Wind Broken Wings
4 Ventos Metamorfos
Notas iniciais
Uma queimação incômoda no braço fez Riven acordar. Olhou ao redor e bufou de raiva ao reconhecer onde estava. Levantou-se rapidamente, ignorando a queimação e uma leve dor de cabeça que sentia. Estava tudo escuro, fazendo-a concluir que tinha passado pouco tempo desacordada. Ao sair da cabana, viu que Yasuo ainda estava perto da fogueira. Franziu o cenho, claramente irritada. Ela sabia que tinha que agradecer pelo salvamento (de novo), mas as atitudes dele a faziam repudiar tal pedido.
Resolveu se aproximar aos poucos, mas ficou perplexa ao ouvir Yasuo gritando para o nada como se alguém estivesse ali.
– Yooooooooneeeeeeeeeeeee, por queeeeeeeeeeeeeeeee? Por que as coisas tiveram que ser assim? *snif* Por queeeeeee?
–"Mas o que que está acontecendo aqui?"- Riven olhava confusa para a cena.
– Yoooooooneeeeeeee, meu irmãoziiiiiiiiinho...
–"Soluçando? Ele tá soluçando?"- A lutadora entendia cada vez menos o que se passava em sua frente.
Yasuo desistiu do copo e agora bebia diretamente do gargalo. A cada três ou quatro goles, uma pausa para gritar por seu irmão.
–" Ah, fala sério! Ladainha de bêbado! Eu não mereço ficar ouvindo isso!"- ao se virar para retornar à cabana, Riven esbarrou em um caule solto, que tombou e fez barulho. Yasuo se virou com o susto e viu Riven de pé ali.
– Riiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiven, mulé, tá melhor? — gritava enquanto ia em direção à garota.
– Sai daqui! Eu não nasci pra cuidar de bêbado, não!
– Meu Deus, garota, larga de ser chata, pelo menos um pouco!Eu aqui preocupado com você e você reclamando, como sempre.
–Hnf... O-obrigada... — sussurrou baixinho.
–Eu não ouvi direito...- Yasuo colocou a mão, curvada como uma concha, ao lado da orelha — Repete, por favor.
– Obrigada!- Riven falou mais alto.
– Agora sim!!! — puxou-a pelo braço em direção à fogueira — Vamos continuar de onde paramos! — bradou levantando a garrafa com a outra mão.
Riven sequer pensou em resistir, estava cansada de discutir com ele, ainda mais, bêbado. Não tinha muito o que fazer naquela situação e o acompanhou.
Após alguns goles, Riven se sentiu mais a vontade. Como a curiosidade lhe corroía a mente, resolveu puxar assunto.
– Yasuo?
– Sim? — respondeu fitando o lago.
– Mais cedo eu ouvi você gritando por uma pessoa. Quem é Yone?- suas palavras saíram quase num sussurro, estava receosa em perguntar.
– Meu irmão mais novo.
– E o que houve com ele?
Pensar em Yone e em todo o seu passado era ainda pior quando estava alcoolizado. Tudo parecia mais doloroso, mais dramático. O silêncio perdurou por alguns segundos, Riven sentia que estava se metendo onde não devia.
– Me desculpe pela per...
– Ele morreu. — respondeu prontamente interrompendo-a, com o olhar perdido no horizonte.
–Ah... Eu... Eu sinto muito...
– Tudo bem... Já faz anos que aconteceu... Mas... Eu ainda não consigo esquecer... — Yasuo abaixou a cabeça por um momento.
Riven se sentiu péssima ao notar uma gotinha brilhante escorrer pelo rosto do espadachim. Agora ela tinha certeza que se meteu no que não lhe dizia respeito. Um sentimento inédito de compaixão invadiu seu ser, e suas ações foram tomadas na base do impulso das emoções. A lutadora engatinhou até Yasuo e o abraçou.
Com certeza ele não esperava por isso, mas a sensação confortante e acolhedora daquele abraço soltaram qualquer amarra que prendia seu coração, e Yasuo se permitiu chorar pelo irmão, por ter lhe tirado a vida com suas próprias mãos, por dar fim ao futuro brilhante que ele poderia ter.
Riven pousou a cabeça dele no seu colo, as lágrimas que escorriam pelos seus seios juntas ao vento que soprava dava leves arrepios na pele da garota, mas isso era o de menos. Após retirar o prendedor dos cabelos dele, ela começou a acariciá-lo. De onde vinha essa vontade, ela nem queria saber, se preocuparia com isso depois, quando estivesse sóbria. Os gritos abafados do espadachim a faziam sentir-se cada vez pior por ter trazido tal assunto a tona.
