Notas iniciais
Olá leitores! Como vão? Espero que bem!

Então, depois de algum tempo sem postar, cá estou novamente postando essa história, que na verdade é um presente de natal para uma amiga, Juliana (cara de banan-parei.)

Enfim, espero que gostes ♥

Um Corpo.

Não era tão forte quanto os outros soldados ali. E observando de forma analítica, não era o mais bonito de todos ou o mais corpulento.

E na verdade não era tão era importante para ele, mas tinha as letras tatuadas pela pele branca como se fosse um mapa difícil de decifrar, e era algo que nenhum dos outros tinham.

As mãos eram longas, o nariz arrebitado, os lábios finos.

Os olhos, diferente dos azuis, verdes e cinzas dos outros, eram castanhos. Castanhos vivos, penetrantes, rítmicos.

Sempre observando, sempre atento.

Olhos estes, sempre buscando proteger e acolher um humano na terra, tão distante dali, de seu espaço onde sempre existiu, onde nasceu e foi encaminhado a sua missão.

-Sempre atento não é? – A ruiva o observou cautelosamente, seus olhos verdes registrando calmamente a postura ansiosa do anjo ao seu lado.

-Hoje tem algo diferente... É um mal dia para ele.

A mulher ergueu uma sobrancelha.

-De acordo com o que você me conta da vida deste humano, dias assim em sua vida são normais.

Os olhos castanhos nunca deixavam o espaço circunferencial repleto de pontos brilhantes que giravam incessantemente.

-Mas é como se... Como se, eu pudesse sentir. Há algo errado.

-Você sabe que não temos a capacidade de ter emoções não é? Você tem poucos milênios de idade, mas sabe disso desde o primeiro dia de sua existência.

O silencio os acompanhou até que a ruiva pôs a mão suavemente no ombro do homem ao seu lado e desapareceu em seguida silenciosamente.

Sabia que era uma criatura incapaz de ter todos os sentimentos e emoções humanas. Era apenas um dos muitos ali criados por um alguém especial, todos com um proposito em especial.

Aquele lugar que não parecia ter uma saída, sempre tão branco e silencioso, sem nenhuma alteração, foi sua casa por tantos milênios e nunca tinha obtido a racionalidade a ponto de se questionar sobre algo além do que estava planejado antes mesmo de existir.

E agora ali, observando o humano que vira nascer, crescer, se tornar um homem com os seus próprios ideais, a pergunta se acendeu como uma lâmpada acesa no meio de uma densa escuridão.

Qual era o seu verdadeiro proposito?

Sabia que fazer algo além de vigiar os passos do humano naquele planeta eclético de cores não era uma opção que ele próprio gostaria. As vezes, quando o humano sorria, seu peito se enchia com um aperto forte, a ponto de quase explodir como trilhões de estrelas no universo próximo, ao redor dos outros planetas.

Quando o humano chorava, ou ficava horas e horas correndo em uma floresta, ele próprio se pegou cerrando os punhos, os lábios entreabertos, como se quisesse ter a capacidade de ultrapassar toda aquela absurda distância entre eles e tocar os cabelos negros como uma forma de reconforto.

Criatura ou não, ele sabe que ‘’curiosidade’’, uma palavra engraçada que alguns humanos falam, se encaixaria nele. Sempre atento, sempre buscando.

Buscava dar um suporte dali, daquele espaço irritantemente branco e desconhecido. De vez em quando suas tatuagens brilhavam quando sentia sua conexão com o humano se aprofundar.

Mas, uma das regras que aprendeu: Nunca sentir, nunca se apegar, ou transitar em pensamentos além de realizar a sua missão.

Haviam outros ali que também protegiam. Porém, ele acreditava que não havia nenhum deles que tinham essa ligação tão intima com um humano.

Por que? Por que o aperto em seu peito? Por que as tatuagens se iluminavam fora de seu controle a cada urro quase descontrolado do humano? Por que sua respiração engatava quando o lobo negro corria entre as árvores como se já soubesse sua trilha há tanto tempo?

Como se esse lobo procurasse algo, sempre atento como aquele anjo tão perturbado por questionamentos.

Nunca poderia falar com qualquer outro ali. Seria banido, castigado de formas que não conseguiria imaginar. Mas parecia ser mais forte quando seus olhos castanhos vagavam a procura de um possível risco ao humano, e seu corpo entrava em total êxtase.

E, naquele dia especial, ele se perguntou do por que nunca saíra daquela faixa invisível a sua frente, onde poderia tocar naquele espaço tão vago por pontos luminosos? A Janela que dava para a vida pessoal do humano? Por que?

E por que não?

O espaço onde estava era vazio e frio naquele momento. Sua respiração rápida era o único som que escutava, e se fosse capaz, poderia ate mesmo dizer que sentia sua pele estremecer.

A ponta dos dedos de seus pés tocaram a linha invisível, e então os milênios vividos pelo anjo, se fundiram com os miseráveis anos de existência de um mero humano.

~OoO~

Seu corpo todo parecia entrar em chamas.

O colchão debaixo de si não o confortava, nem o clima frio e agradável que habitava no quarto.

Os olhos verdes vagavam pela escuridão do quarto, tão silencioso quanto o próprio lobisomem.

Suspirando, tirou a calça de moletom e saiu da cabana assumindo sua forma de um lobo negro. Os orbes reviraram, e o azul penetrante os coloriu. A cada passo o ritmo de suas patas na grama fresca pela chuva aumentavam, seus instintos pareciam quase em desordem, e pela primeira vez, ele resolveu não seguir a mesma trilha que percorria por três anos.

A lua cheia irradiava sua luz no céu negro e o lobo transpassava com desenvoltura entre as arvores frondosas e de caule longo. A neblina não o atrapalhava nem um pouco, era como se fosse apenas um véu branco, quase invisível.

De repente, ele sentiu o aroma.

