Winter

2 You're in the darkness all alone and no one cares, there's no one there


"Não há esperança duradoura na violência, apenas alívio temporário da desesperança.” Kingman Brewster Jr.

Porque não é a queda que mata você [...]

...

Emma Swan desceu as escadas para o necrotério com um certo receio, Jeffeson havia dito que Regina mudara o horário em que ela faria a autópsia. Ela havia acreditado na hora, mas agora, pensando bem, sentiu-se idiota por confiar em Jefferson. Ela estava rezando internamente para estar enganada. Mas assim que ela entrou na sala e viu Regina sem luvas, sentada, lendo um livro, ela sabia que havia sido enganada, mais uma vez. O laboratório da médica era claro, com pareres brancas e muitos utensílios médicos de aço. Havia alguns livros na prateleiras e algumas revistas sobre períodos de decomposição. Fora isso, não parecia que existia alguém vivo naquele local.

"Umm.. Olá?"

"Você está atrasada." Regina respondeu sem tirar os olhos da revista.

"Sim, eu… os outros agentes, eles..."

"Richard Michael, segundo nossa base de dados" Regina começou antes que Emma pudesse tentar dar algum sentido para sua frase, a médica continuava sem tirar os olhos da revista, seu tom era sério, mas quase entediado. "35 anos, caucasiano, desaparecido há sete meses, com mais problemas no estomago que eu achava possível. Escoriações leves nos braços, pernas e costas, escoriações graves nas mãos, pés, punhos e na cabeça. Ele tem um ferimento grave na cabeça, não posso dar certeza ainda, mas a forma do machucado parece muito com a coronhada de uma arma."

"Foi isso que o matou?" Emma perguntou a interrompendo.

"Eu disse que essa era a causa da morte?" Regina perguntou séria, finalmente levantando os olhos da revista e encarando Emma. "Esse ferimento foi forte o bastante para desacordá-lo, mas não para matá-lo. Ele tem uma queimadura em formato circular no punho, foi feita com algum metal quente, mandei algumas amostras para o laboratório examinar. A causa da morte foi hemorragia interna. Ele literalmente sangrou até a morte."

"Ele tem algum órgão faltando, assim como nas outras vitimas?"

"Sim, mais que um, na verdade. Ele não tem um pedaço do baço e seu figado foi removido completamente. Não há registro de que a vitima tenha feito alguma cirurgia desse tipo e, dado a minha experiência com cirurgias e cicatrizes, eu diria que ele fez as duas nos últimos três meses"

"Quando ele já estava desaparecido" Emma murmurou, mais para si mesma que para Regina. "Quando eu o vi, no lago, ele não parecia ter algum tipo de corte."

"Ele não tem, isso foi totalmente profissional, ele tem apenas cicatrizes cirúrgicas muito pequenas. Depois de examinar quatro vitimas, eu posso dizer com certeza que isso foi feito por pessoas que tem um excelente conhecimento médico. Até a hemorragia, ele foi suturado muito bem, eles não contiveram a hemorragia de propósito, esse homem, eles o deixaram morrer intencionalmente."

"Quando eu li os outros relatórios, os que me mandaram, você havia descrito três diferentes tipos diferentes de marcas no corpo, cicatrizes diferentes. Você disse que algumas pareciam mais profissionais que outras."

"Sim, no começo eu cheguei a pensar que o assassino estava treinando e melhorando seu cortes, mas não. O padrão de cicatrizes dessas vitimas indicam que mais de uma pessoa as fez. Eu encontrei três tipos de marcas cirúrgicas diferentes, posso garantir que duas foram feitas por pessoas com conhecimentos de medicina e uma não."

"Nós estamos procurando médicos então."

"Essas pessoas não são médicos, são monstros."

"Ser uma coisa não, necessariamente, exclui a outra. Obrigada pelas informações, doutora."

"Agente, Sawn?"

"Sim?"

"Só uma coisa que eu quero que você fique ciente. Eu não me importo com quanto tráfego você pegue ou quanto tempo você fique presa escutando uma possível testemunha do caso. Eu não repito meus relatórios para você ou qualquer outra pessoa. O que aconteceu hoje não irá se repetir. Então, na próxima vez, se você não for capaz de estar aqui junto com sua equipe, eu sugiro que você leia meu relatório e não se de ao trabalho de descer até aqui, porque eu tenho mais coisas para fazer."

“Eu não cheguei atrasada, eu fui informada que a autópsia seria realizada mais tarde.”

“Eu não me importo, se informe melhor.”

“Eu não tenho culpa, ok?” Exclamou irritada. “Eu não pedi para entrar em uma equipe já formada e…”

“Detalhes da sua insignificância não me interessam. Se você quer alguém para reclamar do quão é difícil para você entrar em uma equipe de adultos, se você quer sentar e chorar como um bebê porque ninguém ofereceu um lugar na mesa do lanche para você, eu não sou essa pessoa. Eu não me importo. Eu trabalho como patologista há dez anos, eu sei muito bem o que é ser uma pessoa nova em um grupo formado, eu sei o que é estar em uma sala cheia de homens que não acreditam que você possa ser inteligente e bonita ao mesmo tempo. Eu escutei mais piadas sexistas do que você pode sequer imaginar. Mas eu estou aqui, eu faço meu trabalho e eu sou muito bem reconhecida por ele. Então respeite meu trabalho, meus horários e resolva seus problemas longe da minha sala, porque não está escrito psicóloga Mills na minha porta, agente Swan.”

