Wind Walker - O Mercenário Voador

20 D - Lembranças de infância - O Assassino


Notas iniciais
Este é o fim do POV de Douglas, e é a primeira cena de ação na minha fic, espero que gostem!

Sabe quando uma pessoa olha para você com uma expressão que alterna entre preocupação e dúvida? Foi deste jeito que Alyssia olhou para mim, depois de ouvir a resposta do homem que presumi ser o pai daquele menino que ainda se mostrava incógnito, o Lúcio. Ela olhava em volta, como se esperasse ele aparecer de algum lugar, mas isso não aconteceu. Saímos da casa sem ao menos nos despedir do gentil homem que nos havia recebido, a menina olhou em volta novamente, desta vez o seu olhar se mostrava pensativo e inquieto, provavelmente imaginando onde ele poderia estar.

Ela parecia não ter nenhuma ideia a respeito do paradeiro dele. Como uma amiga não faz ideia de onde o seu companheiro está?

-Tem ideia de onde ele pode ter ido? – Perguntei, já esperando a resposta negativa

-Não

-Como você se considera amiga dele, se não sabe nem onde ele costuma estar? – Perguntei um pouco mais rispidamente do que pretendia

Depois de ouvir a minha questão ela parou de procurar em sua mente um possível lugar onde ele estava, olhou para o chão como se minha pergunta tivesse a acertado como um soco no estomago e cerrou os punhos num inconfundível sinal de hostilidade.

Eu recuei um pouco, me arrependendo instantaneamente de ter feito aquela pergunta. Para falar a verdade, achei que ela fosse me dar um soco, ou me gritar loucamente, mas, o que realmente aconteceu foi mais surpreendente do que qualquer possível outra coisa.

-Você... Não... Tem... O direito... De... Duvidar... De minha amizade – Sussurrou ela com uma voz fraca e abatida.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa em nome das minhas sinceras desculpas ela olhou para mim por um curto período de tempo, revelando seus lindos olhos azuis novamente, mas estes agora refletiam apenas medo, sua face estava rosada e evidentemente preocupada. Alguma coisa estava acontecendo, o que? Assim que eu resolvi me pronunciar, era tarde demais. Ela desviou o olhar e correu em direção de algumas árvores que brotavam ao longe.

Eu não ia deixar e minha irmãzinha ferida deste jeito no primeiro dia em que a conheci. Corri atrás dela, tentando convencê-la a parar e conversar sobre o que a incomodava.


=/-/=


Perdão por interromper novamente.

Eu estava narrando a história para vocês quando Alyssia jogou sua toalha húmida em cima do meu rosto, eu retirei a toalha e olhei para ela com um olhar magoado. Ela já estava totalmente vestida e me aguardava com tudo pronto para poder sair do hotel e ir para o teste final.

Levantei calmamente, penteei meus cabelos curtos e caminhei para fora daquele aposento, visando entrar na minha suíte e pegar o resto dos meus pertences. Feito isso, encontrei com a minha irmãzinha na recepção enquanto ela devolvia os cartões-chave. Algo errado aconteceu. A recepcionista recebeu os cartões, e não cobrou nenhum dinheiro pelo uso dos quartos. Sei que a transferência de capital é automática, mas, neste caso, ela não ocorreu.

-Não é necessário pagar? – Perguntou a minha irmã, ao notar a mesma coisa

-O rapaz que estava com vocês saiu hoje mais cedo e deixou tudo pago – Informou

Ah. Isso é bem a cara do Lúcio.

Caminhei em direção a minha moto, coloquei a mala-reserva do Lúcio na minha moto e acelerei rumando o Colégio Militar Nacional.

Enquanto não chegamos, deixe-me terminar a história.


=/-/=


Caminhei com dificuldade entre as árvores tentando não perder a garota de vista, mas ela corria com muita destreza e desviava com muita facilidade de todos os obstáculos, deixando-me facilmente para trás. Estava começando a não aguentar mais aquela correria sem sentido, então eu berrei com o resto de minhas forças:

-Pare sua chata, me explique o que aconteceu.