Ele conhecia o cheiro de cada árvore daquela floresta, da terra molhada, e podia escutar a quilômetros de distancia, o rio corrente, e a cachoeira tão escondida possível.

Mas o aroma era diferente de tudo aquilo, e do que vivera antes de se mudar para a isolada cabana entre os morros verdes.

As patas corriam, o focinho levantado, buscando mais pelo cheiro, os olhos azuis nunca deixavam de percorrer a floresta ao seu redor. Até que ele viu.

Estático, o lobo se transformou novamente em homem, observando a passos de distancia, um circulo discreto e perfeito entre as arvores, uma pessoa.

Seria um humano como qualquer outro, exceto...

Pelas Asas.

~OoO~

Sua cabeça girava e girava sem mesmo abrir os olhos. Sentia seu corpo todo estremecer, quase de forma violenta, se não fosse graças a um cobertor o cobrindo. Mas ele não entendia, já que...

Abriu os olhos, ofegante, e sentou-se no chão. Esfregou as tatuagens em seu braço como se quisesse fazer com que a dor parasse, mas seus gemidos transmitiam totalmente ao contrario, já que não aguentava mais, a ponto de se curvar.

E tão centrado em sua dor, não sentiu uma presença a sua frente. Mas o sobressalto que teve ao sentir o toque em seus braços fez com que levantasse a cabeça e mirasse o humano.

Aquele humano.

Sua cabeça parecia girar mais, de forma tão violenta a ponto de ofegar novamente sem entender o que estava havendo, Onde estava a sua casa, onde viveu toda a sua existência? Por que o lugar era tão escuro? Por que sentia dor?

Por que aquele humano que cuidara todos esses anos, estava ali tão perto a centímetros de distancia, partilhando algo que nunca havia sentido. Calor. Toque. Amparo.

Quanto sentiu sua voz firme novamente, e a dor diminuído, resolveu arriscar:

-Derek?

O homem, ainda nu agachado a sua frente arregalou os olhos e levantou-se, refugiando-se em algum canto da cabana.

Ele se perguntou se tinha ido longe demais, mas deu de ombros.

Na total escuridão da sala, o anjo conseguia finalmente respirar novamente, e então se lembrou de como viera parar ali. E em vez de sentir como se fosse extremamente castigado por isso, ele não achava que merecia, pois sua ligação com o humano ainda estava permanecida e fortalecida. Só que era difícil de acreditar, como pudera se transportar, cair ali justamente naquele planeta e justamente no habitar do lobo que acolhera e protegia.

Erguendo seus olhos, se sobressaltou novamente quando viu o humano tão próximo, mas agora, totalmente vestido.

-O que é você?

E não, ele não sabia como reagir com o som grave da voz de Derek.

-Eu não sei... Quer dizer, eu sei o que eu sou, mas... Eu não entendo. – Ainda sentado no chão, piscou lentamente observando a postura defensiva do outro.

-Eu tenho certeza de que não entendo mais do que você, pelo simples fato de ter encontrado você no meio da floresta, nu e principalmente com isso.

Os olhos castanhos seguiram o olhar de Derek, e percebeu que ele estava falando de suas asas.

-Oh, são minhas asas. – Ele sorriu.

Derek se sentiu inquieto.

-Qual o seu nome? O que quer de mim?

-Meu nome é muito complicado. Eu poderia traduzi-lo através das minhas tatuagens, mas não sei se consigo agora, já que estou debilitado pela queda.

-Queda? – Derek arqueou a sobrancelha.

-É, eu caí.

O homem pareceu perder o restante de paciência, e ainda intrigado e levemente intimidado com a criatura a sua frente, sentou-se a sua frente no chão, mirando os olhos curiosos que o encaravam com avidez.

- Responda. Quem você é?

-Eu... Olha, eu não posso...

-É o seguinte. Eu encontrei você em uma situação não agradável, tive que carregar você até a minha cabana, sendo que poderia ter deixado você apodrecer lá, mas não o fiz, por alguma insanidade, então colabore antes que eu...

-Que você o que?

-Arranque sua garganta com os meus dentes, e não pague pra ver, eu faço. – Os olhos azuis brilharam na escuridão, mas em vez de ser intimidador, o outro se pegou sorrindo, parecendo aliviado.

-Derek Hale. Então é mesmo você.

Derek não sabia onde estava com a cabeça em, primeiramente, ter saído da cabana daquela forma súbita como se precisasse estar na floresta, acolher uma criatura que nunca havia visto, que por sinal não parecia nem um pouco intimidado com a sua presença como muitas pessoas da cidade vizinha ficavam ao vê-lo transitar no mercado, ou nos bares.

Ele já havia perdido tudo, sua família, o próprio desejo de viver ou criar vínculos com alguém há muito tempo. Mas Derek todas as noites, estranhamente, sentia uma calma que apenas o assolava quando corria na floresta. Era como se algo o envolvesse por várias horas, o amparando e diminuindo a dor que o acompanhava por anos, como um passe de mágica.

Não conseguia entender, o porquê de sentir um turbilhão de sentimentos quando pôs os olhos no ser a sua frente, e não querer enfiar suas garras em seu pescoço para se defender. Em sua cabeça, não parecia ser o certo a fazer. Era como se lá no fundo da sua consciência já o conhecesse.

-Como sabe quem eu sou? – Os olhos de Derek vagavam pelo corpo tatuado da criatura, já que os olhos castanhos nunca deixavam seu rosto, o perturbando.

Não de maneira ruim.

-Se eu contar minha história, promete não me atacar?

-Não posso prometer isso. – Derek arqueou a sobrancelha, fazendo o outro rir e parecer surpreso. – O que?

-Rir, sorrir... É algo novo pra mim. Gestos humanos que eu estou experimentando agora, e que você dificilmente o fez em toda a sua vida, Derek.

Derek revirou os olhos.

-Esta revirando os olhos pra mim? Você sabe quem eu sou? – A criatura estufou o peito.