“Não, não está, mas talvez devesse procurar uma…”

“Saía, agora.”

“Você não precisa pedir duas vezes, doutora. É sempre um prazer revê-la”

…

Assim que Emma voltou para o andar onde ficava a delegacia, seus olhos automaticamente fixaram em Jefferson, ele estava sentado em sua mesa com David e Hook ao seu lado, eles estavam rindo de alguma coisa e isso só serviu para aumentar mais ainda a raiva que ela sentia. Emma respirou fundo, caminhou calmamente até o grupo, sentou na mesa de Jefferson e, quando todos ficaram a encarando em silêncio, ela resolveu falar o que estava pensando desde que entrara na sala da doutora Mills.

“A próxima vez que você me fizer perder uma autópsia ou qualquer coisa relacionada a um caso, qualquer caso, você será suspenso. Você me entendeu?” p erguntou calmamente encarando Jefferson

“Eu….”

“Eu não me importo, eu não quero saber se foi algum tipo de brincadeira porque eu acabei de entrar ou se você só não tem nenhuma noção mesmo. Eu só quero saber se você me entendeu.”

“Sim, senhora.”

“Ótimo. Isso serve para os três. Eu sei que é uma droga para vocês eu estar aqui, sei que vocês escolheriam outra pessoa, mas vamos encarar a realidade aqui. Eu sou o que vocês tem. Eu não fui escolhida por causa dos meu olhos verdes, mas sim porque eu resolvi nove casos de assassinatos só no meu último ano em Washington . Eu sou boa no que eu faço e eu odeio relações verticais. Nós todos temos o mesmo valor de voz aqui, eu não quero, nem pretendo, ser superior a nenhum de vocês. Então cresçam, tenham pelo menos respeito por essas vítimas e, se no fim desse caso, porque nós vamos resolvê-lo, se no fim deste caso vocês ainda quiserem que eu vá embora, então eu vou. Mas por enquanto, vamos todos nos comportar como adultos aqui e manter o respeito.”

“Foi minha ideia, eles não tiveram nada com isso.” Jefferson respondeu a encarando.

“Mais um vez, eu não me importo. Nós somos uma equipe, nós trabalhamos juntos. Nós devemos isso às vítimas.”

“Vou ver se já conseguiram o endereço de Richard” Jefferson disse encerrando o assunto.

“Okay. Hook, você tem alguma novidade?”

“Eu vou ligar para meu contato no jornal, quero saber até onde eles pretendem divulgar a história do caso.”

“Tente adiar o máximo possível, tudo que não precisamos é que a família descubra o que aconteceu pela televisão.”

“Pode deixar” Respondeu antes de sair, deixando Emma e David sozinhos.

“Mandou bem, chefe. Não foi uma brincadeira muito legal.”

“Você acha? Doutora Mills quase cuspiu fogo em mim.”

“Ela poderia”

“Isso me lembra, Capitã, não é, David?”

“Desculpe por isso.” David respondeu rindo. “Mas todo mundo que entra aqui passa por isso, sinto muito se você se irritou.”

“Deixa para lá.”

“Emma, quando eu entrei aqui, Jeffeson deu meu número para um cara do TI e disse que eu tinha sentimentos por ele. Todos aqui ficaram me zoando por isso, até que um dia, minha esposa veio trazer meu distintivo que eu havia esquecido em casa. A piada perdeu a graça, eu não era mais o novato e tudo voltou ao normal. Eu não estou dizendo que vai ser fácil, mas não é tão ruim quanto você pensa. Eles são caras legais.”

“Então eu só tenho que esperar? Esse é seu conselho?”

“Sinceramente? Sim. Mas se serve de consolo, eu não estou mais nas brincadeiras.”

“Por quê não?”

“Porque você não está se divertindo com elas. Então vamos nos concentrar em pegar essa cara.”

“Cara, vocês assumiram que é um homem?”

“Estamos esperando seu perfil psicológico ainda, mas sim, nós assumimos que é um cara.”

“Vocês não acham que uma mulher poderia fazer isso?”

“Por favor, você já conversou com a Doutra Mills? Ela totalmente poderia matar alguém.”

“Tive alguns bons momentos com ela, bom saber que não é só comigo essa postura assassina que ela tem.”

“Na verdade, é só com você mesmo.”

“Sério?” Emma perguntou irritada. “O que eu diabos eu fiz para ela… Você está brincando, não está?”

“Não pude evitar. Regina é uma pessoa singular.”

“O nome dela é Regina?”

“Sim, ela não disse?”

“Não.”

