que fez com que Rivaille franzisse o cenho, tentando se concentrar em adivinhar, mais ou menos, o número de pessoas que estariam fazendo tal alvoroço.
– Também quero ajudá-lo, capitão... – Nowaki voltou a falar, atraindo a atenção dele para si novamente. – Vocês não conseguirão sair daqui sozinhos.
– Eles têm um plano, com certeza. Não se arriscariam tanto sem um. – Voltou a encostar a cabeça nas barras, suspirando pesadamente antes de fechar os olhos. – E você está aqui há muito mais tempo que eu, surpreende-me ainda estar viva.
– Ah... Eu quase morri uma vez, senhor capitão. Mas não foi aqui.
Ao abrir os olhos, Levi conseguiu ver pela primeira vez a mão de Nowaki, mesmo no escuro, que agarrava de leve uma das barras de sua cela. Além disso, via também o que parecia ser um longo cabelo negro. Aquilo fez com que ponderasse seriamente sobre o tempo em que a garota estaria encarcerada daquela forma.
– Há quanto tempo está aqui, Nowaki? – Quis saber, ouvindo os passos das pessoas cada vez mais perto.
– Há quanto tempo deixou de ser Rei, capitão?
– Rei? – Rivaille franziu ainda mais o cenho ao ouvir aquilo, imediatamente se lembrando do Histórico de Reis que havia lido junto com Irwin, onde deixava claro que existiu um Rei chamado Francis Rivaille.
No entanto, mal teve tempo para processar aquela informação, visto que os olhos foram cruelmente castigados pela iluminação repentina de uma vela ou possível lampião, o que o obrigou a fechá-los e levar ambas as mãos ao rosto em uma tentativa inútil de aliviar a dor que sentiu no momento.
Enquanto isso, os soldados corriam pelo estreito corredor à procura da cela onde se encontrava o capitão. Jean reclamava vez ou outra pelo cheiro do lugar enquanto Sasha e Eren o mandavam se calar e se concentrar no que realmente importava. Ao chegarem, Hanji praticamente se lançou contra as barras de ferro, olhando atentamente para Levi enquanto ajeitava os óculos com uma das mãos.
– Você parece bem. – comentou quando Mike ergueu o lampião que carregava, iluminando o interior daquele buraco. Ao mesmo tempo Sasha chegou com Eren e Jean que, com a exceção do Jaeger, arregalaram os olhos assustados para a imagem do capitão jogado naquele chão imundo e sem sinal algum de higiene.
– Na medida do possível, quatro olhos... – comentou também, afastando lentamente a mão dos olhos para que pudesse fitá-la melhor. – O que aconteceu? Ouvi o disparo daqui.
– Eren precisou atirar em um dos soldados que estavam escoltando as escadas. Sem isso não conseguiríamos entrar. – respondeu o major e apenas naquele momento o capitão ergueu o olhar para o rapaz, que continuava com um semblante sério.
– Certo...
– Nanaba e Sammael estão guardando as escadas e não deixarão ninguém passar. Agora precisamos tirá-lo daí. – apontou Hanji, ficando de pé direito. – É melhor que se afaste Rivaille.
– Pelo menos pensaram em como quebrar as barras? – disse, apoiando-se na parede para tentar se levantar e se arrastar para um canto mais afastado. – Podem estar enferrujadas, mas ainda são fortes.
– Pensamos que houvesse uma brecha e-
– Não há. – cortou a morena imediatamente, jogando-se contra outra parede. – Analisei tudo, não existem brechas. Precisam quebrar as barras ou pelo menos a fechadura
– Não será difícil quebrar a fechadura. O problema seria apenas o barulho do disparo contra o ferro. – comentou Mike, preparando a própria arma para entrar em ação.
– Se for apenas um disparo, não haverá problema. – disse Jean, que tinha escutado barulhos de uma possível briga da entrada das escadas. – Precisamos ser rápidos, Nanaba e Sammael não irão segurá-los por muito tempo.
O Zakarius, mais do que depressa, pediu para que os demais se afastassem e atirou contra a fechadura, em seguida chutando e entrando na cela onde Levi estava se apoiando com dificuldades contra a parede. Ao perceber que o capitão mal conseguia se manter em pé, o agarrou com os dois braços, colocando-o nas costas e segurando-lhe as pernas para que conseguisse se mover melhor.
Os demais soldados resolveram não comentar aquele fato, apenas seguindo Hanji para o lado de fora às pressas. No entanto, Levi ainda conseguiu ouvir a voz de Nowaki dizendo:
– Se virem um titã, fujam e não olhem para trás.
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