-Estou tentando descobrir, mas você tagarela sobre qualquer coisa sem sentido.

-Tudo bem. – Ele respirou fundo, alheio ao olhar de Derek sobre as suas enormes asas balançando suavemente atrás dele. – Eu sou um anjo.

Se fosse possível, a carranca de Derek se fechou mais ainda.

-Sério?

O anjo o ignorou e continuou a falar.

-Eu tenho milênios de existência, e vivia no...

-Céu? – Derek bufou dando um sorriso de escárnio.

-Não exatamente. Eu e outros anjos compartilhamos um espaço entre a terra e o universo, mas nem todos conhecem a entrada para o céu.

Derek pareceu perceber que, realmente, o outro estava falando sério.

-Você é realmente um anjo?

-Olá, asas...? – Ele apontou para elas e depois voltando a olhar para o rosto descrente do humano. – Por que é tão difícil de acreditar? De todos os questionamentos que eu tive nas ultimas décadas, eu esperava que fosse tão difícil de compreender. Algumas pessoas possuem fé, certo? Acreditam em Deus, em nós, em...

-Eu não faço parte deste grupo.

-Reparei.

-Certo.

-Certo.

A criatura não conseguiu ficar seria por muito tempo, voltando a sorrir encantando por ver tão de perto o humano que protegia com tanto cuidado.

-Então, como sabe meu nome? – O lobo perguntou, observando pela primeira vez, o outro desviar os olhos castanhos dos dele.

- Acredito que você não gostaria de saber.

Derek sorriu com escarnio.

-Oh, eu quero sim. Pois tenho certeza de que não quer se tornar um anjo ensopado pela chuva que está caindo lá fora, depois que eu expulsar você daqui.

A criatura arregalou os olhos.

-Derek! Como ousa!

O outro nada respondeu, o encarando seriamente.

-Eu sou seu protetor. Quer dizer, eu acompanho a trajetória da sua vida desde o seu nascimento, digamos assim.

Derek entreabriu os lábios, esperando tudo, mas não daquela forma surreal.

-Você não acredita não é?

-Depois de ver um anjo completamente nu no meio de uma floresta no meio da noite, eu realmente não sei mais se ainda estou dormindo ou se morri.

A criatura arqueou as asas, abrindo-as de modo que elas ocupassem a metade da sala de estar da cabana. Derek em modo de defesa, deixou os olhos azuis a amostra, assim como as garras.

-Como ousa dizer sobre morte? Sua morte?! Eu sempre protegi você Derek Hale, eu o acolhi quando teve o primeiro choro quando bebe, quando deu os primeiros passos, quando foi ao primeiro jogo de beisebol com o seu pai, e...

-Mas não fez nada para que o incêndio nunca acontecesse. E então? Do que a sua proteção me trouxe de bom? – Derek rosnou, cerrando os punhos e consequentemente ferindo a palma das mãos com as suas garras.

A criatura a sua frente, viu os filetes de sangue mancharem o tapete onde ambos estavam sentados, e prontamente pôs suas mãos em cima do outro e as curou.

-Derek, eu nada podia fazer... Eu recebi ordens de não alterar absolutamente nada do que foi escrito na sua vida. Eu sinto muito.

-Você assistiu toda a minha vida do seu universo angelical, diz ser meu protetor e o que fez por mim? Nada! Vi a minha vida desmoronar, então não há diferença no que diz ter feito ou o que faz.

Se levantou indo em direção a floresta, batendo a porta com um estrondo, deixando um anjo confuso para trás.

~OoO~

Depois de uma hora caminhando, Derek voltou para a cabana, e tentou não ficar abalado por ver que a criatura ainda estava sentado na mesma posição de quando ele havia saído.

As Asas estavam fechadas em volta do corpo do anjo, que parecia tão branco e magro com a penumbra da cabana, já que a única luz que havia era da luz cheia. Eram quase duas da manhã, mas ela ainda parecia imponente no céu estrelado.

-Nunca pensei que anjos tinham tatuagens.

-Nunca pensei que lobos eram chatos. – Derek revirou os olhos, e voltou-se ao outro, sentando cautelosamente ao seu lado sem machucar as asas.

-Elas são enormes.

-É... Todos os anjos possuem formas diferentes de asas. Mas as minhas são maiores.

-Então, o que isso significa? – Derek perguntou, deixando a curiosidade abate-lo, observando o anjo ao seu lado sorrir.

-Nada. Talvez eu seja o mais comum de todos de onde eu vim. Há os mais poderosos, e os mais simples, como eu.

- A ultima coisa que você é, é um ser simples. — Stiles demonstrou surpresa, mas nada disse. — Não sabia que havia uma escala angelical de onde você veio.

A criatura tentou reprimir o riso, colocando as mãos na boca, fazendo com que Derek sorrisse.

-O que foi? Por que tem tanto receio de sorrir ou rir?

-Eu sou um anjo, Derek. Digamos que no meu universo, isso é um tanto proibido.

O lobo pareceu pensativo.

-Do jeito que fala, parece um regime de soldados. – Com o silencio do outro, ele arqueou a sobrancelha, descrente. – Sério?

-Se vocês humanos chamam assim... Olha, eu conheço todos os sentimentos e emoções possíveis, mas nós não temos a capacidade de sentir com tanta intensidade, entende? E eu não sei o que fazer, não me lembro de como ter caído, ou se agora estou sendo procurado e quais serão as consequências...

-Há riscos de vários anjos aparecerem na porta da minha cabana?

-Hm... Talvez...?

Derek revirou os olhos.

-Okay, você disse que seu nome poderia ser traduzido através das suas tatuagens. Eu gostaria de saber.

O Anjo pareceu ficar tenso por um tempo, mas deu de ombros. Repentinamente os orbes castanhos reviram-se freneticamente, e ruídos desconhecidos saiam de seus lábios como um simples murmúrio. As letras em seu corpo iluminaram-se e então, as asas abriram-se bruscamente, fazendo com que Derek se sobressaltasse.