“Ok, talvez ela odeie você um pouco mais que todo mundo.”

“Ótimo…” Seu discurso foi interrompido por um aceno de Hook, informando que ele havia encontrado e endereço da vítima. “Vamos visitar a esposa de Richard Michael.”

“Parte difícil”

“Você quer ficar?’ Emma perguntou. “Eu posso outra pessoa para ir comigo.”

“Não, eu não me importo de ir. Mas eu sou seu parceiro agora?”

“Você foi a pessoa que eu mais consegui conversar aqui e Jefferson e Hook parecem que gostam de trabalhar juntos. Estava pensando em mandar eles visitarem os arredores daquele lago para ver se alguém viu alguma coisa. Você se importa?”

“Não” David respondeu sorrindo. ”Tudo bem por mim.”

“Ok então.…”

…

Emma respirou fundo antes de bater duas vezes em uma casa muito bonita no subúrbio de Manhattan. Richard Michael era um corretor de imóveis e sua renda era boa o suficiente para manter o lugar. O bairro era aqueles típicos de filmes de hollywood, gramas bem cortadas, cercas brancas, crianças brincando pela vizinhança e lindas caixas de correios com sobrenomes conhecidos pela cidade. A porta se abriu na terceira vez que Emma bateu e quem atendeu a porta foi uma mulher bonita, magra, loira, com os olhos azuis e cansados. Seus olhos pousaram rapidamente no carro de polícia estacionado na frente da sua casa e depois para Emma David e seus distintivos. Seu marido havia desaparecido há sete meses, e então um carro da homicídios estava parado na frente de sua casa e dois agentes batendo em sua porta. Ela sabia porque eles estavam ali e Emma sentiu muita pena dela.

“Você encontraram Richard?“ A mulher perguntou com a voz embargada.

“Nós podemos entrar, senhora Michel?” Emma perguntou gentilmente.

“Sim, mas eu preciso saber, você encontraram meu marido?”

“Sim.” David respondeu.

“Ele… ele está… morto?”

“Nós sentimos muito, senhora…”

“Vocês podem entrar”

“Senhora…”

“Nós fomos casados por sete anos, você sabe, Richard e eu” Começou assim que chegaram na sala. “Sete anos e, de repente, ele desaparece. Todos os meus amigos acharam que ele tinha me trocado por outra, deus, até eu pensei nisso por um tempo, mas não, Richard, meu Richard nunca faria isso. Ele me amava. Mas, nós não vamos falar disso agora. Como vocês o encontraram?”

“Senhora Miche…” David tentou novamente.

“Por favor, me chame de Anne e responda minha pergunta, por favor.”

“Ele.. o corpo do seu marido foi encontrado no lago. Ele estava sem roupas e sem objetos pessoais, sinto muito.” Emma informou.

“Vocês sabem quem fez isso?”

“Ainda não, mas acreditamos que a morte do seu marido esteja relacionada com mais três ocorrências. Nós estamos investigando.”

“Como.. como ele morreu?”

“Hemorragia interna.”

“Ele sofreu?”

“Não” David respondeu antes que Emma pudesse dizer a verdade.

“Seu marido tinha algum inimigo ou alguma dívida?” Emma perguntou.

“Não, Richard era tão amável, ele se dava bem com qualquer pessoa. Todos adoravam ele.”

“Ok, senh… Anne. Vou deixar meu cartão caso você lembre de alguma coisa ou queira perguntar alguma coisa.”

“Sentimos muito, Anne” David disse. “vamos fazer o nosso melhor para pegar quem fez isso.”

“Obrigada.. Eu só tenho mais uma pergunta.”

“Sim?” Emma e David perguntaram ao mesmo tempo.

“Como vocês aguentam? Como vocês tem vontade de levantar da cama e trabalhar todos os dias?”

“Eu.. Eu acho que pelos dias bons, quando você consegue prender alguém que fez mal para outra pessoa, quando você consegue salvar uma vida ou impedir que outra tragédia aconteça. Acho que são por esses dias que nós trabalhamos.” Emma respondeu.

“E esses dias são suficientes?”

“Talvez, muito provavelmente eles deixem de ser algum dia, mas agora, nesse momento, sim, esses dias são suficientes…”

A maioria das pessoas pensa que a parte mais difícil em se trabalhar em uma unidade de homicídio, são os corpos e o sangue, mas não, essa não é a parte mais difícil, essa parte é perturbadora sim, mas, depois de um certo tempo, infelizmente, você se acostuma com ela. Só tem uma coisa que você nunca se acostuma, uma coisa que supera todo sangue, toda cena de crime por mais bagunçada e cruel que seja. Existe uma coisa muito pior do que encarar os corpos das pessoas que morreram e essa coisa é encarar os corpos das pessoas que viveram, falar com eles, escutar toda sua dor e indignação, toda sua reação à morte. Lidar com os mortos é fácil, difícil é contar sobre eles para aqueles continuaram vivos.

[..] Porque não é a queda que mata você, mas sim a parada brusca...