Achei que ela fosse continuar correndo, mas, tudo o que fez foi parar de se deslocar, sentar ao chão encostando-se a uma árvore qualquer e começar a chorar. Isso tudo estava ficando muito estranho. Aproximei-me da pequena menina que exibia seu pranto de forma silenciosa e a envolvi com meus braços, tentando exibir preparo psicológico para tal acontecimento.

-O que houve? Amiguinha.

Ela olhou para mim e tentou encontrar palavras, mas, toda a vez que iria começar a falar, um soluço invadia sua oração, fazendo com que parasse com a sua tentativa de explicação e dando início a uma nova cessão de prantos. Apertei mais o abraço, tentando fazer com que poupasse por um tempo suas forças, esperando um tempo ate soltá-la novamente.

-O Lúcio – Começou entre soluços – Foi embora

-Não, querida – Acolhi da melhor forma que pude – Ele só saiu, provavelmente volta logo

-Você não o conhece. Ele passa todos os dias em casa, ou treinando na praia. Nunca faz nada além disso, a não ser... – Ela hesitou buscando o meu olhar

Ok. Um garoto que passa o dia todo em casa ou na praia? Que tipo de doente é este?

-A não ser se ele foi embora – Completou – Um ano atrás ele me alertou que, se eu não o encontrar em casa ou na praia, significa que ele deu um fim ao treinamento e foi embora lutar contra a resistência.

Eu estava ficando mais curioso a respeito deste garoto, mas não pude pedir para ela detalhar a explicação, por motivos óbvios.

Antes que eu pudesse acolhê-la novamente em meus braços, ouvi uma pessoa andando por entre aquele sombrio amontoado de árvores em nossa direção. Arrisquei um olhar rápido em direção àquele barulho e me deparei com uma figura alta e suja que segurava com a mão direita uma grande faca. Neste momento eu fiquei com medo, mas não podia deixa-la aqui, então eu sussurrei em seu ouvido:

-Tem uma pessoa se aproximando. Se dá valor a vida, sugiro que se levante e fuja daquela mesma forma que usou comigo.

Ela olhou para mim, deixando o sofrimento de lado por algum tempo. Foi neste momento que percebi o quão forte por dentro ela era, a menina conseguiu enxugar suas próprias lágrimas com notável velocidade enquanto conscientizava o que tinha de fazer. Não pude deixar de admirá-la por um momento, mas tal momento foi interrompido quando o vulto se aproximou o suficiente para que notássemos sua presença masculina.

-Não tornem meu trabalho mais difícil – Exclamou ele – Vou conseguir prendê-los, cedo ou tarde.

Tudo o que consegui fazer foi segurar a minha irmã pelo pulso e correr o mais rápido que pude, tentando desviar desajeitadamente dos galhos e raízes à minha volta, de tempos em tempos eu me esbarrava em alguns destes obstáculos, mas, não foi o suficiente para me parar.

Até que aconteceu. Do nada, um grande tronco surgiu em minha frente, empatando minha passagem. Tentei contornar o obstáculo, mas, outros dois homens surgiram dos dois lados, deixando-me completamente sem saída. Olhei para o rosto deles, todos estavam protegidos por máscaras de pano com buracos para os olhos, os três seguravam facas tão grandes quanto espadas.

Olhei para o outro lado e me deparei com aquela primeira figura que também se aproximava.

O terror estava tomando conta dos meus pensamentos, quando uma pessoa quebrou o momento estático que estava ocorrendo: Alyssia, num movimento rápido, desferiu um soco no meio da barriga do nosso primeiro agressor, deixando-o atordoado por um momento, mas este se recuperou com facilidade, segurando o braço da menina com força, fazendo-a soltar um gemido.

Não suportei vê-la daquela forma. Agarrei a mão armada daquele homem e roubei rapidamente sua faca, desferindo um corte rápido em seu braço. Alyssia Ganhou novamente sua liberdade quando o braço-alvo soltou a garota. Ele cambaleou para trás, recuperando-se com rapidez.

Lá estava eu, no meio de três assassinos/sequestradores armado apenas com uma faca, pronto para perder a minha vida. Adeus mundo cruel!

Foi aí que eu notei de relance aquela sombra se mover por entre as árvores à nossa volta, parando na que estava diretamente à nossa frente. Olhei com mais atenção para aquele novo vulto que se escondia na cortina de sombras daquela árvore. Era um garoto! Será aquele o...