-Mas o que...

-Stiles. – O anjo voltando ao estado normal, repetiu convicto. – No seu planeta, meu nome se traduz como isso.

-Sua tradução é estranha. – Derek sorriu ao observar a careta do anjo. – Tudo bem, então será Stiles.

Depois de uma leve discussão entre os dois sobre significado de nomes, Derek se prontificou a ensinar e explicar certas coisas sobre... Humanos.

Ele sabia que não seria fácil, ainda mais com um anjo perambulando totalmente nu e tagarela pela sua cabana.

-Stiles?

-O que?

-Cala a boca. – O anjo abriu a boca indignado, pronto para retrucar. – Me siga.

Quando entraram no quarto, Derek procurou uma calça confortável para o outro e uma camisa de algodão. E como suspeitava, elas ficaram folgadas no corpo da criatura, mas por enquanto devia servir.

-Tem o seu cheiro. – Stiles pontou, sorrindo. – E então, o que vamos fazer?

Derek suspirou sentando na beira da cama.

-Está com fome? – Com a expressão surpresa do anjo, ele então lembrou. – Oh, certo. Desculpe.

Stiles riu, dando de ombros.

-Rir, conversar, fome, roupas... É tudo tão novo pra mim. E essa... Coisa, esse aperto no seu peito... Você já sentiu também?

-Aperto?

-É, quero dizer, as vezes, quando eu... – Se Derek não visse com os próprios olhos, veria que o rosto do outro tinha avermelhado. – Eu vi você chorar algumas vezes, veio esse aperto. Eu não pude perguntar aos outros anjos, por que eu tinha medo. Na verdade eu tenho tantas dúvidas.

Derek o encarava estupefato.

-Se lembra? Nada de sentimentos, emoções ou algo do tipo?

-Eu... Acho, que tenho que explicar mais coisas pra você.

E então, com muitos rosnados, suspiros e revirar de olhos da parte de Derek, ele conseguiu colocar na cabeça do outro, o que eram tristeza, alegria, raiva, ódio, entre outros.

Mas havia um sentimento que ele não tinha se permitido explicar, e Stiles havia notado. Mas não questionou por enquanto.

-Eu tenho que ir ao mercado, então fique quieto enquanto estiver fora. Não mexa em nada, e nem saia voando por aí.

Stiles o encarou serio enquanto um sorriso brincava no rosto do lobisomem.

-Não achei... Diver... Divertido. Derek Hale.

-Bom. – Quando ia saindo, ouviu os passos atrás de si e virou-se vendo Stiles e suas enormes asas o seguindo. – O que esta fazendo?

-Posso ir junto? Quer dizer, eu queria conhecer mais humanos.

E lá estava a carranca novamente.

-Não.

-Por que?

-Porque não.

-Mas, por que?

-Stiles!

A caminho da cidade vizinha, Stiles e Derek encaravam a estrada rodeada pela floresta. O sol começava a aparecer no horizonte, dando seus primeiros raios de luz e, consequentemente, o reflexo do sorriso do anjo apareceu no vidro do carro.

-É tão lindo daqui de baixo...

Derek não tirou as mãos do volante, apenas olhou rapidamente para o céu, e acenou.

-Depois da chuva, durante o inverno o sol nasce mais cedo. Ainda não são nem seis da manhã.

Stiles sorriu tentando imaginar como seria a visão do por do sol.

Ao chegar na cidade, os olhos do anjo vagaram o tempo todo. Sempre buscando, atencioso com tantas luzes, cores, pessoas e aromas...

-Essas luzes... – Stiles apontou para as luzes natalinas nas casas.

-Sim, por causa do natal. Sabe o que é, certo? – Derek perguntou receoso.

Stiles acenou.

-São lindas.

O lobisomem revirou os olhos sorrindo. Já perdeu as contas de quantas vezes havia sorrido por causa daquele anjo, tanto pela inocência avassaladora, ou por bobagens que ele falava.

-Tudo o que você viu ate agora, você apenas elogiou, Stiles. – Disse ele, dobrando o carro na rua próxima ao mercado da cidade, que nesse momento estava praticamente vazio.

-O que seria elogio? – Stiles voltou-se a ele, como sempre, curioso.

Derek suspirou, procurando uma vaga para estacionar.

-Seria algo bom, positivo. Elogiar, é dizer para alguém algo... Bom.

Stiles pareceu pensativo por alguns segundos, e sorriu parecendo entender.

-Então, você é lindo, Derek Hale.

Derek quase bateu o carro quando terminou de estacionar. Okay.

-Certo, chega de perguntas por enquanto. Eu vou lá dentro, enquanto você espera aqui no carro.

-Por que?

-Porque eu quero que seja assim, e além do mais, como quer entrar em um mercado com isso amostra? – Derek apontou para as asas que estavam praticamente comprimidas dentro da caminhonete.

-Oh. Okay. – Stiles não deu um dos seus maiores sorrisos, e Derek se sentiu um tanto culpado. Mas naquele momento, ele teria que pensar nas reações assustadas e horrorizadas ao ver um anjo transitando pelos corredores do discreto mercado.

-Eu já volto.

Minutos depois, procurando por pães frescos enquanto segurava a cesta com alimentos, sentiu um batimento cardíaco já conhecido, mesmo que em tão poucas horas de convivência.

-O que são essas coisas? – Stiles perguntou balançando um espanador e um travesseiro.

Derek não sabia se deveria pedir aos céus alguma ajuda.

-Eu não disse pra você ficar no carro!?

-Desculpe, minhas asas estavam precisando de algum espaço. – Stiles piscou para Derek, enquanto balançava as asas suavemente.

Tão suavemente, que os potes de vidro com conserva acabaram caindo no chão, derrubando os outros alimentos da prateleira.