Talvez pela bebida, talvez pelos longos minutos de choro, ou pelos dois, Yasuo acabou caindo no sono no colo de Riven. Ao perceber, a garota deu um leve sorriso, se deitou com cuidado para não acordá-lo, e permaneceu acariciando as longas madeixas castanhas do lutador.
Olhando para o céu, Riven se perguntava porque ele conseguia causar tantos efeitos variados em si. Raiva, ódio, indignação, compaixão... qualquer que fosse o sentimento, era sempre intenso. Aquela criatura chorosa em seus braços não se parecia nada com o piadista que costumava ser, sempre com um sorriso irônico nos lábios e um olhar debochado.
A linha do horizonte se encontrava levemente arroxeada, um belíssimo sinal de que o dia logo amanheceria. A lutadora continuava acordada, olhando com raiva para as poucas nuvens que habitavam o céu. Perdera toda sua noite pensando naquele idiota que dormia tranquilamente em seus braços, como se fosse a coisa mais normal do mundo.Por mais que detestasse admitir, ele havia salvado sua vida mais de uma vez, devia muito à ele e talvez jamais conseguisse quitar tamanha dívida. "Se tem uma coisa que eu odeio são dívidas...".
Os primeiros raios de sol já clareavam a relva sob os dois encrenqueiros. Depois de algum esforço, Riven finalmente conseguira cair no sono. A claridade incomodava os olhos de Yasuo, que despertava lentamente devido à dor de cabeça. "Ah... Que droga... Há três certezas na vida: morte, honra e ressacas..." pensava irritado enquanto tentava se levantar.
Ao perceber onde dormira, Yasuo se assustou. "O que que aconteceu aqui? Ai, Kami, será que eu fiz algo que não devia? Riven vai me destroçar com aquele guarda-roupas!" e o medo da fúria da garota adormecida começava a atormentar Yasuo.
O quase grito de susto de Yasuo fez Riven despertar quase num salto.
– O que foi? Quem é? Onde? Como? Mãe? — Riven olhava para todos os lados procurando algum inimigo.
Yasuo a encarava atônito.
– Não tem ninguém aqui além de nós, Riven...
– Então por que tanto alarde, seu imbecil?
– É que... Bom... Eu acordei do seu lado... Pior, quase em cima de você...
– Ah, isso. — Ela olhava pra Yasuo com uma expressão bem calma — Bom, eu toquei num assunto delicado, você começou a chorar, aí eu te abracei e deixei você dormir no meu colo como pedido de desculpas...
– Eu... Eu não fiz nada que não devia, né?
– Não se lembra de nada?
– Quando eu bebo muito, eu não lembro de nada no dia seguinte...
– ...
– De qualquer forma... Er... Obrigado... pelo... apoio...
– Eu fui indelicada, então, me desculpe por me meter onde não devia.
– Não se preocupe com isso, já passou. — Yasuo sentia um leve nervosismo, pela primeira vez, enquanto conversava com Riven. — Eu vou preparar algo para comermos.
– Certo. — Riven se sentia estranha, não sentia vontade de brigar ou implicar com ele.
A lutadora se perdeu enquanto o olhava sair em direção à cabana, nunca havia reparado na sutileza de como ele se movia, como se seus passos fosses suavizados pelas correntes de vento. Ele havia percebido que ela encarava suas costas, deu um leve olhar de soslaio para a garota. Podia ser pouca coisa, mas tal gesto pareceu passar em câmera lenta para Riven. Seus olhares se encontraram e ela ficou imóvel, ele expressava tantas coisas pelo olhar, mas ela não conseguia decifrar nenhuma delas. Mesmo que ele já tivesse adentrado à casa de madeira, ela continuava a fitar o local, submersa em um mar de sentimentos contraditórios.
Resolveu se jogar no lago, a fim de que a correnteza dispersasse sua confusão sentimental. Tirou a roupa, deixou-a dobrada perto da margem e nadou até uma parte razoavelmente funda e ficou boiando de olhos semicerrados, devido à claridade. Por que raios seu coração, dilacerado naquela invasão, batia vívido assim quando pensava nele? Por um imbecil como ele... Riven repudiava tal pensamento, custava a acreditar, mas era realidade... Estava se apaixonando. "É como dizem por aí, ódio e amor são duas faces da mesma moeda..."
Enquanto preparava a comida, Yasuo se perguntava se estava endoidando ou se Riven realmente estava sendo carinhosa com ele... "Cadê aquela doida briguenta de ontem? Será que ela cansou de tentar resistir ao meu charme incomparável?" E ria sozinho dos próprios pensamentos. O espadachim estava surpreso, porém, estava adorando conhecer um outro lado dela, um lado que... sorria. "Ah, que sorriso lindo ela tem, parece uma outra pessoa quando está sorrindo... Qualquer um se apaixonaria por ela apenas pelo sorriso... Se... Apaixonar..."
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