Neste momento, eu vi a sombra descer da árvore realizando uma corrente de movimentos rápidos. Mais ou menos assim:

Primeiro ele saltou do seu lugar de repouso aterrissando em cima do sequestrador desarmado, sacando uma lâmina negra curta e enterrando no centro de sua cabeça, o garoto, que mais parecia um borrão sombrio devido a sua velocidade removeu a faca quase tão rápido quanto enfiou, enquanto saltava novamente para o chão. Em seguida, antes mesmo de tocar o solo, usou a sua perna para ganhar impulso na árvore, aproveitando esta velocidade, ele voou no peito de sua próxima vítima, matando-a instantaneamente com a adaga. Pegou impulso no corpo que caia e voou mortalmente para o último oponente, passando do lado do seu corpo-alvo ao mesmo tempo em que cortava a lateral de seu tórax com a faca que estava com a lâmina de cabeça para baixo.

Se eu tivesse piscado os olhos, tudo o que eu veria seria três corpos jorrando sangue e caindo mortos ao chão.

Eu estava atordoado pela velocidade, mas, decorridos dois segundos, eu notei que quem realmente estava mal era o nosso herói.

De primeira, cheguei a achar que éramos os próximos alvos, mas, ao notar que ele havia relaxado, percebi que ele era alvo de sua própria consciência. Ele ajoelhou-se no chão húmido, segurando sua cabeça. Uma risada doentia ecoava de dentro de sua garganta, enquanto direcionava aquele terrível olhar assassino para todas as direções, procurando alguém disposto a morrer por ele. Senti várias vezes tal olhar pousar sobre mim, mas nunca sobre a minha irmã, uma calafrio percorreu meu corpo ao notar que ele estava imaginando as cinquenta piores formas de me matar.

De repente ele soltou um berro grave que invadiu os cantos mais obscuros daquela pequena floresta, seu sofrimento era aparente em sua face. Curiosamente esta última não demonstrava a ameaça que era presente em seus olhos, apenas transparecia sofrimento que era armazenado de volta gradativamente.

Alyssia ajoelhou-se ao lado dele e o abraçou, envolvendo o seu pescoço com os braços. Ela ficou ali sentada junto ao assassino, reconfortando este com sua presença. Senti uma vontade de tirá-la dali e leva-la pra longe, mas algo me dizia que não era o certo a se feito.

Consegui ouvir a frase “Meus fins justificam meus meios” sendo sussurrada por ele, talvez como forma de se sentir mais confortável. Devagar, sua respiração ofegante e seus músculos tensionados deram lugar a uma respiração leve e totalmente normal. O menino se levantou do chão e retribuiu o carinhoso abraço de minha irmã, como se ela tivesse salvado a sua vida. Na verdade, o que aconteceu foi exatamente o contrário.

Decorridos alguns segundos, os dois se soltaram. Ele olhou para mim nos olhos, quase consegui ver uma fagulha de seu antigo olhar se reacendendo, mas isso não aconteceu.

-Quem é você? – Perguntou numa voz ríspida e fria, no entanto, compreendi que este era o melhor que poderia esperar dele naquele momento.

-Sou Douglas Hewton – Falei em voz alta – Irmão de Alyssia

Sua expressão se suavizou ao ouvir a palavra “irmão”, ele olhou para mim, com um olhar acolhedor e falou.

-Você defendeu minha amiga, mesmo sabendo que iriam perder. Eu o vi libertando-a das mãos daquele malfeitor. Você é digno de ser o irmão dela, e é digno de minha amizade.

Assim que ele terminou a fala, ele estendeu a mão direita e apertou a minha.


=/-/=


Foi assim que conheci aquele menino. Ele é uma pessoa boa, apesar de todos os seus defeitos. Conhecidos, e desconhecidos. Saltei do meu veículo, assim que terminei de estacioná-lo. Andando ao lado de Alyssia em direção à porta do grande estabelecimento.

Assim que entramos, ouvi uma voz conhecida falar ao meu lado.


Notas finais
Qual, até agora, é seu personagem preferido?