-Oh. – Stiles tentou fugir do olhar furioso do humano a sua frente. – Desculpe.

Uma senhora com o uniforme do mercado veio apressada e olhou para o chão sujo de geleia, manteiga e molho de tomate. E parecia totalmente alheia as enormes asas de Stiles, que agora tentavam ficar mais encolhidas possíveis.

Stiles percebeu que outros humanos não podiam vê-lo de forma natural, e sim de maneira distorcida, como se ele próprio fosse um humano como qualquer outro.

-Como isso aconteceu? – Ela perguntou olhando para os dois. Derek e Stiles apenas deram de ombros. – Oh Deus, apenas sumam daqui.

O lobisomem não precisou do segundo aviso, segurou a mão de Stiles, o arrastando para o caixa.

-Você é impossível. – Derek rosnou irritado, enquanto Stiles sorriu olhando para os alimentos ao seu redor, alheio a sua raiva.

Quando estavam a caminho da cabana de Derek, no carro, pensava em como de um dia pra noite, sua vida tomara um rumo totalmente diferente. Sua rotina era baseada em correr, caçar, comer, e dormir, mal saia para ir a cidade vizinha, e o quando ia, era para comprar apenas o necessário para sobreviver.

E em menos de 24 horas, estava com a impressão que algo mudara dentro de si, apenas por causa daquela criatura que, no momento, apertava freneticamente o botão do rádio do carro.

As primeiras notas de um rap qualquer tocaram em um volume considerável, e como na maioria das musicas de rappers, dinheiro, mulheres e carros eram o mais falado nos versos.

Derek provavelmente nunca esqueceria da reação surpresa e horrorizada de Stiles ao escutar as musicas, e então não conseguiu segurar o riso.

-Como pode rir dessas palavras tão... tão...

-Obscenas?

Stiles arqueou a sobrancelha?

-O que seriam obscenas?

Derek revirou os olhos, e mudou a marcha continuando a dirigir e ignorar as mil perguntas do anjo ao seu lado.

Já na cabana, Stiles murmurava tranquilamente o rap considerado por ele tão obsceno, enquanto observava o humano a sua frente cozinhar.

-Tem um cheiro agradável. – Derek acenou, concordando enquanto preparava uma simples macarronada.

Enquanto Derek comia calmamente, Stiles aproveitou e perguntou mais sobre a vida dos humanos, e ter conhecimento a fundo do que não sabia.

Ou seja: Quase tudo.

-Sabe que ficar me perguntando essas coisas faz com que você não tenha mais essa visão de inocência sobre nós, não é?

Stiles sorriu, brincando com uma espátula nas sobras da macarronada.

-Eu sou novo, mas não tanto Derek. Sei que todos os humanos são pecadores, e alguns destes pecados não podem ser revertidos por boas atitudes posteriormente. Porém, acredito que o planeta Terra ande sempre em mudanças.

Derek terminou de mastigar, e deu de ombros.

-Pode ser, não é como se eu fosse merecedor de algo bom.

Stiles parou de cutucar a comida na tigela, e virou-se totalmente pra Derek. Como ainda era de manhã cedo, e o sol na temporada de inverno se escondia atrás das nuvens, o tempo parecia nublado, deixando-o nevoado, frio. Então, a cabana ainda estava um pouco escura.

Derek encarou atentamente o anjo, e permitiu entreabrir os lábios em surpresa. Os olhos tão vivos e castanhos, possuíam uma seriedade que não parecia fazer parte da criatura, dando uma imagem de ser um soldado, em vez do ser tagarela e irritantemente inocente. As asas estavam fechadas, mas algumas penas estavam eriçadas para os lados, e as tatuagens estavam escurecidas levemente, não obtendo a cor normal. A sua postura estava totalmente rígida e tensa.

Permaneceram longos minutos se encarando, até que Stiles saiu silenciosamente da cabana, e Derek fechou os olhos suspirando.

Levantou-se recolhendo a sua louça suja, ainda pensando nas palavras do outro, e sabia que a súbita reação negativa de Stiles havia sido por causa dele mesmo. Mas aquele anjo desconhecido que dizia tanto saber de sua vida, não saberia como ninguém o quanto ele estava quebrado há anos?

De repente, Derek cogitou uma ideia maluca, quase insana, que nunca considerou em realizar há mais ou menos dez anos.

Revirou os olhos, buscando seu casaco de couro, chaves da caminhonete e antes de sair, fechou os olhos, levantando levemente o nariz em direção a floresta, e seu coração pareceu acalmar-se mais quando conseguiu sentir o aroma suave de Stiles na floresta, ainda que um pouco distante.

Daria esse tempo a ele. Sendo assim, saiu em direção novamente a cidade vizinha.

~OoO~

Quando Derek retornou a cabana era perto de meio dia. Incrivelmente naquele dia, as pessoas saíram de suas casas para irem festejar e fazer compras de última hora para o natal, dali a uma semana. Sendo assim, o lobisomem teve que aguentar uma enorme fila, pessoas discutindo, choro de criança e outras coisas um tanto... Negativas para este.

Nada era mais reconfortante que o doce silencio de sua cabana, afastada de... Pessoas.

Mas essa paz que tanto gostava foi quebrada por certo anjo, que no momento ainda não havia voltado para lá desde a sua saída. Arrumando o que havia comprado e colocando em qualquer canto da sala, Derek deixou as enormes sacolas na sala, e retirou a roupa, transformando-se em um lobo completo.

Seguindo o aroma, o lobo parecia mais como um vulto preto entre as árvores, tamanha era a sua habilidade e rapidez, este já conhecendo todos os caminhos da floresta, rodeada por enormes montanhas frias e gigantes.

Quando as patas negras afundaram na terra, estancando ao chegar no lugar que queria, os olhos do lobo acenderam-se em sua cor azul ao observar Stiles sentado, nu em uma pedra consideravelmente grande e escondida ao lado da cachoeira. Ele estava com os olhos concentrados na água corrente que se quebrava no ponto acima do rio, com uma expressão de encantamento que o próprio Derek se pegou, ao ver o anjo distraído.

Stiles percebendo que não estava sozinho, virou-se em direção a entrada da floresta e viu o lobo, sorrindo aliviado.

-Oi... – Ele acenou, batendo as asas levemente. –Se aproxime!

O lobo então desceu com agilidade, desviando das pedras lamacentas, as patas já molhadas, para finalmente sentar-se ao lado do outro que parecia mais impressionante visto de perto.

Parecia que o anjo sempre o surpreendia de alguma forma.

-Seu focinho esta molhado... Não esta incomodando você? – Stiles perguntou sorrindo.

O lobo fez então um ruído um tanto barulhento para demonstrar que sim, ele estava.

O Anjo riu, acenando com a cabeça, parecendo compreender.

-Tentei poupar minhas asas de serem molhadas, mas acabei não conseguindo. Por isso estão fechadas agora.

Os olhos azuis do lobo voltaram-se rapidamente para as asas próximas a ele, e pode ver algumas penas praticamente ensopadas. Mas, Stiles não parecia se incomodar tanto. As tatuagens em todo o seu corpo não brilhavam como antes, e pela primeira vez, ele reparou nas discretas pintas que o outro tinha no rosto e em volta das omoplatas, perto das asas.

Depois de vários minutos ali, Derek voltou seu pensamento para a reação de Stiles sobre ter dito aquilo de si próprio. Ele não era cego, podia sentir a conexão que ambos tinham então parara de duvidar de que havia mentiras nas palavras do anjo. Era como se uma linha invisível de energia o puxasse para a presença de Stiles, tanto quanto ele viveu sozinho por muitos anos e sentia por vezes algo caloroso no peito.

Nas palavras de Stiles: Um aperto inexplicável.

Colocou a pata na perna branca, quase pálida ao seu lado e Stiles ainda observando as águas cristalinas, pôs sua mão por cima desta.

-Desculpe por ter ido embora, Derek. Eu apenas... Não gosto de como fala de si mesmo, como se observa. Se você pudesse apenas ver como você é lindo de tantas formas, acredito que não pensaria mais dessa forma sabe? E por mais que não consiga enxergar algo de bom em si, eu vejo.

O lobo bufou ao seu lado, levantando a cabeça para perto do rosto do anjo, e deixou um rastro de saliva em sua mandíbula, trazendo uma careta a Stiles.

-Ew, Lobo mau, lobo muito mau!

Os olhos azuis reviraram-se. E Stiles não se conteve, rindo.

Uma hora depois, ambos caminhavam lado a lado em direção a cabana, já a vista deles.

-Então... Eu ouvi o som dessa coisa sair mais cedo... – Stiles apontou para a caminhonete a alguns metros. — Você tinha ido embora?

O lobo bufou, tentando entender em como Stiles queria que ele respondesse certas perguntas em forma animal. Então, aproveitando que o outro se distraiu novamente, se transformou, seus olhos novamente voltando para o esverdeado.

Quando o anjo entrou na cabana, abriu os lábios com surpresa.

-Sim, eu saí para a cidade e comprei isso. O que acha?

As luzes piscavam calmamente em volta da modesta e pequena arvore de natal no canto da sala, as poucas bolas que a enfeitava eram vermelhas, e a estrela estava lá, para dar o toque final.

Stiles parecendo relutante ainda de retirar os olhos dela, olhou para um Derek um tanto apreensivo ao seu lado.

-Pelo jeito eu consegui calar você com isso.

O lobisomem sorriu ao ver o brilho costumeiro voltar aos olhos castanhos do outro.

-Você me surpreende, Derek Hale.

-Digo o mesmo. – Respondeu sorrindo, puxando Stiles pela mão e o aproximando mais da arvore. – Ainda tem algumas bolas sobrando na caixa. Quer coloca-las na arvore?

Stiles abriu a boca, parecendo um peixe fora d’agua, olhando para os lados como se procurasse algo ou alguém. Derek franziu o cenho, confuso.

-Eu... Eu posso? Quer dizer, é permitido?

-E por que não seria?

Ele deu de ombros se encolhendo, e Derek então entendeu. Tudo era novo para Stiles, como ele mesmo havia dito, nunca tinha vivido como humano, já que vivia em um universo completamente diferente.

Buscou a pequena caixa e entregou a Stiles, que a segurou cauteloso.

-Elas estão aí dentro. Divirta-se.

Com um pequeno sorriso, foi para a cozinha preparar algo para comer deixando um anjo boquiaberto para trás, novamente.

~OoO~

O dia passou em um piscar de olhos para Derek. Com tantos conhecimentos apreendidos através das explicações de Stiles, e este sempre avido em falar e escutar também, os dias em que viveu de maneira monótona até ali, comparados apenas a um dia e meio ao lado do anjo pareciam ter sido lembranças distantes.

No final da tarde, e inicio do por do sol, Stiles parecia ansioso e encarava Derek com uma expressão receosa.

Derek imediatamente parou de tomar o café, e esperou, arqueando uma sobrancelha.

-Eu sei que você não confia totalmente em mim, e...

O outro revirou os olhos.

-Stiles, como eu não confiaria em alguém que sempre diz ter me protegido durante toda a minha vida? Eu fui enganado, perdi a minha família, e tudo o que eu considerava de amor, se perdeu a muito tempo. Talvez, o fato de ter alguém olhando por mim além de ser assustador, é... Reconfortante.

O anjo arregalou os olhos brevemente.

-Essa palavra...

Derek tomou mais um gole de café esperando que Stiles fosse terminar de falar, mas o outro apenas continuou encarando-o como se estivesse tentando desvendar um enigma.

-Reconfortante?

Stiles sorriu, quase encantado. Sonhando Acordado.

-Amor.

-Oh.

-É... – As asas de Stiles balançaram novamente, enquanto este parecia distraído ainda. – Eu queria conhecer isso.

Derek não evitou o sorriso.

-Talvez você já o conheça, mas não esta familiarizado no conceito do sentimento, Stiles.

-Você pode me ensinar?

O lobisomem quase cuspiu o último gole de café que havia restado de sua caneca. Pensou por um momento ter ouvido errado, ou com a conotação distorcida, mas ao olhar nos olhos tão inocentes e castanhos do anjo, percebeu que ele falava sério.

-Ensinar, como?

-Eu quero saber o que é, como é... Eu não sei. – Stiles torceu as mãos, nervoso, como se tivesse feito algo errado.

Com um suspiro rendido, Derek virou-se totalmente para ele, ambos sentados no estreito sofá. Por isso, como as suas asas ocupavam espaço abertas, Stiles as deixou levemente fechadas.

Ainda sim, era cômico se ver ali na sua cabana, com uma criatura angelical curiosa em saber o que era o amor.

-Como eu posso explicar... – Derek riu baixinho balançando a cabeça. — Eu não sou bom nisso. E com isso.

-Tente. Eu expliquei pra você, de onde vieram minhas tatuagens... — Stiles deu de ombros, sorrindo suavemente.

-O amor, é algo que é impossível de explicar, Stiles. Ele só existe, há muito, muito tempo. Ele é demonstrado em diversas formas, e em diferentes circunstancias. É como o ato de cuidar, sem querer algo em troca, confiar e respeitar fizesse parte desse sentimento. Um amor de uma mãe a um filho, pode ser um exemplo.

Stiles escutava, e parecia cada vez mais ansioso.

-As pessoas costumam transmitir pelo toque, falando, ou pelo simples olhar. Se eu fosse falar pelo o que vivi até hoje, a imagem de amor que tenho, é a minha família. Quando meu pai chegava do trabalho e ia para o quintal da nossa casa jogar basquete comigo... Ou quando simplesmente, ainda garoto, minha mãe e irmãs passavam horas e horas fazendo alguma bagunça na cozinha, me fazendo rir com besteiras que somente nós entendíamos.

Derek estava tão absorto em pensamentos, que apenas percebeu que estava chorando quando sentiu a mão de Stiles limpar as lágrimas em seu rosto.

-Eu compreendo agora. – Stiles se aproximou mais, tocando as mãos de Derek. Ambos podiam sentir uma energia suave emergir entre elas. – Eu vi esses momentos, e agora eu entendo o que é. Mas, acredito que o amor pode surgir independente do tempo, não?

-Talvez. – Derek levantou o olhar e sorriu ao ver as asas de Stiles completamente abertas, ocupando o restante de espaço de sua sala de estar. – Eu quero mostrar uma coisa a você.

Os olhos castanhos logo se arregalaram em ansiedade.

-É?

Derek acenou, o puxando em direção ao seu quarto. Stiles esperou pacientemente, enquanto ele procurava algo em sua cabeceira de cama, até que finalmente voltou para perto dele, o guiando para a ponta da cama, ambos sentados lado a lado.

Quando Stiles olhou para o objeto na mão de Derek, indagou:

-O que é isso?

-Uma foto. – Derek entregou a ele, observando a sua reação.

Stiles reconheceu as pessoas, e sorriu triste quando viu um Derek adolescente parecendo tão diferente daquele ao seu lado, porém iguais em certos aspectos de personalidade. A carranca, era um delas, pensou.

-Eu me lembro desse dia. Vocês tinham passado o dia juntos na sua casa, correndo e sorrindo, felizes... – Stiles segurava a foto com uma reverencia adorável.

-Sim... Meus pais resolveram fazer um churrasco, e assistir programas completamente chatos na tv o dia todo, e depois, no final da tarde nós caminhamos, e por fim, Cora teve a ideia de tirar uma foto nossa. Meu pai e eu reclamamos por que nossos olhos iam sair desfocados por causa do flash, mas questionar com Laura, Cora e a minha mãe, era o mesmo que falar sozinho.

Stiles riu, lembrando da expressão de Derek ao ser ignorado completamente assim como o seu pai, e sendo puxados para um abraço no momento da foto.

De repente, Stiles virou-se ao outro, questionador como sempre.

-A sua barba.

O lobisomem ainda não entendia a capacidade que o anjo tinha de mudar de assunto subitamente, mas acreditava ser algo dele mesmo.

-Sim?

-Ela fica maior quando você esta no momento wolfie!

Wolfie.

-O que?

Stiles revirou os olhos, em seguida, tocou a barba de Derek sentindo-a sob a palma, alheio a expressão agora relaxada do outro.

-Seu rosto, ele muda quando você se transforma. Antes de se tornar completamente em lobo.

Derek pegou a foto da mão de Stiles, e a colocou em sua cabeceira. Quando voltou, procurou algum medo ou receio na figura do anjo, mas ainda era apenas Stiles. Sentindo-se confiante, deixou-se mostrar como um lobisomem, e o outro entreabriu os lábios, encantado.

-Wow... Derek! — Ele levantou as mãos em direção ao seu rosto, mas as abaixou receoso. – Eu posso tocar?

-Claro.

Era como ver uma criança ganhar algo que tanto queria, na expressão tão inocente do anjo. Ele pôs suavemente suas mãos em cada lado, acariciando os pelos crescidos na maçã do rosto de Derek. Depois, elas subiram até as orelhas pontudas, sorrindo quando elas tremeram ao seu toque.

Os olhos de Derek se fecharam quando as mãos de Stiles pararam rapidamente em seu cabelo, para descer novamente em seu rosto, trilhando com a ponta dos dedos o nariz agora, estreito como de um lobo. Quando este viu os dentes pontiagudos, tocou com cuidado, mas soltou um grito surpreso quando Derek prendeu de leve seus dedos, fazendo o gargalhar logo em seguida.

-Você me assustou! – Stiles respondeu risonho. – Isso é tão bonito, Derek.

-Assustar você?

-Não, ser um lobo. Faz parte de quem você é. – E então, Stiles se levantou tirando a calça de moletom.

O lobisomem arregalou os olhos quando viu o que ele estava fazendo, e desviou o olhar.

-O que foi?

-O que foi o que? – Não olhe, não olhe, não olhe.

-Por que não olha pra mim? – A voz de Stiles estava mais próxima. – Já me viu assim antes, qual o problema? Eu te assusto?

Derek então ao perceber que o anjo estava entendendo errado, virou-se respirando fundo e sempre ver Stiles por completo, era surpreendente. E belo.

-Eu apenas pensei que já que você me mostrou o seu lado wolfie, eu queria mostrar como sou integralmente, Derek. Desculpe.

Ele balançou a cabeça, sorrindo e puxou Stiles para sentar novamente na cama. E então tomado por algo que ele pensava ter perdido há tempos por outra pessoa, deixou-se confiar pelo anjo, e resolveu também se igualar em quesito: Sem roupas.

Segundos depois, Stiles não pareceu abalado e nem envergonhado. Ele sorria o tempo todo, calmo e tranquilo, feliz por estar ali.

Ambos sentados lado a lado na cama, observaram pela janela do quarto o por do sol, ainda no clima frio que a floresta transmitia.

-É lindo.

Derek concordou. Quando olhou para Stiles, este ainda observando o céu alaranjado, viu as suas asas abertas, e inclinadas para baixo, ocupando toda a cama, terminando no chão.

Como a janela era de vidro, a luz do sol a ultrapassava, iluminando o quarto parcialmente, e a eles também. As tatuagens abstratas do anjo brilhavam suavemente, deixando a pele branca quase pálida.

-Posso toca-las?

Stiles acenou.

Para Derek, a textura das penas eram tão suaves e frágeis que as asas tão grandes pareciam ser quase invisíveis. Quando suas mãos vagaram por uma área em especial atrás das asas, Stiles se contorceu rindo.

-Faz cocegas?

-Sim, desculpe. É bom. – O rosto de Stiles esquentou, mas ele ainda sorria, agora com os olhos fechados, como se apreciasse o toque do lobisomem.

Derek então se permitiu toca-las mais um pouco e não se intimidou, quando viu que o rosto do anjo estava praticamente a centímetros do seu próprio. E não se sentiu confuso, ou com qualquer vontade de se retrair quando seus lábios se tocaram.

Era como se aquele momento, fosse de reconhecimento de ambas as criaturas.

Um Anjo e um Lobo.

Protetor e Protegido.

-O aperto.

Derek abriu os olhos, ainda entorpecido pelo beijo. Seus olhos vagaram pelos lábios agora vermelhos e inchados do outro.

-Ele está tão forte agora... Isso é ruim? Por que eu não sinto como se fosse. – Stiles o encarou com seus olhos curiosos, atencioso, suas mãos nos ombros do lobisomem. – Você consegue sentir?

Derek sorriu, sentindo pela primeira vez em muito tempo, uma paz quase avassaladora.

-Talvez agora você saiba o significado do amor, Stiles.

O anjo nada respondeu, apenas envolveu seus corpos com as suas enormes asas enquanto o sol desaparecia entre as nuvens.

Em um momento da noite, Derek acabou por adormecer, embalando pelo carinho suave em seus cabelos e o calor das asas de Stiles.

Quando acordou, antes mesmo de abrir os olhos, sabia que Stiles tinha ido embora. A cabana parecia ser tão silenciosa como antes. Mas ele não sentia raiva, ou desamparo por estar sozinho novamente. Por que ele sabia que nunca esteve, e agora nunca estaria.

A Energia ainda estava lá, tremula e fortalecida embaixo de sua pele, dando a ele uma motivação para continuar.

Um corpo.

Era tão forte, como o corpo do seu pai quando este era jovem. Não era corpulento, e também não se incomodava com isso.

Como humano, lobisomem ou em um lobo negro, ele desenvolvia-se ágil e habilidoso. Quando corria na floresta, onde seus pés ou patas tocavam a terra fria e escura, era como se o seu corpo entrasse em combustão, um calor quase devorador, porem equilibrador.

As pernas um pouco musculosas, o tronco forte e quase bronzeado, era transformado a luz da luz cheia. Os dentes largos, os olhos azuis e as garras imponentes faziam parte do corpo que aguentara dores do passado, e que ainda fazem parte do seu presente. A dor estava lá, para lembrar a ele que era humano apesar de tudo e assim como a tristeza era costumeira, a energia e a alegria também eram parte dele, que poderia ser um simples homem ao olhar de outros, e um lobo para as pessoas que passaram em sua vida, de forma totalmente especial.

Ora olhos azuis, ora olhos esverdeados.

Sempre atenciosos, sempre buscando, sempre em alerta.

Sempre esperando por uma sombra de um par de asas, e ele sabia que o dono delas voltaria um dia para abriga-lo novamente.

Everyone's a passenger tonight

Just another accident

Well, on the freeway of this life


So dream on, and on and on and on
So dream on and on
And I'll remember your eyes When you're gone


I watch you in your sleep

We can fight this all you want
But tonight we lost our way
But tonight we lost our way
But tonight we're lost to me

Notas finais
Nota da Beta:

QUE AMOOOOOR DEUS DO CEU SEGURA ESSA LARISSA
Que lindo Lari, curti bastante e apesar de ter dito que te daria um turo se não tivesse final feliz, esse foi um final feliz. Apesar de não ser um felizes para sempre. Mas houve a mudança no derek, e como ele não se sente mais sozinho ou não merecedor das coisas. Pelo menos isso kkk
Uma pergunta. Hoje é seu aniversário? Porque você ta de parabéns, em.
Depois dessa eu calo a boca. Beijo tchau.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!